março 11, 2006

Entrevista a Mário Dorminsy II

Segunda parte de uma entrevista realizada em parceria entre o Hollywood e o Take 2 a Mário Dorminsky, o mentor e organizador do maior festival de cinema em Portugal.
Intercontinental 088.jpg

- O Fantasporto tem funcionado sempre como um espaço de revelação de nomes, não só cá em Portugal mas também a nível mundial. Houve Sam Raimi, Peter Jackson, Guillermo del Toro…Qual é a grande revelação que poderá sair daqui este ano?

É difícil de dizer. Há vários nomes. É evidente que eu sei quais são os bons, mas dizer quais vão ser os que vão dar o salto, é diferente. A questão é esta: como normalmente os nomes que as pessoas retêm, são nomes muito ligados ao cinema americano, este ano, pegamos em nomes fortes do cinema asiático, e nos restantes casos acho que só o futuro o dirá porque não vai existir a máquina norte-americana por trás. E por isso tenho dúvidas em dizer que o senhor A, B ou C, que têm grandes filmes, vão conseguir projectar-se. Tanto revelamos nomes como um James Mangold, que agora leva filmes aos Óscares, como um cineasta como o Michael Haneke, que é conhecido por um núcleo duro de cinéfilos. Os europeus, só por sorte, é que acabam por explodir realmente.

- Este ano há mais cinema europeu, e há mais cinema português. Acha que se pode falar numa “Geração Fantas”?

Há uma “Geração Fantas”. Uma geração que está aí com o Alice, o Odete, o Coisa Ruim, o All See You in My Dreams. Há muitos cineastas que emergiram do Fantas. E aí tem havido apoio do ICAM que tem permitido o apoio a alguns filmes para que possam ir a concurso. O problema é que há autores, como o próprio Filipe Melo, que está à espera de apoios para avançar com o seu novo filme, Dog Mendonça e Pizza Boy, que tem um argumento, fabuloso, fabuloso, que não arranjam financiamento. Sabemos que estão a arranjar investidores privados, mas mesmo assim ainda faltam verbas, que todos esperamos que venham do ICAM ainda este ano.

- A Cinema Novo vai ser um desses investidores?

De alguma forma sim. Mas não temos capacidade financeira para entrar com 400 mil euros no projecto. Já tem actores – Nicolau Breyner e Bruce Campbell – e vai ser rodado em inglês, o que tem levantado problemas com o ICAM, apesar de já se ter decidido em apostar paralelamente numa versão portuguesa. Vamos ver como é que vamos trabalhar isso!

- Há uma situação que é um dos grandes problemas do cinema português. Em Espanha os espanhóis vão ao cinema ver filmes espanhóis, os franceses vêm filmes franceses…em Portugal as pessoas não vêm filmes portugueses…

Falta a nova geração. Em Espanha apostaram na nova geração, conquistaram o público. E aí a comunicação social tem culpa. Critica-se e faz-se coberturas falando-se no filme A, B ou C, esquecendo-se do contexto em que o projecto foi feito. Em Portugal não se faz divulga-se de eventos, criticam-se os eventos. O exemplo mais claro foi que no sábado, dia após o início do Fantas, não saiu uma única notícia. Tivemos de por páginas pagas de publicidade para garantir que as pessoas soubessem o que se passou. E isso acontece por preguiça, por falta de vontade em divulgar o que se vai passar em cada dia.
A Comunicação Social bloqueia a cultura nacional. Só a manda abaixo. Em Espanha, França, Itália, Alemanha, seja quem for, defende os seus cineastas, cria nomes para as estrelas, faz dos actores estrelas, cria um “star system” apoiado pelas revistas, jornais, televisões. Em Portugal é bota abaixo. Por isso é perfeitamente natural que nos jornais digam que a Maria de Medeiros é francesa.

- Quem é que o Mário gostava de ver na próxima edição do Fantas?

Eu gosto de ver os meus amigos todos. Mas gostava especialmente de ter quatro gordos, apesar de um deles estar magro. Um é o Guillermo del Toro que esteve cá o ano passado. O Peter Jackson, que agora está magríssimo. E gostava de ver cá o Santiago Segura e o Alex la Iglésia. Somos todos gordos, temos todos barba, temos todos um cabelo esquisito, somos todos amigos, por isso se estivéssemos cá ao mesmo tempo seria fantástico.

- E já há algum filme que tenha visto ou ouvido falar que gostasse de exibir aqui no Fantas do próximo ano?

