« All the Kings Men estreia em Setembro | Entrada | Basic Instint 2: Risk Addiction - Autodestruição »

abril 13, 2006

Opinião - Cinemateca, o fim de uma era!

O jornal Público avança hoje a notícia que João Bénard da Costa não será reconduzido como presidente da Cinemateca Nacional. É o fim de uma era para uma instituição que, de Cinemateca Nacional passou progressivamente a Cinemateca de Lisboa, para acabar por se tornar na Cinemateca Bénard da Costa...
cinemateca.jpg

Para qualquer cinéfilo português, o nome João Bénard da Costa é tão familiar como um Godard ou Nicholas Ray. O fundador da revista O Tempo e o Modo tornou-se nos últimos trinta anos uma figura do próprio cinema português. Os seus textos sobre os mais proeminentes nomes da história do cinema encheram páginas de livros e as suas iniciativas marcam a cultura cinematográfica portuguesa. Disso não há a minima dúvida. João Bénard da Costa marcou uma era. O período em que dirigiu a Cinemateca Nacional ficou marcado pelo restaura de muitas obras-priams que se encontravam em péssimas condições nas prateleiras da Cinemateca. A recuperação das salas de cinema, o desenvolvimento do museu e os livros lançados pela Cinemateca foram apenas algumas das suas contribuições para o Santo Sepulcro dos cinéfilos nacionais. Os ciclos de cinema de autores desconhecidos foram um importante farol para os mais novos, e o recuperar de vários clássicos tornaram-se num cartão de visita obrigatório de um espaço que era cada vez mais seu.
A reforma chegou em 2005 mas ninguém parecia ter coragem de separar o homem da sua casa, qual siameses insperáveis, e ele foi ficando, com uma licença especial. Hoje soube-se que a licença vai acabar. A partir de Julho o cargo de Presidente fica vago. O homem sairá, a obra fica.
da_Costa__Joao_Benard_1.jpg

Mas, sejamos realistas e honestos. João Bénard da Costa foi o grande impulsionador do desenvolvimento da Cinemateca, mas também foi o homem que tornou a Cinemateca Nacional numa colecção privada, restringida aos habitantes da capital. Como programador ficou conhecido por passar repetidamente as suas obras de eleição, em ciclos que se repetiam anualmente para o seu gáudio pessoal. Como director da Cinemateca foi o responsável do atraso cinematográfico em que o resto do país vai vivendo. Seguindo a ideia de que Portugal é Lisboa, e o resto é provincia, foi durante o seu mandato que se começou uma prática que resume o que de pior há na macrocefalia cultural em Portugal. As obras que a Cinemateca tem em arquivo, que são a esmagadora maioria dos filmes que estrearam em Portugal, nunca sairam de Lisboa. Se um cineclube queria organizar um ciclo temático, não podia contar com as cópias da Cinemateca. O que seria supostamente de interesse público resumia-se ao interesse privado de meia dúzia de nomes. A Cinemateca vive ainda hoje para Lisboa, e Lisboa é a alma da Cinemateca. Mas no resto do país, não há o mesmo direito em ver Lang, Godard, Hitchcock ou Capra como há na capital? Certamente que sim. Mais ainda, sendo a Cinemateca uma instituição pública, suportada pelos contribuintes, estejam eles no Principe Real ou em Bragança, é no minimo censurável esta politica de centralização cultural que a Cinemateca foi fazendo. Com a benção do seu programador.
doccostaveiga_2b.jpg

Discutir os gostos de Bénard da Costa é trivial. Discutir o seu papel como programador na área do cinema é ridiculo. Mas pode-se discutir o seu papel como administrador de uma instituição pública que é de todos. Para que a Cinemateca não se torne numa Cinemateca de Lisboa ou numa Cinemateca Bénard da Costa era preciso mudar. Não se sabe ainda quem será o seu sucessor. Mas o que urge saber é se a politica de guettos cinematográficos vai continuar a ser praticada, ou se os novos rostos da Cinemateca vão perceber que não é só em Lisboa que há amantes de cinema clássico. A era Bénard da Costa chega agora ao fim. Mas isso significará uma viragem na política levada a cabo pelo Ministério da Cultura e pela própria Cinemateca? Esperemos que sim!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às abril 13, 2006 02:05 PM

Comentários

Ate´que enfim que alguém diz de sua justiça o que o pudor envergonhado dos cinéfilos establecidos não ousam. Se eu vivesse em Lisboa passaria grande parte do meu tempo livre a ver os ciclos da Cinemateca, mas como não ...sujeito-me a Hollywood. Lamentávelmente nunca se viu nenhum ciclo de cinema integrando parte do espólio da Cinemateca em algum cinema fora de Lisboa. Porquê? O desprezo arrogante de uma certa elite lisboeta, de que João Bernard certamente faz parte, assim o quis. Se alguém tem a agradecer a este senhor o visionameno de filmes raros e fabulosos, só os lisboetas o podem fazer. A mim só me coube as "Folhas da Cinemateca". Paciência.

Publicado por: Pedro Carneiro às abril 21, 2006 12:23 AM

Comente




Recordar-me?