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março 09, 2006

Opinião - É a Academia estúpido!

Esqueçam as questões de que filme é melhor. Esqueçam a problemática da arte da compensação, a que Hollywood já nos habituou. Esqueçam os prémios acumulados por um filme, e os não acumulados por outro. Esqueçam tudo isso. O que os óscares deste ano nos ensinaram, é que a Academia continua igual a si mesma. E isso não vai mudar!
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O mundo queria que ela mudasse. Os amantes do cinema queriam que ela mudasse. Raios, eu queria que ela mudasse. Mas a Academia continua igual a si própria, fechada sobre si mesma, fazendo orelhas moucas ao que se passa lá fora.
A vitória de Crash foi uma surpresa para aqueles que achavam e queriam que a Academia mudasse. Ou seja, foi uma surpresa para todos. Todos os que se deixaram guiar pelo coração e pela lógica. Patetas. Deviamos ter-nos deixado levar pela tradição, muito mais simples de entender e mais dificil de contornar.
Pessoalmente - e isso acontece com muitos cinéfilos, de um e do outro lado da barricada - Crash é um filme melhor. É um filme mosaico muito bom, dentro do genero de cinema mosaico (daí as 4 estrelas e meia que o Hollywood deu), com um bom elenco, muito competente, e um argumento belissimo. Tecnicamente impressiona pouco, e no fundo acaba por cair na Biblia do sociologicamente correcto, o que, ver o filme num dia mau, pode levar a que o odiemos do principio ao fim. Já Brokeback Mountain é um filme assumidamente mediano, tecnicamente muito bem conseguido, com alguns bons momentos do grupo de actores, mas sem ambições ou coragem para ir mais além.
E cinematograficamente estamos conversados.

Claro que isso para a Academia de Hollywood é a coisa mais irrelevante do mundo. Como se eles alguma vez tivessem pensado na qualidade dos filmes quando votam. Se assim fosse, filmes como Citizen Kane, It´s a Wonderful Life, Some Like it Hot ou Vertigo - apenas para citar os mais escandalosos - tinham tido o seu quinhão de óscares. Mas claro, a Academia está-se a marimbar para isso. A Academia é a face com glamour de uma indústria poderosissima que está em conflito com ela mesma. E isso é que interessa focar.
Num ano em que a indústria continuou a perder dinheiro (e ideias, e talentos, e tudo), o cinema independente liberal ganhou o seu espaço. Na falta de filmes entertenimento capazes de atrair multidões (a la Titanic, diga-mos) a Academia teve de abraçar este braço irreverente de Hollywood. Mas se muitos acham que este braço quer-se separar do corpo, e tentar viver por si, enganam-se. Os George Clooneys deste mundo cinematográfico sabem que não conseguem viver sem a poderosa indústria por detrás deles. Senão não seriam mais do que autores europeus. E todos nós sabemos que ninguém quer isso (nem nós, meros mortais espectadores, quanto mais eles).
Sendo assim há sempre o habitual compromisso. Uns protestam, a Academia finge abraçar as ovelhas negras da família, perdoa-os com prémios, e eles voltam para a familia. Todos ficam a ganhar, ninguém fica a perder.

Ninguém? Bem, não é bem assim.
Perdemos nós, que acreditamos que se devem premiar os melhores. Ou pelo menos, que se devem premiar os movimentos cinematográficos que apontem para o futuro. Aqueles que em 1968 preferiam que vencesse 2001, Space Odity, eram aqueles que queriam o futuro. Os membros da Academia votaram em Oliver,. Percebem agora a diferença?
Brokeback Mountain - mesmo tendo ganho tudo, mas mesmo tudo o que havia para ganhar - nunca iria vencer o óscar. É fácil dize-lo agora, mas é a conclusão mais lógica de todas. E o mais curioso é que, no ano de toda a polémica, tenha ganho o filme menos polémico de todos. Munich e Good Night and Good Luck., infinitamente superiores, nem um óscar levaram. Lógicamente, está claro. Ninguém cospe no prato onde come, e a Academia não ia passar a fazer isso, apenas porque os filmes são melhores. Que preciosismo!
Crash venceu, não por mérito (não é o melhor dos filmes, não venceu nenhum prémio até agora, não é filme que fique para a posteridade), mas por tradição. Na dúvida entre um filme polémico e um filme consensual, votem no consensual. Taxi Driver perdeu para Rocky. All the Presidents Man perdeu para Rocky. Network perdeu para Rocky. Agoram substituam Rocky por Crash, e os outros filmes pelos três polémicos nomeados deste ano, e cheguem a uma conclusão. Como suprema das ironias, no ano em que Hollywod celebrou a sua abertura ao mundo, mais não fez que se fechar sobre si mesma. Crash é um filme sobre Los Angeles para quem vive em Los Angeles. É quase um filme sobre as pessoas que votam para os óscares, para as pessoas que votam para os óscares. Está tudo aí. Estúpidos fomos nós, que continuamos a achar que a Academia vai mudar!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 9, 2006 08:30 PM

Comentários

Há ainda quem acredita que em Hollywood se faz cinema ?!De plástico, sim, sem dúvida!Porque temos nós de julgar que só os americanos conseguem verter para o écran histórias fabulosas, com bons actores e tudo mais?Eu não!

Publicado por: Pedro Carneiro às março 9, 2006 11:01 PM

MM fixe.
Visitem
http://bananapodre.blogspot.com

Publicado por: kiko às março 9, 2006 09:39 PM

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