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novembro 15, 2006
Descubra as diferenças
Cinema latino com sabor americano. Ou será ao contrário? Em Children of Men, a irreverência de Alfonso Cuarón enquanto cineasta e o seu corte com os habituais padrões de Hollywood está bem patente, mas a verdade é que este é um argumento muito americanizado. Os dois géneros não se fundem, mas coexistem de forma poucas vezes vista e portadora de um significado especial

A câmara treme. Mas treme mesmo, não dá para enganar. Para quê um tripé? Alfonso Cuarón tem mãos e faz questão de mostrar à audiência que pode muito bem segurar uma câmara. E durante bastante tempo, diga-se. Mas ele insiste, e prova que tem razão, porque passados cerca de quinze minutos o nosso cérebro já se adaptou - a custo - àquele balanço frenético.
Os primeiros frames são dedicados a uma dupla inédita mas, no mínimo, interessante. Clive Owen e Michal Caine são Theodore Faren e Jasper Palmer, dois amigos de longa data que conversam calmamente, como se não tivessem futuro. E a verdade é que não têm. A Humanidade está por um fio, as mulheres não conseguem engravidar há já 18 anos e a sociedade definha. Tranquilamente, Theo e Jasper fumam uma charro - criado por Jasper que lhe chamou "tosse de morango" - e debatem acerca de coisas que foram e que nunca mais serão. Esta conversa é seguida de perto por planos improváveis de Cuarón, que segue (literalmente) Theo para onde quer que ele vá, nem que seja so recostar-se no sofa ou estender o braço para pegar no cinzeiro. Mano a mano, a câmara está lá. Por esta altura, um espectador mais esclarecido já se apercebeu que este filme não vai ser propriamente um blockbuster de tiroteio e perseguição nem um sci-fic banal...

Children of Men passa-se em 2027 a uns escassos 21 anos da nossa existência, portanto. Mas não deixa de ser um futuro apetecível a uma mega produção que queira candidatar-se ao Óscar de melhor guarda-roupa, desenhar uns apartamentos improváveis, toda uma organização social diferente do que conhecemos, criar carros dignos de figurar nos sonhos dos designers mais arrojados, como vimos por exemplo em I.Robot ou mesmo em Artificial Intelligence. Aqui não. Em 2027 o mais moderno que temos é um punhado de Renaults ligeiramente modificados e um Rolls Royce belíssimo mas perfeitamente actual. Mas o melhor de tudo é a carrinha amarela. Uma Citroën de 1982 com uns upgrades que são no entanto incapazes de camuflar a sua personalidade. E amámo-la por isso! De resto, nem roupa, nem edificios, nem armas, nem barcos...nada é levado "ao futuro", nada leva um hipotético espectador que nada soubesse da história a perceber que está no futuro. E a ideia é mesmo essa, porque Children of Men tem muitas mensagens escondidas. O trabalho de fotografia é muito bem feito, concedendo a história um ar ainda mais cinzento do que o habitual no Reino Unido. O objectivo, em conjunto com o cenário, é passar a ideia de que não só o Homem está em risco mas também a Terra está a morrer, fruto dos excessos irresponsáveis que cometemos ao longo de séculos.

Quanto à história. Theodore Faren é um homem bem sucedido na vida, ocupa um cargo importante, tem amigos poderosos e consegue andar na rua e sentir-se seguro. Mas é sozinho e sombrio, de uma forma como apenas Clive Owen consegue ser, esbanjando charme mesmo com umas olheiras profundas e um semblante carregado - apesar do bom desempenho de todos os actores secundários, torna-se claro que o filme "é dele". A acção começa rapidamente. Theo é raptado por um grupo de activistas que ainda acredita que vale a pena lutar apesar de não haver futuro (literalmente, repito). O seu objectivo é conseguir condições de vida justas aos milhões de emigrantes que povoam a Grã-Bretanha e que são tratados como animais e criminosos. Essa é uma das principais mensagens de Cuarón neste filme, impossível de dizer-se sub-repticia quando vêmos Clive Owen passear na rua calmamente enquanto a polícia se esforça por manter em verdadeiras jaulas um número incontável de negros, mulatos, asiáticos, àrabes e não só. Os "Fisches", nome do grupo, são liderados por Julian Taylor (Julianne Moore), mulher que mantém uma estranha relação de confiança com Theo, e que o solta logo após ele se comprometer a ajudá-los: Theo deve arranjar um livre-trânsito para uma criança clandestina muito especial.

