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dezembro 26, 2005
2005 - O ano de A a Z
Tal como fizemos o ano passado, nada como começar o anuário de um ano com uma compilação de alguns dos nomes e feitos mais marcantes de 2005 numa pequena enciclopédia de A a Z. Porque vale a pena recordar o ano que fica para trás.
A - Alice
Há muito tempo que o cinema português não tinha um filme assim. Aliás, o cinema nacional nunca teve um filme com o dramatismo e a força de Alice. Para obra de estreia, Marco Martins exibe-se a um nivel espantoso e conta com um elenco muito bem ensaiado onde Nuno Lopes foi figura de proa. Assim vale a pena ver filmes made in Portugal.

B - Biopics
Foram variadissimos os biopics que invadiram as salas nacionais no último ano. Cada vez mais em voga, o filme biográfico é agora usado que de forma discriminada. Mas há casos e casos. Os mais bem conseguidos foram sem dúvida Mar Adentro, a história de Ramon Sampedro (com um fabuloso Bardem), Ray - que deu o óscar a Foxx - Kinsey, Beyond the Sea, Cinderella Man ou Vera Drake. Dois casos especiais: Der Untergang provou que se podem quebrar os maiores tabus com uma abordagem honesta de uma das mais odiadas personagens de sempre da história da Humanidade. The Aviator foi uma das obras mais sobrevalorizadas do ano, e provou que nem todos os biopics resultam quando a abordagem não é a mais apropriada.

C - Clive Owen
É de Clive Owen um dos desempenhos do ano. Em Closer o actor britânico é avassalador de uma forma como poucos suspeitavam ser possivel. Depois de King Arthur, o actor que esteve para ser o próximo Bond, Clive Owen brilhou, fez-se uma estrela e perdeu por pouco um óscar justissimo. Em Sin City confirmou tudo o que se dizia dele, sendo hoje claramente um dos maiores actores em actividade.

D - Dreamworks
O sonho acabou. Já nem Steven Spielberg consegue manter uma produtora independente dos grandes estúdios. Trinta anos depois das produtores indepententes terem desafiado o poder dos grandes estúdios, a Dreamworks é vendida à Paramount. Para trás ficaram obras inesqueciveis e um sonho desfeito.

E - Clint Eastwood
Com dedos de mestre e um olhar profundamente humano, Clint Eastwood mostrou mais uma vez porque é o melhor realizador em actividade. Criou do nada um dos maiores filmes dos últimos anos, surpreendeu tudo e todos, adiou a consagração de Scorsese, e foi o rei e senhor dos óscares, arrecandando mais dois para a sua conta pessoal que já vai em quatro estatuetas douradas. Eastwood é hoje o que muitos realizadores sonham ser e não conseguem: um mito vivo!

F -Jamie Foxx
Tinha uma carreira marcada por alguns trabalhos interessantes, mas pouco mais. E então surgiu Ray, o biopic do inesquecivel Ray Charles, e de repente Jamie Foxx passou a andar nas bocas do mundo. Galardoado com uma dezena de prémios, entre os quais o mais cintilante é o óscar de melhor actor, Jamie Foxx tornou-se no terceiro actor negro a vencer o óscar de melhor actor. Um feito histórico conseguido por um actor em quem poucos apostaram, mas que provou ter o que é preciso para triunfar na cidade dos anjos.

G - Gay Cinema
Ainda não chegou a Portugal, mas o ano de 2005 ficará marcado a nivel mundial como o ano em que o cinema gay finalmente saiu do armário. Brokeback Mountain, Capote ou Transamerica decidiram-se a quebrar tabus. Pela primeira vez em algum tempo filmesque exploram abertamente o amor homossexual ou a condição dos transexuais, é levada a sério em Hollywood. Os prémios demonstram o respeito por estas obras, que são também de afirmação de uma minoria. Resta saber se é apenas uma moda ou se é finalmente um tabu que se quebra.

H - Paul Haggis
Entre o argumento de Million Dollar Bay e Crash, este foi um ano de ouro para Paul Haggis. O argumentista escreveu a aclamada obra de Clint Eastwood mas falhou o óscar. No entanto este ano volta à carga com Crash, filme que marca a sua estreia como realizador. Uma estreia auspiciosa de um nome a reter para os próximos anos. Até porque o próximo 007 tem a sua marca.

