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março 11, 2006
Entrevista a Mário Dorminsky
Há mais de 25 anos que Mário Dorminsky é um nome incontornável no cinema português. Organizador do maior festival de cinema nacional, Dorminsky é também a voz da contestação ao estado actual do cinema português e à forma como as entidades e os órgãos de comunicação social impedem o crescimento de um indústria nacional.
O director do Fantasporto em discurso directo, numa entrevista em duas partes, feita durante o festival pelo Hollywood e Take2.

- O que é que leva o Mário Dorminsky a sair de casa e a ir ao cinema?
Bem, desde que foi convidado para o lugar de vereador da Cultura, na Câmara Municipal de Gaia, que a minha vida mudou radicalmente. Por isso há um antes e um depois. Normalmente eu vou ao cinema por gozo. Gosto de estar com pessoas, com o público em geral, a ver os filmes. Não gosto das pipocas, dos barulhos dos telefones e das pessoas falarem na sala como se estivessem em casa, e por isso tenho tendência a ir ás primeiras sessões da tarde, especialmente no AMC que tem das salas que eu considero ser das melhores de Portugal e da Europa. E dá-me muito gozo ver o cinema em grande ecrã e mantenho-me acompanhado em relação ao que sai cá, até porque muitos dos filmes eu já vi, ou em festivais ou mostras de cinema. O que me acontece é que, nos últimos quatro cinco meses, com a dificuldade que foi em gerir o cargo de vereador, com a preparação do Fantas, tive dificuldades em ir ao cinema, onde só vi dois filmes, o Brothers Grimm e o King Kong.
- Como é que acha que está a oferta nas salas de cinema nacionais?
O mercado está neste momento numa crise muito grande, provocada essencialmente pela falta de critério dos exibidores, em relação às propostas que são feitas pelos distribuidores. Isto é, cada vez mais passam no circuito comercial filmes que, no meu ponto de vista, deviam ir directamente para vídeo, ou dvd como se diz agora. E isso leva a uma quebra da ida ao cinema do espectador normal, que procura um filme que não está a conseguir encontrar, nos últimos tempos, numa sala de cinema.
- O que é que há nesta edição do Fantasporto que pode fazer as pessoas a saírem de casa e a virem ao cinema?
O Fantas…o Fantas em si é uma marca. Ainda há bocado vi ali na bilheteira um homem que pedia um bilhete para a sessão e nem sabia os filmes que iam estar, só queria mesmo ver um filme que estava no Fantas. Nós não temos só o público cinéfilo, temos também as pessoas que vêm ao Fantas e que eu comparo ás pessoas que vão aos supermercados de cinema, aos fast-foods que são os multiplex, e que chegam à bilheteira e nem sabem bem o nome do filme. Só pedem bilhetes para ir ver o Tom Cruise ou a Nicole Kidman, ou seja lá quem for. O Fantas é, pela sua promoção, pelo seu nome, um fenómeno de imagem, de atracção em termos dos mais diversos públicos, e atrai públicos de uma forma transversal, dos mais novos – que às vezes querem vir ao Fantas e não pode, para quem incluímos a exibição das séries Triângulo Jota. Este ano não pensamos muito nos mais jovens, até porque se vai criar um programa chamado Fantaskids, que vai girar pelo país todo ao longo do ano, e que é uma forma de complementar o trabalho de criar o gosto pelo cinema junto dos mais novos, com filmes que eles gostem e que os tirem para fora da realidade, sem ser necessariamente os filmes da Disney.
- O que é que nos pode dizer mais do Fantaskids?
O Fantaskids é um projecto que deve arrancar para Maio que deve circular pelo país, e que, em principio é um projecto que vai funcionar de uma forma paralela ás “semanas Fantasporto”, que fazemos em parceria com várias câmaras municipais. Queremos atrair mais miúdos a ver cinema. E como tudo indica que para o ano também vamos ter uma sala de cinema Fantasporto em Lisboa e no Porto, isso dá-nos possibilidades de mostrar os filmes que nós queremos ao longo do ano. A ideia é também por o Fantasporto a ser falado durante todo o ano através de um trabalho a ser desenvolvido pela empresa Realizar, que já tem trabalhado connosco e que nos vai permitir prestar mais atenção ao conteúdo do festival e menos ao aspecto de organização e preparação das diferentes iniciativas que pretendemos realizar.
