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janeiro 18, 2006
Opinião - A Sagrada Juventude
Longe vai o tempo onde eram os adultos que enchiam as salas de cinema. Hoje são os jovens que têm tempo livre e dinheiro para gastar. Em grupos, casais ou sozinhos, acompanhados invariavelmente pelo saco de pipocas e pela bebida da praxe, são eles que compõem a plateia das salas de cinema, um pouco por todo o mundo. E esta mudança reflecte-se no próprio cinema. Hoje, para um actor ter sucesso, já não é preciso só talento. É preciso agradar à sagrada juventude...

Nem é preciso pensar muito. Quem são as estrelas que enchem as salas? Só essa análise ajuda a perceber a época em que se vive, e o estado em que vive a indústria cinematográfica.
Já houve os dias dos cavalheiros dos anos 30, dos actores do método dos anos 50, das estrelas cool dos anos 70 e dos herois de acção da década de 90. Hoje, mais do que generos, o que conta é a idade.
Durante quase cem anos o cinema foi um divertimento para adultos. As grandes produções de Hollywood eram feitas para homens e mulheres já feitos, e os actores e as histórias que eram contadas no grande ecrãn também. Nomes ilustres como James Stewart, John Wayne, Cary Grant ou Katherine Hepburn atravessaram épocas, porque o público adulto conseguia sempre identificar-se com eles. Os mais novos e as suas sessões de drive in iam vendo as estrelas passar, desde os primeiros passos até se lançarem na ribalta. Depois tornavam-se nos actores dos "papás" e havia que descobrir a nova next big thing.
É claro que nomes como Steve McQuenn ou Paul Newman eram transversais, mas a realidade era essa. O cinema era para adultos.
A partir dos anos 80 a situação foi-se alterando. Os novos hábitos familiares prendiam os adultos ao trabalho e à casa, mas deixavam os mais jovens á solta. Surgiram as comédias para adolescentes, os filmes de acção e os romances, interpretados, cada vez mais, por nomes mais novos. E se o cinema norte-americano ainda se foi aguentando, dividindo a produção entre os filmes para adultos e o crescente mercado dos jovens, já na Europa os autores nunca perceberam essa mudança. Mais do que outra coisa qualquer, nunca um Godard ou um Bergman fizeram filmes para os mais novos. E não o fazem hoje. Só que o seu público desapareceu, o público dos Cahiers já praticamente não existe e os novos públicos não estão interessados. A Europa, mais uma vez e como sempre, centrou-se em si própria, e fez filmes para salas vazias. A América, pragmática como em tudo, tentou adaptar-se.

Uma das principais consequências desta radical mudança da faixa etária que domina o box-office, aconteceu no meio dos actores. Hoje Dustin Hoffman, Al Pacino, Meryl Streep ou Jack Nicholson já não enchem salas. Nem de longe nem de perto. Porquê? Ora, porque são muito velhos. O espectador de hoje quer ver muita acção, humor ao seu estilo, muitos corpos despidos e um ritmo que não dá nem para respirar. E onde encaixar estes "gigantes"?
Hollywood não o soube. Rendeu-se ao menor sinal de alerta. Os guiões passaram a excluir estas personagens com mais de 40 anos, ou enviaram-nas para papeis secundários. E se hoje há imensos actores na casa dos quarenta para cima, ainda a conseguir aparentar serem mais novos (e no fundo é isso que os vai safando), já com as mulheres a situação é negra. Não há uma única actriz que fosse popular há vinte anos que ainda o seja. A idade não perdoa, o corpo não pode competir com as das novas teen queens e os papeis para quarentonas só servem para mães de jovens disfuncionais ou para sátiras à própria idade. Não fosse o cinema indie, sempre avesso a estas coisas dos públicos, ou uma ou outra produção, e estes actores estariam hoje sem emprego. Como acontece com tantos e tantos outros, que procuram nos teatros ou na televisão a salvação.
Perguntem ao espectador tipo de hoje se prefere ir ver um filme com Harrisson Ford ou com um Heath Ledger. A resposta dificilmente oferecerá dúvidas, e entre uma Kathleen Turner e uma Jessica Alba poucos se darão ao trabalho de sequer responder. As salas de bairro fecham porque os jovens só vêm filmes em shoppings, ninguém faz reposições porque nenhum jovem quer ver filmes a preto e branco do tempo do bisavô...na verdade a sagrada juventude tomou de assalto as salas e revolucionou a indústria, de uma forma que os jovens rebeldes dos anos 60 nunca conseguiram.

