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março 11, 2006
Cantos do Mundo - África
A vitória de Tsotsi foi polémica. Mas serviu também para mostrar ao mundo o cinema que é feito no "continente negro". Um lado também ele trágico, aquele que ninguém quer ver, mas que sabem que existe...

Nos últimos anos o cinema norte-americano tem viajado até África para filmar histórias trágicas. Hotel Rwanda, Shooting Dogs ou The Constant Gardener são exemplos de crimes cometidos contra um continente, que diz a ciência, foi a origem de todos nós.
Mas o problema é que estas questões são vistas sempre por quem está de fora. Ou brancos, que são deslocados para África e encontram lá situações que nunca imaginaram ser possiveis. Ou brancos, que já estão em África, mas não perdem o olhar ocidental sobre o que se passa. Ou então, negros que são mais europeus do que alguns brancos que já lá estão, e que não deixam de ter um olhar que não é o olhar de rua.
Tsotsi nao é assim. O filme de Gavin Hood é - com as devidas diferenças - uma especie de Cidade de Deus africano. Ou melhor, sul-africano.
O país com maior indice de criminalidade urbana em África tem de viver diariamente com o problema da SIDA e o fantasma - sempre presente - do Aparthaid. E é ao captar essa essência, sob o ponto de vista de um pequeno grau de areia em todo este oceano de marginalidade, que Tsotsi impressiona.

Seguimos o lider de um gang infantil durante seis dias. Um lider, que tem de se comportar como tal perante o seu grupo. É ele quem coordena, é ele quem dirige, é ele quem tem a última palavra. Mas um lider que não passa de um miudo, e como tal, com os problemas habituais dos miudos da sua cidade. O sexo, as namoradas, o medo do futuro. Está tudo lá, numa salada de emoções dificil de ignorar. Sem desculpar o crime e os criminosos, Tsotsi dá outra visão sobre o problema dos jovens negros na África do século XXI. Cercados pelo crime, pela exploração das grandes companhias ocidentais dos seus recursos, pela omnipresença da SIDA é dificil sobreviver.

Um filme que foi feito na África do Sul, mas que não é só um retrato da África do Sul. É uma imagem do que se passa com muitos jovens, em muitas cidades de um sem número de nações africanas. Os problemas não se resolvem sozinhos, e a ajuda que há é pouca. Para estes jovens há poucas solucções à vista. E dessas, quase nenhuma é digna. Certamente que não o futuro dos seus sonhos, mas o único futuro que podem alcançar. O que para muitos que nem lá conseguem chegar, é um sonho perdido. Como tantos outros.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 11, 2006 06:21 PM