É muito difícil. Nós trabalhamos com material extremamente recentes. Este ano temos várias estreias mundiais e europeias, o que faz com que só possamos ter a certeza que vamos ter os filmes pouco tempo antes do festival. É quase impossível nesta altura do campeonato antecipar os filmes que estarão no Fantas do próximo ano. O que estamos a fazer é testes em novos formatos. Sem ninguém reparar, estamos já a passar filmes em alta-definição no grande auditório. E no próximo ano vai haver uma fusão total dos modelos de exibição dos filmes.

- Como é que fazem a selecção dos filmes?

Nós acompanhamos a produção de um filme desde a sua origem. Há dois meios de comunicação essenciais, o Variety e o Scrren Internacional, que tem áreas dedicadas ao lançamento das produções internacionais. Quando vemos o nome do produtor – que já conhecemos e tem qualidade – o filme que tem o realizador x – que já sabemos que pode dar alguma coisa – e tem o actor a ou b – que dá o enquadramento ao filme – a partir daí acompanhamos o filme. Por isso agora temos listas e listas e filmes em Cannes e no American Film Market. E é aí que vamos ver e falar, pedir promos, desses filmes. Daí que a programação do próximo ano, e de 2008, já está a rodar.

1º Parte

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:01 PM | Comentários (1)

Entrevista a Mário Dorminsky

Há mais de 25 anos que Mário Dorminsky é um nome incontornável no cinema português. Organizador do maior festival de cinema nacional, Dorminsky é também a voz da contestação ao estado actual do cinema português e à forma como as entidades e os órgãos de comunicação social impedem o crescimento de um indústria nacional.
O director do Fantasporto em discurso directo, numa entrevista em duas partes, feita durante o festival pelo Hollywood e Take2.
Intercontinental 087.jpg

- O que é que leva o Mário Dorminsky a sair de casa e a ir ao cinema?

Bem, desde que foi convidado para o lugar de vereador da Cultura, na Câmara Municipal de Gaia, que a minha vida mudou radicalmente. Por isso há um antes e um depois. Normalmente eu vou ao cinema por gozo. Gosto de estar com pessoas, com o público em geral, a ver os filmes. Não gosto das pipocas, dos barulhos dos telefones e das pessoas falarem na sala como se estivessem em casa, e por isso tenho tendência a ir ás primeiras sessões da tarde, especialmente no AMC que tem das salas que eu considero ser das melhores de Portugal e da Europa. E dá-me muito gozo ver o cinema em grande ecrã e mantenho-me acompanhado em relação ao que sai cá, até porque muitos dos filmes eu já vi, ou em festivais ou mostras de cinema. O que me acontece é que, nos últimos quatro cinco meses, com a dificuldade que foi em gerir o cargo de vereador, com a preparação do Fantas, tive dificuldades em ir ao cinema, onde só vi dois filmes, o Brothers Grimm e o King Kong.

- Como é que acha que está a oferta nas salas de cinema nacionais?

O mercado está neste momento numa crise muito grande, provocada essencialmente pela falta de critério dos exibidores, em relação às propostas que são feitas pelos distribuidores. Isto é, cada vez mais passam no circuito comercial filmes que, no meu ponto de vista, deviam ir directamente para vídeo, ou dvd como se diz agora. E isso leva a uma quebra da ida ao cinema do espectador normal, que procura um filme que não está a conseguir encontrar, nos últimos tempos, numa sala de cinema.

- O que é que há nesta edição do Fantasporto que pode fazer as pessoas a saírem de casa e a virem ao cinema?

O Fantas…o Fantas em si é uma marca. Ainda há bocado vi ali na bilheteira um homem que pedia um bilhete para a sessão e nem sabia os filmes que iam estar, só queria mesmo ver um filme que estava no Fantas. Nós não temos só o público cinéfilo, temos também as pessoas que vêm ao Fantas e que eu comparo ás pessoas que vão aos supermercados de cinema, aos fast-foods que são os multiplex, e que chegam à bilheteira e nem sabem bem o nome do filme. Só pedem bilhetes para ir ver o Tom Cruise ou a Nicole Kidman, ou seja lá quem for. O Fantas é, pela sua promoção, pelo seu nome, um fenómeno de imagem, de atracção em termos dos mais diversos públicos, e atrai públicos de uma forma transversal, dos mais novos – que às vezes querem vir ao Fantas e não pode, para quem incluímos a exibição das séries Triângulo Jota. Este ano não pensamos muito nos mais jovens, até porque se vai criar um programa chamado Fantaskids, que vai girar pelo país todo ao longo do ano, e que é uma forma de complementar o trabalho de criar o gosto pelo cinema junto dos mais novos, com filmes que eles gostem e que os tirem para fora da realidade, sem ser necessariamente os filmes da Disney.

- O que é que nos pode dizer mais do Fantaskids?

