« Trailer de The Da Vinci Code | Entrada | E esta hem...! »

dezembro 14, 2005

Opinião - A encruzilhada americana...

Entre um filme de um realizador altamete popular, directamente feito como mais uma apologia da comunidade israelita em Hollywood, sob a bandeira do combate ao terrorismo, e uma história de amor homossexual filmada no coração da América, parecia fácil perceber qual seria o favorito dos americanos. Mas o inicio do mês de Dezembro veio confirmar uma súbita paixão por Brokeback Mountain, e um progressivo afastamento em relação a Munich. O primeiro já conquistou vários prémios e lidera as nomeações aos Globos. O segundo conquistou apenas um prémio e nenhuma menção honrosa, e viu-se humilhantemente restringido a duas nomeações nos Globos. É verdade que ainda não estreou e que o público pode ser a sua salvação, mas mesmo aí Brokeback já leva vantagem.
Entre uma história de amor homossexual e mais um filme "pró-Israel" de Spielberg, qual será a escolha da América. Um país que vive uma encruzilhada moral!
photo_10kkj.jpg

Os Estados Unidos são o país quesão. Para umas coisas, o bastião da liberdade, dos direitos humanos, uma pérola democrática que vale a pena admirar. Mas também podem ser o país mais conservador, ditatorial e mais odiável à face da terra. Essa dictomia americana está sempre presente quando se fala em prémios de cinema. Porque os prémios de uma das maiores indústrias de cinema espelham muitas vezes a própria sociedade. Quando o medo do comunismo surgiu, filmes como The Grapes of Wrath foram vetados propositadamente. Quando a alta-finança se viu atacada, trabalhos como Citizen Kane foram deixados de lado. Homens como Sidney Poitier venceram óscares não pelo talento mas pela conjuntura social. Atacar os ideias e a estrtura da América equivale a ser ostracizado. Elogiar o modelo americano é habitualmente premiado. Mexer com questões polémicas da sociedade é entrar num labirinto de onde não se sabe muito bem por onde se vai sair. Pode ser-se arrasado quando se fala em pedófilia (Lolita), escravatura (Amistad) ou quando se atacam comunidades importantes (The Passion of the Christ e os judeus, White Dog de Samuel Fuller e os negros). E ser-se elogiado quando se fala no all-american hero (a obra de Capra) os quando se elogiam incapacitados, fisicos e mentais, ou as mesmas comunidades: os judeus e a comunidade negra, casos de The Schindler´s List ou In the Heat of the Night.
photo_06mu.jpg

Por isso este ano parece estar tudo louco. Quando a critica, os Globos de Ouro, e - parece cada vez mais provável - os sindicatos, aclamam de pé, repetidamente, Brokeback Mountain, uma história de amor entre dois cowboys, que são obrigados a seguir a vida como homens "normais", para não serem perseguidos pela sociedade, mas que não querem desistir do seu amor, todo este racicionio que é fundamentado por décadas de história, perde sentido.
Mais ainda, num ano em que um filme tipicamente americano, Cinderella Man, é totalmente ignorado pelo público e pela critica em prémios de final de ano, e quando o filme "que antes de ter sido sequer feito já era o melhor filme de sempre de Spielberg" - o que demonstra bem o facciosismo de alguns dos amantes deste realizador...e de outros - é excluido dos principais prémios do ano, começamos a questionar-mos: para onde está a ir o cinema americano?
Cinderella Man é um caso particular, sem explicação plausivel. Um filme de muita qualidade, muito melhor que o filme que a anterior parceria Howard-Gazer-Crowe, A Beautiful Mind, mas que o público não quis ver, a critica não quer premiar, e que provavelmente, a Academia irá ignorar. Já Munich é outra coisa. Apontado directamente para agradar à comunidade judaica, pegando nos herois que abateram os "terroristas" palestinianos que perpetraram os ataques de Setembro de 1972, esperava-se que o filme fosse arrasador. Entre a critica, público e Academia. Estando o filme ainda por estrear, e a Academia por divulgar os seus nomeados, fica a critica para analisar. As reviews ao filme nem sempre são as melhores. Experimentalismo, pretensiosismo, falta de estrutura, falta de garra, são alguns dos adjectivos menos simpáticos para caracterizar o mais recente trabalho de Spielberg. Isto num filme que fala sobre uma questão actual (o terrorismo) e numa questão intemporal (a vitimização da comunidade judaica). Como os judeus são, como se sabe, um dos mais fortes blocos dentro da Academia, é provavel que o filme recebe as nomeações previstas, e que até ganhe algumas - até mesmo, não se pode excluir, a de melhor filme. Não vi ainda o filme, não vou fazer o contrário do que fazem os seus defensores, ou seja, arrasar o filme ainda antes de o ver, como eles o elogiam da mesma forma. Como também ainda não vi Brokeback Mountain não posso comparar, apesar de ser claramente o filme com melhores reviews do ano, bem melhores das que Munich ou qualquer outro terá.
Pergunto-me apenas, se a América está preparada para isto?
brokeback_mountain1231bbg.jpgm2u2nichd3sa34GGgg.jpg

