« London Film Critics divulgam nomeados | Entrada | CANTOS DO MUNDO - AMÉRICA DO SUL »
dezembro 16, 2005
Oscarwatching - Três filmes, três casos
São neste momento os grandes candidatos a filme do ano, segundo a Academia pois claro. Brokeback Mountain tem arrasado nos prémios da critica, mas o conteudo do filme pode prejudicar as suas pretensões. Já Munich teve uma recepção fria, e politicamente encontrou alguns percalços. A decisão de Spielberg de não publicitar o filme tem igualmente levantado questões e de super favorito, o filme passou a aposta arriscada. E por fim King Kong. Previa-se o dominio esmagador do box-office, mas a estreia deixou um pouco a desejar. O filme está ao nivel dos melhores, mas a Academia costuma desconfiar deste genero de filmes quando chega a época dos óscares. Qual será o seu destino?



Munich era o super-favorito, mesmo antes de ter sido feito. Num ano manifestamente fraco em termos de oferta de grandes candidatos, só o nome de Steven Spielberg, aliado a um drama histórico que envolvia a temática do terrorismo (agora na moda) e que estabelecia relaçóes directas com uma das comunidades mais importantes da sociedade norte-americana, a judaica, criou logo altas expectativas. O filme foi feito em enorme secretismo e Spielberg garantiu que não faria campanha, que deixaria o filme a falar por si. No entanto, desde esse dia, tudo mudou.
O facto de até agora só ter vencido um prémio da critica (Washington) e de só ter tido duas nomeações aos Globos de Ouro, onde o filme e o elenco ficaram de fora, não foram as noticias que Spielberg esperaria. Além dos mais as primeiras criticas não foram tão positivas quanto se esperavam. E se bem que agora há um reiquilibrio, com alguns criticos a colocarem-no no topo dos filmes do ano, a verdade é que o amor dos criticos Munich dificilmente terá por completo. No entanto um dos grandes problemas com que o filme se deparou foi com a própria comunidade judaica, com um peso brutal na Academia, que acusou Spielberg de ter feito um filme anti-semita. Afirmações muito duras que podem comprometer as ambições de um filme que depende agora da adesão do público. Mas o facto de ser um filme atipico, na filmografia de Spielberg, pode ser suficiente para afastar também o público. A única sorte de Munich é o dos seus rivais terem igualmente calcanhares de Aquiles visveis e de não ter, à partida, muitos rivais que possam lutar pelo trono de filme do ano nos óscares.

Já de Brokeback Mountain muito se tinha vindo a falar, desde que o projecto começou a ser desenvolvido. Uma história de amor homossexual no Oeste americano de meados do século passado parecia ser a base de um filme completamente fora do mainstream. Mas a genialidade de Ang Lee e os notáveis desempenhos do elenco, aliados a um excelente trabalho técnico, valeram ao filme o Leão de Ouro em Veneza, de forma surpreendente. Desde aí o filme tem conquistado tudo por onde passa. Primeiro foi a critica a render-se, declarando-o um filme sem comparações no panorama cinematográfico deste ano. Depois foram as associações de criticos a fazerem eco disso mesmo, premiando o filme já por seis vezes neste final de ano. E por fim chegaram os Globos de Ouro, e a confirmação de um amor generalizado pelo filme com sete nomeações, onde só terá faltado mesmo a de Jake Gyllenhall.
A verdade é que muitos dos analistas declararam a corrida fechada, e ganha á partida por Brokeback Mountain, especialmente depois das primeiras sessões terem tido lotação esgotada a ponto de estabelecer um novo recorde para filmes com estreia limitada. Mas não é bem assim.
A noticia de que a Academia vetou todas as canções do filme para a próxima edição dos óscares, onde se encontrava a super-favorita, começa a levantar medos antigos. Será que a Academia está preparada para premiar um filme apologista do amor homossexual, ou os velhos tabus e o conservadorismo dos veteranos membros irá ser determinante em afastar o filme da vitória? São questões que só serão respondidas a 31 de Janeiro. Até lá Brokeback precisa de continuar a ganhar prémios, e precisa que o público americano vá ver o filme, de forma a ter um lucro minimo de 50 milhões, tido pelos analistas como o minimo exigido para se ser o grande vencedor dos óscares.

