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março 16, 2006

Opinião - Filmar, mas com paixão!

O meu trabalho como jornalista tem-me levado a vários locais onde o cinema é religião. No entanto são espaços que o grande público não conhece, ou sequer suspeita da sua existência. É nesses lugares que moram alguns dos mais promissores jovens autores portugueses. E nesses locais que tenho a oportunidade de conhecer as pequenas pérolas que vou descobrindo. Uma delas é Utensílios do Amor.
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Já há alguns meses falei de Telmo Martins. O jovem cineasta, já multi-premiado cá dentro e lá fora, foi o autor de Rupofobia, uma curta-metragem que aconselhei de imediato. Estreou com o filme Um Rio... e, sem surpresa, foi eleito para a selecção do Fantasporto. Não é preciso mais para ver que é material de qualidade. Utensilios de Amor é o seu mais recente trabalho. Uma curta-metragem (ainda) sobre a problemática das relações de casais. Dois casais, duas histórias, dois finais diferentes. Duas mulheres, dois homens, a dualidade inerente a uma relação. Não é Cassavettes mas podia ser. Não é Allen mas também podia ser. O que é então? É um novo sopro no cinema português. Para já no universo das curtas - o balão de ensaio ideal (a par da publicidade) para estes novos nomes - mas a piscar o olho ás longas-metragens.
De onde acham que apareceram os Marco Martins, Tiago Guedes e todas essas promessas que injectam sangue novo ao cinema em Portugal? A verdade é nua e crua. Ninguém quer saber. Ninguém está preocupado em divulgar o trabalho dos jovens cineastas, mesmo que eles sejam o futuro. Como também ninguém está interessado em mudar o sistema podre do ICAM. Ou melhor, há quem esteja, mas não tem o poder necessário para o conseguir. O que vai dar ao mesmo.
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Utensilios de Amor é mais um caso de qualidade em português. Dirigido por Telmo Martins e escrito Jorge Vaz Nandes - com um elenco com caras conhecidas (Margarida Vila Nova, Maria João Pinho) e jovens promessas (Luís Dias, Raquel Carrilho, João Feitor) o filme é tudo aquilo que um filme de autor não é: feito pela paixão da cinéfilia.
Hoje em dia o cinema de autor é cada vez mais um exercicio de prepotência e autismo. O cinema feito pelos cinéfilos, o cinema puro, ainda imberbe na magia da 7º arte, ficou relegado para segundo, terceiro plano. E onde é que o encontramos? Em alguns autores irreverentes, claro, mas essencialmente nos jovens lobos que se vão afirmando. Chamem-se eles o que quer que seja, tenham os filmes os titulos que tenham. O que importa aqui é a corrente, ou melhor, a contra-corrente à podridão em que se instalou o cinema nacional.
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Parece que Portugal não tem orgulho de nada que faça, a não ser que uma bola de futebol esteja envolvida. Há muitos anos que o português olha de lado para o seu cinema. E com razão porque o cinema português também olha de lado para o espectador português. A esperança que deposito, sempre que vejo um nome novo, um filme diferente, é que esteja aqui alguém que é diferente. A Nouvelle Vague nunca chegou a Portugal, e mesmo a Nouvelle Vague deixou facilmente de ser o que era. O cinema português não vai andar para a frente com os peitos da Soraia Chaves no Crime do Padre Amaro ou o humor brejeiro de Balas e Bolinhos. A indústria cinematográfica portuguesa tem de ser um objectivo. Para que os novos valores se afirmem. Para que haja mais e melhores filmes portugueses. Para que o cinéfilo português não tenha vergonha do seu cinema.
Acabo o artigo com um pequenissimo texto que não é meu. É de Telmo Martins, o tal realizador que ninguém conhece e devia pensar em começar a conhecer. Porque a paixão que ele demonstra pelo cinema, é a mesma paixão que falta ao cinema português para que todos se apaixonem por ele.

"Estou e fui, nada a fazer. Acaba quando o primeiro vai, e vai morrendo, devagar, a tristeza rápida nos rostos de quem fica. Está quase, estás sem forças mas tens de acabar, o que não queres que acabe. Mas é assim nada a fazer, tudo vai e em caixinhas fica. A vida condensada de quem está, por pouco tempo, que em muito se torna. O riso de quem chora, a saudade de quem ri. Mas é assim, estou mas fui, volto mas não sei quando. E... no fim... a tentativa desesperada de não perder, de voltar a ter a vida condensada de quem esteve mas foi..."


Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 16, 2006 08:23 PM

Comentários

Miguel, ficas com informação adicional. Neste caso sobre o autor do argumento, Jorge Vaz Nande:

blog A Peste: http://apeste.blogspot.com/
post sobre o filme: http://apeste.blogspot.com/2006/03/o-filme.html
página oficial do filme: http://www.utensiliosdoamor.web.pt/

página do Jorge: http://jgrand.no.sapo.pt/

Claro que eu faço a publicidade extra por ser um amigo meu de há uns anos, com quem escrevi num blogue sobre cinema (e que está em coma desde há uns meses) - http://serieb.blogspot.com/ - mas penso que poderá ser interessante teres estas informações.

Publicado por: João André às março 17, 2006 01:11 PM

Miguel, ficas com informação adicional. Neste caso sobre o autor do argumento, Jorge Vaz Nande:

blog A Peste: http://apeste.blogspot.com/
post sobre o filme: http://apeste.blogspot.com/2006/03/o-filme.html
página oficial do filme: http://www.utensiliosdoamor.web.pt/

página do Jorge: http://jgrand.no.sapo.pt/

Claro que eu faço a publicidade extra por ser um amigo meu de há uns anos, com quem escrevi num blogue sobre cinema (e que está em coma desde há uns meses) - http://serieb.blogspot.com/ - mas penso que poderá ser interessante teres estas informações.

Publicado por: João André às março 17, 2006 12:44 PM

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