Outro dos grandes sucessos do ano nos Estados Unidos, junto do público e da critica, foi o filme Crash. Lida muito bem com o multiculturalismo de Los Angeles - microcosmos da América de hoje - e com o racismo. É um filme politicamente correcto, bem ao estilo americano. Mas é um filme honesto e cheio de alma. Brokeback Mountain parece seguir pelo mesmo caminho. Um filme honesto, um filme com alma. Com dois homossexuais como personagens principais. Isso importa?
Em termos cinematográficos não, em termos sociais, sim. A América ainda não resolveu bem os seus assuntos com a comunidade homossexual. Sucessos televisivos como Queer Eye for the Straight Guy foram abrindo aos poucos o cobertor colocado por cima dessa comunidade de opção sexual alternativa. Já este ano temos o mais forte candidato ao óscar de melhor actor, Philiph Seymour-Hoffman, a viver Truman Capote, um autor popularissimo, mas homossexual. E se vencesse não seria o primeiro caso. Joel Grey em Cabaret, William Hurt em The Kiss of the Spider Woman, Tom Hanks em Philadelphia são apenas exemplos de que isso seria possivel. Mas quando a questão mexe com o prémio mais alto, a história já é outra.
capotellk1.jpg

A América vive muito de esteriótipos e a Academia de Hollywood também. Para eles será sempre mais fácil premiar Munich, um filme apontada para agradar a quem pode decidir, do que votar num filme arrojado, que aposta em trazer cá para fora uma questão que está escondida há demasiado tempo. Uma história de amor, será sempre uma história de amor, sejam lá quem forem os seus protagonistas. Ang Lee filmou-a e conseguiu catapultar esse sentimento cá para fora. Os prémios que o filme tem vindo a conquistar dão-lhe razão. A vitória nos Globos de Ouro é mais do que provável.
Mas, e a Academia? Estará pronta para dar esse passo final, e começar ela própria - que tem inúmeros membros homossexuais - a quebrar esse tabu? Ou cairá no prémio fácil, no prémio das minorias influentes (Munich), do dinheiro popular (King Kong), do cinema de autor (Match Point, Good Night and Good Luck.) ou da escolha mais familiar (Walk the Line)?
Este ano é, como já não acontecia há muito, uma boa hipótese da América mandar um sinal ao mundo. Mas até dia 5 de Março, ela vive numa encruzilhada.

Miguel Lourenço Pereira

PS - Estava, como sempre, prevista para a quarta-feira passada o habitual artigo de opinião. Imprevistos pessoais impediram-no de ser publicado a tempo e horas. Por isso peço desculpas.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 14, 2005 06:35 PM

Comentários

P.S.2. Outra coisa que não consigo entender é o facto de os Globos de Ouro, os Satellite Award, e os Broadcast Film Critics Association conseguirem ouvir bem a musica, com tamanha clareza que até a nomeação foi possivel para estas três organizações, detentoras de uma imaginação de tal forma fertil que até conseguiram ouvir a musica que os Oscares não conseguiram.
Parece que não vamos ver este ano os tabus a desaparecerem.

