« A nova face de Deus... | Entrada | O Que Estreia Por Cá - Semana do Terror »

maio 10, 2006

The New World - O poeta da Utopia

The New World não é um filme para qualquer. Porque é de Terrence Malick. Porque é poesia em formato de pelicula. Mas, acima de tudo, porque é um retrato único de uma época histórica complexa e fascinante. E quem não perceber isso certamente vai passar ao lado do filme. Infelizmente...
Filme de newworld.gifnewworld.gifnewworld.gifnewworld.gif
colin_farrell1.jpg

As primeiras imagens do filme avisam logo ao que se vai. Malick não filma actores nem personagens. Filma cenários. Filma momentos. Mais do que pesoas, filma a Natureza. Nunca isso foi tão notório como em The New World. A poesia já estava em Days of Heaven e The Thin Red Line. Mas aqui há mais do que isso. Há um relembrar constante de um paraíso perdido. De uma terra tão semelhante à Utopia de Thomas Moore, destruida pelo pior que a Humanidade tem: os homens.
O aspecto mais genial em todo o filme é a dupla visão do Novo Mundo. E aqui há dois novos mundos porque quando há dois lados de uma mesma história nunca se deve ficar apenas num dos lados da barricada. O espectador associa-se mais depressa aos colonos britânicos que desembarcam na verdejante Virginia. Para nós aquele foi sempre o Novo Mundo, os indios sempre foram os selvagens que lá viviam antes da civilização ter tratado deles, e aquele pequeno forte, imundo, onde a cobiça dos homens era maior que qualquer coisa, o berço da América. Curioso no minimo. Mas o cineasta prefere explorar o outro lado. Talvez por isso o elo de ligação do filme seja sempre Pocahontas (nunca citada com esse nome, por muito curioso que isso seja), a jovem india que é o elo, a ponte entre as civilizações dos dois lados do Oceano. Para ela o Novo Mundo são aqueles navios de estranha dimensão, aqueles seres enigmáticos, aquele Deus caído dos céus que é John Smith, e mais tarde, a estranha terra que é Inglaterra.
Aos seus inocentes e puros olhos assistimos a todos os eventos históricos que precipitaram o fim de um mundo e o inicio de um novo. Porque não há mundo novo sem se acabar com o velho, o que para o Ocidente foi o raiar de uma nova era, para as tribos indigenas foi o crepúsculo de uma civilização única. Provavelmente a única civilização que conseguiu fazer a ponte entre o Homem e a Natureza de forma quase divina.
johnsmith.jpg

Claro que para perceber The New World tem de se perceber o que está por trás disto tudo. Para sentir cada sorriso, lágrima, correr das águas, bradar de espadas, é preciso saber um pouco da história de cada uma destas civilizações. Do seu encontro. E do choque inevitável entre dois povos que, apesar de humanos, eram tão estranhos um ao outro como os alienigenas o são dos terrestres nos filmes de ficção-cientifica. E não é apenas Pocahontas e a sua gente. É também John Smith, o exemplo perfeito do aventureiro da época das descobertas, fascinado pela terra virgem que descobre, pelo novo mundo que lhe surge diante dos olhos, puro, tão distante da sua terra natal. Mas o desejo de continuar a navegar, a explorar novos mundos é sempre maior. A dúvida, o complexo de culpa, tudo está lá, de forma sublime e numa intensidade sempre negada que um olhar traiçoeiro não esconde. Mas como disse, Malick não se apoia em personagens, actores, pessoas. Um filme de Malick conta-se pelos planos da água a escorrer, das árvores a dançar, dos céus em fúria. E nisso The New World é sublime, desde o genérico inicial - o mais atipico e relaxante possivel - até ao último plano. E como não é de actores que Malick gosta - eles são apenas um instrumento, nada mais - pouco se nota que eles estão lá. Colin Farell - eternamente amaldiçoado pelo seu Alexandre loiro, homossexual e imaturo - vive num constante registo de contenção que dá uma aura espantosa à sua personagem, um lider em conflito consigo próprio. Christian Bale continua a sua afirmação como um actor de alto nivel com uma imensa sobriedade na forma como encara a sua simples, mas fulcral, personagem. E claro, Q´Orianka Kilcher, o rosto de um mundo que já não existe. A pureza do seu sorriso só é comparável à expressividade que traz para a sua personagem, que como já dissemos, é o elo perdido entre uma era que passou e uma que anuncia a tiro de canhão a sua chegada.
thenewworld1.jpg

Tudo isto já era esperado de um filme de Malick, e nisso The New World não desilude. Mas os cinéfilos mais atentos vão reparar que o cineasta mistério, que poucos conhecem, mostrou neste filme que uma das principais influências na sua direcção é o cineasta francês Jean-Luc Godard. Malick nouvelle-vaguiano? Sim, mais do que nunca. Não só na forma como pega na camara, mas acima de tudo como trabalha o filme na sala de montagem. Cortes abruptos, jogos com o som, sempre a apostar num som indirecto, onde a imagem e o que ouvimos não correspondem, truques que desde Le Mépris Godard sempre defendeu, e que na sua fase vertoviana explorou até ao limite. Se Malick é o Godard americano, isso já é outra questão, mas que é certamente o autor norte-americano que mais se aproxima à estética e filosofia da escola da Nouvelle Vague, isso é-o sem qualquer dúvida. The New World é por isso um filme sobre um mundo velho. Seja ele o mundo de Pocahontas, seja ele o mundo do cinema de autor. Um olhar nostálgico, com saudade...a saudade de um mundo utópico que só um poeta como Terrence Malick saberia descrever!

