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fevereiro 01, 2006
Opinião - Óscares com Consciência
O orçamento não contou. As receitas do box-office muito menos. O apoio dos criticos não foi fundamental e as nomeações pelas Guilds foram mesmo secundárias. No final de contas, o que aconteceu com a Academia? Num ano fraco, a colheita final foi a mais selectiva possivel. Numa viagem aos anos 70, a Academia decidiu que 2005 seria o ano em que os óscares voltariam a ter consciência...

Nem o bem sucedido Walk the Line conseguiu. Nem pensar em filmes como Memoirs of a Gueisha ou King Kong. Não. Este ano o requisito para ser nomeado para melhor filme não foi ter muitas nomeações, ou as "nomeações certas". Foi ser um filme que fizesse as pessoas pensar. Um filme de conteudo. Um filme de debate, de consciencialização.
É esse o elo de ligação entre os cinco filmes escolhidos. Brokeback Mountain, Good Night and Good Luck., Crash, Capote e Munich contam histórias. Não histórias simples, fáceis de digerir, feitas de maneira profissional mas sem alma e chama. Contam histórias sérias, sobre assuntos importantes. Histórias com sentido e significado. Da luta contra o comunismo ao amor entre homossexuais, do racismo ao terrorismo, passando pela eterna problemática da inocência, os cinco nomeados deste ano são filmes que têm algo a dizer. O que há muito não acontecia.
É preciso recuar aos anos 70 para encontrar alinhamentos tão politizados. E mesmo assim nunca nenhum ano conseguiu escolher filmes tão low-profile, tão afastados da indústria que normalmente utiliza os óscares para se auto-glorificar com grandes produções.
Ganhe quem ganhar - e apesar das oito nomeações, Brokeback tem menos vantagem do que se possa pensar - é o cinema norte-americano que vai benificiar desta escolha. Está aberta a temporada do pensamento politico no cinema, deriva natural da extremização da sociedade norte-americana após o segundo mandato de George Bush.
Como Munich e Capote conseguiram apoio para serem o melhor filme sem qualquer base entre os actores, no primeiro caso, ou nos técnicos, no segundo, é a prova de que, mesmo esses souberam distinguir, pela primeira vez em muito tempo, o importante do acessório. Para as nomeações técnicas havia filmes mais indicados do que os cinco principais. Daí as nomeações de Walk the Line, Memoirs of a Gueisha ou The Chronicles of Narnia. Mas mesmo esses membros perceberam que, apesar de na sua área estes serem as escolhas certas, no top5 final era preciso algo mais. E daí as nomeações de filmes que, num qualquer outro ano, dificilmente passariam das duas ou três centenas de votos.

Num ano extremamente politico, a Academia ignorou os money-making films. Walk the Line era visto como um Ray II, para quem não percebeu. Memoirs of a Gueisha, um dramalhão de época, muito bem feitinho mas sem alma. E King Kong, Jarhead ou The New World nunca pegaram muito no goto dos membros, não se espantando a sua ausência.
Uma tendência que dificilmente será para continuar, já que, ano após ano, a Academia tem tentado questionar a sua postura, acabando sempre por repetir os mesmos anos do passado. Apesar dos filmes profundamente politicos que 2006 nos reserva (World Trade Center, All the King´s Men), provavelmente haverá um maior sentido de escape, um sentimento de dever cumprido, que permitirá que tudo volte á habitual rotina. Até lá, as nomeações de The Constant Gardener, Capote, Crash, Munich, Good Night and Good Luck. e de Brokeback Mountain são uma vitória para aqueles que defendem que o cinema é algo mais que entertenimento. Hollywood pode não se converter a esse pensamento nunca, seria aliás uma própria antitese da sua natureza. Mas pode perceber que esse é um mundo que convém não ignorar. Depois do que aconteceu este ano, certamente que os estúdios, e os próprios profissionais da indústria, perceberam que por vezes, é preciso saber arriscar!

Mais uma vez a Academia cometeu as habituais injustiças no dia das nomeações.
Scarlett Johansson ficou de fora, pelo terceiro ano consecutivo, no que parece ser um sinal da Academia de que será dificil á promissora actriz conseguir a sua primeira nomeação. Nem mesmo por um filme de Woody Allen, o realizador que mais óscares secundários femininos "ofereceu". A ausência do cineasta é também uma questão interessante. Num ano tão politico, onde pela primeira vez desde 1981 o DGA foi igual aos óscares, haveria certamente espaço para um trabalho tão provocador como foi Match Point. Uma ausência que é dificil de perdoar.
As ausências quase absolutas de Star Wars III e de temas são igualmente temas de discussão.
Depois de ter idolatrado até ao limite (só faltou o óscar principal, que esteve quase para acontecer), a primeira trilogia, a segunda foi praticamente ignorada. Esperava-se mais para o último capitulo da saga mais marcante da história do cinema nos últimos quarenta anos.
Quanto á questão dos temas, não se percebe as limitações que a Academia levanta, ano após ano, reduzindo sempre ao máximo os potenciais nomeados. A ausências de temas de Brokeback Mountain ou Walk the Line são exemplos. Com apenas três nomeados, fica a ideia de que esta categoria tem de ser repensada, rapidamente.

Jarhead e King Kong, e também Cinderella Man, á sua maneira, foram ausências pré-anunciadas, mas que se lamentam, tal como os desempenhos de Maria Bello, Viggo Mortensen, Robert Downey Jnr, Joan Allen, Ralph Fiennes e Peter Sasgaard. Nomes com quem, claramente, a Academia não vai á bola, como a história nos tem dado a entender.
De salutar a nomeação de Paul Giamatti. Depois de dois anos de ausência forçada, com dois soberbos desempenhos, o actor foi finalmente nomeado. Receberá o óscar? É dificil, mas possivel. Ao menos essa injustiça, a Academia soube emendar a tempo e horas!
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 1, 2006 03:59 PM
Comentários
As semelhanças com 1981 não ficam por aí. A última vez que o vencedor de melhor filme não estava nomeado para melhor montagem foi precisamente nesse ano, e agora em 2006 deverá voltar a acontecer. Um facto curioso.
Publicado por: Miguel Galrinho às fevereiro 2, 2006 04:01 PM