« O Que Estreia Por Cá - Ao ritmo das gueixas | Entrada | Brosnan, Bello e Butler em thriller indie »
janeiro 25, 2006
Opinião - Documentário, esse estranho ser!
Se há cada vez menos pessoas a irem ás salas de cinema verem filmes, que dizer dos documentários. Para o grande público o documentário é um estranho ser. Demasiado colado ao termo que abunda em programas da natureza na televisão, o documentário é o primo directo do cinema e em comum têm a origem. Depois, à medida que foram crescendo, como invarivelmente acontece, cada qual seguiu o seu caminho...
De 27 de Janeiro a 5 de Fevereiro o documentarismo volta a Lisboa...vale a pena recordar essa longa viagem desde tempos imemoriais...

Conhecido também como "o outro cinema", o documentarismo tem sido sempre olhado com desconfiança pelo grande público.
Pelo contrário, as elites e um pequeno nicho de cinéfilos sempre procurou dar ao documentarismo a sua importância devida, elevando algumas das suas obras ao estatuto de obras-primas.
E talvez a grande importância do documentarismo é esse afastamento que há em relação ao cinema narrativo. O documentarismo sempre passeou entre tipos estilos diferentes, que, invariavelmente, se acabavam por interligar.
Para os mais activistas, o documentarismo de denúncia é uma ferramenta importante para denunciar o que vai mal na sociedade. Seja através de factos, personalidades ou eventos, ao longo dos anos houve sempre documentários prontos a mostrar a outra face da lua. Um activismo que pode ir dos manifestos quase panfletários de Michael Moore, sempre preparado para disparar a qualquer inimigo em movimento, ou ficar-se apenas por um estilo mais honesto, como o que nos habitou Errol Morris, o homem que está para os documentários como Alfred Hitchcock está para o cinema. A sua obra, que remonta até aos anos 80, tem titulos tão marcantes como Thin Blue Line, Mr Death e o mais recente - e oscarizado - Fog of War, onde Morris defronta Robert McNamara, uma antiga nemesis dos dias da contestação à guerra do Vietname.
Este estilo documental tem claramente um objectivo. Pegar numa situação e desnudá-la perante a plateia. Algo que o cinema também faz, é certo, mas que aqui tem todo o tom do realismo que o cinema, por muito realista que seja, não consegue ter. No entanto o documentário de denuncia não deixa de utilizar técnicas de montagem, de som e fotografia como faz qualquer filme. A optimização estética existe, mas não condiciona nunca a mensagem.

Mas o estilo documental não se fica pelos produtos de contestação e denúncia politica e social. Houve sempre quem viu na camara algo mais que um olho-verdade, como enunciou Dziga Vertov, também ele um iminente documentarista na época em que o género estava em alta.
Pelo contrário, houve sempre aqueles que viram na camara poesia visual, e com o cinema sempre preso a uma narrativa que vive essencialmente de personagens e argumento, com cabeça, tronco e membros, foi no documentário que encontraram o seu porto de abrigo.
É talvez aqui que residem os mais belos e sedutores trabalhos documentais. São documentários que não abdicam da ideia de tomarem uma posição perante a sociedade, a humanidade e tudo o resto...mas fazem-no de outra forma. Recorrendo a notáveis trabalhos de fotografia, a bandas sonoras escolhidas cirurgicamente, cineastas como o georgiano Artavadz Peleschyen procuram criar uma ligação mais profunda entre o homem e a natureza, e entre o homem e si mesmo. Trabalhos como Tarva Yeghanakner-As Quatros Estações, foram o reflexo da sua obra, marcada ainda pela invenção da montagem distante, uma ferramenta que faz pouco sentido no cinema, mas que resulta na perfeição no documentário.

E por fim chegamos ao documentário experimental. Aliás, esta é a origem do documentário. Dos trabalhos de Dziga Vertov, Serguei Eisenstein, Manoel de Oliveira, Jean Vigo, Walter Ruttman ou jean Rouch - o documentarista-sociólogo - saiu muito do que hoje é a bibla dos documentáristas. O seu sentido de inovação foi decisivo para o desbravar de fronteiras no genero documental. Filmes vanguardistas, surrealistas, herdeiras das novas tecnologias, trabalhos verdadeiramente experimentais que não encontram espaço em mais lado nenhum, são a vanguarda do documentarismo, e de uma certa forma, do próprio cinema. É muitas vezes nestes autores - hoje, com uma forte presença de documentaristas asiáticos e europeus nesta vanguarda - que encontramos ideias mais tarde recuperadas pelos cineastas conhecidos do grande público. A eles atribuem-se as inovações, mas muitas vezes elas vêm de trás, muito de trás.
E em Portugal é importante saber que há espaço para todo este imenso universo que é o documentarismo. Seja em Vila do Conde, no Panorama ou no DocLisboa, o cinéfilo português - mais, o espectador português - não tem desculpas para continuar de costas voltadas para o documentarismo.
Porque os documentários não só os filmes da natureza do National Geographic, chegou a hora do documentário deixar de ser, esse estranho ser.
PS: Os U2 tiveram a sua experiência cinematográfica em Million Dollar Hotel. Não correu muito bem, mas continuam a ser uma das bandas mais populares do mundo. O site português U2Only está a preparar uma sondagem para descobrir qual é a melhor música da banda irlandesa para os fãs portugueses. Os interessados devem participar aqui.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às janeiro 25, 2006 11:33 PM