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dezembro 03, 2006

Casino Royale: Diamante em Bruto é um Diamante

Estar céptico pode ser uma benção. Nada esperar, nada querer. E tudo o que vier será bom. Assim, foram muitos que preferiram nada querer com este novo e estranho Bond...e sairam da sala recompensados por isso. Mas não tanto quanto os que acreditavam que ele ia ser genial - porque esses viram a sua expectativa ser superada. E não há nada que bata isso. Parabéns aos que puseram as fichas na mesa por este Casino Royale. Sairam a ganhar em grande, porque o mito renasce e vive com surpreendente naturalidade na pele de Daniel Craig.

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Toda a gente merece um novo começo, costuma dizer-se. No entanto, às vezes a história é tão grande que a resistência a esse novo ponto de partida é enorme. Esquecer Connery, Moore, Brosnan? Impossível. Mas não é disso que se trata. Esses viverão para sempre, só temos que pôr na cabeça que vêm "depois" de Craig e que a única coisa que querem que nós esqueçamos não é outra senão essa transformação absurda de um dos agentes secretos mais smooth operator que alguma vez existiu num action-man básico e banal. Sejamos honestos, se não fosse por Pierce Brosnan, os últimos dois Bonds seriam insuportáveis. Assim, foram só maus, mas de uma forma ou de outra fizeram James perder a essência. Daniel Craig trouxe-a de volta, podem esquecer o ar de brutamontes e a cara de fundamentalista que punha bombas em Munich. Este Daniel é outro. Este Daniel é James Bond.

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Casino Royale é mesmo o que nos prometeram. Um renascer. E um renascer a extodos os níveis. Brosnan não podia fazer este papel, simplesmente era-lhe impossível. Daniel Craig não é propriamente bonito, não tem metade da classe, mas também tem o seu charme e um grande carisma. E tem algo que Brosnan não tem - um ar presunçoso, jovial e irresponsável, imprudente. É que este Bond dos primeiros dias não tem nada que ver com o Bond que conhecemos. Ele veste-se informalmente, com uma tremenda falta de estilo. É tosco, escorrega nos momentos cruciais, destrói tudo o que consegue, dispara como uma menina e mata indiscriminadamente. Movido pelo seu próprio ego, é um miúdo que chega cedo demais onde muitos nunca chegarão. Não é sarcástico nem súbtil, não é o mais inteligente dos agentes e nem sequer o mais esperto. Ou seja, não é propriamente Bond. Dele (do verdadeiro Bond) começa com poucas características - é perserverante, teimoso e consciente da sua importância. Mas durante estas duas horas e vinte e cinco minutos (!) vai crescer, vai tomar consciência dos erros, aprimorar as virtudes, sofrer as consequências.

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Craig é, portanto, uma excelente surpresa. Honestamente, depois de sair da sala não era capaz de imaginar os outros sondados no papel. Hugh Jackman sem hipótese, Goran Visnjic sem a essência, Owen sem ser ele. Não, a esolha é de facto a acertada. Craig faz mais do que lhe pedem - ele simplesmente é aquil que se espera dele. Não é forçado quando tem que ser violento (este Bond é violento, não é uma questão de tiros a distância e pescoços partidos subtilmente), não é forçado quando tem que ser sereno ou encantador. Espelha emoções como raiva, surpresa, gozo, dor e revolta com uma admirável capacidade teatral, ao estilo do teatro britânico do mais alto nível. Aliás, é mesmo essa a escola dele. Além disso, Craig é capaz de ter presença sem ser exibicionista o que lhe dá certamente a coolness necessária para ser James. E ter isso é óptimo para um homem que tem que convencer meio mundo que não está naquele lugar por acaso - mas porque o merece. Depois, tem a sorte de ter a companhia de Eva Green, sinceramente ainda mais bela neste filme que o habitual nela, mas principalmente capaz de construir uma personagem forte e essencial à caracterização gradual daquele que conhecemos como James Bond. Vesper não é uma Bond Girl tonta que simplesmente and com Bond de um lado para o outro. Ela é uma personagem secundária de extrema importância em toda a história e Green esta muito à altura do papel. Não era uma carinha bonita como Denise Richards ou uma sex symbol como Hale Berry quem iria fazer o lugar, impossível. Interessante também ver o ínicio da relação de Bond com M, onde se mantém Judi Dench, apesar de isso poder causar alguma confusão aos que já a viram com Brosnan. Enfim, das duas uma, ou se tem Casino Royale como um James Bond de facto separado dos outros ou então imagina-se que ela sempre tenha estado lá. Claro que ela não aparece nos filmes de Connery, Moore ou Dalton, mas isso resolve-se com um bocadinho de imaginação...ninguém impede M de tirar umas férias, digo eu! Mads Mikelsen é um vilão interessante, poderoso, perturbado e reservado. Não há muito mais a exigir.