Hoje os idolos dos jovens são também eles jovens. Para raparigas de 17 ou 18 anos é nas Lindsay Lohan, Hilary Duff, Emma Watson, Scarlett Johansson que estão os seus modelos. Raparigas da mesma idade, com os mesmos problemas, o mesmo aspecto e as mesmas atitudes. E se os Brad Pitt, Tom Cruise ou Johnny Depp ainda captivam, tanto jovens como adultos, é porque conseguiram manter a mesma expressão juvenil que tinham há dez ou quinze anos atrás. Enganar o mundo para sobreviver. Até porque qualquer jovem actor que não seja propriamente um sweet-hearth das jovens e histéricas adolescentes que ululam nas salas sempre que vêm um Paul Walker em tronco nu, tem grandes dificuldades em vingar. Talvez por isso seja dificil encontrar bons actores com menos de 40 anos. Porque para haver renovação de gerações é preciso papeis sérios e pesados, que nenhum actor jovem está preparado, ou quer desempenhar, por saber que isso estraga a sua imagem junto do seu público.
O problema parece não bater á porta das estrelas de hoje, mas o que acontecerá a uma Natalie Portman quando os seus fãs de agora não tiverem tempo de ir ver os seus desempenhos, e os jovens do futuro acharem que ela já não é interessante a ponto de entrar num filme? E quanto tempo conseguirão Cruise ou Depp aguentar a fama que têm junto das gerações que se seguem?
Questões complicadas que nunca se colocaram, desde que há cinema.
Em 1928 muitos actores foram para o desemprego porque não tinham voz para aguentar o sonoro. Hoje, em pleno século XXI, muitos actores não trabalham porque não têm o aspecto e a idade suficientes para agradar à sagrada juventude, aquela a que tudo é permitido, a mesma que revoluccionou a produção cinematográfica.
A mesma juventude que está, pouco a pouco, a destruir o cinema!
Miguel Lourenço Pereira
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às janeiro 18, 2006 03:26 PM
Comentários
oi adorei oque voceis viseran
Publicado por: camila às fevereiro 11, 2006 01:10 PM
Sim, é claro que todos os actores, mesmo os mais novos e populares correm o risco de terem os seus flops. Depende também da forma como os estúdios gerem os seus filmes. Mas a questão á volta deste nomes era mais o facto de serem os idolos de gente da sua idade, mais do que até serem estrelas de box-office. Há uma combinação entre os dois campos, nuns casos mais noutros menos.
Também pensei no Star Wars quando escrevi o artigo, curiosamente, e é realmente um turning point. Mas mesmo assim, pelo que tenho lido da época, não foram só jovens a irem ver o filme. Mas de qualquer forma é o marco que começa a explorar este novo público.
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às janeiro 19, 2006 01:56 PM
A permissa geral do artigo está certa, mas cai nalguns absolutismos (nos quais os estudios tb parecem acreditar) e que se provaram errados. Lindsay Lohan, Hillary Duff e Jessica Alba não sao garantia de sucesso, vejam-se os resultados modestos dos seus Herbie Fully Loaded, The Perfect Man e Into the Blue. Nestas coisas convém nunca substimar o público.
Acho que faltou também uma referência que era obrigatória ao primeiro Star Wars. O guião de Lucas fora sucessivamente recusado pq era demasiado "juvenil" e esse não era o público que ia ao cinema na altura. Mas como se sabe, isso depressa mudou.
Publicado por: Léccio às janeiro 19, 2006 01:32 AM