O Fantaskids é um projecto que deve arrancar para Maio que deve circular pelo país, e que, em principio é um projecto que vai funcionar de uma forma paralela ás “semanas Fantasporto”, que fazemos em parceria com várias câmaras municipais. Queremos atrair mais miúdos a ver cinema. E como tudo indica que para o ano também vamos ter uma sala de cinema Fantasporto em Lisboa e no Porto, isso dá-nos possibilidades de mostrar os filmes que nós queremos ao longo do ano. A ideia é também por o Fantasporto a ser falado durante todo o ano através de um trabalho a ser desenvolvido pela empresa Realizar, que já tem trabalhado connosco e que nos vai permitir prestar mais atenção ao conteúdo do festival e menos ao aspecto de organização e preparação das diferentes iniciativas que pretendemos realizar.

Mas, e na edição deste ano. Quais são os grandes atractivos?

Temos um ambiente cosmopolita, isto é, um ambiente em que as pessoas podem conversar umas com as outras, nos intervalos, quando não vão aos filmes, e fala-se sobre cinema que é uma coisa que existia há muito tempo, e que deixou de existir. E o Fantas trouxe de novo glamour à ida ao cinema no Porto. Por outro lado há um tipo de filme Fantas, mais ou menos caracterizado por ser um filme que está na corda bamba entre o cinema de autor tradicional e o cinema comercial. Está no ponto de equilíbrio, que tanto pode pender para um lado como para o outro. E isso garante a descoberta de novos cineastas, novas cinematografias, o que é também a função de um festival de cinema. Trazer estas novidades ao público. É o único ponto do país onde as salas enchem para ver filmes coreanos, suecos ou espanhóis, por exemplo. Para nós a grande vitória é ter salas cheias com cinematografias que em Portugal pura e simplesmente não funcionam.

Que balanço há para já desta 26º edição do Fantas?

Bem, primeiro houve o pré-fantas, que nos permitiu olear a máquina, exibir os primeiros filmes para a Imprensa, transformar o Rivoli. Tudo isso que é necessário para se criar o ambiente para a altura em que o festival arranca mesmo.
Mas desde o primeiro dia temos tido noites muito boas, tardes mais fracas, o que é normal, e o arranque foi fortíssimo. E espero que assim seja até ao fim. Os filmes são suficientemente atractivos e está na onda dos últimos anos. Temos 32 países representados com filmes de todos os continentes, o que demonstra bem a importância que damos ao cinema feito em todo o mundo.

- O Fantas começou por ser um Festival ligado muito ao cinema fantástico…

Só nos primeiros dois anos. A partir do terceiro ano mudamos imediatamente o conceito. Abrimos a porta ao thriller, depois criamos a primeira semana dos realizadores, e isso também se percebe porque a meio dos anos 80 houve a primeira quebra grande do cinema fantástico. E curioso é que ninguém da estrutura é fã de filmes de terror. Por isso, a partir de determinada altura pensamos que a programação fantástica exclusiva começava a ser perigoso, porque estávamos na altura das sequelas. E decidimos abrir o festival a outras cinematografias, a ser um festival mais generalista. E depois seguimos a ordem natural das coisas, com a descoberta do cinema asiático, criamos o Orient Express, com uma tónica muito significativa de temáticas pouco convencionais. E vamos fazendo experiências. Este ano estamos a fazer uma viagem ao cinema de Bollywood, também para ver no que vai dar. E estamos a homenagear o cinema húngaro, até porque se celebram 50 anos da entrada dos soviéticos em Budapeste. No fundo a lógica do festival tem sido esta ao longo dos anos, e tem sido um sucesso, em todas as áreas do festival.

- Então porque é que ainda hoje a imagem que se passa do Fantas é que é um festival quase exclusivamente virado para o fantástico, para o terror?

Em relação a isso, eu acho que há uma grande dificuldade em conseguir através da comunicação social que o festival é um festival de monstros e monstrengos. E em relação a isso não podemos fazer nada. Mesmo quem cá vem, continua a transmitir a imagem da área do fantástico. E acho que, quanto a isso, não há volta a dar-lhe.

2º Parte

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:00 PM | Comentários (2)

Entrevista a John Howe

É reconhecido mundialmente por ser o ilustrador da obra de J.R.R. Tolkien. Quando os realizadores Anders Banke e François Boetschi decidiram avançar com um documentário sobre, John Howe, o criador de desenhos que têm fascinado adultos e graúdos, desde há muitos anos, o título só poderia ser There And Back Again. E o Hollywood - em parceria com o Take2 - tinha de estar lá...
jhowe.jpg

- Quando olha para o documentário John Howe: The And Back Again, deixa-o orgulhoso?

