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dezembro 13, 2005
Broken Flowers - Jarmush em slow-motion
Jim Jarmush é um nome amado pela critica internacional, isto apesar de possuir uma filmografia bastante pequena para o prestigio que tem. Broken Flowers é um filme que não contribui em nada para valorizar Jarmush, não tanto pela história em si, mas pela forma como é contada. Um filme alicerçado no rosto inexpressivo de Bill Murray, um registo que começa a soar a falso.
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Criticar filmes de realizadores altamente sobre-avaliados pela critica é sempre uma tarefa árdua. Mas alguém tem de a fazer. Isto porque o cinema não pode alimentar "vacas sagradas", como Jarmush. Cineastas que se auto-proclamam auters, e que podem se-lo na sua acepção da palavra, mas que constroem um nome sem terem provas que o sustentem. É o caso deste cineasta autor, completamente fora do mainstream, capaz de filmar de uma maneira muito sui generis, mas que acaba por estragar um filme que, noutras mãos, se poderia vir a revelar bastante interessante.
Se Broken Flowers soubesse aproveitar todas as suas potencialidades, seria um thriller bastante interessante. Assim, é um filme que nem sabe a peixe nem sabe a carne. É algo pastelento lá pelo meio, sem cor nem cheiro, ou seja, sem alma. Um filme que nunca arranca, que tem apenas quinze minutos dignos de nota - curiosamente na primeira metade do filme, divididos em dois capitulos - e que de resto, vive numa imensa monotonia. Claro que há criticos que elogiam essa própria negação do dinamismo narrativo. Afinal Broken Flowers foi um dos meninos bonitos da última edição do Festival de Cannes. Pobres franceses!

Analisemos então a história de Don Johnston (porquê o humor fácil com a alegoria a Miami Vice ou a Don Juan?), o homem que vive num marasmo completo, que é deixado mais uma vez pela companheira, e que descobre, numa carta anónima, que tem um filho de 19 anos que anda á sua procura. Com a ajuda do vizinho, consegue descobrir onde estão as possiveis mães do rapaz. Parte então, num misto de relutância e entusiasmo, à procura da mãe do filho mistério. São quatro as mulheres com quem se vai cruzar, cada um com o seu pequeno episódio.
No primeiro, o melhor e mais interessante de todo o filme, depara-se com uma carnal ex-namorado com quem não resiste em passar a noite, isto depois de ter sido assediado pela filha da mesma, que ostenta o sugestivo nome de Lolita. Num rasgo de luz num marasmo imenso, uma das melhores cenas do filme surge quando a jovem adolescente irrompe nua pela sala. Este nu naturalissimo é chocante tanto para nós como para o próprio personagemm, e por isso resulta melhor que qualquer outra cena do filme. Aqui a história começa a encarrilar, a ganhar vida. Será sol de pouco dura.
Os dois capitulos seguintes da viagem - tão monotona como o rosto inexpressivo de Bill Murray - não têm qualquer ponta de chama, são um vazio assustador, um autentico precepicio cinematográfico. E mesmo o quarto capitulo, que marca a viagem de regresso, e basilar para entender o final do filme, é tão fraco, que por culpa disso mesmo o final é interpretado de forma diferente pelo públic na mesma sala. Afinal teria Don realmente um filho ou não. É óbvio que sim, e podemos perceber isso nos momentos finais, mas a custo, muito custo, já que parece que o próprio Jarmush tudo faz para que não possamos entender o seu próprio final. Muito fraco para um "auteur".

Então que salvaria este filme?
Em primeiro lugar uma definição narrativa. Estão lá todas as pistas para um bom thriller ao jeito de The Game de David Fincher. Um amigo e uma namorada preparados para mexer com a vida amorfa de um don Juan decrépito colocam-no em busca do seu passado, para perceber que a vida está no presente. As pistas - o rosa constante, os nomes - está tudo lá. Mas não são aproveitados. Jarmush prefere mostrar uma dona de casa frigida, uma comunicadora de animais ou uma intempestiva mulher que lhe irá causar mais agruras do que pensa. Ou seja, o filme passa ao lado do que poderia ter sido. E isso é o seu pecado capital. Mas não é o único.
