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fevereiro 24, 2006

Fantas - Dia 4

A noite do velho e o mar. Ao quarto dia o Fantas viu aquele que será provavelmente um dos grandes filmes do festival. Kim Ki-Duk regressou em grande com The Bow, um filme assustadoramente belo. O último dia, antes do arranque oficial da competião, ficou também marcado pela exibição de dois dos filmes mais miticos da história do cinema...
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Sunrise - que é a par de It´s a Wonderful Life o filme mais belo de sempre - abriu a tarde no pequeno auditório.
Um dos poucos filmes que se podem verdadeiramente considerar perfeitos, Sunrise é o expoente máximo da obra de F.W. Murnau.
Filmado nos EUA, aquando da sua passagem pela Fox, o filme é de uma poesia visual assombrosa, além de ser muitissimo avançado para a época (1927).
Logo de seguida, e ainda num pequeno auditório praticamente cheio, passou Metropolis.
O primeiro filme verdadeiramente futurista confirmou Fritz Lang como um dos maiores cineastas da história.
A história de uma cidade - Metrópolis - que vive dividida entre operários e pensadores, é o balão de ensaio para esta análise à luta de classes, a força do amor e sobre eventuais cenários do futuro.
No grande auditório o dia começou com Love Filme, obra apaixonada de Istvan Szabo. A fechar a tarde, nova viagem ao cinema erótico japonês com Professional Specialist.
O quarto dia de festival marcou também a chegada do Fantas ao AMC com a exibição de dois filmes, Mundos Paralelos e Um Lobisomem na Amazónia. A retrospectiva de Bollywood continua na biblioteca Almeida Garet com WAQT e Kal Ho Naa Ho.

A noite teve o grande atractivo com o regresso do brilhante cineasta coreano Kim Ki Duk.
Depois do aclmado Bin-Jip, Ki Duk voltou a superar-se com um verdadeiro poema sob o titulo de The Bow, o filme que mais público trouxe hoje ao grande auditório, ainda longe das enchentes previstas para a próxima semana.
Para fechar a noite houve uma viagem à Rússia czarista com The Rider Named Death, épico ambicioso e arrojado.
No pequeno auditório a noite fechou com dois filmes da retrospectiva dos irmãos Shaw: The Kingdom and the Beauty e One Armed Swordsman.

Hoje, sexta-feira, o Fantas arranca finalmente a todo o gás.
O ponto alto será a cerimónia de abertura, seguido da exibição do filme Coisa Ruim, o primeiro filme português com honras de abertura do festival.
Pela tarde passam Desperate Remedies, A Tale of Two Sisters e Sword on the Moon, e na primeira grande noitada à Fantas, há The Eco e The Nun.
O pequeno auditório continua a homenagem ao cinema alemão com a exibição do Fausto e Nosferatu. À noite há homenagem a Robert Wise com o popular The Day The Earth Stood Still, e para fechar há Zombie Kings e dois episódios de Masters of Horrors.
Na biblioteca Almeida Garrett há mais dois filmes de Bollywood: Mumma Bahi M.B.B.S e Dil Se.
No AMC continua Mundos Paralelos e é exibido o aclamado Incautos, isto no dia em que o Fantas chega ao Passos Manuel com Rain a abrir a sala ao festival.

As nossas recomendações para o dia passam obrigatoriamente por Coisa Ruim - já esgotado - e pelo visionamento obrigatório de dois filmes magistrais do cinema europeu, Fausto e Nosferatu. Para quem quer rever ou teve a infelicidade de não ter visto, Incautos é um filme a ver.

OS FILMES DO DIA


The Bow

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Nunca se disse tanto em tão pouco.
Quando nos deparamos com um filme em que meras trocas de olhares, sorrisos e lágrimas são capazes de contar, só por si, uma grande história de amor, então temos de reconhecer que estamos diante de uma pérola rara. The Bow é isso mesmo, um filme rarissimo, tanto pela sua originalidade como pela sua beleza.
A história de amor de um velho pescador e de uma jovem de 16 anos, que ele resgatou há dez anos e com quem pretende casar no seu próximo aniversário, poderia ter sido tratado de mil e umas maneiras, cheias de diálogos punjantes e performances avassaladoras. Mas Kim Ki Duk é um cineasta-poeta e aqui só é permitido falar quem está fora da história. Os personagens principais não abrem a boca. Não precisam. Comunicam através do olhar, do silêncio e de um arco, que tanto serve para fazer música, ao som das águas, como para espantar todos aqueles que quiserem quebrar esta união insólita.
Só que há um dia em que tudo é questionado. Parece que o silêncio já não diz tudo, e que há mais para descobrir, a ver. De dos, o jogo passa a três, e com este novo jogador tudo se complica. Os sorrisos tornam-se lágrimas, a dor invade caras alegres. A jovem percebe a importância do sexo, o velho percebe a sua impotência diante o fulgor dos novos. E quando tudo podia acabar mal, de forma corriqueira e pouco interessante, Kim Ki Duk entra no universo mistico e fantástico e desenha um final como poucos poderiam imaginar. Um final tão belo que até custa a acreditar. No final, The Bow fica na memória como um filme inesquecivel, e Kim Ki Duk consolida a sua imagem de ave rara no universo cinematográfico.