Sim. Claro que sim. Acho que eles fizeram um trabalho genial em tornar a minha vida interessante. Porque ela não é!

- Quando cria as ilustrações do "universo Tolkien" a sua única inspiração são os textos escritos pelo autor, ou há algo mais do que isso no decorrer do processo criativo?

É uma boa questão. Acho que qualquer ilustração tem de ir mais além do que está escrita no papel. O texto é um ponto de partida para a informação que queremos transmitir, e que não está necessariamente escrita. E isso implica sempre grande pesquisa. É um processo de duas partes que acontecem ao mesmo tempo. Procurar a informação, e depois esquece-la e deixar a inspiração trabalhar.

- Tenta então jogar com o que Tolkien escreve e o que sente em relação ao que lê?

Sim, acho que é uma sensação mista. Não nos podemos contradizer, mas o que está escrito não é suficiente. Temos de estar atentos à atmosfera e ao detalhe. E já vi ilustrações que são iguais ao que está no papel, e não fazem sentidos. E por isso acho que a criação do trabalho tem muito mais para além do que está escrito. Aliás acho os textos do Tolkien mais interessantes do que o próprio livro. Ele não inventou nada. A maioria dos nomes existem nas sagas escandinávias. Basta ver os nomes do Gandalf, dos elfos, anões...ele não inventou muito na verdade!

- Ilustrar o universo de Tolkien é um dos pontos altos da carreira de um ilustrador?

Estou tentado a dizer que sim. É muito raro encontrar um trabalho de ficção em que estamos completamente de acordo com o que foi escrito. Acho que não há nada no Lord of the Rings que não goste. E isso é muito dificil de encontrar. É um dos universos que mais nos realiza, em termos de ilustração!

- Todos nós vimos os filmes, em que o John trabalhou como ilustrador. Quando olha para uma cena do filme, e faz pausa, e observa bem a cena, os detalhes, as personagens...sente que era assim que criaria a cena se a estivesse a ilustrar no papel?

Não. Seria muito raro. Há algumas cenas que acho fabulosas, e que adoraria desenhar. Mas não todas. É simplesmente uma questão de gosto. Mas acho que o filme fez um trabalho fabuloso em não destruir a imagem que já existia do universo Lord of the Rings. É curioso porque o Peter Jackson fez um filme para um público devoto dos livros, que já tinha uma ideia de como tudo devia parecer, e ao mesmo tempo ele queria algo pessoal no trabalho que fez. E conseguiu uma mistura perfeita. Mas é preciso ter-se sorte. E ele teve-a!

- Magnus (produtor) e François (co-realizador). Vocês são ambos criadores. Como foi fazer um trabalho criativo sobre alguém cujo trabalho também é criar?

François Boetschi - É um encontro de três mundos, o meu e do Anders como cineastas, o do Magnus como produtor e o do John criador. Como ele disse os textos do J.R.R. Tolkien são também para ler nas entrelinhas, e acho que tentamos filmar o que está nas entrelinhas do trabalho do John. Menos o Senhor dos Aneis e mais o criador das ilustrações. A ideia da criação perseguiu-nos sempre durante este trabalho, sim.

- Estamos num periodo em que os documentários com mais sucesso são documentários politicos ou de intervenção social. Mas vocês trabalharam a perspectiva de um criador. Acham que o documentarismo devia ser mais assim, mas voltados para as pessoas e para o que elas fazem?

François Boetschi - Não acreditamos muito na ideia do "cinema-verite", mas claro, quando começamos a filmar é uma pessoa que tamos a seguir. Mas queremos fazer isso de uma forma sensitiva. Não vamos dizer, isto é a vida do John Howe, porque não é. São pedaços da sua vida, pedaços muito pequenos. E não queremos fazer o todo passar pela parte. Há muito que não sabemos sobre ele.

John Howe - É curioso falarem nisso porque há outro documentário sobre o meu trabalho, que eu já vi, e são completamente diferentes estes dois filmes. E no entanto o objecto da camara é o mesmo, eu. Acho que o valor de um filme como estes está mais no trabalho que eles fizeram, do que no meu!

- E como é que alguém como o John Howe se sente quando fazem um documentário sobre si, sobre a sua vida, o seu trabalho?

Acho que fazer um documentário destes é muito dificil. O trabalho de criação é muito maçador de se ver. Não se pode filmar uma pessoa a fazer o mesmo durante 3 semanas. Não dá. É algo muito solitário. Por isso gostei muito do trabalho criativo deles, não só o meu trabalho mas tudo o que o possibilita. Para mim, acho que foi uma experiência fascinante.