Bill Murray recuperou a carreira em Lost in Translation. O seu Bob Harris, inexpressivo, perdido num mundo que não era o dele, fazia todo o sentido. Como o seu capitão Steve Zissou em The Life Aquatic of Steve Zissou. Em ambos os casos, os talentosos Sofia Copolla e Wes Anderson perceberam que o melhor de Murray está no seu intenso underacting, na sua inexpressividade. Jarmush não entendeu isso. Limitou-se a copiar, para ver se dava. Mas neste filme não dá. O registo soa a falso, a deja vu sem sentido. E isso faz com que a personagem e o filme percam credibilidade. E sem uma personagem principal sólida - como poderia e deveria ter sido - mais dificil é aguentar o filme.
E se Murray está em baixa, há dois destaques obrigatórios a fazer. Jeffrey Wright tem um registo delicioso, como o amigo sempre presente de Don que é igualmente detective nas horas vagas. Ao lado de um actor do calibre de Murray, as cenas são dele com uma segurança notável. E claro, Sharon Stone. Está em cena pouco mais de cinco minutos, mas só isso ajuda a fazer a diferença e a dar uma ideia de como poderia ser o filme se fosse, um outro filme.
Quanto ás consagradas Delpy, Swinton e Jessica Lange, pouco há a dizer. Têm tempo para umas frases, um pouco forçadas e secas, que se coadunam com o espirito do realizador.
Mas nem tudo é mau. Há de realçar duas jovens que poderão vir a dar que falar. Pell James tem apenas um minuto e meio em cena, mas a sua beleza e o seu à vontade indicam que dali poderá sair uma actriz muito interessante. David Fincher já a pescou para o seu Zodiac. E depois há a inesquecivel Lolita, vivida sem preconceitos (e sem nada, literalmente) pela bela Alexis Dzenia, uma actriz que, com o à vontade demonstrado e os momentos que partilhou com dois pesos pesados como são Stone e Murray deu imediatamente a entender que pode ter um futuro, muito, muito interessante.

Broken Flowers é um mau filme porque nunca se afirma como um filme com cabeça, tronco e membros. Andar de um lado para o outro, ao som de uma horrivel e repetitiva banda sonora (em Broken Flowers tudo é repetitivo), é demasiado vago para ser um filme a merecer atenção. Nisto Jarmush teria imenso a aprender com Elizabethtown, que dá um sentido a tudo que este filme não consegue dar. E com um Murray forçado, no seu tom que parece cada vez mais uma imagem de marca, apesar de descontextualizada, e sem personagens secundárias sólidas, o desastre era iminente. Um auteur pode ser um auteur. Mas os verdadeiros têm obra feita e traços identificativos da sua genialidade. Jim Jarmush não é um desses casos.
Classificação - ![]()
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O Melhor - O capitulo passado na primeira casa, com Don, Laura e Lolita. A audácia que Jarmush teve aqui não voltou a ser repetida.
O Pior - A narrativa sem sentido, contada em slow-motion.
Curiosidade - O filho de Don foi vivido pelo próprio filho de Bill Murray. Uma ideia do realizador.
Site Oficial - www.brokenflowersmovie.com
Realizador - Jim Jarmush
Elenco - Bill Murray, Jeffrey Wright, Sharon Stone, ...
Produtora - Focus Features
Classificação - m/16
Duração - 105 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 13, 2005 03:59 AM
Comentários
Escorrendo as últimas linhas sobre o assunto limito-me a constatar o óbvio.
Quando alguém critica um filme popular, é um intelectual presumido, um snob. Quando alguém critica um filme com pretensões intelectuais, é um populista que não percebe a mensagem genial do autor (como alguem já disse, só se vê o filme que se consegue ver).
Como neste blog já se criticarma filmes comerciais e filme intelectuais, e também já se louvaram obras intelectuais e comerciais... como neste espaço já se criticaram realizadores por alguns filmes,já se elogiaram os mesmos realizadores por outros filmes, e o mesmo com actores, actrizes, argumentistas, compositores...chegamos a uma conclusão fácil: o Hollywood não é um espaço faccioso. Não pende arrogantemente para o lado intelectual, quando podia faze-lo - como infelizmente fazem muitos dos criticos europeus - e ganhar um prestigio entre a elite. Porque isso era alimentar a podridão do sistema. Também não é um espaço onde só o popular e rasca é bom, e as obras mais inteligentes são ignoradas ou insultadas.
