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fevereiro 22, 2006
Fantas - Dia 2
Entre a genialidade de Fritz Lang e a provocação do cinema softcore japonês, o segundo dia do festival correu como esperado, sem grandes sobressaltos, mas também sem grandes pontos altos. O destaque vai para The Other Half, uma divertidissima comédia futebolistica com Portugal como pano de fundo...

Ainda sem competiçao oficial - e nota-se no contingente de imprensa e nos espectadores - o Fantas decorre no Rivoli com toda a naturalidade de um festival que ainda está a dar os primeiros passos nesta sua 26º edição.
O dia de hoje foi consagrado ao cinema softcore japonês. O dia abriu no grande auditório com A Woman Called Abe Sada, a história que inspirou o aclamado Império dos Sentidos de Oshima. Um filme onde o sexo é um elemento da vida de uma mulher, uma gueisha, que para se vingar do amante lhe corta o pénis, matando-o em seguida.
De seguida passou, ainda no grande auditório, o filme Angel Guts, a segunda parte de uma serie de filmes softcore na década de 70 do Japão. Um filme desconcertante, até para a própria audiência que não parecia estar à espera de algo tão desapontante.
No pequeno auditório já tinha rolado M, a obra-prima alemã de Fritz Lang, que marcou o seu ponto alto nos estúdios da UFA, antes de viajar para Hollywood onde continuou uma brilhante carreira por mais vinte anos. Aind ano pequeno auditório houve retrospectivo dos irmãos Shaw, com The House of 72 Tenants e Bill Plympton com o filme, I Married a Strange Person. Já noite dentro fechou-se a saga dos Nibelungos com A Vingança de Cremilde, o segundo filme de Lang do dia, um fecho com chave de ouro para o pequeno auditório.
No espaço central do festival houve The Other Half, comédia em futebolês com um incrivel reportório de gags, que só perdem por se notar claramente que é um filme com poucos meios.
Para fechar o dia, ainda no grande auditório houve Spirit Trap, a trabalhar no modelo clássico do cinema de terror.
Amanhão o Fantas continua, com a abertura da retro Bollywood na biblioteca Almeida Garret. São exibidos os filmes Chori Chori Chupke e Mughal-E-Azham.
No pequeno auditório há The Tune, de Bill Plympton, e A Mulher na Lua de Fritz Lang. De noite The Love Etern continua a retro dos manos Shaw e Plympton regressa, desta feita com Mutant Aliens.
Para o espaço principal estão reservados quatro filmes. The Woman With Red Hair, um softcore japonês, The Midas Touch que chega da Hungria, Har High, o último filme de Plympton, e, para fechar, Incautos de Miguel Bardem.
As nossas recomendações vão para A Mulher na Lua, de Lang, o mais recente trabalho de Bill Plympton e para o filme de 2004 cineasta espanhol que realizou A Mulher Mais Feia do Mundo.
OS FILMES DO DIA
M
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A grande obra-prima da filmografia de Fritz Lang na Alemanha.
O cineasta adaptada a história real do "vampiro de Dusseldorf", executado dois meses depois da estreia do filme, para fazer um verdadeiro retrato do terror, uma especie de antevisão do regime nazi que já espreitava na Alemanha.
Um suposto pedófilo - desempenho assombroso de Peter Lorre - rapta criançase e mata-as. A cidade vive em constante terror com a sua omnipresença, qual fantasma, e a policia é impotente nas suas buscas. Sempre que ele está perto, consegue escapar e diluir-se na multidão anónima. É então que os ladrões da cidade, impedidos de trabalhar pelas apertadas medidas policiais, decidem ser eles a capturar o pedófilo. Trabalham em grupo, descobrem-no e marcam-no com um M, desenhado a giz nas costas do seu casaco.
M é uma obra-prima em termos técnicos. O filme utiliza todo o potencial do sonoro, na altura ainda a dar os primeiros passos na Europa, misturando sequências de mudo com diálogos espantosos. É mesmo graças ao som do assobio que o criminoso faz, repetidamente, que os ladrões da cidade o conseguem descobrir e identificar. Montagem primorosa, decors espantosos e um ritmo frenético no filme que, não só um alerta ao aparecimento do regime nazi (convulsão social, justiça pelas próprias mãos), como acaba por ser o pai de todos os thrillers, desenvolvidos mais tarde por Lang nos Estados Unidos, mas também por nomes como Alfred Hitchcock ou John Carpenter.
A maior obra-prima do cinema alemão e o último filme de Lang na Alemanha. Os nazis não gostaram do retrato e o realizador decidiu exilar-se, apesar da argumentista Thea von Harbou - que era também a sua mulher - se ter tornado numa das maiores colaboracionistas do regime hitleriano.
Realizador : Fritz Lang
Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann e Inge Landgut
Duração: 117 m