- O John Howe é um ilustrador de renome, mais conhecido pelo seu trabalho no Lord of the Rings, mas não só. Dos universos literários, dos mundos de ficção criados pelos mais diversos autores, há ainda contos, livros, personagens que gostasse de ilustrar e que ainda não o tenha feito?

Sim, muitos. Mesmo muitos.

- Quem, por exemplo?

Não consigo...são centenas, não consigo dizer só um nome!

- Quando olha para as suas ilustrações do Senhor dos Aneis pensa que, se tivesse de fazer tudo outra vez, fazia de forma diferente?

Sim, sem dúvida. Eu acho que tudo o que fiz na semana passada é o que fiz na semana passada. Não há nada definitivo nem permanente. Não é possivel fazer algo definitivo de nada. Porque se fizermos algo definitivo, isso significa que acabou. E por isso o trabalho mais interessante, é sempre o próximo, para mim.

- Teve liberdade criativa quando fez o trabalho de ilustrador da trilogia Lord of the Rings?

Sim, tivemos muita sorte. Tivemos em pré-produção durante um ano e meio. Foi muito tempo. Mas não houve pressão, não tinhamos datas de entrega, e nós sabiamos o ritmo que era necessário. A equipa de design de pré-produção tem sempre sorte, porque está tudo a começar lentamente. E eu tive esse prazer de trabalhar sem pressões.

- Trabalhou com outro grande ilustrador, Alan Lee, quando fez o Lord of the Rings. Como foi trabalhar com outro grande nome do meio para alguém que está habituado a trabalhar sozinho? Houve colisão ou cooperação total?

Sou um grande admirador dele. Um grande ilustrador, uma grande pessoa. A cooperação foi total. Ele é mais velho que eu, dez anos, e quando ainda estava a começar já ele era um grande nome. Foi óptimo conhece-lo, e a melhor coisa possivel que pode acontecer a um criativo é poder trabalhar com alguém que se admira. Foi mesmo estimulante trabalhar com ele. Tinhamos um pequeno escritório, que partilhavamos, na Nova Zelândia, e eu trabalhava nos meus desenhos, e vira-me, olhava para o que ele estava a fazer, e via desenhos fabulosos, que me inspiravam e ajudavam. Foi óptimo!

Miguel Lourenço Pereira/Manuel António Martins e Léccio Rocha

Por problemas com o servidor, foi impossível publicar a entrevista na noite de ontem. Por isso, pedimos as nossas desculpas!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:37 PM | Comentários (1)

março 09, 2006

Entrevista a Marc Besas

Cineasta espanhol, Marc Besas esteve em destaque no último Fantasporto. A sua curta-metragem A Lenda do Espantalho venceu o prémio de melhor curta e agora prepara-se para concorrer ao Meliés D´Ouro. Falamos com o realizador no dia da sua consagração, e ficamos a saber mais sobre as origens da curta-metragem e o futuro do seu criador. Mais uma entrevista realizada em parceria com Léccio Rocha do Take2.
DSC08722.jpg

- De onde nasceu a ideia para a curta A Legenda do Espantalho?

É uma história curiosa. Há cinco anos atrás queria oferecer uma pequena história à minha namorada, para lhe dar nos anos. No dia anterior disse a mim mesmo que tinha de acabar aquilo depressa, e escrevi a história em pequenos cartões ilustrados. No dia seguinte dei-lhe o conjunto dos cartões como prenda. E toda a gente gostou muito da história...menos ela.

- E a história foi original ou houve a inspiração em alguma lenda?

Não, é original.

- Qual foi a sua grande inspiração para o conceito visual da curta-metragem?

Acho que todos sabem quem é que me inspirou...o nome dele é Tim Burton...e isto nem sequer é uma homenagem de um admirador, é uma cópia deliberada, porque eu simplesmente adoro o Tim Burton, adoro-o!

- Para fazer a curta utilizou stop-motion e animação por computador. Porque juntar as duas técnicas de animação no mesmo filme?

Na verdade nós só queriamos trabalhar com animação tradicional, mas era demasiado complicado. Por isso acabamos por precisar de trabalhar um pouco em computador, mas acho que a mistura das duas técnicas torna o filme ainda mais interessante, dá-lhe um estilo muito próprio.

- Fazer A Legenda do Espantalha custou muito dinheiro?

Foi uma produção baratissima. Fizemos o filme num mês, e depois trabalhamos na música e som, mas a rodagem foi muito rápida e acabou por sair muito barata.

- Depois do sucesso desta curta quais são as apostas para o futuro?

Estou a trabalhar num esboço para um próximo filme animado chamado El Sacamantejas, que é sobre um conto de folclore espanhol sobre o "Papão". O "Papão" arranca o estomago das crianças e usa-o para fazer sopa. Como podem ver é um argumento pesado, muito pesado!

