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fevereiro 25, 2006

Cantos do Mundo - Europa

Para gáudio dos cinéfilos portugueses, volta a estar em exibição – apesar de ser num circuito extremamente restrito - Il Gattopardo de Luchino Visconti. Este fresco histórico-romanesco de uma sumptuosidade nunca igualada representa o cume do cinema clássico europeu.
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Já antes, Visconti realizara Senso, passado na mesma época e igualmente um drama romanesco onde se encenam paixões individuais em conflito com o empenhamento histórico e colectivo das personagens.
Em Il Gattopardo Visconti um aristocrata comunista, estende-nos, de forma imponente e magnetizante, a sua leitura marxista de um momento decisivo da história italiana, onde a aristocracia passa o testemunho à burguesia ascendente. Foram precisos alguns anos para que o cinema europeu, com 1900, atingisse um momento de semelhante fulgor no reencontro com a história da Europa.
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Burt Lancaster é o único elemento não europeu neste filme, que deve muito ao seu trabalho na figura do príncipe de Salina, com uma interpretação cheia de vigor e de sensibilidade.
Afinal, Lancaster consegue ser a encarnação perfeita de um homem que sabe que a sua era está condenada, e que, apesar de não querer aceitar os tempos que se avizinham, é forçado a apadrinhar os novos actores da sociedade italiana.
Il Gattopardo tem a magia de ser um filme de três Príncipes.
O do Príncipe de Lampedusa, o autor do livro – só publicado após a sua morte. O do Príncipe de Visconti, o fabuloso cineasta de Rocco e Sui Fratelli que ao ler o livro jurou que não descansaria enquanto não o realizasse. E por fim, o Príncipe de Salina, que não é mais do que uma reencarnação dos dois homens anteriores, bem conscientes da limitação da sua classe social nos tempos que corriam à época. Mas é esse reconhecimento, de que a sua era está a acabar, que motiva estes três homens no que fazem, sem no entanto lhes retirar o vislumbre da única certeza que têm: a proximidade da morte.
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Filme profundamente necrófilo, quase uma autêntica procissão até ao beijo da morte final, que não é apenas o despedir de um homem. É o despedir de uma classe social, de uma era. A impotência de Salina diante de Angélica existe, porque ela está destinada ao novo mundo, e como tal, aos homens do novo mundo. Nunca para ele, o príncipe do passado!
Verdadeira obra-prima, que tanta polémica levantou à época pelo choque de versões – a italiana, apadrinhada pelo realizador, e a norte-americana, distribuída pela Fox com menos uma hora de filme e sob o protesto de Visconti – o filme foi o grande campeão de Cannes em 1963.
Mas mais do que prémios e prestigio, Il Gattopardo é um filme imortal, acima de tudo, porque é um ensaio sobre fim. E não há nada tão eterno como a morte!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 25, 2006 11:58 PM

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