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março 12, 2006

North Country - Mulher de armas!

No ano de todos os temas políticos, só faltava mesmo o assédio sexual. Josey Ames, inspirada numa personagem real, fez história com a sua cruzada contra o machismo das corporações industriais norte-americanas. Mas Niki Caro não consegue captar bem a essência da sua luta, e perde-se entre o retrato da mulher e a mãe de família...
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O que irrita em North Country não tem nada a ver com o filme. Aliás, filme que foi muito mal recebido nos Estados Unidos, um verdadeiro flop de critica e de box-office que só se salvou porque o filme é, acima de tudo, Charlize Theron. Mas o que irrita em North Country - e em tantos outros filmes como este - é que continue a existir o preconceito que a beleza é um empecilho à qualidade de um actor. Ou seja, trocando por miudos, um actor ou actriz bonitos só sabem representar quando se despojam da sua beleza e se transformam. É quase como que uma inveja colectiva do mundo perante os Apolos e Afrodites de Hollywood. E se há actriz que tem sofrido esse estigma, ela é sem dúvida Charlize Theron.
A sul-africana - que venceu em 2003 o óscar pela sua transformação completa na serial-killer Ailen Wournoos em Monster - volta a dar um desempenho de grande qualidade. E volta a ter de colocar muito óleo, ferrugem e maquilhagem em cima, para esconder aquela que é uma das caras mais sedutoras de Hollywood. De facto North Country vale por Charlize, e pouco mais. Uma performance recheada de tours de force imensos, com uma profundidade dramática só ao alcance das grandes actrizes - e ela é, de facto, uma das grandes actrizes da actualidade - misturado com momentos de grande tensão interior, que só o seu olhar consegue exprimir com toda a exactidão.
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O potencial de North Country era muito. A história de uma mulher, Josey Ames, vitima de violência doméstica, que volta para casa dos pais e decide começar a trabalhar numa mina, que é também o sustento da população local. Mas uma mulher a trabalhar num poiso de homens é, no final dos anos 80, assunto tabu, e tanto ela como todas as outras mulheres, são tratadas como lixo. O que lhes vale é o trabalho da sindicalista local, e a persistência em continuar. Pelo meio vamos conhecendo o passado sexual da personagem, que ostenta sempre uma imensa aura de libertinagem - que, convenhamos, não coincide com aquele olhar angelical de Theron - e as relações de desaprovação da sua cruzada pessoal pela igualdade de direitos no trabalho.
E se até aí o filme caminha bem, de forma segura e sem grande ambição, a verdade é que Niki Caro não consegue agarrar a história com as duas mãos. Entre seguir a cruzada da mulher, ou passar pelo sofrimento da mãe de família, Caro não ata nem desata. A cena final do tribunal, que supostamente seria para o culminar da luta pela igualdade de direitos, torna-se numa cena de vitimização da personagem central, que afinal não é libertina mas sim vitima de violação por um professor. Se a história é sobre a pioneira, é injustificável que o resultado da sentença - e consequências - fiquem para uma frase no genérico final. Se a obra é sobre a mulher, a mãe de familia, então não se percebe o ritmo que o filme vai levando, de tal forma que as personagens secundárias mais bem trabalhadas são as que estão ligadas à sua causa.
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Frances McDormand, nomeada ao óscar de melhor actriz secundária, tem um desempenho sólido e agradável, mas a sua agonia final não pode servir como justificação para uma grande performance. São Woody Harrelson e Richard Jenkins que dão a melhor réplica a Theron, com trabalhos muito sóbrios e exactos, qual relógio suiço. E se a direcção do filme nem compromete, também não espanta pela originalidade ou frescura, como aconteceu com The Whale Rider, o filme que catapultou a realizadora para a fama. Trabalho técnico aceitável, filme com um ritmo nem muito lento, nem muito rápido, North Country é uma história interessante, trabalhada de maneira confusa, e que acaba por valer pela presença insubstituivel dessa diva que dá pelo nome de Charlize Theron.

Classificação - ncountry.gifncountry.gifmeia_estrela2121121221.gif

O Melhor - O desempenho de Charlize Theron. Não foi desta que levou o segundo óscar, mas ele deverá chegar. É uma questão de tempo.

O Pior - A confusão do guião na segunda metade do filme, corta um pouco as asas a uma história que até então estava a ser interesante de seguir.

Curiosidade - O titulo original do filme era Class Action.

Site Oficial - northcountrymovie.warnerbros.com

Realizadora - Niki Caro
Elenco - Charlize Theron, Frances McDormand, Woody Harrelson, ...
Produtora - Warner Bros.
Classificação - m/12
Duração - 126 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 12, 2006 03:32 PM

Comentários

É só para te dar os parabéns pelos teus primeiros artigos no "Público". Não podias começar em melhor sítio. Continua o bom trabalho.Um abraço.

Publicado por: Pedro Serra às março 13, 2006 09:56 PM

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