Dito isto, é mesmo fácil perceber.
Cinema é cinema. Bom ou mau. Intelectual ou comercial. É subjectivo, cada um vê o seu filme, cada um tem a sua opinião, que deve ser partilhada com respeito e sentido. Mesmo as opiniões subjectivas têm de ser alicerçadas em argumentos sólidos. É isso que se faz aqui, seja neste caso ou em qualquer outro. O Jim Jarmush é um nome muito popular entre os criticos e muito criticado entre os populares. É um cineasta premiado e isso dá-lhe valor. Mas tal como outros realizadores premiados e elogiados pelos intelectuais (von Trier, van Sant...) é um realizador que considero, pela minha concepção do que é para mim cinema, extremamente sobrevalorizado. Não é para outros, tudo bem, é essa a sua opinião. Mas a minha é esta, e tem de ser respeitada. E se for contrariada, que o seja com argumentos e não com insultos ou sarcasmo!
Quando surgem pessoas facciosas para quem o seu realizador só faz maravilhas, e o seu filme mais mediano é melhor que a obra-prima de um outro qualquer, é dificil conversar. Acontece com praticamente todos, porque o cinema é algo pessoal e estabelecem-se relações entre o cinéfilo e o criador. Mas como não vou para aqui andar a dizer que um realizador que aprecio imenso, como é o Frank Capra, tem em The Lost Horizon uma obra-prima superior a uma obra de um realizador que nem aprecio - Scorsese - como Raging Bull, também me incomoda que haja pessoas que o façam. Os seus são sempre melhores que os dos outros, são sempre intocáveis, e toca a crucificar quem diz mal. E como muitos fazem isso, de um lado e do outro da barricada, o pobre do homem que critica ambos os lados e elogia ambos os lados, vive assim, sob constantes ataques e insultos.
Peço desculpa, mas para isso, não tenho muita paciência!
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às dezembro 14, 2005 06:47 PM
Que sensíveis...
Se não quer que eu aqui venha e comente por mim ok. Eu geri-me pela mesma tecla que o Sr. Miguel L. Pereira. Uma crítica corrosiva não só deste filme em particular, mas de toda a obra do Jarmush. Explicitamente declarou-se o defensor do que é cinema de qualidade e até grande cavaleiro contra as forças ignorantes e, parece pelo Tiago, beijoqueiras deste mundo, que vão para as salas de cinema sem terem primeiro dado anos de súor à crítica cinematográfica. Esta foi a postura. Para esta postura eu usei humor corrosivo. Eu achei a crítica do especialista fraca. Mas dizer isto assim a frio, sem antes ter feito uma vénia profunda ao especialista deve ser falta de educação.
Aqui a leiga despede-se com toda a admiração que me merece a arte do cinema.
Adeus
Publicado por: Gabriela às dezembro 14, 2005 04:28 PM
Claro que podes discordar, ainda bem que o fazes...desde que seja um discordar saudável e não uma enchurrada de insultos subtis.
Em relação ao Elizabethtown só levou 3.5...lol...e mete este filme no bolso em todos os aspectos. E em relação ao Bill Murray, dizer se é fabuloso ou não, isso sim é que são gostos pessoais. Uma representação é uma composição artistica, e como tal, sujeita a múltiplas interpretações. A inexpressividade do Murray é genial no Lost e no Life Aquatic, mas aqui não, é descontextualizada com a história, apesar do realizador explorar essa faceta.
Abraço
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às dezembro 13, 2005 11:24 PM
Marco, dizer mal desde fabuloso filme, depois de teres dado as carradas de estrelas que deste ao Elisabethtown até parece mal :)
O Bill Murray é inexpressivo? Caramba, isso não se trata de gostos, isso trata-se de saber observar um bom actor ou não. Bill Murray é um actor fabuloso e, se existe alguma coisa que ele tem é uma expressividade fantástica, que com um simples olhar conta-nos automaticamente pequenas histórias, sem ter de dizer um única palavra!
Broken Florwers é um belo filme, se me permites discordar de ti :)
Publicado por: cachucho às dezembro 13, 2005 10:25 PM
Miguel não ligues, gente como esta, que nem argumentar sabe, não vale a pena.