I - Internacionalização
O cinema este ano esteve em grande estilo um pouco por todo o lado. Hollywood viveu dias dificeis com os sucessivos falhanços dos blockbusters de Verão e a falta em encontrar filmes de grande nivel capaz de captivar o público. Na América do Sul o ano foi igualmente fraco, mas o mesmo já não se pode dizer do cinema asiático que está bom e recomenda-se. Filmes como OldBoy ou House of the Flying Daggers são a prova viva. Em África o cinema continua a dar passos corajosos mas o impacto ainda é minimo. Na Europa, a Alemanha esteve em grande com três filmes muito bons (Der Untergang, Sophie Scholl e Der Edukators), em França viveu-se o ano Roman Duris, com De Tan Batre Mon Couer S´Arretê, Arsene Lupin e Les Poupees Rousses, e em Itália Roberto Begnini está de volta, agora numa viagem ao Iraque. Amenabar foi o rei da Peninsula Ibérica e o cinema nacional viveu um ao apagado. O sucesso de Alice não teve seguidores e acabou por ser O Crime do Padre Amaro a ser o sucesso comercial do ano nacional.

J - James Dean
Passaram cinquenta anos da morte de um dos maiores icones da história do cinema. Fez apenas três filmes mas mostrou ao mundo que poderia ter feito muitos mais ao nivel dos gigantes da época, Marlon Brando e Montgomery Clift. A verdade é que o mito criado à volta de Jimmy Dean imortalizou-o como nunca o cinema conseguiria faze-lo. Cinquenta anos depois, o mito vive.

K - King Kong
A cena final do filme é um epilogo perfeito para o que se tinha desenrolado nas três horas anteriores. Depois do sucesso da trilogia Lord of the Rings o realizador Peter Jackson voltou a superar-se, conseguindo com King Kong alguns dos momentos mais marcantes do ano. Dos filmes produzidos e estreados em 2005, é claramente o melhor. Simplesmente genial!

L - Lumiere
Foi o mais ambicioso e bem sucedido projecto da Academia de Blogs de Cinema. Coroou Eternal Sunhsine of the Spotless Mind como o grande filme de 2004 e foi a única associação portuguesa a premiar o que de melhor se fez no universo cinematográfico no ano passado. Este ano regresso. Com novas regras, novos juris, mas a ambição de sempre. Começa a tornar-se numa referência dos prémios nacionais de cinema.

M - Million Dollar Baby
Há poucos filmes assim. Murros no estomago dados de uma forma quase imperceptivel, um filme capaz de arrancar lágrimas ao mais carrancudo dos homens. Foi uma obra inesquecivel, a melhor que passou por cá em algum tempo, e que ajudou a confirmar Eastwood como um mito, Hilary Swank como uma actriz feita, e Morgan Freeman como um actor que agora pode finalmente ser anunciado como "Academy Award Winner". Um filme inesquecivel e que marca claramente o ano que fica para trás.

N - Nuno Lopes
Foi a grande figura do ano do cinema português. Um desempenho irrepresenvivel e emocionalmente arrasador levou-o a ser um dos embaixadores do cinema europeu na última cerimónia dos prémios da Academia de Cinema Europeia, os Felix. O seu desempenho em Alice está ao nivel dos melhores, e agora espera-se mais, muito mais deste excelente actor.

O - Original Soundtracks
Estão cada vez melhores as bandas sonoras dos filmes. Quer sejam pautas criada propositadamente para os filmes por génios como John Williams, Danny Elffma, Howard Shore, James Newton Howard entre tantos outros, quer sejam compostas por temas inesqueciveis como foram os casos de Closer, Garden State, Ray, Beyond the Sea ou Elizabethtown, o papel das bandas sonoras nos filmes é cada vez maior. Porque há filmes que quase que podem ser vistos de olhos fechados!

P - Alexander Payne
Finalmente o óscar. Ao lado de Jim Taylor, o jovem cineasta conquistou finalmente o merecido óscar para melhor argumentista. O seu mais recente filme, Sideways, foi o rei do cinema indie em 2004, e apesar de ter saído dos óscares com apenas uma estatueta, serviu para colocar Payne ao lado de Sofia Copolla e Wes Anderson na triade dos mais jovens e talentosos cineastas de Hollywood.

Q - Q´Orianka Kilcher
O filme The New World ainda não estreou mas ela já anda nas bocas do mundo. Cotada como uma das grandes revelações dos últimos anos, esta jovem de apenas quinze anos de idade nascida na Alemanha foi a escolhida por Terrence Malick para encarnar a popular Pocahontas no seu mais recente filme. O realizador teve de ter cuidado nas cenas mais quentes com Colin Farrell, mas o final o que conta é que o seu desempenho está cotado como um dos melhores do ano. Um nome a seguir com atenção.

