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março 03, 2006
Fantas - Dia 11
"Oliveira não faz cinema. Oliveira é o cinema". Palavras de Beatriz Pacheco Pereira, directora do festival que expressa bem a homenagem que o Fantas preparou este ano para o patrono da Semana dos Realizadores. A completar a festa houve exibição de Espelho Mágico.

Agustina Bessa-Luis não apareceu, mas a festa continuou como planeado. Discursos emocionados e reverenciais, perante o cineasta de maior renome em Portugal, e um discurso modesto por parte de um realizador que já conta com 97 anos, mas que na manhã de ontem estava em Paris a filmar as últimas cenas de Belle Toujour, o seu mais recente trabalho.
E foi essa paixão pelo cinema que o Fantas quis homenagear perante uma plateia onde encontrar uma cara mais nova era como encontrar uma agulha num palheiro. A velha guarda juntou-se para aplaudir o decano dos realizadores, mas o aplauso final a Espelho Mágico esteve longe da apeteose de Coisa Ruim. Um facto que se explica bem pelo falhanço que é o filme do realizador a que muitos apelidam de "Mestre". Sem capacidade de passar do texto original de Agustina para uma linguagem cinematográfica, e num estilo de teatro-filmado, castrador de emoções e desempenhos, Espelho Mágico é o exemplo perfeito de um cinema que só Oliveira sabe fazer, e que só muito poucos conseguem gostar.
Depois da exibição arrastada e longa, houve ainda Animal, filme franco-canadiano com Diogo Infante como protagonista. De tarde já tinha havido
Looking for Alexander, Off Screen e Spirit Trap - todos já exibidos previamente - marcaram a tarde fantástica, num dia em que o auditório encheu pela noite, mas continuou sem conseguir esgotar pela tarde.
O pequeno auditório viajou pelo universo das curtas-metragens chegadas da Bélgica, mas o destaque foi para a exibição da noite de The Last Horror Movie, onde os fãs hardcore do Fantas se refugiaram. No Passos Manuel a tarde foi de Passion for Life e continuou a retro de Bollywood na Almeida Garrett com a exibição de mais duas peliculas: Dil Se e Chori Chori Chupke Chupke.
Hoje é dia de reflexão. Os filmes em competição acabaram e amanhã de manhã são divulgados os grandes vencedores deste 26º Fantas.
Talvez por isso esta seja a noite que mais vai agradar aos fãs tradicionais do Festival. O grande auditório passa a tarde entre Sick and Twisted Animation Festival e The Weeping Meedow, o primeiro capitulo de uma trilogia épica que Theo Angelopoulos quer fazer sobre a Grécia no século XX.
Pela noite há anime japonês com A Ghost in the Shell 2 e The Hamster Cage, em reposição depois de já ter passado pelo pequeno auditório e o AMC. A noite fecha em grande, já na madrugada do dia seguinte, com Hostel, produzido por Quentin Tarantino e realizado pelo premiado Eli Roth.
No pequeno auditório o dia está reservado ás curtas metragens nacionais e a três filmes da série Ginger Snaps. Por fim há ainda Main Ho Nahh e Khabi Kushi Khabie Gham a fechar o ciclo Bollywood na Almeida Garrett.
O Hollywood recomenda aos fãs do cinema gore a paragem obrigatória em Hostel. Os fãs da anime made in Japan vão certamente querer ver Ghost in the Shell 2.
FILME DO DIA
Espelho Mágico
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Manoel de Oliveira é o maior nome do cinema português. E convenhamos que, quem realiza aos 97 anos com a mesma naturalidade com que realizava aos trinta, merece todo o respeito do mundo. Mas se Oliveira já foi capaz de filmes muito interessantes (Francisca, Non ou a Vã Glória de Mandar, Vale Abraão), nunca esteve ao nivel dos grandes realizadores europeus como Bergman, Renoir, Rossellini, Truffaut, Godard, Fassbinder, Wenders, Almodavar...Mas eles foram passando, e ele foi ficando, sempre com o seu estilo de teatro-filmado. Se no inicio da carreira Oliveira defendeu a importância da montagem na criação de um filme, hoje o cineasta usa cada vez menos esse artificio. A ligação entre planos é do mais básico e rudimentar possivel, e se exceptuar-mos o plano em que Benard da Costa (um excelente escritor de cinema, um péssimo actor) narra a viagem a Itália e Jerusálem, é seco e sem alma.
Oliveira é para muitos um "mestre" e ninguém se atreve a contestar tal titulo. Faz um cinema que muitos poucos gostam, mas como esses muito poucos têm uma palavra mais importante que muitos outros, o epiteto foi ficando. No entanto Espelho Mágico é a prova que Manoel de Oliveira está completamente desfazado de três aspectos fundamentais da criação cinematográfica.
Por um lado, os planos longos e arrastados - qual peça de teatro - são filmados sempre a uma relativa distância dos actores, para possibilitar um plano de conjunto. Um erro crasso que impede que vamos vendo as mudanças de expressão nas faces dos actores, essa ferramente fundamental para perceber o que vai na alma das personagens. E claro, uma direcção de actores em que uns não se olham nos olhos dos outros, é do mais castrador possivel para uma profissão que vive do choque intenso entre personagens. Dos desempenhos Leonor Silveira continua ao seu bom nivel e Ricardo Trêpa alterna o bom com o muito mau. Sobra um elenco cheio de nomes com pouco tempo para fazerem das suas, como nos têm habituado tão bem.
Por outro lado há o problema do espaço. Os planos em Oliveira são normalmente bidimensionais e não exploram a profundidade do campo que envolve a acção. Perdem-se os pequenos pormenores, a utilização fundamental do espaço na criação da história, e com isso o filme perde vive. Ninguém gosta de cinema a duas dimensões, estático e sem pingo de emoção. Falta de emoção essa que deriva da aposta de Oliveira em, não adaptar o romance de Agustina Bessa-Luis, A Alma dos Ricos, mas transcrever os diálogos. Passagens que fazem todo o sentido num livro, já não o fazem no teatro e muito menos num filme. Ouvir coisas que nunca ninguém diz, expressões que nem se quer são narráveis, é um verdadeiro desperdicio de tempo e talento.
Feitas as contas, Oliveira continua igual a si próprio, a realizar como quer, quando quer e com quem quer. E o país, ávido de nomes celebres, dá-lhe redea solta. A critica adora, o público não. Ambos têm as suas razões, e no final do dia, Espelho Mágico tem muito de espelho de uma obra de décadas, mas muito pouco de mágico.
Realizador - Manoel de Oliveira
Elenco - Leonor Silveira, Ricardo Trepa e João Benard da Costa/Duarte de Almeida
Duração - 135 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 3, 2006 05:08 PM