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março 06, 2006

Óscares 2005 - O Preconceito de Hollywood

Ainda Jack Nicholson estava a anunciar os nomeados e já se escrevia certamente, um pouco por todo o lado, que este seria o ano em que Hollywood teria a coragem de acabar com um dos seus maiores tabus. Não foi. Por isso, a edição deste ano dos óscares será menos a da vitória de Crash, e mais a da derrota de Brokeback Mountain. Afinal, o preconceito na Academia é bem mais forte do que se pensava.
Crash121212.jpgBrokebackMountain121212.jpg

Tudo bem que Crash foi o filme que mexeu com a Academia, desde a sua estreia. Mas nem é um filme do outro mundo, nem venceu praticamente nenhum prémio este ano (nem nomeação para os Globos teve). Era um filme de uma cidade, e os óscares nunca foram apenas Los Angeles. Por outro lado, este foi o ano em que Hollywood se politizou, e em vez de apostar em nomeações de filmes como King Kong ou Walk the Line, optou por abordagens mais politico-sociais.
No final de contas, todos achavam que eram favas contadas para Brokeback Mountain. Tinha ganho tudo o que havia para ganhar com tal facilidade, que só aqueles que temiam o preconceito da Academia se mostravam nervosos. Mas "nervosos com quê?" perguntavam aqueles que acreditavam que, no ano em que se assumia definitivamente como um meio liberal, Hollywood estaria disposta para premiar um filme ousado (e nem tão ousado como isso se for-mos a ver bem) como Brokeback Mountain.

Não teve. Preconceito? Certamente que sim. Crash não ganhou porque apaixonou Hollywood. Se assim fosse não tinha saido do Kodak Theather com três estatuetas douradas, perdendo inclusive a de melhor música para Hustle and Flow.
Crash pode ter sido um filme que mexeu com os membros da Academia, mas com outros nomeados (Munich era muito débil, Good Night muito politico e Capote muito inócuo) isso dificilmente teria acontecido. Aliás, Crash entra para a galeria como um dos filmes de menor valor a conquistar o prémio máximo da indústria. Não que não fosse melhor que Brokeback. É-o, claramente! Mas no final de contas, nem é tanto isso que está em causa.
A vitória de Crash é a derrota de Brokeback. E a derrota de Brokeback é a derrota da liberdade de expressão, do cinema de coragem, capaz de abraçar os tópicos mais polémicos.
Crash não é polémico. É socialmente correcto. Tudo o que ali está é uma utopia sociológica muito interessante, mas que no final de contas, não acrescenta nada ao mundo em que vivemos. Brokeback tinha tocado as pessoas (e as instituições de cinema) porque trazia esse arrojo, essa vontade de marcar a diferença. Mas como deu para ver, mesmo em pleno século XXI, o conservadorismo continua a reinar em Hollywood.

Curiosa foi também a divisão de prémios. Nenhum filme venceu mais do que três estatuetas, algo que, se não é inédito, é de uma raridade imensa. E porquê?
A divisão que Hollywood quis fazer entre politica e entertenimento causou esta separação. Tecnicamente os dois melhores filmes, Memoirs of a Gueisha e King Kong, ficaram com os prémios do seu meio. Socialmente, Crash e Brokeback, ficaram com os três do seu. E se Crash tivesse realmente mexido com as pessoas, como se falou tanto, Ang Lee teria perdido. Mas não. Eles perceberam a sua coragem e sensibilidade e premiaram um cineasta estrangeiro que é também o exemplo da integração em Hollywood. Como premiaram o guião de Larry McMurty e Diana Ossana. Mas na hora H, voltaram com o pé atrás e provocaram um dos maiores upsets da história da Academia.
Há muito, muito tempo, que os óscares não ofereciam uma surpresa no último minuto! Pena é que tenha sido uma surpresa assim.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2006 04:40 AM

Comentários

"CRASH é aquele tipo de filme que quem não entende nada de cinema julga ser um filmaço."
Pela tua afirmação o juri da academia não entende nada de cinema.

Publicado por: xplod às março 9, 2006 01:15 AM

"CRASH é aquele tipo de filme que quem não entende nada de cinema julga ser um filmaço."
Pela tua afirmação o juri da academia não entende nada de cinema.

Publicado por: xplod às março 9, 2006 01:04 AM

Volto a afirmar, devia considerar o Brokeback Mountain superior, porquê? Um romance proibido para a altura? O sofrimento de dois humanos por amor? A ingenuidade de um, a infidelidade do outro? Paisagens lindas? Os anos a passar, que para mim a nível de caracterização poderia estar melhor! Não, realmente é algo surpreendente!
Nem de longe nem de perto considero a melhor filme de Ang Lee. Acho mesmo que o preconceito é geral, uns que se recusam a ver o filme, porque é de “cowboys gays”, outros porque classificam um filme de uma intensidade extrema, que retrata a homossexualidade de uma maneira tão doce, de uns silêncios marcantes… Por favor!
É um filme bonito, com pessoas bonitas, momentos bonitos, mas não o façam de um mito, que não é.