R - Rachel McAdams & Rachel Weisz
Duas Rachels que deram muito que falar em 2005. A primeira é uma das novas meninas bonitas do cinema norte-americano. Foi a actriz revelação do ano, com três papeis interessantissimos. De Wedding Crashers a Family Stone passando obviamente por Red Eye, provou ser mais uma estrela para a constelação de jovens promessas de Hollywood.
Já Rachel Weisz confirmou em The Constant Gardener tudo o que se esperava dela. Segura, arrasadora, uma especie de Kate Winslet em crescimento, a talentosa Weisz é já um dos nomes seguros do cinema britânico da actualidade.


S - Star Wars
Tornou-se num marco da história do cinema e ao longo dos anos criou uma legião de fãs como quase nenhuma outra obra de ficção. Em 1997 George Lucas decidiu fazer uma nova trilogia, em forma de prequela. Foi criticado, os filmes não estavam ao nivel dos originais, mas mesmo assim venderam muitos bilhetes. Em Maio último a saga terminou de vez. Sob aplausos. The Revenge of the Sith foi o final que todos esperavam, o filme mais negro e mais bem conseguido da nova trilogia e a ponte necessária para perceber o que viria depois, mas que foi feito antes.

T - Tim Burton
O mago está de volta em grande estilo. Depois de Big Fish, uma obra-prima inesquecivel, esperava-se muito de Burton. E ele provou estar em óptima forma com dois filmes inesqueciveis em apenas um ano. Primeiro foi Charlie and the Chocolate Factory, onde recriou o mitico universo de Willy Wonka, vivido por um Johnny Depp inesquecivel. Depois decidiu-se por voltar ao cinema de animação e criou The Corpse Bride. Esqueletos dançantes, amor além tumulo e uma banda sonora portentosa e mais uma obra genial assinada pelo cineasta mágico que é Tim Burton.

U - UMD
É o futuro. Ainda o VHS estava a ser enterrado e o DVD a afirmar-se no mercado, e já uma nova tecnologia traz o cinema mais perto do público. O UMD é mais um avanço tecnologico, com a possibilidade de se verem filmes em pequenos aparelhos portáteis. Uma inovação ainda sem grande aceitação popular mas que a médio prazo promete revelar-se um sucesso.

V - Vince Vaughn
Começa a tornar-se num caso sério de talento mal aproveitado. Já se sabia que Vince Vaughn tinha talentos escondidos, mas tanto em Be Cool, como - e essencialmente - em Wedding Crashers, o actor norte-americano prova que é hoje um dos maiores comediantes do cinema norte-americano. O seu desempenho ao lado de Owen Wilson é dos mais interessantes do ano.

X - Xeque Mate
Considerado de forma unânime como um dos maiores realizadores europeus de sempre, o sueco Ingmar Bergman decidiu por um ponto final a uma carreira com mais de meio século. O seu ultimo filme, Saraband, uma pérola brilhante, ideal para o fim de carreira do autor de obras-primas como Morangos Silvestres, O Silêncio, Sétimo Selo ou Fanny e Alexandre. Um final de carreira anunciado que passou despercebido a muitos, mas que é um dos eventos cinematográficos mais importantes do ano!

Y - "You Shall not win!"
Parece a frase telegráfica que a Academia de Hollywood tem enviado, ano após ano, a Martin Scorsese. O talentoso realizador nova-iorquino tentou, com The Aviator, finalmente arrebatar o óscar de melhor actor, que já lhe é devido desde Raging Bull. E se Eastwood foi melhor - e é preciso ser-se honesto - a verdade é que Scorsese parece cada vez mais destinado a juntar-se a nomes como Hawks, Hitchcock, Lang ou Ray como realizadores miticos que nunca conquistaram uma estatueta dourada.

W - Wes Anderson
Depois de The Royal Teenenbaums esperava-se muito de Wes Anderson. E o cineasta cumpriu. O seu The Life Aquatic of Steve Zissou é um filme originalissimo e cheio de vida, num contraste imenso com a forma como é filmado. Com um grande elenco, capitaneado na perfeição por Bill Murray, e com uma banda sonora de grande nivel, onde Seu Jorge canta Bowie em português, é um dos filmes do ano.

Z - Zach Braff
Foi uma das mais agradáveis estreias de sempre de um jovem cineasta. Conhecido pelo seu papel em Scrubs, o actor agora tornado realizador Zach Braff fez de Garden State um filme belissimo, cheio de imaginação e sentimento. Uma das obras mais interessantes que por cá passou em 2005 e que ajudou a revelar mais um promissor cineasta.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 26, 2005 02:28 PM