Gabirela, aprende cinema, porque a tua oinião é a mesma de uma pessoa que vai para o cinema so para se divertir, acompanhando metade da historia porque passou o resto do tempo aos beijos, que me parece este caso.
Veja de novo o filme, mas com atenção e tente preceber o que é um filme. Um filme é uma arte, e essa arte pode ser bem ou mal feita, e um especialista sabe avaliar se é ou não é, não uma pessoa sem qualificações.
Publicado por: Pedro às dezembro 13, 2005 09:05 PM
Cara Gabriela obviamente gostos não se discutem, mas há uma coisa que toda a gente deve ter na vida: educação.
O seu comentário é uma total falta de respeito, mas mais do que tudo mostra não o que eu sou, defendo ou escrevo, mas o que voce é e o que voce defende.
Broken Flowers pode ser uma obra prima para mim e o pior filme do mundo para si, ou vice-versa. No meu caso considero um péssimo, de um realizador que parece perceber pouco de cinema e de personagens.
Sou um critico de cinema há muitos anos e sei do que falo. Por isso, também este espaço é uma referencia. Se quiser rir posso recomendar-lhe alguns blogs ou sites de humor. Mas antes de mais exijo-lhe respeito: a mim ao meu trabalho e a todos os visitantes deste espaço.
Defenda a sua opinião como qualquer um, com respeito e bom gosto, e será bem vinda. Caso contrário este blog não é para si. É para quem gosta de cinema, bom ou mau.
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às dezembro 13, 2005 08:54 PM
Eu tive de me rir com a sua crítica! Será que fomos ver o mesmo filme? É estupendo. :-)
Fazer do Broken Flowers um thriler? E que tal uma comédia do Exterminador?
"Parte então, num misto de relutância e entusiasmo"... Entusiasmo? O Bill Murray é inexpressivo ou há a necessidade de um oftalmologista?
"Num rasgo de luz num marasmo imenso, uma das melhores cenas do filme surge quando a jovem adolescente irrompe nua pela sala." Gostos não se discutem... Um bocadinho de chichinha, ha?
Underacting não é o mesmo que inexpressividade.
O Jarmush copiou "Lost in translation" e a cena do Zissou? Eu achei estes dois filmes dois grandes pastelões. Se o Jarmush os tivesse copiado eu teria dado conta.
"uma horrivel e repetitiva banda sonora" Pois, tá bem. :-) Gostos não se discutem...
"o final é interpretado de forma diferente pelo públic na mesma sala. Afinal teria Don realmente um filho ou não. É óbvio que sim, e podemos perceber isso nos momentos finais, mas a custo, muito custo, já que parece que o próprio Jarmush tudo faz para que não possamos entender o seu próprio final. Muito fraco para um "auteur"."
OU seja, para si um filme tem de responder a todas as questões e toda a gente deve sair da sala exactamente com a mesma ideia. Boa! Gosto do é óbvio que sim. Depois de vermos os filmes eu e os meus amigos discutimos e não foi óbvio para ninguém. A resposta não ser chapada não pareceu problema para ninguém, mesmo para aqueles que não gostaram do filme.
"sem personagens secundárias sólidas" Uóte? Pergunto-me o que será pra si uma personagem secundária sólida? Será que tem de estar mais de dez minutos em cena? Ou não pode ser um actor consagrado? Secundário bom é desconhecido e abaixa a cuequinha. Certo?
Valeu pelas gargalhadas...
Publicado por: Gabriela às dezembro 13, 2005 08:06 PM
Apesar de acompanhar a pouco tempo este blog, já estava sentindo falta das críticas de filmes.
Se me permite citá-lo, acho que essa frase: "Jarmush não entendeu isso. Limitou-se a copiar, para ver se dava. Mas neste filme não dá. O registo soa a falso, a deja vu sem sentido. E isso faz com que a personagem e o filme percam credibilidade." resume muito do que está sendo feito ultimamente. Cineastas que não compreendem a própria obra por completo e que buscam copiar sensações mas que só conseguem uma pálida cópia do que pretendiam. Uma pena.
Abraço
Publicado por: Tiago às dezembro 13, 2005 02:27 PM