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janeiro 14, 2006
CANTOS DO MUNDO - ÁFRICA
Esteja ela escondida nas dunas ou nas planicies áridas, nas florestas mais cerradas ou à beira mar, África sempre foi um espaço natural de excepção a nivel global. E poucos têm sido os filmes a aproveitarem-se dessa genuina beleza. Mas os que o fizeram, trouxeram ao resto do Mundo imagens nunca vistas...

Estamos sentados numa sala de cinema. Escura, com os habituais barulhos de pipocas e bebidas, com o ar condicionado ligado, demasiadamente para um dia tão frio. No ecrãn gigantesco tudo é diferente. O calor é abrasador. As roupas estão sempre a mais, a areia invade-nos os olhos e cega-nos por momentos. De repente tudo para. Voa um bando de flamingos, a camara segue-os e temos uma visão do paraiso. Mas não é o paraiso. É África.
A mesma África que Fernando Meirelles ressuscitou em The Constant Gardener, mas que há muitas décadas tem sido alvo de camaras de outros cineastas, fascinados com a sua imensa beleza natural. Das viagens ao Congo - a lembrar Joseph Conrad - feitas por John Houston em The African Queen (e depois repetida por Clint Eastwood nesse grande filme que é White Hunter, Black Heart), até ao passeis no deserto do Sahara, lado a lado com Ralph Fiennes e Kristin Scott-Thomas no aclamado The English Patient, a verdade é que, se África nunca teve um cinema que conquistasse o mundo, o mundo já foi várias vezes conquistado por África.

A verdade é que o cinema não é só história. Ou actores. Ou cineastas. É muito mais do que isso. E dentro de tudo, é também espaço. Seja ele urbano ou rural. Criado da mente do homem, ou das mãos de Deus, da Natureza, de quem quer que seja que teve a brilhante ideia de pintar o planeta de forma tão pura e avassaladora.
E África é talvez o último espaço virgem. Não é o único. Os filmes que nos vão chegando de todos os cantos do Mundo - mesmo de uma Europa e de uns Estados Unidos para além das grandes urbes - provam que esses espaços existem ainda. Mas são uma minoria. Em África não. No Continente Negro tudo é mais puro. E se não fossem as mãos corruptas dos homens, tudo seriam mais puro e mais aprazivel de se visitar. Mas não é. E todos sabem disso. Há poucos espaços em África que possam ser visitados como quem visita Notre-Dame ou a Estátua da Liberdade.
E se nós não podermos ir até lá, o cinema traz esse mundo até nós.

Porque se há algo que encanta em Out of Africa, The Constant Gardener, Mogambo ou os filmes de Jean Rouch, não é tanto em si as histórias que nos contam, apesar da sua importância, evidentemente. É mais o fascinio de um mundo tão perto e tão distante. É sabermos que é imensamente improvável estar a ver aquelas imagens ao vivo, uma improbabilidade que, infelizmente, encontra equivalentes em imagens do espaço ou do fundo dos oceanos. Porque África é provavelmente um dos mais belos continentes. É, segundo se diz, a genese da vida humana. Mas hoje é também um local tão ou mais inseguro de visitar como o é o Bronx ou os bairros periféricos do Rio de Janeiro. Culpa nossa, é mais do que certo, mas uma culpa que nos transcende. Durante séculos África foi-nos inacessivel. Até que fomos lá e desbravamos caminho. Mas hoje África continua quase tão inacessivel como era à quinhentos anos.
E se não fosse pelo cinema, quem nos mostraria um bando de flamingos a sobrevoar sobre o lago Vitória como se estivessemos mesmo diante do milagre da criação?
Miguel Lourenço Pereira
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às janeiro 14, 2006 04:29 PM