P.S. João André, a questão é a seguinte, o Crash, por muito que seja algo já repetido por outros realizadores, surpreendeu-me. O Brokeback Mountain não.

Publicado por: Alexandra Gomes Lopes às março 7, 2006 01:16 PM

Para júlio Batista:
BROKEBACK MOUNTAIN é um filme do outro mundo, para os q julgam q percebem mais de cinema q os outros.
Para os q julgas q n percebem de cinema (tal como os q votaram em Crash e q concerteza percebem menos de cinema q tu)Brokeback Mountain é um filme banalíssimo.

Publicado por: Ricardo L às março 7, 2006 10:18 AM

Reafirmo o que foi dito por vários: nenhum destes filmes entrará para a história. Na minha opinião, entre o Brokeback e o Crash, o Brokeback é bestante superior. O que não o torna o melhor filme do ano, nem de perto. Entre todos os que venceram, mais facilmente daria o óscar de melhor filme tout-court ao Wallace and Grommit que ao Crash ou Brokeback. Ou então dava-o ao Corpse Bride. Quantos aos filmes estrangeiros, uma vez que apenas vi o Sophie Scholl (que achei fraquinho, outro objecto sobrevalorizado), não posso falar em justiça ou injustiça.

De resto, pelo menos há uma coisa boa: não foram filmes comercialóides a serem nomeados para os óscares. Não houve um Shakespeare in Love ou Gladiator ou Beautiful Mind a vencer (apesar de tudo Crash é superior) e não apareceram aqueles objectos feitos para óscares (género, sei lá, Seabiscuit) e que nunca ganham nada.

No fim, não tendo visto muitos dos filmes a concurso porque ainda aqui não chegaram, tenho que me render à ignorãncia e não vou fazer demasiados comentários. Não sei se Hoffman mereceu ou não o óscar, sei que se Ledger ou Phoenix o tivessem levado não viria daí mal ao mundo. Witherspoon mereceu-o, mas não sei se mais que as outras. Do resto pouco posso dizer. Daria o prémio de animação ao Corpse Bride, mas isso é mais por gosto que por o filme ser mesmo superior ao Wallace and Grommit.

Para o ano há mais e depois teremos outra vez discussões.

PS - Alexandra, estranho como é que alguém aponta aqueles realizadores como autores de filmes da sua vida e depois prefere Crash a Brokeback Mountain, mas tudo bem. Por outro lado concordo obviamente (como pode ser depreendido do que escrevo acima), que os melhores filmes nunca aparecem nas listas.

Publicado por: João André às março 7, 2006 08:59 AM

BROKEBACK MOUNTAIN tinha uma enorme campanha promocional?! Mas esse Ricardo que coloquei esta afirmação risível acompanha este meio? BROKEBACK ganhou praticamente TUDO o que havia para ganhar junto da crítica e em festivais de cinema. Isso não é campanha, é M-É-R-I-T-O.
Quem foi levado num coche por uma campanha megalómana foi justamente CRASH, o filme mais estereotipado que verifiquei na última década. Em tempos alguém disse algo fantástico: CRASH é aquele tipo de filme que quem não entende nada de cinema julga ser um filmaço.

Nem mais...

Publicado por: Júlio Batista às março 7, 2006 12:17 AM

Não penso que o preconceito homossexual seja algo tão grande assim na Academia (pronto chamem-me lírico), mas lembro que o Filadélfia ganhou uma catrefada de prémios se calhar sem os merecer...penso que o preconceito Spielberg esse sim é mais marcante e constante...

A haver uma grande injustiça nesta entrega de prémios foi sem dúvida o Óscar para melhor filme estrangeiro.

Publicado por: Zé às março 6, 2006 08:45 PM

Sabia, André! Obrigada!
Só estamos a falar de alguns dos realizadores, que pertencem à categoria - Realizadores dos FILMES DA MINHA VIDA!

Volto a repetir, as nomeações, são fracas!

Mas, agora pergunto, vocês todos os anos concordam com as nomeações? E para quem vão os Oscars?
Acho que não, pois não? Há sempre injustiças. Ou por vezes, o que é para vocês o filme do ano nem consta na lista, ou a melhor interpretação.

Pronto, não chateio mais!

Mais uma vez obrigada, Miguel e a todos por esta discussão saudável.

