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janeiro 19, 2006
Match Point - Crime Sem Castigo
A critica queria o velho Woody Allen. Ele regressou como nunca ninguém o viu. Mais europeu do que nunca, passeando entre Bergman e Dostoievsky, o mais recente filme de Woody Allen é também um filme sobre a luta de classes. Essa luta que, mesmo bem disfarçada, continua a existir. Um filme com crime, sem castigo, mas acima de tudo, sem perdão.
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Match Point já foi feito. A história foi montada um pouco ao contrário, o final não obedece ao esteriótipo de Hollywood da época, mas quem viu A Place in the Sun de 1951, irá certmente encontrar as devidas semelhanças. Mas mais do que essas parecenças narrativas com esse gigantesco filme de George Stevens, este filme de Woody Allen é acima de tudo, um filme extremamente literário.
Há uma carga emocional à volta de Chris Wilton, do primeiro ao último plano do filme, que só costumamos encontrar em dramas literários extremamente poderosos. Longe de Nova Iorque, definitivamente afastado das personagens neuróticas, Woody Allen está na Europa como um verdadeiro europeu e trata as questões com um olhar nada americano. Em Roma sê romano e o cineasta nem pensou duas vezes em aceitar o convite. A presença em Londres parece redutora, em termos de espaço. As ruas e as casas continuam a ser em tudo iguais ás da sua querida Nova Iorque. Mas há uma coisa que Londres tem que o cineasta nunca encontraria na sua cidade natal: uma profunda divisão de classes.
Cada vez mais maquilhada, cada vez mais escondida, mas a verdade é que a luta de classes continua a ser um facto indismentivel na sociedade europeia. Séculos de história e de mentalidades não se apagam com boa vontade e haverá sempre os que são considerados inferiores e os que considerados superiores. E Match Point vive à volta dessa premissa. Como um jovem que se considera claramente inferior, com todos os traumas e tiques de pobre em ascensão social, mais papista que o Papa, perante uma familia claramente superior no seu estilo de vida, que é, a seus olhos, a ambição máxima que um homem pode ter.

É neste ponto que Woody Allen se afasta um pouco deste seu aspecto "europeu" para voltar a colocar os óculos do nova iorquino. Ao longo da história percebemos que não há em Allen qualquer problema com as personagens de classe alta. Pelo contrário, eles são perfeitos em todos os aspectos, correctos, educados, pessoas verdadeiramente conscientes do seu valor, mas que não usam e abusam do seu estatuto. Muito pelo contrário. É nas classes mais baixas, representadas por este Chris Wilcott, um jovem irlandês que encontrou no ténis um escape à pobreza da sua terra natal, que está o alvo. São essas as pessoas mesquinhas, prontas a sacrificar tudo para chegarem ao nivel das classes mais altas. Não ao nivel humano, mas social e monetário. Há aqui um Woody Allen quase desencantado com as classes médias que sempre representou. Um cineasta cinico e extremamente mordaz que não hesita em fazer da sua personagem central a mais diabólica de todas as que preenchem a sua filmografia. E no entanto os seus comportamentos são feitos com tamanha naturalidade que não nos surpreendem. Uma naturalidade no acto e na essência, num filme onde a critica social atinge niveis nunca vistos em filmes anteriores do realizador.
Mais, neste Match Point não há humor. O mundo é claramente uma tragédia. A história do seu filme anterior, Melinda and Melinda, oscilava entre a comédia e a tragédia. Mas Allen já escolheu a sua visão do mundo e ao som constante de ópera soturna, de planos arrastados e extremamente pesados, e, essencialmente, do rosto amargurado e dilacerado pela pequenez humana de um notável Jonathan Rhys Meyers, constroi um mundo injusto, onde os mais fracos perdem sempre, aconteça o que acontecer, e onde os afortunados têm sempre mais hipóteses de sobrevivência do que os realmente bons. Mas há um imenso tom de cinismo e ironia. Apesar do crime sem castigo, há um outro castigo a que Crhis Wilton não poderá escapar. O ter de acordar todos os dias, até ao fim da sua vida.

A presença do romance Crime e Castigo de Fiodor Dostoievsky não é um acaso. Mais do que uma obra extremamente literária, Match Point funciona mesmo como um trabalho que poderia ter sido concebido pelo escritor russo. Há um fatalismo presente em cada uma das cenas, um distanciamento da humanidade inapeláveis, que condenam-nos a todos a viver, apesar do aparente manto da felicidade, numa dúvida interior dilacerante. Oscilando entre Bergman, mais do que nunca, e um intenso e preocupante realismo, Woody Allen monta uma história fabulosa, filmada do primeiro até ao último plano, na perfeição. Com um elenco britânico em grande forma (Rhys Meyers é fabuloso e tanto Emily Mortimer como Brian Cox estão em bom nivel) e com a sexual presença de Scarlett Johansson, que continua a viver mais da beleza natural do que da profundidade dos seus papeis, a trama compõe-se para um final a todos os titulos inesperado. Recheado de brilhantes twists, de um ambiente quase familiar, mas de um pessimismo assustador, é impossível não se ficar maravilhado com este comeback de Woody Allen aos dramas. Um comeback diferente, já que este filme ultrapassa em termos dramáticos tudo o que o cineasta já tinha feito. Mais do que um golpe de sorte, Match Point é um golpe de génio.
