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outubro 03, 2006
Porque já ninguém conta histórias...
Há quem diga que o mundo tem tanto que desconhecemos que é quase insultuoso não aproveitar toda essa matéria prima e preferir a ficção. Há de facto, ainda nos nossos dias, muito que não conhecemos, mas grande parte desse "muito" não tem sequer comparação quando posto ao lado do poder da imaginação. E então quando a comparação é com a mente de um criador de fábulas dos tempos modernos, torna-se evidente que as suas criações são de uma beleza e simplicidade em pouco igualáveis pelo que existe por aí, palpável. A imaginação vence o real. A imaginação torna-se real. E não há maneira de não se querer mergullhar num mundo de sonhos como o que Shyamalan criou, uma noite, para as suas filhas.

Lady in the Water foi uma desilusão para muitos. Alguns fãs disseram-se desapontados, perdidos na ideia que tinham idealizado para um realizador que achavam especial, ousado, estranho. Desta vez, não houve sobrenatural, não houve um constante suspense capaz de prender os olhos à tela e fazer a frequência cardíaca tão instável quanto o Médio Oriente. Desta vez, não houve uma atmosfera negra e soturna, não houve sequer metade do habitual jogo ardiloso entre sombras, som e movimento, não houve twists inimagináveis nem uma linha de acção imprevisível. Desta vez, Shyamalan foi limpinho, foi previsível, foi humano. E foi belo, acima de tudo. Porque das coisas simples nascem as coisas belas, e o realizador soube ser simples ao seu estilo.
O ínicio do filme é simplesmente fantástico. E diz-nos tudo o que precisamos saber. Geométricos desenhos de giz em tela negra contam que, "era uma vez", havia, em tempos que o Homem já esqueceu, uma grande ligação dos seres da terra com os seres da àgua e todo o mundo era mágico e harmonioso. Mas essa ligação foi quebrada, e o Homem fugiu para a sua própria solidão e ignorância, e assim tem vivido até hoje, sem se aperceber. Agora, num momento escolhido a dedo na interminável linha do tempo, está na altura de procurar o Homem e trazê-lo de volta a tudo o que ele perdeu.
E assim, aparece Story na piscina de Cleveland e a história começa.

Brilhantemente filmado, Shyamalan mantém o dom para criar planos que não estão nos livros. Médio plano, grande plano, plano de conjunto, são totalmente ultrapassados por cenas onde tudo está desfocado, por pés a moverem-se habilmente num escadote, por reflexos nas paredes e pontos de fuga que nos fazem sentir dentro da cena. Jogos de luz e sombra, música aliada aos momentos mais incisivos, silêncios colocados de forma inteligente.
E alguns momentos em que se aproveita do facto de muitos já conhecerem o seu estilo de preparar um momento de explosão, que depois nunca acontece. A audiência acalma, e esse ponto de clímaz surge então como nova surpresa daí a alguns segundos. Outras vezes, deixa-nos adivinhar claramente o que vai acontecer, como se fossemos crianças a embrenharmo-nos na história...
De negativo, é obrigatório realçar o microfone que por mais de uma vez é apanhado dentro do campo de filme. Uma pena e dificilmente explicável para quem tanto prima pelos detalhes.

Interpretações de nível. Mas aí surpresa seria o contário. Paul Giamatti é um "senhor actor", irrepreensível no que a encarnar diz respeito. Ele simplesmente é um empregado de condomínio, daqueles simpáticos e gorduchos que se entregam a toda a gente, que estão sempre presentes quando é preciso, que são intolerantes quando alguém quebra as regras da casa e que gostam de saber tudo o que se passa sem dar muito nas vistas. E gagueza fabulosamente, diga-se. De repente, Cleveland torna-se num herói acidental e claramente não sabe lidar com a situação. E gagueja muito bem, saliente-se.
Bryce Dallas Howard é de outro mundo. Claramente. Passa quase a totalidade do tempo com o olhar fixo, perdido no espaço e tempo, falando quase sempre mais para si própria do que para Giamatti ou o próprio Shyamalan. A caracterização está fantástica e com certeza é essencial para nos envolver na aura mágica da personagem Story, mas é a expressão facial da jovem actriz que mais nos faz querer ajudar, protegê-la. É poderosa, parece crescer em torno de Giamatti e ainda assim criar a sensação que é totalmente dependente dele. Enebriante.
Depois, é inevitável falar do papel de Shyamalan enquanto actor. Vick é uma personagem essencialmente presencial, e Shyamalan sabe-o. Já tendo aparecido em todos os seus filmes, desta vez muitos acharam que o realizador se excedera ao escolher para si um papel secundário. Vick é sem dúvida importante e até tem algumas marcas de relevo, mas não é uma personagem que fique na memória, não tanto como a chinesinha que ajuda Cleveland a desvendar a história ou o antipático novo inquilino. Simplesmente, está lá e está bem feito. Sem dar nas vistas.

Lady in the Water é brilhante porque é tudo o que nos prometeram. "A bedtime story - by M. Night Shyamalan". Conjuga o imaginário místico do realizador com todos os cânones básico de uma boa história de dormir, de um conto da nossa infância. Um senhor que tinha uma vida simples, uma menina que precisa de ajuda, um senhor que se torna um herói acidental, um grupo de amigos estranhos, um sábio, um excênctrico, um vilão, uma força salvadora, uma linha de história com um plano perfeito que começa por falhar e uma segunda oportunidade que funciona quando o momento é o mais certo, depois de um grito de grande tensão quando toda a esperança parece perdida...
Para os que sairam desiludidos da sala de cinema há uma grande probabilidade de terem perdido aquela inocência tão especial que lhes fazia os olhos brilhar de entusiasmo e tremer de emoção escondendo-se debaixo dos cobertores. Porque todos os perigos parecem reais e todas as esperanças plausíveis. Não se questiona que a acção decorra tão rapidamente, que haja personagens tão impensáveis, que a chave para todos os mistérios seja descoberta em segundos, que todos os personagens mágicos necessários para salvar o mundo estejam reunidos no mesmo condomínio...Isso não são sequer detalhes. Porque este mundo é mágico, é único. E o que é preciso é ajudar Story a salvar-se e salvar-nos. É isso que realmente importa.
Publicado por Manuel António Martins às 02:19 PM | Comentários (7)
outubro 02, 2006
Clip da Semana
Um momento impossível de apagar da memória num filme brilhante.
Schindler's List, de Steven Spielberg. Com um emocionante Liam Neeson.
Publicado por Manuel António Martins às 09:02 AM | Comentários (2)