P.S. O Munich tem para mim uma cena perto do final completamente dispensável, que me impede de lhe dar nota máxima. Mas gostei bastante do filme! Mas não adorei! Tal como os outros 3. O Capote sem comentários.

Publicado por: Alexandra Gomes Lopes às março 6, 2006 06:54 PM

Mas que obrigação tinha a academia de premiar como melhor filme o Brokeback Mountain? Porque como diziam os seus autores se tratava de uma história de amor?! A questão é que se olharmos para esse filme como uma história de Amor, iremos vê-lo como um filme banal que de facto é. Por isso o tão chamado preconceito que tanto por aqui se apregoa é dos seus incondicionais fãs e não de quem não aprecia o filme. Se tanto se fala de um perdedor mais do que um vencedor foi porque o perdedor é que tinha uma grande máquina por detrás a tentar levá-lo ao óscar de melhor filme. Felizmente não o venceu porque se tratava apenas e tão só de um filme de amor banal muito publicitado pelo simples facto de tratar de um amor homossesual entre dois cowboys.
Nunca fiquei tão satisfeito por um filme ganhar o óscar de melhor filme como o Crash, e apenas porque era o melhor da lista e porque existia uma máquina impressionante a promover um filme que não merecia vencer...

Publicado por: Ricardo L às março 6, 2006 05:59 PM

Francisco, eu não disse que a Academia devia premiar o Brokeback. Não o devia. Também não devia premiar o Crash, mas isso são outras contas.
Claro que houve um claro preconceito politico em relação aos dois grandes filmes nomeados, o Munich e o Good Night and Good Luck. Mas essa situação já se sabia, já se previa que acontecesse. A expectativa estava em saber-se se Hollywood estava disposta a ultrapassar outro preconceito, o da homossexualidade. O que não quer dizer que tivesse obrigação disso. Mas para mim, Crash venceu porque Brokeback era o que era. Foi uma vitória pouco expressiva de um filme que foi o mais amigável para Hollywood de todos os nomeados (Capote quase nem conta). E Brokeback, que era esperado como favorito, apesar de tudo, perdeu pelo que significa. Não por ser bom ou mau. Como Crash não venceu por ser bom ou mau. Venceu por ser um filme amigável, politicamente correcto, e um filme de Los Angeles para Los Angeles.

Um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2006 05:24 PM

Alexandra, OK, Clooney, não percebi a piada.

OK, a Sandra Bullock talvez tenha sido mau exemplo. Ainda assim não esteve mal, a personagem dela é que não dava para mais, mesmo com uma actriz de jeito. Tipos como o Terrence Howard ou o Matt Dillon ou até mesmo o Don Cheadle ainda tentaram fazer alguma coisinha com o que tinham, mas não sobrava muito. O filme foi feito a preto e branco a tentar parecer cinzento. E até resultou bem nesse aspecto, aparentemente a Academia caiu no engodo.

O esforço é o de compreender um filme que não é feito de forma rápida, em que há imensos silêncios a preencher os espaços em vez de acção (não necessariamente do "cinema de acção") rápida.

Quanto aos realizadores, dou o exemplo do realizador do "outro" Crash, para mim mais interessante, o Cronenberg. Ou o Greenaway. Ou um Chéreau ou o realizador de um outro filme mosaico infinitamente mais interessante, o Paul Thomas Anderson. Penso que nenhum destes nomes te será estranho, não?

Publicado por: João André às março 6, 2006 05:00 PM

Li as postas aqui colocadas a propósito dos Óscares -da mais recente até aqui- com maior ou menor concordância. Não há dúvida nenhuma que este é um blogue em que se sabe muito de cinema e está o seu autor de parabéns por isso.
Chegado a esta posta estaquei. -Já cá faltava o preconceito!...
Não será tão preconceituoso -pergunto- estar contra o filme por tocar a problemática da homossexualidade como estar a seu favor precisamente por a tocar?
Vi o filme e gostei. É um bom filme. Mas, na minha mais que modesta opinião, não merece tantos encómios... Mais a mais os Óscares que Ang Lee levou para casa não são de somenos importância. (O homem levou o prémio de melhor realizador!)

E agora a polémica (e o provável disparate): prejudicado por algum preconceito da Academia talvez tenha sido aquele que para mim era o melhor filme a concurso, 'Boa Noite e Boa Sorte'.
Porquê? Porque este foi um dos concursos mais politizados de sempre e a Academia temeu que os reunidos na sala Kodak se confundissem com uma assembleia de congressistas democratas. Estarei errado? É provável...