- E como foi saber que está na competição directa para o Mélies D´Ouro?

Eu nem sabia o que era o Meliés. Foi o Jaume Balagueró (realizador de Fragile) que me explicou tudo à bocado. É óptimo. Para mim esse prémio tem um valor muito superior do que simplesmente ser eleito a "melhor curta-metragem" porque no fundo é uma oportunidade para tentar ganhar outros trofeus, e para ajudar a estabelecer o meu nome no meio.

Miguel Lourenço Pereira e Léccio Rocha

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:00 PM | Comentários (0)

março 08, 2006

Entrevista a Anders Banke e Magnus Paulsoon IV

Para terminar uma longa e agradável conversa com os dois cineastas suecos, falamos um pouco sobre o cinema da sua terra Natal. Desde a influência de Frostbitten no cinema sueco ao sonho de realizar os filmes de Hollywood...na Europa.
DSC08724.jpg

- Para nós, portugueses ,e para a generalidade dos cinéfilos, a Suécia ainda é muito conotada com o cinema de autor, com as obras de Ingmar Bergman e dos seus “discípulos”. O que é existe para além desse cinema na Suécia?

Anders - Sinceramente, para além de Frostbitten…nada. Frostbitten foi o primeiro filme de terror de sempre, e estou a falar num período maior que 100 anos. Apesar da imagem que passa para fora, de um país de liberdade, a Suécia é culturalmente muito reprimida. Ou se fazem comédias leves, ou filmes policiais ou filmes de autor. Não há espaço para mais nada.

- Porque é que isso acontece?

Anders - Não sei..não consigo explicar. Só sei que de repente, com o Frostbitten tudo parece ter mudado. Já estão a planear outro filme de vampiros para Novembro, uma série de televisão com zombies…de repente as pessoas chegaram à conclusão que podem fazer outras coisas, que podem apostar em produtos diferentes.

Magnus - Pessoalmente acho que nós abrimos a porta para esta nova geração de realizadores na Suécia. Provamos-lhe que é possível fazer coisas como esta. Muita gente nos pergunta porque é que não filmamos o Frostbitten em inglês, porque seria muito mais fácil exportar o filme. Mas nós queríamos mesmo mostrar ás pessoas na Suécia que é possível fazer este tipo de filmes, em sueco, e exibi-lo nos cinemas. Foi muito complicado devo dize-lo, mas conseguimos, já estreou na Suécia com 52 cópias, o que é inédito…normalmente os filmes estreiam com 22, 25 cópias..ainda estamos um pouco surpresos.

Anders - Sim, tivemos muitos problemas em arranjar distribuidores. Tivemos duas distribuidoras que nos disseram “ok, o vosso é filme é óptimo, mas como nunca foi feito nada assim na Suécia, não sabemos como o vamos publicitar. E por isso não o vamos fazer”.

- Como é que financiaram o filme?

Anders - Tivemos 11 co-produtoras, desde o Instituto de Cinema da Suécia a algumas produtoras locais, principalmente do sul que é de onde somos. E foi a primeira vez que produtoras locais se juntaram para financiar um filme. Além disso tivemos ajuda de uma empresa russa que nos ajudou com os efeitos especiais.

Magnus - E claro, o projecto Medeia. Aliás, acho que é a primeira vez na história da União Europeia que eles financiaram um filme de vampiros. O que é estranho porque andamos tanto tempo a lutar contra o sistema, e agora somos parte do sistema. Porque ficamos a pensar…e agora lutamos contra quem?

- É produtor mas também já foi realizador. Planeia voltar a realizar no futuro?

Magnus - Não, acho que me vou ficar pela produção. Eu prefiro ficar na sombra a trabalhar. O Anders é que gosta da fama (risos).

- Planeiam dar o salto para os Estados Unidos? É um objectivo pessoal?

Anders - Na realidade nunca foi. O que seria interessante é trabalhar com os orçamentos que existem lá. Eu já estive em Los Angeles e não gostava nada de lá viver. Mas se fosse para viver cá e ir lá filmar m filme de grande orçamento, isso já estava bom para mim. Eu gostava de fazer o mesmo que o Peter Jackson fez na Nova Zelândia. Gostava de trazer dinheiro para financiar filmes europeus, feitos aqui na Europa. E também, como eu já estudei em Moscovo, e para o ano foi filmar um remake russo de um filme de Hong Kong, também tenho a possibilidade de trabalhar a leste.

- Acreditam que poderão vir a realizar filmes de grande orçamento na Europa?

Anders - Se eles podem fazer na Nova Zelândia, que é mais pequeno que a Suécia ou Portugal, porque não?