Angel Guts
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O primeiro - e espera-se último - grande fiasco do festival este Angel Guts.
Dirigido por Chusei Sone, este é o segundo capitulo de uma serie de filmes que marcaram o cinema soft core japonês do final dos anos 70. Um filme datado, tanto no ritmo como na cor, e cheio de habilidades técnicas que não disfarçam o pobre argumento e desempenho dos seus actores.
Um pornógrafo, com pretensões a artista erótico, fica viciado numa actriz porno, Nami, que vê num filme. Um dia, encontra-a por acaso como recepcionista do hotel onde são feitos os ensaios fotográficos para a sua revista. Promete-lhe amor eterno, mas falta ao encontro do dia seguinte, depois de ter sido preso. A mulher desesperada entra numa espiral de masoquismo psicológico onde o sexo desempenho o motor da sua nova vida. E quando se reencontram, três anos depois, nada volta a ser o que foi.
Um filme provocante, mas timido no tratamento do sexo. Soft core quanto baste, Angel Guts tem provavelmente a mais longa e maçadora cena de sexo da história do cinema japonês, onde a obsessão aliada a uma jovem insaciável criam alguns momentos de humor, mas sem profundidade alguma.
O filme acaba por descarrilar no final, perdendo de vez todo o contacto com o real, e fazendo perder a paciência a uma plateia maioritariamente composta por jovens que, aparentemente, não sabiam ao que vinham.
Realizador : Chusei Sone
Elenco : Keizo Kanie, Yuuki Mizuhara e Jun Aki
Duração: 79 m

The Other Half
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Peguem em Portugal, colorido de bandeiras a tresandar a futebol e juntem um inglês fanático que esperou a vida toda para ver a selecção inglesa jogar. Agora juntem-lhe uma mulher norte-americana, que não vai à bola com o desporto-rei e que acha que veio para o nosso país passar a lua de mel. Estão aqui os ingredientes para este desafio inesquecivel, uma autêntica final com 98 minutos de muito humor e um estranho sentimento de proximidade.
Afinal o cenário é Portugal durante o 2004 e tudo nos parece familiar. O jogo tem todos os condimentos de uma grande partida. Há um treinador, versão consciência, sempre com uma táctica para cada situação de jogo. Dois comentadores excêntricos, como todo o comentador deve ser, e duas equipas equilibradas e com desejos diferentes.
O final, já se está a ver, é um empate, até porque no casamento ninguém ganha e ninguém perde. Mas o que fica pelo meio é hilariante, especialmente na primeira metade do filme, e nos minutos finais. O que fica a perder é a clara falta de meios que impediu a produção de conseguir imagens dos jogos em questão, substituindos por animações que apesar de terem o seu charme, fogem completamente ao espirito da história. Há pontos fracos no guião, as interpretações são divertidas, mas pouco mais, e o filme tem um ritmo muito próprio, que ora acelera, ora trava de repente.
Mesmo assim, depois dos 90 minutos (aqui são 98, somem-lhe os descontos), o empata agrada a gregos a troianos, e traz uma boa imagem de Portugal lá fora, e uma boa comédia para se ver, cá dentro.
Realizador: Marlowe Fawcett e Richard Nockles
Elenco: Danny Dyer, Gillian Kearney e Vinnie Jones
Duração : 98 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 22, 2006 02:20 AM