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fevereiro 04, 2006
Cantos do Mundo - ÁSIA
A história dos remakes de filmes estrangeiros de sucesso já é bastante antiga em Hollywood. Embora a maior parte dos remakes tenham sido de filmes europeus, os filmes asiáticos obtiveram também a atenção dos americanos, sendo o caso mais flagrante o da obra-prima de Akira Kurosawa, The Seven Samurai (1954) convertido num western à boa maneira americana, pelas mãos do realizador John Sturge, apenas seis anos depois, sob o título The Magnificent Seven. Todavia, nada se compara à moda actual dos remakes de filmes asiáticos, tanto em dimensão, como intensidade, publicidade ou lucro.

Este particular interesse, que despertou um verdadeiro fenómeno à volta das películas asiáticas, teve origem em 2002, pelas mãos do produtor Roy Lee, quando apresentou Ringu, o sucesso japonês de terror de Hideo Nakata, à Dreamworks. Os direitos do filme de Nakata foram adquiridos por 1,2 milhões de dólares. A versão americana foi realizada por Gore Verbinski, sob o título The Ring e com um custo de produção na ordem dos 40 milhões de dólares. Um valor demasiado elevado para o mercado asiático, mas um custo muito menos significativo comparado com qualquer blockbuster de verão americano (entre 100 e 250 milhões de dólares).
O filme foi um sucesso fenomenal obtendo cerca de 130 milhões de dólares apenas em solo americano e mais de 230 milhões de dólares a nível mundial. Curiosamente, Ringu o original japonês que deu origem a The Ring, lucrou 6,6 milhões no país de origem, enquanto que o remake americano rendeu 8,3 milhões de dólares, apenas nas duas primeiras semanas de exibição em solo japonês (!).


Após este sucesso estrondoso, Roy Lee granjeou credibilidade instantânea em Hollywood. Roy Lee que é um coreano-americano, residente na América, apercebendo-se do potencial que possuía entre mãos, fundou a companhia Vertigo Entertainment, juntamente com Doug Davison, que funciona como uma empresa intermediária que vende os direitos dos filmes asiáticos, em nome dos seus legítimos proprietários a estúdios americanos, para produzirem o respectivo remake.
Em 2004, Roy Lee, voltou a apresentar mais um sucesso asiático a um estúdio americano, desta vez o filme Ju-hon, de Takashi Shimizu, transformado na versão americana em The Grudge, com Sarah Michelle-Gellar como rosto principal. Apesar das críticas altamente negativas a The Grudge, o filme atingiu o primeiro lugar no boxoffice americano na primeira semana de exibição em Outubro de 2004 e curiosamente manteve-se como o filme mais lucrativo na semana seguinte, mesmo tendo em conta que estreava o aclamado Ray, de Taylor Hackford (!). Em apenas 4 semanas, The Grudge rendeu cerca de 99 milhões de dólares, ultrapassando largamente os 10 milhões de custo de produção. Co-produzido por Roy Lee, seguiu a mesma fórmula de sucesso iniciada com The Ring, ou seja, pegar num filme asiático de sucesso, manter praticamente tudo idêntico a nível de argumento e apenas substituir os actores asiáticos por caras conhecidas do grande público americano, tais como Naomi Watts em The Ring ou Sarah Michelle-Gellar em The Grudge.


Hideo Nakata, tal como Takashi Shimizu, acabou por lucrar através do produtor Roy Lee. Em 2005, não só viu outro dos seus filmes ser alvo de um remake, Dark Water, oferecido a Walter Salles e com Jennifer Connely no papel principal, como também teve o privilégio de ele próprio realizar em Hollywood a sequela The Ring Two, de novo com Naomi Watts e baseado no seu próprio filme japonês.