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A intriga deste Casino Royale deve ter custado umas boas horas de pensamento ou então uns curtos momentos de inspiração a Ian Fleming. Apesar do muito trabalho dos argumentistas que permite arrastar a história durante tanto tempo sem causar cansaço ao espectador (bom, quase sempre), a intriga principal pertence ao criador de Bond, e é preciso dizer-se que tem o seu quê de originalidade sem ser demasiado fantasiosa. Claro que há um vilão, um vilão com uma qualquer característica física e um passado assombroso que o define, mas há também uma ideia genial na forma como se cria uma história à volta de um jogo de póquer. A emoção até ao último momento de cada rodada que o jogo tem per se espelha-se nas várias situações do filme e nos vários twists que este vai arrancando. As cenas de acção são concentradas no ínicio do filme para depois se passar a uma abordagem mais inteligente, mais súbtil. É um grande trabalho de realização e argumento ser capaz de construir um filme do 007 com mais de 30 minutos à volta de uma mesa de casino. E depois, há as cenas nunca vistas de um Bond humano, torturado, mas cada vez mais "ele". Ver para crer...

Visualmente, é um filme fantástico. Quem é que não quer passar por Praga no Inverno, por África num instante, pelo luxo nas Bahamas e depois pelo Montenegro para um banho de verde e de requinte...? Ah, e acaba em Veneza... Se isto não ajuda um filme a ser apelativo, então nada ajuda.

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Pergunto-me, honestamente, porque é que o realizador Martin Campbell não continuou com a saga depois de ter brilhado com Golden Eye? Um dos melhores filmes de James Bond desde os anos 60, a melhor trama, o melhor actor a seguir a Sean Connery. Estava tudo lá, Campbell podia ter feito história. Mas não fez, e por causa disso ( três filmes depois) teve que começar a história do ínicio. Pelo menos começou-a bem, acertando naquilo que o verdadeiro público de Bond espera e gosta. A honestidade das cenas mais sensuais, a perseguição automóvel reduzida ao mínimo indispensável, a beretta disparada apenas quando necessário, a intriga digna de um policial de nível e não uma simples desculpa para explodir casa e voar em carros...Depois, conduziu Craig ao longo do processo de transformação mais credível que esta série viu, e só por isso louva-mo-lo. A trabalhar com e para Campbell há três guionistas que sabem o que fazem, sendo que dois deles já tinham mão nos últimos dois Bond (Pervis e Wade) mas o terceiro é um homem que sabe escrever e escolher guiões...Não tivesse o ano passado ganho um Óscar com Crash à custa disso - Paul Haggis é um nome que salta a vista quando vêmos os créditos. Diz-se mesmo que Haggis foi contratado para apenas "polir" o guião mas que teve que acabar por re-escrever grande parte dele. Se é verdade, então fez muito bem. Não conseguiu, no entanto, evitar que alguns bons velhos vícios de Bond viessem a cena, como sendo acabar o filme com um edíficio inteiro a vir abaixo... Não se pode ter tudo. Depois, claro, há mais um Aston Martin a acabar desfeito. Mas enfim, um Bond que não destrói um carro não é um Bond e por aqui se vê que a mania dele em o fazer começa "de pequenino".

A produção continua a cargo da inevitável e histórica família Broccoli que já há muitos anos não abandona James, como se ele fosse um filho.

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Um diamante bruto. É de facto a expressão ideal. Bruto. E diamante. Porque nos dão a conhecer o Bond mais humano que alguma vez vimos, com muitas, muitas arestas para limar. Se não foi filmado de forma gradual, então ainda mais crédito para Daniel Craig, porque ele é realmente um senhor actor. Durante aqueles 144 minutos a mudança que se opera em James Bond, enquanto personagem, é fenomenal, fica na memória. A forma como a sua arrogância se transforma em confiança, a sua brutalidade em eficiência, a sua ingenuidade em experiência são de facto situações novas para qualquer um dos fãs. Aliás, este Bond tem um outro trunfo na manga, que é apresentar-se convenientemente a toda uma geração que nunca se sentiu ligada a ele e tem agora a opurtunidade de o acompanhar desde o ínicio.

