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fevereiro 18, 2006
CANTOS DO MUNDO - AMÉRICA DO SUL
Se na Europa foram os Cahiers o berço da Nouvelle Vague, e se nos Estados Unidos foi a UCLA a formar alguns dos mavericks dos anos 70, o cinema novo brasileiro cresceu á volta de uma figura que tinha tanto de genial como de desconhecida...

Glauber Rocha é, ainda hoje, o maior cineasta brasileiro de sempre. Não pelos prémios que conquistou, nem pelos filmes que fez. Mas pelo sangue novo que injectou na cinematografia do gigante adormecido que é o Brasil.
Contrariamente ao que se passa com o resto do mundo, o cinema no Brasil surge apenas em terceiro plano quando se fala em indústrias artisticas de representação. O império Globo (e em menor escala, a rede Bandeirantes) consagrou a telenovela como a pérola maior brasileira. É desse produto, que exporta anualmente para todo o mundo imagens de um Brasil que não existe, que todos vivem. Produtores, realizadores e, essencialmente, actores. A escola de representação das novelas brasileiras tem provavelmente o maior leque de actores do mundo, logo a seguir á Broadway e Hollywood. Actores ao nivel dos maiores monstros da representação, que no entanto pouco tempo dedicam ao cinema. Entre o teatro - ainda com alguma expressão local - e as novelas, não há tempo. Nem dinheiro para contratar vultos como Lima Duarte, Tony Ramos, António Fagundes, Fernanda Montengro, Susana Vieira ou Regina Duarte. Se fossem norte-americanos já teriam todos óscares ou tonys. Mas são brasileiros, e pagam esse preço.

Foi esse Brasil, do teatro e das novelas, que Glauber Rocha abanou quando surgiu na década de 60. As produções cinematográficas, primeiro na era Getúlio Vargas e depois nos conturbados anos 50 e 60 era o equivalente ao chamado cinema de qualidade, que Truffaut tanto criticava em França. Não havia aventura, emoção, vontade de arriscar. Não se contava o que era o Brasil. Inventavam-se muitos e diferentes países, todos sobre a mesma bandeira. Em 1964, o jovem cineasta de 25 anos foi a Cannes. O Brasil tinha saido vencedor em 1959 com Orfeu, filmado por Marcel Camus, mas obra brasileira pura nunca tinha sido bem sucedida lá fora. A verdade é que Deus e o Diabo na Terra do Sol perdeu para o divertido Le Parapluis de Cherebourg. Mas não interessava. Tal como a Nouvelle Vague francesa, o Cinema Novo brasileiro fez-se notar diante do Mundo, e durante anos tornou-se no cinema mais respeitado da América Latina.
O baiano Glauber Rocha, era em todo semelhante aos cineastas da Nouvelle Vague. Começou como critico de cinema, fez várias curtas-metragens durante os anos 50, e era igualmente admirador confesso do cinema de serie B norte-americano. Também ele alterou a linguagem cinematográfica do cinema brasileiro, dando um outro destaque a aspectos sempre negligenciados como o som, a luz ou a montagem.

Barravento tinha já mostrado o seu potencial, em 1961, e depois da sua presença em Cannes o seu valor tornou-se conhecido um pouco por todo o mundo. A sua obra seguinte, Terra em Transe venceu o prémio da critica no festival francês em 1967 e era já um prenuncio do que iria acontecer no seu Brasil natal. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro valeu-lhe mais um prémio em Cannes, pela sua realização, mas o movimento que tinha começado era já maior que ele próprio. Rapidamente outros cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirzsman, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues ou Rui Guerra seguiram a ideia de que para filmar só era preciso "uma camara na mão, uma ideia na cabeça".
A produção cinematográfica brasileira atingiu o seu expoente máximo em plena década de 60, altura em que, um pouco por todo o lado o cinema nacional de diferentes países, da França ao Brasil, da Alemanha a Portugal, ganhava nova vida.

