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fevereiro 24, 2006

Capote - O Preço da Vaidade

O homem que tudo quis, tudo perdeu. Capote não é a história do celebre escritor Truman Capote. É o relato da criação de In Cold Blood, o livro que o celebrizou definitivamente no panorama literário norte-americano, mas que foi o preço que o escritor teve de pagar pelo seu gigantesco egocentrismo. No final os assassinos são mortos. Mas muito de Capote seguiu para o outro mundo com eles.
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Cinco nomeações aos óscares. Um registo impressionante para um filme tão mediano e sonolento. O trailer de Capote tinha ritmo, jogava bem entre o espaço urbano e o espaço rural, e mostrava um Capote intenso. O filme é o registo totalmente oposto.
Ritmo é algo que Capote não tem. O filme demora a arrancar, arrasta-se durante duas horas, e o final não poderia ter sido mais vazio. Pelo meio há uma notável encarnação de Seymour Hoffman na figura do polémico escritor. Mas aqui entra a dúvida que já existia o ano passado com Jamie Foxx em Ray, e que acontece sempre em filmes biográficos. Afinal, copiar os tiques, os maneirismos, as atitudes de uma personagem real é representar, na mesma medida em que criar uma personagem do zero é o verdadeiro mister de um actor?
Se for, então Seymour Hoffman faz realmente uma brutal interpretação como Truman Capote. E o melhor mesmo do seu desempenho é o jogo entre a contenção dramática do homem, com belos planos de olhares e reflexões do escritor, e o over acting exagerado - mas realista - da personagem que Capote criou para escandalizar a sociedade. Aqui vemos as duas facetas do homem. A primeira é facilmente irritante, a segunda consegue ser bastante sedutora. E no fundo, essa é mesmo a alma do filme.
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Se Philiph Seymour Hoffman é o vertice central do filme, a grande surpresa é Clifton Collins Jnr. Um desempenho contido mas extremamente perturbante, é ele o único a dar troco à presença de Capote, que qual carvalho no centro de uma floresta, suga toda a água à sua volta. Talvez por isso Bruce Greenwood, Catherine Keener (inexplicável a sua nomeação) ou Chris Cooper passem o filme em piloto automático. A camara não quer saber deles, a história não quer saber deles. O filme alimenta-se de Capote como Capote se alimenta de todos à sua volta. E nesta centralidade à volta da personagem, o show de Seymour-Hoffman faz sentido. Um actor mediano, que tem aqui, literalmente, o papel da sua vida, teria dificuldades num registo em que tivesse alguém a dar réplica. Como não tem, o show é inevitável. Mas não chega para tirar Capote da imensa mediania em que está, desde o primeiro instante.
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Benneth Miller, o estreante do ano na realização - a par de Paul Haggis - nunca toma pulso ao filme. Ou melhor, decide que o filme não deva ter ritmo. Tal como a história dos assassinatos do Kansas se arrastou durante mais de quatro anos, também o filme se arrasta, lentamente, com muitos fundos negros a servir de ponto de ligação, num autêntico vazio de emoções, onde até há tempo para sentir pena pelos assassinos, e sentir pena pelo homem que faz de tudo para ter o que quer - comprar a autoridade, usar os prisioneiros, usar a justiça...Esse retrato de auto-complacência de Capote, esse espelho do seu egocentrismo, é destroçado no final, quando se percebe que a ligação que se estabelece entre ele, e Perry Smith, um dos criminosos (aliás, o único dos assassinos entre os dois), é grande demais para ser quebrada de forma abrupta. Como o generico final conta - não era preciso - Capote nunca mais conseguiu escrever. O preço da vaidade foi demasiado alto.

Classificação - fantasdia4.giffantasdia4.gifmeia_estrela2121.gif

O Melhor - O desempenho de Philiph Seymour Hoffman, obviamente.

O Pior - A falta de ritmo do filme. Está morto na primeira hora!

Curiosidade - Pelo filme passam três conhecidos escritores. Para além do reputado Capote, há ainda Harper Lee (autora do celebre To Kil a Mocking Bird) e Jack Dunphy, que escreveu livros como John Fury.

Site Oficial - www.sonyclassics.com/capote

Realizador - Benneth Miller
Elenco - Philiph Seymour Hoffman, Clifton Collins Jnr, Catherine Keener, ...
Produtora - Sony Pictures
Classificação - m/12
Duração - 120 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 24, 2006 02:09 PM

Comentários

Concordo a 100%. A nomeação da Keener é, de facto, inexplicável, sobretudo quando deixam Scarlett Johanson e Maria Bello de fora!

Publicado por: Miguel Galrinho às fevereiro 28, 2006 08:38 PM

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