« Óscares 2005 - Melhor Actriz Secundária | Entrada | Vince Vaughn vai à Lapónia »
fevereiro 28, 2006
Good Night and Good Luck. – Cinema de Cruzada
Edward Murrow fazia jornalismo de cruzada. George Clooney faz cinema de cruzada. Dois homens, o mesmo ideal. E tal como o jornalismo de Murrow, também a forma de realizar de Clooney é sóbria, cívica e exacta. Um poema dedicado a todos os amantes da liberdade!
Filme de ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()

Se há algo mais assustador que estar em guerra, isso é estar em guerra com nós mesmos. Os Estados Unidos viveram um clima de paranóia anti-comunista durante toda a Guerra Fria, mas os anos pós-2º Guerra Mundial foram os piores. O senador do Wisconsin, Joseph McCarthy começou uma autêntica “caça ás bruxas”, denunciando a presença de comunistas infiltrados no sistema norte-americano. Durante anos as audiências, feitas pela comissão liderada por McCarthy, causaram o terror diante de todos aqueles que se opunham aos seus métodos. E apesar de haver muitos que queriam denunciar McCarthy, o rótulo comunista era um fardo demasiado pesado para arcar sozinho. Foi então que a equipa de redacção do programa See It Now da CBS decidiu que estava na altura de alguém bater o pé aos atentados aos direitos cívicos dos norte-americanos. O apresentador do programa – e patrono dos jornalistas desde então – era Edward Murrow, um veterano desde a cobertura da guerra na Londres bombardeada. Murrow inspirou milhões com a sua coragem em fazer frente a um dos pesos pesados do Senado norte-americano. E uma dessas pessoas foi o pai de George Clooney, pivot de televisão à época. E foi também numa homenagem ao pai, que Clooney decidiu abraçar este projecto fascinante.

Clooney já tinha dado traços de enorme potencial na sua primeira obra, Confessions of a Dangerous Mind (também com o universo televisivo como pano de fundo), e agora confirma tudo o que de bom se esperava dele.
Good Night and Good Luck. é um filme que nunca ambiciona mais do que ser um filme de mensagem politica e social, nos dias dificeis que correm – hoje, como ontem – mas que por isso mesmo é um filme brilhante. Tecnicamente muito simples e muito honesto – com uma montagem deliciosa, e uma fotografia a preto e branco do que melhor que já se viu – Good Night and Good Luck. acompanha a luta da equipa da CBS contra McCarthy. Essa é a premissa do filme. O que despoleta a narrativa e o que a fecha. Mas o filme é muito mais do que isso. É um retrato sobre os direitos individuais dos cidadãos, e sobre a liberdade de imprensa. As pressões económicas, politicas e sociais pautam sempre o ritmo de trabalho da equipa. E é aí que surge a figura, quase paternal, de Murrow, como o líder natural do grupo de descontentes. Um líder sempre sóbrio, consciencioso e justo, uma figura como certamente houve poucas.

E nesse retrato, David Strathairn é impecável, ao mais ínfimo pormenor. Se o espírito do filme é a mensagem politica – Clooney é dos cineastas mais políticos da actualidade – sobre a liberdade de imprensa, o motor da história é o desempenho de Strathairn. Um desempenho de uma enorme contenção dramática, mas com uma revolta interior que não passa despercebida. Mas apesar de líder, Murrow hesita. Sempre que acaba uma emissão, o seu olhar treme levemente, como se estivesse sempre a medir as consequências dos seus actos. E isso torna-o mais humano, mais natural, e mais apaixonante. Mas se Murrow (ou Straitharn) é o líder, o sucesso da investida resulta também da equipa por detrás do líder. George Clooney é como actor o mesmo que é como realizador. Sóbrio e exacto, no papel do produtor televisivo Fred Friendley. Arrisco-me a dizer que há mais Clooney neste papel do que propriamente em Syriana, o filme que lhe valeu a nomeação ao Óscar de melhor actor secundário. Mas quem se destaca no elenco secundário (para além de Frank Langella ou Patrícia Clarkson) é sem dúvida Robert Downey Jnr. Um actor genial, que felizmente está a recuperar de dias difíceis. O seu génio é que permanece lá, e está tão brilhante como antes, quando fora uma rising star.

Num ano imensamente politico, Good Night and Good Luck. é talvez o mais politico de todos os filmes. Não porque Munich ou Syriana não o sejam, mas porque aqui é a mensagem politica o actor central da narrativa, e Murrow (ou melhor, Strathairn), a sua encarnação. Nesse sentido, o segundo filme de Clooney é um marco histórico importantíssimo, e um retrato perfeito de uma era difícil.
Há filmes que foram feitos para serem grandes filmes. Há filmes que foram feitos para ser um bom entretenimento. E há filmes que nasceram para defender uma causa, um valor, um ideal…Good Night and Good Luck. é um desses filmes. E apesar de não ser um filme muito ambicioso, Good Night and Good Luck. é um filme imperdivel!
Classificação – ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
O Melhor – A sobriedade e subtileza de tudo no filme.
O Pior – Um filme destes não tem coisas negativas. Apenas facetas pouco exploradas.
Curiosidade – Todas as imagens do senador McCarthy são imagens de época. Clooney quis manter ao máximo o espírito do filme, e não quis substituir a figura tão real, por um actor.
Site Oficial – wip.warnerbros.com/goodnightgoodluck
Realizador – George Clooney
Elenco – David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jnr, …
Produtora – Warner Independent
Duração – 93 m
Classificação – m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 28, 2006 01:44 PM
Comentários
Excelente análise, amigo cinéfilo :). Também já o analisei no meu blog. É realmente um filme cheio de espírito de época e que apesar de decorrer nos anos 50, aborda questões que continuam a ser actuais.
Cumprimentos
Publicado por: S0LO às março 2, 2006 01:02 PM