Publicado por: Iluvatar às dezembro 16, 2005 07:51 PM

A música que se indicava como a favorita para a noite dos Oscares parece que nem sequer foi seleccionada para a lista de 42 canções que iram a avaliação para depois se escolher os cinco nomeados. Estou-me a referir é claro à música "A Love That Will Never Grow Old" do filme Brokeback Mountain. É de mim ou a academia começa aqui a afastar-se de Brokeback. Sei que ainda é cedo, e que tudo indica o contrário, mas o que é certo é que sempre é menos uma nomeação. De provavelmente 10 nomeações passou para nove e ainda não foram anunciados os nomeados. Será que nestes pequenos pormenores podemos detectar alguma coisa? Pelo teu comentário, e com o que acabo de dizer atrás, não penso que a tradição se vai quebrar. Ou seja ganha Munich, pois dar o Oscar a Brokeback seria quebrar bastante com o ridículo conservadorismo da Academia.

P.S. Pelo que foi dito, parece que a musica ao ser avaliada pelo comité, não foi aprovada, não por não merecer mas sim porque no filme, isto dito pelo comité, a musica é pouco audível, inteligível, e não mostra uma boa relação entre a letra e a melodia. Pelo que li, pois ainda não vi o filme, a musica aparece no filme em rádio e é ouvida pouco menos de 30 segundos. Parece que não é o suficiente para agradar à academia. Um espectador normal que vai ver o filme pela primeira vez consegue ouvir perfeitamente a musica, já quem vai analisar somente a musica não. Isto dá que pensar…

Publicado por: Iluvatar às dezembro 16, 2005 06:08 PM

Grande filme, o Brokeback Mountain. Voto nele, ainda sem ter visto os outros;) Errado! Vi o Fiel Jardineiro. Espantoso este filme! Mas continuo a apostar no Brokeback Mountain e no Ledger para melhor actor dramático.
Vale uma aposta?

Publicado por: stillforty às dezembro 15, 2005 10:57 PM

Percebo o que queres dizer, e percebo então o teu ponto de vista. A falar é que nos entendemos. :P

Continuação de um bom trabalho!

Publicado por: not_alone às dezembro 15, 2005 03:29 PM

Percebo o que queres dizer.
Não é uma questão de falsa modéstia. Em primeiro lugar nada aqui é feito para minorizar o trabalho de outros blogs. Aliás o Hollywood tem sempre por politica, e sabes disso, publicitar e ajudar weblogs que estão a ter dificuldade em arranjar público. Porque sei o que é essa posição, sinto que devo ajudar o próximo. E no entanto há poucos espaços que o fazem, por isso tenho o máximo respeito pela comunidade blogger e pelos blogs, especialmente os de cinema.
Em relação a ser melhor ou não, isso é subjectivo. Pessoalmente, e sem falsas modéstias, acho o Hollywood um blog muito completo, mais perto do formato de um website e de uma revista online do que propriamente de um weblog comum. Mas isso resulta do trabalho que tenho, e não é algo que faça para me superiorizar. Tomara que todos os espaços fossem assim. Mas se as pessoas gostam mais de outros formatos, de outros autores, de outros blogs, isso é pessoal. Não digo que sou o melhor, porque cabe a cada um escolher o seu melhor. Se não estava a ser prepotente. Na frase:
"...sendo já há muito o weblog de cinema mais lido em lingua portuguesa, alcançando números que muitos websites não conseguem atingir."
há dois factos: é de facto o weblog de cinema mais lido. e há weblog que nao conseguem atingir esse nivel. No entanto a frase surge como um statement, mais do que outra coisa.
Ou seja - e isto deriva também de um projecto que elaborei sobre as relações entre websites e weblogs - é quase impossivel encontrar weblogs que façam frente a websites em termos de numeros (qualidade, é subjectiva). Numa área estão, na maior parte dos casos, profissionais. Noutra, amadores! O facto de haver um espaço como o Hollywood que alcance estes números, é noticia! Porque quebra uma tendencia. Se terá seguidores (espero bem que sim), ou não, isso é outra questão. Mas quando tens um weblog com 700 mil visitantes por mês, e esse weblog é feito da forma como é o Hollywood, essa noticia é mais do que um regojizo pessoal. É uma noticia que também serve de estimulo ao pessoal dos blogs, e que também serve para que a imprensa escrita e mesmo os websites aprendam a respeitar mais os weblogs, o que não acontece.
Mais do que valorizar o Hollywood - que acho que é um nome mais ou menos consensual na cineblogosfera em termos de espaço a ir dando uma vista de olhos - valoriza a própria blogosfera numa de "è possivel". Porque se o Hollywood conseguiu, isso quer dizer que qualquer um pode consegui-lo. E se muitos o fizerem, então a blogosfera será um espaço cada vez mais respeitado. E aí sentirei orgulho por ter contribuido para essa mudança.
Não acho isso falsa modéstia. Prefiro comportar-me assim do que ser falso: dizer que não é importante, mostrar-me muito humilde, e por detrás de tudo, vangloriar-me. Gosto de fazer as coisas de forma clara, sem complexos.
Espero que tenhas percebido o meu ponto de vista, e claro que o teu comentário não é levado a mal. Mau era!

