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novembro 16, 2005

Opinião - Quando o actor salta para trás da camara

Quando o cinema começou não havia sistema, não havia indústria. Era tudo voluntarioso, feito com imaginação e com muita vontade de crescer. Os actores realizavam, os realizadores protagonizavam, e tudo seguia naturalmente o seu curso. Com o consagrar da indústria, os estúdios trataram de por tudo nos seus lugares. E assim foi durante longas décadas. Até ao momento em que os actores começaram a voltar atrás no tempo, sentando-se na cadeira sagrada do realizador...
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Chaplin, Keaton, Renoir e tantos outros, nunca tiveram problemas em representar em realizar. Se os dois primeiros eram, antes de mais, actores, já o francês era um artista, que tanto sabia dirigir com mestria os seus filmes, como fazer uma perninha como actor, sem ficar muito atrás do resto do elenco "profissional". Mas estes nomes foram-se tornando uma raridade. Os estúdios nos anos 30 começaram definitivamente a estruturar a produção cinematográfica. A arte foi inclausurada em tabelas, horários e cargos. Os estúdios tinham os seus próprios realizadores, e iam empergando os mais talentosos, trocando o seu génio artistico nuns filmes, pela sua passagem por produções de estúdio noutros. E com essa rigidez toda, foi desaparecendo o espaço para os actores-realizadores. Orson Welles ainda tentou revitalizar o espirito - na Europa a situação era perfeitamente normal na época como é hoje - mas a sua megalomania (ou grandeza) revelou-se a sua perdição. E lá havia Hitchcock a aparecer em muitos dos filmes, não como actor, mas recuperando por breves instantes a ideia de que os realizadores não têm só de ficar sentados nas cadeiras a dar ordens. Também podiam voar!
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E depois de anos e anos onde os casos de actores-realizadores se tornaram numa minoria gritante, eis que os anos 70 dão a volta ao cenário. Os movie-brats tinham tomado conta da indústria, e sem o saberem, estavam prestes a afundá-la. Hollywood estava entregue ás grandes corporações que iam comprando os despojos de um dos maiores impérios dentro do império americano e não havia salvação à vista. O público parecia divorciar-se do cinema dos movie-brats, condenando os seus mais ambiciosos projectos ao falhanço absoluto. Os blockbusters dos dois jovens mavericks mais aventureiros, Spielberg e Lucas, remavam contra a maré, mas era muito pouco. Quem iria salvar a indústria desta vez? Quem traria o cinema de novo para o coração do público. Ninguém pensou na resposta, mas ela estava mesmo ali. Exactamente, os próprios actores.
Quer na comédia, quer no drama, foram eles que voltaram a procurar dentro da alma dos moviemakers, a essência do cinema. E em pouco mais de uma década, alguns desses actores tornaram-se autênticas figuras de culto pela sua simplicidade e mestria com que encaravam o making de um filme.
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A história é antiga mas recomeça nos anos 70. Recomeça com as piadas de Woody Allen, aquele seu jeito desengonçado e neurótico, à frente das camaras, que contrasta com a sua sobriedade e calma quando está sentado na cadeira de realizador. Essa mitica cadeira que Clint Eastwood sentiu pela primeira vez ainda era um dos "duros" do cinema. No inicio foi dificil convencer o mundo que ali estava um dos mais sóbrios e talentosos cineastas da história do cinema. Filmes como Bird, White Hunter Black Heart, Unforgiven, The Bridges of Madisson County, Perfect World, Mystic River ou Million Dollar Baby chegaram para lhe guardar um lugar na história como realizador. E em todos esses filmes (exceptuando Bird e Mystic River) a sua presença como actor foi sempre uma gigantesca mais valia para o filme. A prova viva de que é possivel por-se em prática dois misteres que muitos julgavam contraditórios.
E quem fala nestes dois génios, fala também do Robert Redford, que transformou o cinema independente em algo popular junto do grande público. Ou de Kevin Costner que, durante dez anos experimentou o céu e o inferno. Ou ainda Warren Beatty, esse inadaptado galanteador. E tantos, tantos outros. E hoje, quando se fala de George Clooney, de Tommy Lee Jones ou de Mel Gibson, temos de nos lembrar onde tudo começou. Hoje todo o actor quer realizar. Muitos não tiveram sucesso (Depp, De Niro, Washington...). Outros perceberam rapidamente que não eram actores e dedicaram-se a viver atrás da camara. Lembram-se da actriz Sofia Copolla? Ou das tentativas de representação de Spike Lee? Ou mesmo o jovem Ron Howard que percbeu cedo que representar não era com ele (para muitos, realizar também não)? Tudo nomes que, de uma forma ou de outra, fizeram história. Atrás ou à frente das camaras. Mas sempre com a mesma postura, a mesma sensibilidade!
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Nomes!
A história faz-se de momentos, de eventos...mas principalmente de nomes! Entre os muitos que poderiam ter vingado, houve aqueles que de facto souberam-se impor, de uma maneira ou de outra, ao sistema, fazendo parte dele sim, mas sempre com um pé de fora. O pé da criatividade, da sobriedade, do criador artistico do qual nunca abdicaram. Desde Woody Allen a Clint Eastwood, foram inúmeros os casos de sucesso. Também houve os casos falhados, como em todo o lado, mas não chegaram para quebrar a corrente. A longo prazo os actores-realizadores ajudaram a manter a indústria de pé. Não são eles que a sustentam, que conseguem os grandes êxitos de bilheteiras Mas são capazes de fazer a ponte entre o público e a critica, a arte e a indústria. Trazem a pureza dos clássicos com a visão do presente, e nalguns casos, do próprio futuro. Trazem uma gramática cinematográfica simplificada, virada para as emoções interiores. Sem grandes explosões, choros ou perseguições. Mas com muito sentimento. Com vida!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 16, 2005 03:48 PM

Comentários

São casos a ver Nuno..pessoalmente prefiro o Tim Robbins do que o Sean Penn atrás da camara (não gostei muito do The Promess confesso)...quanto ao Spacey também prefiro o Beyond the Sea ao Albino Alligator. um abraço e obrigado

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às novembro 17, 2005 03:51 PM

o sean penn parece-me ter bastante talento como realizador. e q tal o Albino Aligator do Kevin Spacey? parabéns pelo post!

Publicado por: nuno às novembro 17, 2005 09:59 AM

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