Um abraço,
Francisco Nunes

Publicado por: Planície Heróica às março 6, 2006 04:05 PM

Em resposta ao Mourinho, foi uma piada! George Clooney!
Quanto ao esforço? Não entendo? Qual esforço?
Não João André, não sou pessoa que só apercia filmes com muita "acção".
Só fico triste, é de mencionares os berros da personagem da Sandra Bullock, quando existem cenas muito mais marcantes no filme, no meu ponto de vista. Mas como digo, é algo muito pessoal, o Cinema.
Mas fico com curiosidade de saber,quem são os tais realizadores que eu não gostaria?

Publicado por: Alexandra Gomes Lopes às março 6, 2006 03:21 PM

Todos aqui sabem que achei um filme muito competente, com um excelente guião e um bom elenco, e que achei o Brokeback um filme de um imenso vazio, mas tecnicamente muito bem conseguido.
Ora, nenhum deles merecia o óscar. Nem face a Munich e Good Night, nem face a Match Point ou King Kong.
O manifesto não é a favor, nem contra. Não tinha favoritos este ano (ou tinha, mas já sabia que não tinham hipoteses). Mas entre um e outro, ambos filmes que iriam para a lista dos piores vencedores dos óscares de sempre, a verdade é que estava interessado em ver como a Academia ia reagir à questão polémica. E depois do Brokeback ter ganho todos os prémios, o mais natural era juntar o óscar ao bolso. Não aconteceu. E foi o porquê (ou pelo menos, a minha interpretação) que discorri no artigo.
Mas fica aqui a ressalva. O Crash é melhor filme, no sentido que tem melhor guião e mais ritmo. O Brokeback tem mais intensidade dramática e mais trabalho técnico. Nenhum deles sai como justo vencedor. Mas a Academia voltou a fazer das dela!

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2006 02:33 PM

Estranho manifesto, quando comparado com as reviews que foram aqui feitas dos filmes. Segundo elas o Crash é bem superior ao Brokeback...

Publicado por: Ricardo Cardoso às março 6, 2006 02:03 PM

Alexandra, esse vício deve ter provocado aí umas confusões. Que é que o Mourinho aí anda a fazer?

Quanto à história, a do Brokeback é superior, simplesmente porque existe. A do Crash consiste em meia dúzia delas. Todas diferentes. Já o argumento, pela mesma razão, dá vantagem ao Crash, enquanto que o do Brokeback é mais feito de silêncios, de vazios.

Relativamente às personagens, existe mais dualidade num grunhido de Ennis del Mar que em meia dúzia de berros da personagem da Sandra Bullock. As personagens de Crash são estereótipos onde até os twists finais se apresentam como tal.

Ambiente e trama? Obviamente que são mais intensos em Crash. O filme foi feito para isso. O Brokeback foi feito no sentido inverso, para a contemplação plástica. O Crash é fécil de perceber, o Brokeback exige esforço. Se a facilidade mental é, na tua opinião, um sinal de um melhor filme, nesse caso Crash é melhor, mas então não te aconselho carradas de grandes realizadores que por aí andam ou andaram. Não gostarias.

PS - nesta lógica suponho que acharias o American Pie superior ao Nutty Professor (o original, de 63).

Publicado por: João André às março 6, 2006 12:35 PM

Sem dúvida que o Crash é superior ao Brokeback Mountain. Não confundam mensagens, minorias a soltarem-se, tabus a libertarem-se com a 7ª Arte, Cinema. Sendo uma viciada em cinema, sim poderei dizer viciada, pois já são tantas as histórias contadas que conheço, não comparem a captação do Crash (história, argumento, personagens, trama, ambiente, … repeti-me, desculpem, ou seja tudo), com os restantes 4 filmes. Não menosprezando para mim, as obras de 2+1 grandes realizadores (Spielberg, Lee) e o novo (Mourinho). Mas questiono, terão sido realmente estes os que deviam ter sido nomeados? E quando coloco esta pergunta, estou-me a referir também a outras categorias! Honestamente achei certas escolhas muito pobres, existiam opções muito superiores...
Mas pronto, Cinema é Cinema e não deixa de ser pessoal e íntimo, por mais que tentem generalizar!

Publicado por: Alexandra Gomes Lopes às março 6, 2006 12:02 PM

Quem ler o texto até parece que gostaste muito do Brokeback Mountain. Ainda bem que não ganhou e sim o crash queé superior.

Publicado por: Luis Santos às março 6, 2006 10:59 AM

Discordo que Crash seja melhor filme que Brokeback. Penso que nenhum deles ganharia em muitos outros anos, são evidentemente mais fracos que os últimos vencedores, mas ainda assim Crash é o mais fraco dos dois.

E Crash só não passará à história como o mais fraco vencedor de sempre porque existe uma aberração chamada Shakespeare in Love...

Publicado por: João André às março 6, 2006 09:00 AM

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