Por fim, quando todos tinham resumido a corrida a dois, mesmo com Munich em queda, agora em Dezembro, e Brokeback com uma queda anunciada para Janeiro/Fevereiro, eis que surgiu um terceiro candidato. E que candidato.
Dois anos depois de ter atingido a perfeição com o fecho, a chave de ouro, da trilogia Lord of the Rings, que arrecadou uns impressionantes 11 óscares, Peter Jackson está de regresso com o remake do seu filme preferido, e um dos maiores marcos da cinematografia norte-americana: King Kong.
O filme supera o original em tudo e afirma-se desde logo como um dos melhores filmes dos últimos anos. Aliás, foi quando a critica viu a ante-estreia, que de repente o nome de King Kong passou a ser sinónimo de candidato. Lágrimas, titulos de filme do ano, elogios sem igual, apesar da duração gigantesca do filme, foram a imagem de marca no inicio de Dezembro. Naomi Watts era elogiada como quase nenhuma actriz tinha sido este ano, Jackson era catalogado como um dos maiores cineastas vivos, e King Kong, dizia-se, ia ser o novo Titanic. Quem não se lembra, no entanto, que Titanic esteve tão perto da tragédia como acabou por estar da glória?
Apesar das reviews fenomenais (onde há sempre, lá pelo meio, os detractores do cinema comercial, como em Brokeback havia os anti-homossexuais, que fazem os filmes parecerem menos unanimes do que são, comparando com outros como Munich) a estreia de King Kong esteve abaixo do previsto, que era igualar os numeros do primeiro Lord of the Rings. No entanto, uma estreia numa quarta-feira pode ter sido uma jogada, e só no final do fim de semana, onde se espera que o filme já tenha feito entre 70 a 100 milhões de dólares, se poderá ver a dimensão do impacto do box-office nas esperanças do filme. Porque se Brokeback depende da critica, Munich da comunidade judaica e das Guilds, o filme de Jackson depende essencialmente do público, de forma a tornar-se um sucesso de bilheteira sem igual. Com duas nomeações cirurgicas nos Globos de Ouro, o perigo poderá vir do grupo de actores, a maioria da Academia, que pode não gostar de se ver substituido por um gigante macaco criado digitalmente. Mas a obra de Jackson é hoje consensual, e a qualidade do filme está à vista de todos. Se não houver grandes uspsets (Good Night and Good Luck, Walk the Line, Match Point ou Crash) a verdade é que o duelo final será a três. Três filmes, cada qual com os seus calcanhares de Aquiles. Mas Million Dollar Baby também tinhas os seus e triunfou. Por isso, está tudo em aberto na corrida aos óscares.

O Oscarwatching esteve ausente do Hollywood nas duas últimas semanas, por ter sido a temporada de previsões da próxima edição dos óscares. A partir desta semana regressa de forma regular, com o habitual resumo semanal do que se vai passando na corrida aos óscares. Para além desta análise, convém salientar a confirmação da queda em desgraça de Memoirs of a Gueisha e The New World, e da recuperação de Match Point e A History of Violence. Filmes como Capote, Crash e The Constant Gardener têm igualmente tido excelente recepção, com The Squid and the Whale a surpreender igualmente.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 16, 2005 06:42 PM
Comentários
Grande filme o Brokeback Mountain.
Bom Natal. Tens prenda no meu blog. Espero que gostes. É virtual, mas é de coração.
Publicado por: stillforty às dezembro 18, 2005 03:34 PM
Acrescentava ainda o caso do Walk the Line que pode ser prejudicado (nomeadamente Joaquin Pheonix) pelas suas parecenças com Ray
Publicado por: Léccio às dezembro 17, 2005 07:48 PM
Há já muito tempo que não via um filme tão mau. E falo obviamente de King Kong :), felizmente os bilhetes foram de borla, pelo menos isso ;)
Publicado por: cachucho às dezembro 17, 2005 12:23 PM
As criticas ao The New World são mistas. Ainda ontem o Kris Tapley o colocava como o 5º pior filme do ano. Será certamente um filme dividido por criticas rendidas ao talento do Malick mas à fraqueza do argumento. Tenho sérias duvidas que a ascensão do Malick seja feita a tempo de ficar como um dos filmes do ano. As primeiras semanas de exibição ajudarão a dissipar as duvidas. Mas se em 98 o The Thin Red Line começou assim e foi até onde foi, tudo é possivel.
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às dezembro 16, 2005 11:43 PM
Fizeste muito bem em salientar o reconhecimento internacional da nova obra de Cronenberg ("A History of Violence"), mas terás de corrigir algo (quanto a mim e se me permites a correcção): "The New World" de Malick não caiu em desgraça. Começou com críticas periclitantes, mas subiu incomensuravelmente nas análise e já é considerado um filme poderoso pela crítica especializada. É um filme em ascensão apoteótica.
Abraço Miguel.
Publicado por: Francisco Mendes às dezembro 16, 2005 10:00 PM