Realizador : Kim Ki Duk
Elenco : Seong-hwang Jeon, Yeo-reum Han e Gook-hwan Jeon
Duração : 88 m

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Metropolis


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Hoje Metropolis é um filme datado. Ao contrário de outros filmes de Lang, e outros filmes da época, o trabalho técnico de Metropolis - que à época era fabuloso - hoje cansa a vista. Não que a montagem não seja espantosa, especialmente ao nivel da narrativa visual, mas o filme ambiciona ser mais do que o que poderia ter sido. O tom épico fica-lhe bem, mas à medida que o filme vai avançando, nota-se que este se vai arrastando em algumas cenas. Os ante-titulos como "contadores" de partes importantes da história, sem imagem correspondente, também ajudam a quebrar o ritmo.
Mas de qualquer forma, Metropolis é um marco da sétima arte.
Da banda sonora ao trabalho de montagem, do simbolismo da história à dimensão prospectiva de Lang, tudo no filme é fascinante.
Lang não filme aqui apenas uma história de um amor impossivel. O que há aqui na verdade é uma analise à luta de classes, tipicamente num tom marxista, onde o operariado se cansa de esperar pela melhoria das condições de vida e parte à rebelião (ao som de La Marseillese), sendo depois confrontados com as consequências do seu acto. Da mesma forma o patronato (aqui sob o titulo dos "pensadores), despreza o operariado e vive à custa deles, acabando por ser o gatilho da revolução, apercebendo-se iguamente tarde da gravidade do seu acto. E apesar de pelo meio Metropolis, qual Babel, ter estado à beira da destruição total, a mensagem do filme é bem diferente. Lang é um conciliador, e a aposta do filme está no elo de ligação entre operários e patronato, na figura do filho perfeito, disposto a tudo para salvar a mulher que ama, os seus irmãos operários mas também o seu pai e a sua cidade.
A figura mais interessante do filme acaba por ser Maria, o robot criado por vingança e que acaba por funcionar com o elo de ligação entre as duas facções, sendo ela quem despoleta todos os confrontos. Mas à Maria demoniaca, queimada na fogueira, há a sua versão santa e imaculada, a jovem donzela Maria, numa especie de dicotimia biblica entre uma Maria Madalena, corruptora dos homens, e uma Virgem Maria, a sua santa protectora.
A religião é figura omnipresente em todo o filme, tal como a importância da ciência na evolução da especie humana.
No final - e apesar dos desempenhos exageradissimos, mesmo para a época - o filme convence os mais cépticos. Não é Sunrise - a obra máxima desse ano - nem M, essa obra-prima "Languiana", nem Fury, You Only Live Once e The Woman on the Window, as suas obras máximas do periodo americano, mas é um marco histórico fundamental e um filme inesquecivel.

Realizador : Fritz Lang
Elenco : Gustav Fröhlich, Brigitte Helm e Alfred Abel
Duração: 153 m

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Sunrise

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Dele já se disse tudo.
Talvez tenha sido François Truffaut o melhor a defini-lo, ao catalogar Sunrise como "o filme mais belo de sempre". Há poucos filmes que se possam considerar verdadeiramente perfeitos. Não serão mais de uma dúzia em mais de cem anos de cinema. Mas Sunrise é um deles.
F. W. Murnau criou um filme que ainda hoje se vê normalmente, apesar da sua mudez crónica e dos seus oitenta anos. Aliás, não é preciso som em Sunrise. Os efeitos técnicos, da tempestade final ao rebuliço da cidade estão descritos de tal forma que não precisamos de ouvir nada. Basta ver que o som começa a ecoar, naturalmente, nos nossos ouvidos. E o mesmo se passa com os assombrosos desempenhos de Janet Gaynor - a primeira actriz a vencer o óscar, nesse mesmo ano - e de George O´Brien. Da inocência angelical da primeira opõe-se a natureza orgulhosa do segunda. Mas juntos formam uma dupla inesquecivel, que acompanhamos, para o bem e para o mal, como em todos os casamentos, ao longo da história.
Do filme já tudo se disse. Que tem alguns dos maiores planos da história do cinema. Que a cena final da tempestade ainda hoje não foi superada por nenhum filme. Que quando o filme parecia acabar de forma melodramática e leve, Murnau dá uma reviravolta e cola-nos à cadeira para um suspense final de cortar a respiração. Tudo. Já se disse tudo.
Mas o que não cansa é dizer que não há plano, sequência, instante, em que não nos deixemos contagiar pela beleza poética desta história de um amor sofrido, um amor que apesar dos altos e baixos, é maior que tudo e que todos.
Sunrise é ainda hoje a prova viva de que a perfeição existe!

Realizador : F. W. Murnau
Elenco : George O´Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingstone
Duração : 95 m

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Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 24, 2006 03:27 AM

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