Magnus - Aliás, depois de fazer o Frostbitten falei com alguns produtores norte-americanos que me disseram que a Ásia é o grande mercado do momento, mas que os estúdios estão já à procura da next big thing. E eles acreditam que o que vai dar a seguir é o cinema europeu, especialmente o da Europa do norte. Por isso temos a consciência que estamos no radar deles.

Miguel Lourenço Pereira e Léccio Rocha

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:05 PM | Comentários (0)

Entrevista a Anders Banke e Magnus Paulsoon III

Da admiração de Anders Banke por Peter Jackson e John Howe ao documentário sobre uma estrela porno sueca dos anos 70, Anders Banke e Magnus Paulsoon têm já créditos firmados na área do cinema documental. Falamos um pouco sobre os seus projectos anteriores ao sucesso Frostbitten.
DSC08726.jpg

- Falando de Peter Jackson, o vosso trabalho anterior foi um documentário, intitulado John Howe : There and Back Again. O que é que vos levou a fazer esse documentário?

Anders - O meu realizador preferido de sempre é o Peter Jackson, eu adoro o universo do Senhor dos Anéis e acho que o John Howe é o maior artista de sempre, por isso o documentário quase que se tornou inevitável. Não tínhamos muito dinheiro, mas foi muito interessante e deu-nos muito prazer fazer este filme.

- Peter Jackson viu o documentário?

Anders - Eu acho que sim. Enviamos-lhe uma cópia e ainda não recebemos qualquer resposta, mas ele também tem andado ocupado com o King Kong.

- Magnus, e quanto ao filme Desperetly Seeking Seeka. Foi a sua faceta de realizador que o levou a fazer o filme? Porquê fazer um documentário sobre uma estrela porno dos anos 70?

Magnus - O sexo para começar….(risos) A verdade é que poderia ter sido qualquer um, qualquer tipo de ícone, seja da música, cinema, desporto. O que nos queríamos era saber o que acontece a alguém que foi famoso, que atingiu o cume da fama, e o que lhe acontece depois, quando a fama desaparece. Quando começamos não tínhamos a mínima ideia de como é que ela estava, onde é que ela morava, o que é que fazia…e acabou por resultar muito bem. Descobrimo-la em Chicago a viver uma vida bastante confortável. Aliás, depois do filme ela decidiu a voltar a esta em forma e está a preparar um comeback. Até posso dizer que nos ligou há pouco tempo a perguntar se não queríamos fazer uma sequela.

- E aceitaram?
Magnus - Bem, não…quer dizer, já fizemos isto, já sabemos tudo o que precisamos sobre esta indústria e agora queremos continuar a investigar outras pessoas, outras áreas.

Miguel Lourenço Pereira e Léccio Rocha

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:03 PM | Comentários (0)

Entrevista Anders Banke e Magnus Paulsoon II

Antes da vitória, houve uma primeira conversa com Anders Banke e Magnus Paulsoon. Uma entrevista que vamos dividir em três partes. A primeira é dedicada ao filme, a segunda aos projectos paralelos dos autores - que também estiveram em exibição no Fantas - e, por fim, na terceira parte fala-se sobre o estado actual do cinema sueco. Mais uma entrevista em parceria com Léccio Rocha do Take 2 com a dupla vencedora do Fantas.
DSC08727.jpg

- Quais foram as reacções do público sueco ao filme?

Magnus Paulsoon- Não fazemos a mínima ideia. O filme estreou há dois dias (24 de Fevereiro) e nós já á estávamos no Porto…

- E as primeiras impressões que receberam?

Magnus - Ainda não lemos nada sobre o que se passou mas a ideia que temos é que foi muito bem recebido pelo público. As únicas criticas foram de pessoas que estavam à espera de um filme hardcore de terror. E quando queremos atingir uma audiência maior que a do simples filme de terror, é natural que agrademos a mais público e não tanto aos fãs hardocre do cinema de terror..mas a verdade é que eles não são assim tantos, o que faz com quem não tenham tanta importância comercialmente. E nesse aspecto acho que nos temos saído bem e que vamos continuar a sair-nos bem nas bilheteiras.

Anders Banke- Muitas das pessoas que nunca viram de terror confessam que se assustaram um bocado com o Frostbitten, o que para nós é muito bom. Claro que quando se é um fã de filmes de terror e se viu centenas, é mais difícil agradar.

- Quais foram as vossas grandes influências para criar este filme?

Anders - Eu sempre fui um grande admirador do Peter Jackson…visualmente sempre quisemos jogar muito com a luz, com o contraste da escuridão e da luz. E para isso inspiramo-nos bastante em artistas plásticos suecos. Mas também não começamos o filme a dizer “queremos fazer esta cena como este fez aquela”.