É a volta desta criança que o resto do filme se desenrolará, pois ela não é outra senão aquela que pode vir a salvar a humanidade. A primeira, em 18 anos, a transportar um filho. Theo encontra a sua razão para viver, mais do que sobreviver os últimos anos que o esperam e vai empenhar-se numa cruzada solitária para salvar a vida da jovem Kee e a tão preciosa vida por ela transportada, abdicando da sua própria vida recatada e bem planeada. Para mostrar que afinal, ainda é possível um homem preocupar-se com o seu semelhante, mesmo que não saiba nada sobre ele.
São vários os twists contra os quais eles se irão defrontar, mas que certamente são capazes de deliciar e surpreender o espectador. E os detalhes pelo caminho são fenomenais, de génio em alguns momentos. Como amigo de Theo que tem a Guernica na sala de jantar ou então o carro de fuga que não pega (é um clássico reactualizado!) ou acima de tudo o facto de Theo fazer mais de uma hora de filme em havaianas - sim, as chinelas. Outros, ficam para surpresa.

O futuro é um cenário, a "infertilidade" quase uma desculpa - nunca sequer se preocupam em explicar porquê ou como surgiu. Porque este filme é sobre o presente e tem uma clara mensagem política e social como poucas vezes se vê. Não é propaganda, não é subliminar. É como uma manifestação pacífica de milhões de pessoas ao mesmo tempo, uma marcha silenciosa pelo respeito à vida, seja ela de uma criança, de nós mesmos, dos outros ou do planeta. Children of Men não é um filme fácil. Não é imperativo amá-lo, nem sequer gostar dele. Mas é imperativo que nos faça pensar, que nos faça dar valor às coisas que consideramos imutáveis e eternas.
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Actores:Clive Owen, Michael Caine, Julianne Moore, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam....
Género: Drama/ Thriller/ Ficção Científica
no IMDB
para ver quando..... se sentirem capazes de deixar o filme pensar convosco e contagiar-vos. Ou quando apetecer fugir um pouco ao cinema totalmente americano. Num dia de chuva.
Publicado por Manuel António Martins às novembro 15, 2006 12:51 PM
Comentários
O filme agradou-me bastante...Cuarón tens uns pormenores deliciosos no meu ponto de vista...
Um bom filme para quem se queira "adaptar" ao cinema europeu...
Aconselho a quem gostar de cinema e dos pequenos promenores...é preciso envolvimento no filme para o ver!
Publicado por: Ivan Silva às novembro 18, 2006 10:34 AM
Ainda bem que voltarm,continuem.Em relação a este filme não comento ainda não o vi mas estou curiso(os realizadores espanhois andão muito bons,até o Vigo Mortenson foi fazer um filme a espanha, filme que me parece bem interessante).
Publicado por: vitoscano às novembro 16, 2006 11:52 AM
Obrigado J. ;)
não está tão boa quanto deveria mas precisava de ser publicada nesta altura...
se pudessem, gostava de ter algum feedback sobre pequenas mudanças aqui no blog. Apesar de sempre ter sido um blog vincadamente jornalístico (que vai continuar a ser, desde a abordagem do conteúdo e à forma de escrita)estava a pensar incluir pequenos momentos mais "pessoais" como por exemplo aquele "para ver quando". Acho que muitas vezes um texto demasiado jornalístico afasta aqueles que simplesmente querem ir ao cinema e precisam de umas pistas...!
Publicado por: Manuel António Martins às novembro 16, 2006 01:11 AM
Um grande filme, uma bela crítica. Parabéns Manuel, o regressado Hollywood está em boas mãos!
Publicado por: joaon às novembro 16, 2006 12:40 AM