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maio 19, 2006

The Da Vinci Code - O Código Estilhaçado

Quanto mais alto se sobe, maior é a queda. A expectativa à volta de Da Vinci Code era altissima. Afinal, esta era a adaptação do grande best-seller dos últimos anos, um livro que tinha tanto de polémico como de cinematográfico. Em duas horas e meia Ron Howard fez de tudo para destruir a mensagem e o ritmo apaixonante do livro. Criou um dos filmes mais chatos e inconsequentes da história. E confirmou o seu estatuto de realizador sem imaginação. No final, Howard não descodificou o código...estilhaçou-o!
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É dificil perceber porque é que um livro perfeitamente cinematográfico tem de ser alterado quando adaptado para o cinema. A resposta é uma: Ron Howard.
Incapaz de ter uma boa ideia cinematográfica (os flashback e os elementos de apoio às explicações de Langdon e Teabing são anedótico para não dizer mais), Ron Howard teve o condão de destruir uma adaptação extremamente promissora. E nem foi só a abordagem politicamente correcta onde a Opus Dei se transforma em vitima de um lunático, e onde a ideia defendida por Brown parece mil vezes mais inverosímel do que no livro do autor. Foi a forma como Howard destruiu por completo a personagem central da história, Robert Langdon, e com ele toda a ideia do filme. Se Langdon (um action hero à Indiana Jones com o intelecto de um Orson Welles) tem menos falas do que alguns elementos do elenco, a questão torna-se obrigatória: no que estava Howard a pensar?
Nem Tom Hanks - um dos melhores actores da história do cinema, apesar do que se vai dizendo - consegue fazer milagres com uma personagem assim. Não foi o penteado ridiculo de Hanks ou o seu ar de americano tipico que tornou Langdon o seu pior desempenho de sempre. Foi a forma como Howard olhou para a história, numa especie de corrida contra o tempo onde se acelera, do primeiro ao último minuto, sem se dar qualquer tempo para desenvolver personagens, situações e para que o espectador seja envolvido pela dimensão sobrehumana da narrativa. Quando isso acontece, nem o melhor livro sobrevive. Foi o que aconteceu.
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É dificil falar do filme sem dar pistas da história, e como o Hollywood não faz spoilers e há muitos certamente que irão ver o filme e não leram o livro, a situação torna-se dificil explicar. Mas imagem esta situação. Um livro tem uma premissa que é desrespeitada, um ritmo atropelado, e algumas invenções de Akiva Goldsmith sem sentido. Só isso já seria suficiente para perceberem o que foi feito a Da Vinci Code. Há sequências inanarráveis de tão más que são, e falas totalmente despropositadas quando não há um sólido contexto por trás - como acontece, e brilhantemente, com o livro. As personagens no livro já não são muito desenvolvidas - afinal o ritmo da história, um dia, não permite grandes deambulações e, teoricamente, Langdon já era conhecido dos leitores - mas no filme atingem limites que explicam as gargalhadas em Cannes ou os suspiros de desencanto dos espectadores portugueses que viram o filme em ante-estreia. O elenco, tão criticado, acabou por ser a principal vitima de Howard. Tom Hanks em piloto automático é irritante, Audrey Tatou é a escolha mais disparatada de sempre para um papel com a importância dramática que tem Sophie Nevau, e claro, Jean Reno e Alfred Molina são escolhidos não tanto pelas personagens, mas por serem, francês e hispânico nomeadamente, o que continua a mostrar que Hollywood prefere o aspecto à essência.
Salvam-se Ian McKellan e Paul Bettany. O primeiro é o único que consegue dar dimensão à sua personalidade, misturando a habitual fleuma britânica com a própria essência dúbia de Leigh Teabing, o lado mais culto e snob da personagem vivida por Sean Connery em Indiana Jones and the Last Cruzade. Quanto a Paul Bettany o que impressiona é a transformação do actor - um dos mais constantes e promissores actores britânicos da actualidade - capaz de fazer do seu Silas uma personagem realmente perturbada e assustadora, talvez a menos apunhalada por Goldsmith e Howard na adaptação.
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Vazio, oco, sem ideias. Da Vinci Code é tudo isso e muito mais, infelizmente. É um desperdicio de tempo e dinheiro. É um passo em falso brutal na carreira de Ron Howard, o senhor "certinho" que raramente consegue fugir de uma mediania confrangedora (Cinderella Man e Apollo 13 serão as excepções). É uma mossa no nome de Dan Brown, que ficará sempre mal visto por aqueles que viram o filme e não leram o livro (ainda são muitos, apesar de tudo). E é a perda de uma óptima oportunidade de fazer cinema - bom cinema - a partir de literatura - boa literatura - escrita também já a pensar na adaptação. No final perdemos todos. Quem diria que o livro mais provocante e fascinante dos últimos anos iria dar origem ao mais chato filme made in Hollywood em muito tempo.

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O Melhor - Sir Ian McKellan e Paul Bettany. Duas excepções num mar de mediania confrangedora.

O Pior - A adaptação de Goldsmith e a fraquissima realização de Howard.

Curiosidade - A produção conseguiu os direitos de filmar nos locais centrais da trama como o Louvre, Westminster e Roslyn.

Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/thedavincicode

Realizador - Ron Howard
Elenco - Tom Hanks, Audrey Tatou, Ian McKellan, ...
Produtora - Columbia
Duração - 149 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às maio 19, 2006 04:11 PM

Comentários

eu adorei o filme . a unica coisa negativa foi a de misturar rialidade e ficcçao . talvez foi por nao ter lido o livro logo nao tive uma disilusao

Publicado por: marcos às agosto 3, 2006 09:01 PM

Acabei de ver o filme e não percebo tanta negatividade à sua volta. Obviamente que não é uma obra-prima. Mas é um muito aceitável filme de Hollywood feito a partir dum dos livros mais cinematográficos que li até hoje. Passar para cinema o prazer de tentar decifrar os diversos enigmas que Dan Brown nos punha á frente é completamente impossível. E transformar o filme nessa procura seria, na minha opinião, torná-lo numa coisa chata e interminável. Assim, penso que o filme é um bom entretenimento feito a partir dum livro giro e que se lia avidamente mas que também não era mais do que isso ... giro.

Publicado por: Cristiano Amaro às maio 29, 2006 10:54 PM

Vi, ontem, o filme na sessão da meia noite e foi muito duro resistir ao sono. É um filme chato que chega a roçar o ridículo.
O livro é uma trama de ficção muito bem construída, baseado numa teoria que assassina a História mas que tem o seu lado engraçado. Não sou católico mas, efectivamente, o livro é baseado numa seríe de teorias da conspiração hilariantes e inaprovaveis. Nenhum historiador pode dizer o contrário.
Agora, o filme não passa a mensagem do livro (já de si delirante), e, pior ainda, não tem um décimo do suspense e fascínio que a construção narrativa do livro de Dan Brown tem. É um fiasco, pena é o Tom Hanks.

Publicado por: André Abrantes às maio 19, 2006 10:31 PM

Ainda não vi o filme, mas penso que compreendo a tua visão. Quando soube que era Ron Howard que ia pegar no filme, fiquei um pouco de pé atrás - simplesmente não o achei o realizador indicado para aquele tipo de filme. No entanto, ao ver os trailers, mudei de ideias e fiquei com a sensação de que afinal se ia tratar do livro como deve de ser. Ainda estou com esperança de gostar do filme, porque afinal as opiniões são bastante relativas. Mesmo após aquele fracasso em Cannes estou ainda esperançada. Para semana verei.

Publicado por: Jubylee às maio 19, 2006 08:17 PM

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