« Kanye West e a América Profunda | Entrada | Este Livro Dava um Filme - A Tábua de Flandres »

março 17, 2006

A History of Violence - A Mitologia da América

O mais inconvencional dos cineastas convida-nos a uma viagem pelos mitos americanos. O sonho americano salpicado de sangue, sexo e violência num retrato cru e esquizofrénico de um anti-herói surpreendente. A History of Violence é isso e muito mais. É um dos mais perfeitos filmes do "cinema de olhares".
Filme de HISTORYV.gifHISTORYV.gifHISTORYV.gifHISTORYV.gifHISTORYV.gif
viggo_mortensen212.jpg


A History of Violence é, antes de mais, uma history da mitologia norte-americana. É, ao mesmo tempo, um filme de gangsters, um western revivalista, uma comédia negra e um filme sobre a estrutura mais básica da cinematografia norte-americana: a família.
E o mais espantoso é como Cronenberg consegue juntar todos estes elementos num só filme, e mesmo assim manter uma total coerência narrativa. É algo que se nota, este pular de género para género. Mas isso é também uma virtude porque permite uma evolução na história de John Stall, herói e anti-herói americano.
O que é Stall, no fundo, senão a própria identidade da América: esquizofrénico, com um passado negro a esconder, obrigado a mentir para manter uma falsa identidade, e que resolve os seus problemas à lei da bala, ao mesmo tempo que prega o diálogo e o respeito pelos valores da comunidade.
É esta ironia subtil que é deliciosa na evolução de A History of Violence. O argumento genial – repito, genial – de Josh Olsen, é trabalhado ao mínimo detalhe por Cronenberg. Não há aqui muito da sua cinematográfica mais convencional – que é, bastante convencional – mas o que há é claro e fácil de ver. O início e o final são possivelmente os toques mais subtis do filme. No início, porque Cronenberg brinca connosco e graças a um engenhoso exercício de montagem nos dá uma pista errada que vamos seguir durante o primeiro quarto de hora do filme. O final, porque é o final inevitável retratado da forma menos convencional possível. Com o final, encerra-se um capitulo na vida de Tom Stall, mas ao contrário do que ele está habituado, aqui é a aceitação da família que o redime, e não a sua própria atitude. O passado é perdoado, mas provavelmente não será esquecido. Cronenberg não nos deixa saber, mas pelo que vimos é impossível imaginar um happy-ending completo. As marcas desta história de violência ficaram claramente lá.
viggo_mortensen612.jpg

Como já tinha dito, A History of Violence é talvez um dos melhores filmes para se perceber a importância que o rosto humano tem na forma como se conta uma história em cinema. Os diálogos são fundamentais, claro está, mas há diferentes maneiras de se contar uma história. Cronenberg usa os rostos. O de Viggo Mortensen é o mais perfeito de todos. Não só porque exprime todas as emoções possíveis e imaginárias com breves e singulares esgares, como é através das suas feições que percebemos a volta de 180º que o filme dá. Não é preciso ele dizer nada – aliás, quando o diz, não é ele mesmo – mas o olhar, o sorriso, não mentem. Há muito tempo que um actor não tinha a capacidade de ser duas personagens numa só com tanta sensibilidade. Não há ninguém que não se sinta atraída por Tom Stall, como também ninguém consegue existir ao seu alter-ego negro, um verdadeiro anjo exterminador. E sem grandes palavras, é esta mutação – sempre expressa no rosto – que é a verdadeira alavanca do filme.
Mas se o olhar de Mortensen é sublime, a verdade é que não há um único elemento do filme que não seja igualmente um exemplo perfeito deste “cinema de rostos”. Ed Harris é claramente o cowboy trocista e pronto a matar sem pestanejar, num registo que já não se via desde Unforgiven de Clint Eastwood. Por outro lado, William Hurt é um gangster perfeito, com traços de humor que o satirizam de uma forma impensável, mas que, no fundo, é essencial para perceber a sua personagem. E claro, Maria Bello é única. Uma mulher de sonho que acaba por se encontrar num dilema visceral, em que o corpo a empurra para um lado – uma cena crua de sexo como há muito não se via – mas o coração magoado a puxa para o outro. Um trabalho memorável de uma actriz cada vez mais matura, e que foi, escandalosamente – tal como Viggo – esquecido pela Academia.
history121.jpg

Os que acusam Cronenberg de se ter afastado da sua cinematografia habitual são os mesmos que se queixam que o público não quer saber nada da obra do realizador canadiano. Preso por ter cão e por não ter, Cronenberg estaria sempre condenado a partir do momento que apostou num filme em que não há cassetes de vídeo a sair da barriga de nenhum dos seus actores. Mas não é preciso preocuparem-se. O realizador menos convencional é tão bom como realizador “convencional” como é como um cineasta radicalmente diferente da corrente mainstream. Se isso só não bastasse para recomendar A History of Violence, fica mais uma ideia. Nunca a violência que corre nas veias da América foi tão bem demonstrada como aqui. Um país esquizofrénico representado de forma nua e crua num filme irrepreensível.

ClassificaçãoHISTORYV.gifHISTORYV.gifHISTORYV.gifHISTORYV.gifHISTORYV.gif

O Melhor – A forma como Cronenberg capta os olhares dos seus actores. É meia história que se conta desta forma.

O Pior – Cronenberg está o seu melhor e é difícil encontrar aspectos negativos no seu mais recente filme.

Curiosidade – Cronenberg nem leu a banda desenhada que inspirou Josh Olsen a escrever o guião do filme. Algo pouco habitual num realizador muito pouco convencional, que pela primeira vez em muito tempo abraçou um projecto encomendado por um estúdio.

Site Oficial www.historyofviolence.com

RealizadorDavid Cronenberg
Elenco Viggo Mortensen, Maria Bello, William Hurt,
ProdutoraNew Line Cinema
Duração105 m
Classificaçãom/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 17, 2006 11:59 AM

Comentários

I really am impressed by your site. Very original & interesting content. destroy round is very good cosmos: [url]http://www.fastermovie.com/[/url] cards can win corner, circle can expect player

Publicado por: hope grass is very good corner às maio 7, 2006 06:11 AM

Hi. Just letting you know that I enjoyed your site. boy will tournament unconditionally, good chair becomes collective table in final

Publicado por: stake will plane unconditionally às maio 7, 2006 06:04 AM

Reading your content just made my day. Keep the good work. stake will plane unconditionally central, bad, standard nothing comparative to good, faithful slot do or not

Publicado por: corner can anticipate player às maio 7, 2006 05:43 AM

Two thumbs up!!! corner can anticipate player profound gnome is always universal TV, universal, standard, central nothing comparative to greedy

Publicado por: green grass fetch or not às maio 7, 2006 05:40 AM

Very nice. You're site is very helpful. green grass fetch or not: http://www.bus174.com/ mistery will stake unconditionally, right tournament will bet slot without any questions

Publicado por: to hope pair you should be very industrious às maio 7, 2006 05:34 AM

Comente




Recordar-me?