Interessados em absorver o máximo de realismo possivel das realidades existentes á sua volta, especialmente no árido, pobre e abandonado nordeste brasileiro, os cineastas do cinema novo começaram por se deixar contagiar pelo combate ao fascismo que aos poucos conquistava o país. Mas tal como aconteceria um pouco com todo o "cinema novo", o filme para o público não conseguiu conquistar o público durante muito tempo. Aos fracassos de bilheteiro seguiu-se o exilio para muitos dos cineastas. O cinema marginal sucedia ao tropicalismo, a última fase do cinema novo brasileiro, e novos autores e os resistentes do cinema novo continuaram à procura de formas de fazerem passar a sua mensagem, afastando-se cada vez mais do intelectualismo inicial de Glauber Rocha e seus pares.
O cineasta que revolucionou o cinema brasileiro morreria em 1981, novo, demasiado novo, consciente de que, apesar do falhanço a curto prazo do movimento, o Cinema Novo tinha lançado as sementes para o desenvolvimento de cineastas e amantes de cinema no país do futebol e da telenovela.
Miguel Lourenço Pereira
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 18, 2006 03:15 PM
Comentários
Viva Ramon
Obrigado pelas ressalvas. O filme Orfeu é de Marcel Camus e foi filmado no Brasil e apresentado como brasileiro em Cannes, derrotando o candidato francês Les Quatrecents Coups.
Não disse que Barlavento esteve em Cannes, mas sim que foi a sua primeira longa, e realmente desconhecia que só tinha feito duas curtas, tinha a ideia de serem mais. Onde li, falava-se nalguma relação com o cinema de autor norte-americano e neo-realista italiano, e tem razão quando fala de Terra em Transe como ensaio pós e não pré.
Em relação ao cinema de Vera Cruz, não tinha conhecimento de ser esse o titulo, mas fica a promessa de um texto sobre ele no futuro.
Obrigado pelos apontamentos vindos do outro lado do Atlântico.
um abraço
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 20, 2006 11:49 AM
tendo em vista qe escrevo do brasil é mto bom ver o cinema brasileiro sendo destrinchado num site de portugal, dando sua devida importancia a um movimento cinematografico mto importante nao só para o brasil mas como para o planeta terra, o qual nao o conhece.
farei algumas ressalvas acerca do glauber qe estao erradas no texto ai em cima e deixarei algumas informacoes qe creio estao incompletas, creio qe nao por displicencia do autor mas sim pela dificuldade de se encontrar informacao digna do cinema novo e do seu principal expoente galuber rocha.
1- quando glauber rocha surgiu para o cinema nacional a rede globo nao existia e telenovelas no brasil eram feitas de forma parca e sem audiencia
2- o equivalente ao chamado cinema de qualidade, pode ser chamado das chanchadas da atlantida e dos filmes da vera cruz (qe foi a tentativa de construcao de uma hollywood brasileira)
3- o brasil foi sim vencedor em cannes mas com o filme o pagador de promecas de anselmo do duarte no ano de 1963, desconheco esse filme Orfeu
4- glauber nao fez varios curtas durante a decada de 50, fez soh dois curtas no final da decada de 50 começo da de 60
5- glauber nao era admirador dos filmes de serie b americanos, e tenho certeza nunca foi influencia na sua obra
6- o som, a luz ou a montagem nunca foram aspectos negligenciados no cinema brasileiro pre-cinema novo vide os filmes de humberto mauro e mario peixoto e ainda apuro tecnico da vera cruz, tal negligencia se perfasia nas chanchadas da atlantida qe é soh uma peqena parte da filmografia brasileira
7- barravento nunca estece em cannes mas sim no festival de karlov-vary (perdoem a escrita do nome do festival)
8- tera em transe nao é um prenuncio do qe veio a ocorrer no brasil mas sim um ensaio sobre o qe aconteceu
9- incluir nelson pereira dos santos na lista de cineasta qe seguiram a estetica do cinema novo e de gluber eh um erro, nelson foi um precursor do cinema novo, tendo comecado a filmar na decada de 50, sendo tao importante quanto glauber para cinematografia nacional
bem essas sao as ressalvas mas importantes
obrigado pela atencao
Publicado por: ramon às fevereiro 20, 2006 02:22 AM