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dezembro 19, 2005
Antevisão - Syriana
Da máquina de escrever que lhe possibilitou argumentos poderosissimos como foi o caso de Traffic até saltar para trás da camara, passaram alguns anos. Mas parece ter valido a pena. Stephen Gagan estreia-se com uma obra pertinente no contexto politico-economico actual e faz de Syriana um dos filmes mais interessantes do ano.

O Médio Oriente é o pano de fundo. As relações comerciais entre os magnatas do petroleo e as grandes potências ocidentais, quer pela mão de firmas, quer pelo contacto directo com a administração, transformaram o Médio Oriente num local para onde todas as sanguessugas do petróleo se dirigem. No meio do frenesim, um agente da CIA destacado para acompanhar um sheik local descobre uma gigantesca conspiração na terra do ouro negro. E apesar de já estar ás portas da reforma, vai fazer tudo para descobrir a verdade. O que ele não imaginava era o que iria descobrir.
Gaghan escreve e dirige o filme que conta com um elenco de luxo. Para além de George Clooney, que dá a cara ao poster mas que preferiu passar como secundário, há ainda Matt Damon, Amanda Peet, Jeffrey Wright, Christopher Plummer ou William Hurt. Um elenco estrelado, é certo, mas que se vai apagando ao longo do filme, para deixar todo o destaque ao que parece realmente importar para o cineasta: a critica dura à forma como os norte-americanos estão a transformar o Médio Oriente. Uma critica bem vincada nas posições defendidas por alguns dos personagens-chave, mas também pelo próprio realizador e elenco. Um filme critico de uma realidade a que não se pode fugir.

Com uma montagem vertiginosa, um argumento sólido e um trabalho fotográfico de exclência, Syriana seduz nos mais variadissimos niveis. Pela sua espontaneidade, pela forma natural como conta uma história. Pelo virtuosismo de Gaghan, numa promissora estreia por detrás da camara, ele que mostra ter aprendido bem com Soderbergh, o cineasta com quem trabalhou em Traffic.
Um filme em desafio para o próprio público com um notável leque de desempenhos, onde se destaca claramente a figura de George Clooney que passou, inclusive, por um processo fisicio extremamente doloroso, tendo ganho mais de 20 quilos para se tornar no agente secreto da CIA, Bob Barnes. Um filme inspirado numa história real, o que se percebe bem ao longo da sua duração pela facilidade com que as peças se encaixam umas nas outras de forma aterradora. Um filme que arriscou filmar no próprio Médio Oriente, e colocar-se de um lado da barricada que habitualmente é deixado de lado quando se fala de petroleo. Um filme onde os escrupulos e o orgulho são substituidos pelos cifrões. Um filme critico de uma realidade a que não se pode fugir.

Stephen Gaghan já foi por diversas vezes elogiado por esta sua estreia. Syriana está nos tops do que melhor se fez em 2005 e já arrecadou mesmo alguns prémios. Indicadores que este passo arriscado teve compensação. O meditismo de Clooney não ofusca uma história que é, acima de tudo, importante que se conheça. Para que os telejornais signifiquem algo mais quando se vêm noticias sobre o Médio Oriente. Porque Syriana é um filme critico. E esta realidade é a nossa. Não poderemos fugir. Por isso, mais vale tentar compreende-la.
O QUE SE DIZ
"Uma história complexa e intrigante sobre petróleo, terrorismo, dinheiro e poder."A.O. Scott, New York Times
"Syriana é daqueles filmes que tem muitas coisas importantes para dizer sobre muitas coisasi mportantes, e fá-lo com um sentimento de urgência."Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly
"Este é um retrato cinico mas certeiro de jogadas de bastidores da politica internacional, onde advogados de alto nivel e executivos da indústria do petroleo são tão impiedosos como os rebeldes e os agentes da CIA."Richard Roeper, Ebert and Roper
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 19, 2005 09:56 PM