Mas, e na edição deste ano. Quais são os grandes atractivos?
Temos um ambiente cosmopolita, isto é, um ambiente em que as pessoas podem conversar umas com as outras, nos intervalos, quando não vão aos filmes, e fala-se sobre cinema que é uma coisa que existia há muito tempo, e que deixou de existir. E o Fantas trouxe de novo glamour à ida ao cinema no Porto. Por outro lado há um tipo de filme Fantas, mais ou menos caracterizado por ser um filme que está na corda bamba entre o cinema de autor tradicional e o cinema comercial. Está no ponto de equilíbrio, que tanto pode pender para um lado como para o outro. E isso garante a descoberta de novos cineastas, novas cinematografias, o que é também a função de um festival de cinema. Trazer estas novidades ao público. É o único ponto do país onde as salas enchem para ver filmes coreanos, suecos ou espanhóis, por exemplo. Para nós a grande vitória é ter salas cheias com cinematografias que em Portugal pura e simplesmente não funcionam.
Que balanço há para já desta 26º edição do Fantas?
Bem, primeiro houve o pré-fantas, que nos permitiu olear a máquina, exibir os primeiros filmes para a Imprensa, transformar o Rivoli. Tudo isso que é necessário para se criar o ambiente para a altura em que o festival arranca mesmo.
Mas desde o primeiro dia temos tido noites muito boas, tardes mais fracas, o que é normal, e o arranque foi fortíssimo. E espero que assim seja até ao fim. Os filmes são suficientemente atractivos e está na onda dos últimos anos. Temos 32 países representados com filmes de todos os continentes, o que demonstra bem a importância que damos ao cinema feito em todo o mundo.
- O Fantas começou por ser um Festival ligado muito ao cinema fantástico…
Só nos primeiros dois anos. A partir do terceiro ano mudamos imediatamente o conceito. Abrimos a porta ao thriller, depois criamos a primeira semana dos realizadores, e isso também se percebe porque a meio dos anos 80 houve a primeira quebra grande do cinema fantástico. E curioso é que ninguém da estrutura é fã de filmes de terror. Por isso, a partir de determinada altura pensamos que a programação fantástica exclusiva começava a ser perigoso, porque estávamos na altura das sequelas. E decidimos abrir o festival a outras cinematografias, a ser um festival mais generalista. E depois seguimos a ordem natural das coisas, com a descoberta do cinema asiático, criamos o Orient Express, com uma tónica muito significativa de temáticas pouco convencionais. E vamos fazendo experiências. Este ano estamos a fazer uma viagem ao cinema de Bollywood, também para ver no que vai dar. E estamos a homenagear o cinema húngaro, até porque se celebram 50 anos da entrada dos soviéticos em Budapeste. No fundo a lógica do festival tem sido esta ao longo dos anos, e tem sido um sucesso, em todas as áreas do festival.
- Então porque é que ainda hoje a imagem que se passa do Fantas é que é um festival quase exclusivamente virado para o fantástico, para o terror?
Em relação a isso, eu acho que há uma grande dificuldade em conseguir através da comunicação social que o festival é um festival de monstros e monstrengos. E em relação a isso não podemos fazer nada. Mesmo quem cá vem, continua a transmitir a imagem da área do fantástico. E acho que, quanto a isso, não há volta a dar-lhe.
2º Parte
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 11, 2006 11:00 PM
Comentários
Gostei de ter lido esta entrevista, pelo excelente trabalho do Mário que é meu familiar.Parabens.
Publicado por: Isabel Carvalho às fevereiro 5, 2007 02:37 PM
Gostei de ter lido esta entrevista, pelo excelente trabalho do Mário que é meu familiar.Parabens.
Publicado por: Isabel Carvalho às fevereiro 5, 2007 02:35 PM