um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às dezembro 15, 2005 03:13 PM

O meu comentário da falsa modéstia prende-se com posts como o "Hollywod volta a bater records". Eu pelo menos não estou muito interessado em saber se foram 10 ou 20 mil as pessoas que passaram pelo blog. É uma informação que, como é óbvio, vos deixa muito felizes, mas que devia ficar por aí, o resto já me parece um pouco show-off e a menosprezar um pouco o trabalho das outras pessoas que também fazem disto um hobbie. E aqui refiro-me particularmente à frase desse post: "...sendo já há muito o weblog de cinema mais lido em lingua portuguesa, alcançando números que muitos websites não conseguem atingir." Afirmação que pareceu pouco feliz. Claro que isso pode ser um facto, mas a ideia que passa é a de que como tem mais visitas é melhor. (e atenção que estou a fazer este comentário não como autor de um outro blog de cinema, mas apenas como um leitor assíduo, que sou, do Hollywood). Já noutras situações me tinha deparado com frases desse género e fico com a noção de que há uma vanglorização excessiva, quando deveria haver sim, a modéstia que referi. Espero que não levem a mal o meu comentário, é apenas uma opinião construtiva áquele que é, indiscutivelmente, um grande blog de cinema.

Abraços!

Publicado por: not_alone às dezembro 15, 2005 01:50 AM

João Pedro - O filme é acima de tudo criticado pelos palestinianos. Como não o vi ainda não posso dizer para que lado puxa, fiz apenas um compêndio do que tenho lido, e na grande maioria dos casos - até pelas próprias personagens históricas que por lá passam - o filme defende o "lado" isralelita.
Em relação aos terroristas, enquanto não definirem bem qual é a diferença entre grupos terroristas e exércitos independentistas ou separatistas, as aspas ficam ;-)
um abraço

Not Alone - Ainda bem que gostaste do artigo. Em relação a discordares das opiniões, é natural, nunca passei muito por ser consensual e tanto melhor por isso, significa que sou o que quero ser e não o que os outros querem que seja. Em relação a falsas modéstias não te percebi bem. Se quiseres explicar melhor, tás à vontade...

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às dezembro 15, 2005 12:25 AM

Li hoje que Munich tem sido muito criticado pelos judeus americanos por, aparentemente, ser "pró-palestiniano" e mostrar os actos de violência da Mossad.
Nota: o comando palestiniano que matou os atletas israelitas era realmente terrorista, sem espas.

Publicado por: João Pedro às dezembro 15, 2005 12:20 AM

Habitualmente discordo de grande parte das opiniões deste blog, e condeno secretamente algumas das suas falsas modéstias, mas, ao ler este artigo, tenho de dar a mão à palmatória (expressão que incessantemente procuro desvendar o sentido)e aplaudir o seu bem articulado conteúdo. Afinal de contas somos todos amantes da 7a arte e estamos em pulgas para saber quem chegará ao pódio nos Oscars, neste duelo Lee VS Spielberg, que se prevê aceso.

Mais uma vez, parabéns.

Publicado por: not_alone às dezembro 14, 2005 08:15 PM

Comente




Recordar-me?