De facto, em três anos, parece que nasceu uma nova forma de combater a falta de ideias reinante na 7ª arte em Hollywood, que é copiar o que de melhor é feito a nível do cinema oriental. Roy Lee, apercebendo-se do filão entre mãos, não perdeu tempo, havendo uma série de filmes que actualmente estão em produção, todos produzidos por Lee e baseados em sucessos asiáticos. Para além de The Ring, The Grudge, Dark Water e The Ring Two, já citados anteriormente, estão em marcha:
- The Lake House, com Keanu Reeves e Sandra Bullock, um drama baseado no original Coreano Il Mare. Encontra-se em pós-produção.
- The Departed, com Jack Nicholson, Martin Sheen, Matt Damon e Leonardo Di Caprio, realizado por Martin Scorcese e baseado no aclamado thriller Infernal Affairs de Hong Kong. Encontra-se em pós-produção.
- The Eye, baseado na película dos irmãos Pang, com o mesmo nome. Um dos melhores filmes de terror asiáticos recentes, cuja versão americana terá René Zellwegger no principal papel e realização a cargo de Hideo Nakata. Encontra-se em pré-produção.
- The Grudge 2, a sequela de The Grudge, mantendo-se o realizador original Takashi Shimizu e Sarah Michelle-Gellar como protagonista. Encontra-se em pré-produção.
- Oldboy, a pérola do realizador Coreano Park Chan-Wook, vencedor do grande prémio do júri no festival de Cannes, irá ser alvo de um remake homónimo americano, anunciado para 2006 e eoferecido ao realizador de Orange County, Justin Lin. My GOD!!!!
- My Sassy Girl, a comédia Coreana mais aclamada de sempre, também terá remake com o mesmo nome e realizador desconhecido. Anunciado para 2006.
- Adicted, remake do filme de terror coreano Jungdok, de 2002. Anunciado para 2006.
- Chaos, mais um flme de Hideo Nakata adaptado ao cenário americano. Desta vez é Kaosu, um thriller japonês, de 1999, que vai ser alvo da versão americana realizada por Jonathan Glazer (Birth) e com Robert De Niro no principal papel. Anunciado para 2006.
- Shutter, remake do filme de terror tailandês, com o mesmo título, uma das belas surpresas do cinema asiático recente. Anunciado para 2007.
- In-Utero, remake do filme The Eye 2 dos irmãos Pang. Anunciado para 2007.


Podemos facilmente concluir que Roy Lee tem uma série de remakes para produzir que perspectivam igual ou maior sucesso no box-office americano nos próximos dois anos. De facto, Lee rapidamente se apercebeu que sendo uma fonte vasta de criatividade, o cinema asiático não vive só de películas de terror, por isso, os remakes previstos abrangem comédias, thrillers, dramas, romances, etc, ou seja praticamente todos os géneros. Aliás, para os menos atentos, o filme Shall we dance? (uma lamechice terrível com Richard Gere e Jennifer Lopez nos principais papeis) é um remake do filme homónimo japonês de 1996, tendo sido igualmente um sucesso em terras americanas. Só por curiosidade, Roy Lee, neste momento, é apelidado de “Rei dos Remakes” em Hollywood.
Resta questionar o porquê do mercado asiático ser tão apelativo para os americanos. Na 2ª parte do artigo colocarei as possíveis explicações para este fenómeno, dadas pelo próprio Roy Lee e por alguns críticos de cinema americanos e explanarei igualmente a minha opinião sobre o assunto. Todos sabemos que o cinema mundial vive uma crise e o cinema americano, em particular, sofre de uma gritante falta de ideias, o que explica de certa forma os remakes. A questão principal aqui é: Mas porquê os remakes de filmes asiáticos? Que características tornam os filmes apelativos para a audiência ocidental? Será que é possível ter o mesmo impacto transformando o filme asiático num produto ocidental?
Gostaria que manifestassem a vossa opinião, para que no próximo artigo seja contraposta com a do próprio Roy Lee e tentarmos perceber o fenómeno dos remakes de filmes asiáticos.
Sérgio Lopes
www.cineasia.blogspot.com
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 4, 2006 12:28 AM
Comentários
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