E depois há os detalhes, o facto de James não pedir nunca um "vodka martini shaken not stirred" mas sim outras bebidas até chegar à ideal, o facto de nunca se apresentar com o clássico "Bond, James Bond" até ao verdadeiro momento em que se torna nesse mito são momentos brilhantes. Começa humano, ineficaz, e termina como o agente que conhecemos, mais incisivo, menos humano, cheio daqueles traços de uma estranha história que não conhecemos mas que o moldou definitivamente. Agora, passamos a conhecer. E nem assim ele perde o seu encanto.

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O Melhor - O renascimento de uma saga, de um mito. O nascimento e crescimento de Daniel Craig/James Bond e a confiança de que os futuros filmes podem manter o excelente nível. O dar a conhecer a uma nova geração um herói que de outra forma não lhes seria apetecível conhecer.

O Pior - Os inevitáveis tiros que nunca acertam em Bond. Nunca...

Frases: "That's good, right there. Go on. This way everyone will know you died scratching my balls." Bond
"Vodka Martini" Bond; "Shaken or stirred sir?" Empregado; "...Do I look like I care?" Bond
"The name is Bond. James Bond".

Para ver quando... quiserem. Casino Royale adequa-se a muitos estados de espírito porque tem aquilo que é mais louvável no cinema - criar um estado de espírito próprio.

Site Oficial - www.jamesbond.com

Realizador - Martin Campbell
Elenco - Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright
Produtora - MGM
Duração - 144 m
ficha completa no IMDB

Publicado por Manuel António Martins às dezembro 3, 2006 07:58 PM

Comentários

Márcia, obrigadão pelo comentário. É muito bom sentir o nosso trabalho reconhecido e para mim tem um significado especial. Tenho perfeita consciência que não sou o Miguel, o meu conhecimento sobre cinema é muito diminuto em relação ao dele, e sei que isso por vezes faz falta a quem nos visita. Mas sinto-me bem recebido e até ele voltar eu vou ficando por aqui!
quanto ao filme "must see" do ano é uma excelente definição! ;)

Esqueci-me de escrever na crítica mas aproveito este espaço para partilhar ainda mais um detalhe. O genérico inicial estava fenomenal, na minha opinião. grande trabalho do departamento artístico ! vejam com atenção em vez de comer pipocas :P

agora sobre o holly, já disse isto várias vezes mas nunca é demais. O movable type, como sabem, nao é propriamente a mais fiável das ferramentas de publicação e às vezes não dá durante dias ou entao impossibilita os comments ou não os deixa ler. Tentem fazer refresh quando isso acontecer, costuma funcionar.

grande abraço e bom domingo ;)

Publicado por: Manuel António Martins às dezembro 3, 2006 04:06 PM

já agora deixo o meu comentário ao filme. já fui ver. (nem de propósito) não podia estar mais de acordo c/ o q já foi dito. Martin Campbell é perito em fazer estrear em grande os novos bonds. para aqueles q esperaram s/ preconceitos, fizeram bem. daniel craig não podia estar mais a altura. já o filme, é um "must see" do ano.

Publicado por: Márcia M às dezembro 3, 2006 03:56 PM

já agora deixo o meu comentário ao filme. já fui ver. (nem de propósito) não podia estar mais de acordo c/ o q já foi dito. Martin Campbell é perito em fazer estrear em grande os novos bonds. para aqueles q esperaram s/ preconceitos, fizeram bem. daniel craig não podia estar mais a altura. já o filme, é um "must see" do ano.

Publicado por: Márcia M às dezembro 3, 2006 03:52 PM

Bem, que saudades!! Sem dúvida que o hollywood faz falta ( e muita). Miguel cá te esperamos ansiosamente. Quanto a ti Manuel, recebemos-te de braços abertos. Ah, os pequenos toques tais como: "para ver quando" ou "dica de sexta-feira" resultam bastante bem;
aliado ao que o blog desde logo nos habituou: bom jornalísmo cinematográfico, pois claro. Prometo deixar os meu comentários sempre que puder. Um abraço.

Publicado por: Márcia M às dezembro 3, 2006 03:32 PM

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