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janeiro 14, 2006

Jarhead - Danos Colaterais

"Every war is diferent. Every war is the same".
Já muitos filmes tentaram trabalhar esta premissa. Não é aí que reside a novidade de Jarhead. Mas o novo filme de Sam Mendes consegue transparecer com inteiro realismo o dia a dia de um soldado em missão militar. Longe dos heroismos dos filmes mais antigos, ou da violência gratuita de Full Metal Jacket, o filme de Mendes é essencialmente um filme sobre os danos colaterais de uma guerra. Sejam eles civis ou militares, a verdade é que de guerra para guerra, as sequelas são sempre as mesmas. "Welcome to the suck"...
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"We are still in the desert!".
É com esta frase de sentido duplo que fecha Jarhead.
Por um lado dá a estocada final à presença americana no Médio Oriente, como foi prometendo ao longo do filme com frases como "nunca mais cá precisamos de voltar", "acabamos com Saddam" e coisas que tais. O fantasma do presente está sempre no passado. O passado de um soldado, Anthony "Swoff" Swordoff que teve coragem de passar para o papel o que poucos ainda conseguem interiorizar. As sequelas que a Guerra do Golfo lhe deixou, a ele e ao seu pelotão. Treinados para serem os maiores assassinos da história, a verdade é que o seu treino acabou por derivar numa sede de sangue insaciável. A vontade de matar torna-se uma dependência, a ausência de alvos, uma monotonia. A guerra torna-se a droga que lhes alimenta o vicio da adrenalina. Porque estar em qualquer outro lugar seria possivel, mas nunca seria a mesma coisa. E porque, uma vez marine, sempre um marine. Para o bom, mas essencialmente - e é este o ponto porque Mendes pega - para o mau.
E esse é o segundo sentido da frase. Porque cada guerra é sempre igual à anterior para quem lá está, então quem lá esteve sentir-se-á presente nas guerras futuras, mesmo não estando. Complicado? Nem por isso! A mensagem do filme é que um soldado não esquece e percebe, mais do que ninguém, a futilidade das guerras. Mas está viciado nelas, não se consegue libertar. A personagem de Jamie Foxx (um dos melhores num elenco muito seguro e muito competento, com um Jake Gyllenhall em grande forma) di-lo com toda a clareza. Está lá porque, para ele, é o melhor trabalho do mundo. Dificilmente o será, e não sabemos se hoje ele é uma das vitimas do comeback americano ao Iraque. Mas desde o primeiro dia de recruta foi isso que lhe ensinaram. E é nisso que ele acreditará, sempre.
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Diferente de todos os filmes de guerra, por praticamente não haver guerra, Jarhead é um trabalho excepcionalmente imaginativo. Claro que o facto de criar um vazio - tanto de acção como de ideias - surge como espelho da realidade, e isso pode parecer anti-cinematográfico. Mas não é. O que é preciso é ter paciência, pensar cada cena como se a estivessemos a viver, como se fossemos parte da companhia. Acção trepidante e sem sentido encontram-na em Full Metal Jacket, filme de Stanley Kubrick bem inferior a este trabalho de Sam Mendes, que benificia igualmente de uma equipa técnica fabulosa, com principal destaque para o avassalador trabalho de fotografia de Roger Deakins, e para uma banda sonora excepcionalmente montada. Estão portanto criadas todas as condições para percebermos o que é de facto, um Jarhead.
E é neste dia a dia, com todos os episódios, que se vão repetindo, não por falta de imaginação, mas porque não há mais nada. E o vazio só é filmável de duas formas. Com repetições que dêm essa ideia, ou então, à auteur pretencioso, com uma camara apontada durante longos minutos para o nada. Mas felizmente Mendes não tem nada desses tiques elitistas europeus, e consegue manter a história com ritmo, lento, mas com ritmo.
E é aí que conhecemos melhor Swoff, um marine que só quer sair. E Troy, um marine que só quer ficar. E um marine de esquerda, e marines de todas as minorias étnicas possiveis e imagináveis. E as namoradas dos marines, e as suas esposas traidoras, e os comandantes do exército, e a imprensa, totalmente ás cegas. E conhecemos tudo menos a guerra. Porquê? Porque a guerra não era para eles, apesar de eles precisarem dela para continuarem a acreditar neles próprios.
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Como é que dois marines acabam a guerra sem disparar um tiro? Como é que meses e meses de preparação, meses e meses de adaptação, resultam numa campanha de quatro dias? Aqui a critica vai para a forma desumana - se é que há uma forma humana - como se conduzem as guerras hoje. Pegando numa ideia que já vinha do Vietname, os soldados questionam-se sobre a forma como tudo é conduzido. Com uma diferença. O soldado do Vietname só queria sair de lá. Os soldados de Jarhead só querem acção. E enlouquecem, e desesperam, e percebem que nada na sua vida faz sentido, ali, no longo e árido deserto. E quando tudo acaba, voltam para casa. Nada está na mesma, porque o tempo não parou no resto do mundo como parou ali, mas aos poucos, vão voltar a enquadrar-se. Ou não. E esse não, de que já temos ideia quando encontramos o velho veterano do Vietname no regresso a casa, mas que temos a certeza no belissimo último plano de Peter Saasgard, esse não é real. E esse não, são na verdade os danos colaterais de que falamos. Porque quando alguém é treinado para viver uma situação no limite, e não a chega a viver, nem na altura nem nunca mais, a sua vida perde o rumo. E quando se perde o rumo é dificil voltar a encontrá-lo.
Jarhead é sobre a guerra. Mas é pouco dizer isso. Jarhead é sobre as pessoas que vão à guerra e que voltam. Sobre como chegaram lá e como regressam. Porque apesar de tudo, pode-se sempre aprender com eles. Afinal, todas as guerras são diferentes, mas todas as guerras são iguais...

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O Melhor - O trabalho de fotografia e a banda sonora do filme são certamente dos melhores de 2005. Sem dúvida alguma.

O Pior - Faltou talvez desenvolver um pouco mais as personagens, para além da superficie. O vazio de tempo, permitiria certamente um melhor conhecimento de cada um, em vez de encontrarmos algumas personagens tipo.

Curiosidade - Os actores filmaram em Imperial Valley, o mesmo local onde os soldados norte-americanos treinaram antes de irem para o Iraque por ser um dos espaços do Mundo mais parecido com a georgrafia do sul do Iraque.

Site Oficial -

Realizador - Sam Mendes
Elenco - Jake Gyllenhall, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, ...
Produtora - Universal
Classificação - m/12
Duração - 123 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às janeiro 14, 2006 08:31 PM

Comentários

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Publicado por: funny ringtones às setembro 17, 2006 01:13 AM

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