Classificação - newworld.gifnewworld.gifnewworld.gifnewworld.gif

O Melhor - A dimensão relaxada e poética que o cineasta faz de uma das épocas mais interessantes da história da Humanidade.

O Pior - O excesso de alguns planos e alguns dos cortes mais abruptos. Já o censurava em Godard e continuo a censurá-lo a Malick.

Curiosidade - O nome de Pocahontas nunca é citado no filme apesar da história se basear claramente na sua personagem.

Site Oficial - www.thenewworldmovie.com

Realizador - Terrence Malick
Elenco - Q´Orianka Kilcher, Colin Farrell, Christian Bale, ...
Produtora - New Line
Classificação - m/12
Duração - 135 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às maio 10, 2006 12:43 AM

Comentários

acabo de ver o filme, venho via google (procuro imagens para postar sobre o assunto - e vou roubar). para discordar do seu primeiro parágrafo - não me parece que se passe ao lado do filme. o filme pode ser sobre a natureza, poesia, bucólico, lírico e tudo o que quiser. mas mallick comete um erro, tem história e pessoas lá - e é uma insuportável pepineira, um daquelas "épicos históricos" que 50 anos depois vemos por mera curiosidade (e a maioria nem isso, tantas as quadras natalícias e pascais passadas)
e farrel continua o seu percurso de canastrão (stephen boyd não faria melhor)

Publicado por: jpt às julho 26, 2006 03:35 PM

Concordo no geral com o que disseste Miguel. Apenas me associo à Isabel na crítica ao Colin Farrel que, depois de ter feito bons trabalhos em filmes medíocres (Tigerland, por exemplo) se anda a armar em actor que não é. O que vale é que tem a cara escondida atrás da barba e que a câmara de Mallick se interessa mais pela Natureza ou pelo rosto de Kilcher que pelo dele, que dali pouco sai.

Duas curiosidades extra: apesar de o nome conhecido ser Pocahontas, esse era o nome de criança dela (entre os índios era normal a adopção de novo nome ao entrar na idade adulta) ou então uma espécie de alcunha carinhosa. A Pocahontas histórica tinha outro nome, ainda antes de ser baptizada como Rebecca. Talvez por isso Mallick não tenha utilizado o nome.

Uma outra curiosidade tem a ver com a harmonia com a Natureza que os índios possuíam. Era indesmentível, especialmente aos nossos olhos, mas não deixa de ser curioso que tenham extinto os cavalos no continente ao caçá-los para carne. Só mais tarde, quando os espanhóis (essencialmente) os reintroduziram é que eles foram adoptados tão entusiasticamente.

Nada disto são críticas, apenas curiosidades. Por uma vez estou de acordo com 95% do que disseste ;)

Publicado por: João André às maio 11, 2006 12:14 PM

A sensação que tive quando fui ver este filme, foi que, estava, numa espécie de café-concerto, a ouvir poemas aconpanhados de imagens, e melodias harmoniosas. Este sem dúvida nao é um filme, para qualquer pessoa, é preciso , ter um certo grau de sensibilidade, para entender e acompanhar as ideias do realizador. O filme, não é uma obra prima, mas sem duvida que saímos da sala de cinema, com o mesmo desejo, de observar o que nos rodeia....tal como o realizador nos proporciona com este filme. Quanto ás interpretações: é a velha história, Colin Farrel deveria deixar aquelas manias de bad boy, e concentrar-se no trabalho, tal como fez em "Uma Casa no Fim do Mundo", se o filme depende-se unica e exclusivamente dele, nao seria possível, ao publico, sentir, a sensibilidade que o realizador quer passar, já que, na face de Colin Farrel, não se vêem espressões, é sempre igual, nos mais diversos momentos do filme.Q´Orianka Kilcher é uma agradável descoberta, pois tal como já foi diversas vezes referido, consegue transmitir a inocência da sua personagem, de uma forma eficaz e sólida.Christian Bale,demonstra uma vez mais, o porquê do seu sucesso depois de ter sido uma criança-revelação.Pessoalmente, espero que não se fique por aqui, e que continue, ao nível a que já nos habituou.
O filme, é sem dúvida, um enorme poema, é injusto que tentem menospreza-lo....Um filme de culto

Publicado por: Isabel Arantes às maio 10, 2006 07:20 PM

Comente




Recordar-me?