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dezembro 26, 2005
Antevisão - Munich
Há trinta e três anos, "terroristas" palestinianos atacaram a delegação israelita em Munique, provocando a morte de vários atletas olimpicos. O que se seguiu foi uma impiedosa caça ao homem, liderada por um agente especial da Mossad. Agora, Steven Spielberg conta-nos o que se passou. E o que aqueles homens sentiram...

Há muito tempo que a ideia de fazer um filme sobre os atentados de Munique passava pela cabeça de Spielberg. Já quando rodava War of the Worlds, o realizador acompanhava o desenvolvimento do guião de Eric Roth e Tony Kurshner, baseado no livro Vengeance. Foi esse o titulo do filme quando Spielberg o começou a rodar, em Setembro, tinha acabado de estrear a sua adaptação da obra de H.G. Wells. Mais tarde, por questões de tacto, bem ao seu estilo, mudou o titulo para Munich, o local onde tudo começou.
O filme contava como um grupo de agentes da Mossad passou anos a tentar apanhar todos aqueles envolvidos nos atentados. A verdade é que muitos inocentes morreram, e o próprio lider do esquadrão questionou o seu papel na missão, abandonando no inicio dos anos 80 a própria agência secreta israelita. Era a ideia de Spielberg focar tanto a caça ao homem, como os motivos que levaram, primeiro aos atentados e depois á perseguição. Mas o drama do filme está no dilema do lider da equipa, que se questiona sucessivamente sobre se há justiça naquilo que o mandaram fazer.
E esse é talvez a grande valia do filme, a forma como Spielberg questiona o que é o terrorismo, o dito terrorismo oficial, mas o contra-terrorismo, também ele, na maior parte dos casos, composto por acções indignas de qualquer estado democrático.

Spielberg escolheu Eric Bana para liderar o elenco do filme, que acaba por contar com poucos nomes conhecidos. O actor de Troy ou Hulk mostra-se a bom nivel, mas como sabemos, o cinema de Spielberg é sempre mais um cinema de argumento e realização do que propriamente de actores. A acompanhar o australiano estavam Daniel Craig - o novo Bond - Geoffrey Rush, Cirian Hinds ou Maria José-Crooze. Um filme com um trabalho técnico louvável, especialmente a fotografia, muito em tons escuros, como se a própria escuridão da alma estivesse em jogo, o que, acompanhado pela banda sonora de John Williams, ganha ainda mais sentido.
Um filme irrepreensivel tecnicamente, mas que tem sido questionado pela forma como a história é narrada. Há quem diga que Spielberg perdeu o dom. Depois de War of the Worlds, sai mais um filme pobre em narrativa. Há quem sugira que Spielberg se perde na imensidão politica do acontecimento. E depois há os extremistas que tanto o acusam de anti-semita, como de pró-israelita. Mas ignorando esses, o importante é perceber o enfoque deste Munich.

Catalogado, mesmo antes de existir em pelicula, como o filme do ano, Munich apresentará certamente falhas. Caso contrário não teria sido quase esquecido por todas as associações de criticos e jornalistas dos Estados Unidos, mais depressa rendidos a pequenos indies como Brokeback Mountain, A History of Violence ou Good Night and Good Luck.
Mas, focando os aspectos positivos, há que realçar a coragem de Spielberg em se aventurar numa temática problemática, como é a questão do terrorismo. Especialmente quando o conflito de então ainda existe hoje, e qualquer tomada de posição, mesmo que simbólica, pode ser mal interpretada.
Mas em termos cinematográficos, é curiosa a ideia que tem acompanhado os últimos filmes de Spielberg, desde Minority Report, muito mais negros e intensos do que propriamente captivantes. Munich parece seguir um pouco dessa onda, o que acaba por ter pouco glamour, ao contrário do que era habitual no homem que praticamente inventou os blockbusters.

Apesar de tudo, Munich continua a ser para muitos, o filme a abater. Porque a temática de Brokeback Mountain é muito mais complexa, e porque o filme é do realizador mais amado em actividade, capaz de gerar um grupo de defensores bem heterogéneo. Caberá ao público a última palavra, e essa é a última questão a ser respondida. Mas apesar de todas as criticas, o filme promete imenso. Emotividade, contenção dramática, trabalho de realização competentissimo e um leque de boas performances. Poderá não ser o maior Spielberg ou o maior do ano, mas Munich é certamente um filme de visionamento obrigatório.
O QUE SE DIZ
"Como thriller, Munich é um filme eficiente, captivante e bem conseguido. Como uma posição étnica, é perseguidor. E as questões que levanta não são apenas para Israel, mas para qualquer nação que acredite que tem de comprometer os seus valores para os defender."
Roger Ebert, Chicago Sun-Times
"É raro para um "enterteiner" como Spielberg, galhar em criar um interesse na sua história, ou, na sua falta, um ponto de ligação a outros dos seus filmes."
Todd McCarthy, Variety
"Este território é novo para Spielberg, e ele completa a sua jornada com distinção."
Peter Travers, Rolling Stone
"Sem alma, ideologia e um estimulante debate intelectual, Munich é uma grande desilusão, chegando mesmo a ser aborrecido."
Rex Reed, New York Observer
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 26, 2005 01:12 AM