Classificação - ![]()
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O Melhor - O argumento criado de forma genial por Woody Allen. Um dos melhores da sua carreira e certamente o mais profundo argumento dramático do ano.
O Pior - Esperava-se mais do desempenho de Scarlett Johansson. Começa a viver mais do seu corpo que da profundidade das suas personagens, e mesmo quando tem algo a dizer parece ser dificil prestar atenção.
Curiosidade - Este é o primeiro de dois filmes que Woody Allen decidiu filmar em Londres. O segundo chama-se Scoop, terá de novo Scarlett Johanson no elenco e estreia em 2006. Mais uma vez promete ser um filme em tons bem negros, partindo da premissa de um crime sem resolução.
Site Oficial - www.matchpoint.dreamworks.com/main.html
Realizador - Woody Allen
Elenco - Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johannson, Emily Mortimer, ...
Produtora - Dreamworks
Duração - 124 m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às janeiro 19, 2006 09:35 PM
Comentários
Para quem não era de todo fan de Woody Allen o filme surpreendeu-me de pela positiva.Match Point foi-me aconselhado por um amigo meu...e eu como céptico que sou,quebrei todo o meu cépticismo ao ver uma das melhores obras feitas no cinema.Quem diria que este Sr.conseguiria deixar-me de boca aberta com todo este excelente argumento!Bravo,Woody Allen.
Publicado por: luisganço às janeiro 11, 2007 11:09 AM
O "novato" Woody Allen no recente descoberto mundo das classes sociais se mostra infelizmente inscipiente, errando a mão em dois pontos chaves:
Maniqueista demais em abusar em excesso da sensualidade de Scarlett Johannson (esse sim o fato que matou sua atuação, mais do que por culpa dela mesma), e ao mesmo tempo pouco hábil em mostrar qualquer profundidade no mundo aristocrata inglês.
Os personagens ingleses são essencialmente tão superficiais, que o filme não consegue passar ao telespectador o desejo do protagonista em manter-se nesse mundo a qualquer custo, tornando a trama policial um tanto quanto inconsequente, senão até artificial.
O protagonista, que jamais chegou a admirar a sua esposa, nem mesmo no início do relacionamento de conveniência, mostrando sua eterna tara pela bela Scarlett, jamais se colocaria em tamanha bravata pela sua condição de compromisso, que em momento algum lhe fez algum sentido. O súbito total desencanto pela gravidez inexperada de Scarlett se torna um subterfúgio insuficiente para a virada do filme.
Do lado positivo, uma qualidade de película, som e fotografia superiores aos seus usuais filmes, com um Woody Allen com recursos financeiros mais vultosos pela produção inglesa, e um roteiro originalmente interessante. Mas, em oposição aos personagens novaiorquinos tão perspicazes e intelectuais que aprendemos a amar, aqui damos lugar a uma dúzia de ingleses tão aborrecidos, que se eu fosse um, sinceramente me ressentiria dessa visão pouco elaborada de Allen.
Publicado por: Vitor às fevereiro 13, 2006 02:55 AM
Concordo absolutamente com a classificação atribuída. 5 merecidas estrelas para um filme que ainda não me saiu da cabeça desde que o vi. Não concordo que o trabalho de Scarlett Johansson seja o pior do filme; penso que está muito bem, embora não considere esta a melhor performance da sua carreira. Genial, isso sim, está Jonathan Rhys-Meyers, que leva tudo à frente. O grande Woody não poderia ter escolhido melhor actor para este papel. Fabuloso.
Publicado por: Paulo Costa às janeiro 31, 2006 10:52 AM
Realmente este Match Point é fantástico. Do mais negro e socialmente incorrecto que já se viu. Um argumento pensado ao pormenor. Só não concordo com a tua apreciação em relação a Scarlett Johannson. Na minha opinião ela tem um desempenho fantástico, um papel secundário cheio de profundidade dramática. Se usa o corpo? Claro que uso. Um bom actor tem que saber usar o corpo, é através dele que se pode alcançar a mente. Se o uso de uma maneira "sexual"? Neste filme talvez. Mas não seria o exigido? Em algumas partes do filme era fundamental usar o charme.
Cump.
Valinor.blogs.sapo.pt
Publicado por: Iluvatar às janeiro 20, 2006 03:10 AM