Magnus - Eu sempre me senti inspira.do pelo Lobisomem em Londres…o nosso argumentista (Daniel Ojanlatva) é um grande fã de Lost Boys..e claro há o Polanski que tem um filme com muita neve, sangue e humor!

- Haverá uma sequela?

Anders - Sim, temos discutido essa ideia. O nosso argumentista diz que a sequela é uma óptima ideia, mas todos concordamos que íamos deixar passar algum tempo antes de voltar-mos a filmar na neve. O nosso próximo filme deverá ter lugar nas Bahamas (risos).

- Frostbitten vai ter distribuição no mercado europeu ou norte-americano?

Magnus - Estamos a apostar nisso. Mostramos o filme em Berlim, durante a mostra de filmes do Festival, e o público gostou muito. A nossa produtora está a apostar muito nessa divulgação e tenho praticamente a certeza que o filme vai sair em bastantes países. O que já sei é que vai estrear em Singapura e nas Filipinas. Achamos isso muito divertido, um filme sueco nas Filipinas…

- Os dois trabalhavam em documentários, esta é a vossa primeira longa-metragem, com elenco, e um elenco muito jovem ainda por cima. Como é que correu a direcção de actores?

Anders - Foi extremamente positivo. Tínhamos um período de filmagens muito restrito porque tinha a ver com a neve que tínhamos para filmar. Por isso acabamos por ter pouco tempo para ensaiar, mas correu bem. A jovem estrela do filme (Grete Havneskold) era a grande estrela juvenil do cinema sueco, e os outros também andavam pela casa dos 17-19, o que também ajudou a fazer de tudo isto algo muito divertido.

- O Magnus esteve de alguma forma envolvido no processo criativo de Frostbitten?

Magnus - Eu sou um produtor criativo. Tenho muitas ideias e discuto-as com o Anders, mas assim que começam as filmagens eu apago-me. Mas como costumamos trabalhar em publicidade, em conjunto, é natural que haja troca de ideias.

- Para além de Frostbitten, têm mais algum projecto em mãos?

Anders - Sim. Temos dois projectos. O principal, aquele que estamos a desenvolver agora, vamos filmar no próximo ano, e como se não tivéssemos tido problemas suficientes a rodar o Frostbitten este vai ser ainda mais difícil. É o dobro do orçamento e é algo que não é feito na Suécia desde os anos 20. É um projecto muito interessante e ainda não podemos revelar muita coisa, mas será um projecto mais internacional.

Miguel Lourenço Pereira e Léccio Rocha

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:01 PM | Comentários (0)

Entrevista - Anders Banke e Magnus Paulsoon

No decorrer do último Fantasporto, o Hollywood esteve à conversa com algumas das personalidades que marcaram o festival deste ano. De hoje a sexta-feira iremos publicar quatro entrevistas feitas no decorrer do festival, em parceria com Léccio Rocha, do Take2.
Para abrir temos Anders Banke e Magnus Paulsoon, a dupla criativa por detrás de Frostbitten, o filme vencedor do prémio da Secção de Cinema Fantástico da edição deste ano. Uma entrevista dividida em duas partes. Antes e depois do triunfo do divertido filme sueco de vampiros que conquistou o Fantas.
DSC08728.jpg

Foi uma vitória surpreendente. O Hollywood já tinha falado com Anders Banke e Magnus Paulsoon depois da estreia do filme, mas mal foram divulgados os vencedores, tornou-se obrigatório voltar à conversa com os autores de Frostbitten. Só cá estava Magnus Paulsoon, e foi com ele que falemos um pouco da vitória e das repercursões deste sucesso imediato do filme.

Frostbitten venceu, contra a expectativa de muitos. Como é que se sente o produtor vencedor do Fantas deste ano?

- Estou nas nuvens. É o primeiro Festival a que concorremos com o Frostbitten...é incrivel! Acabei de falar com o Anders (Banke, o realizador) e ele acabou de chegar a casa, à Suécia, e está a festejar com champagne na cozinha. Desconfio que aqui vai ser a mesma coisa.

- Agora que venceram um Festival, a possibilidade de lançar o filme noutros paises é maior?

Sim. Os números do box-office na Suécia acabaram de chegar e são surpreendentes. Estamos em quinto lugar, e somos o filme sueco mais visto do ano. Estou felicissimo, e ganhar aqui ainda me deixa mais feliz.

- O Fantas tem o hábito de premiar realizadores que já foram galardoados em edições anteriores. Esperam voltar nos próximos anos com filmes prontos a disputar o Festival?

Claro. Temos de manter o ritmo de vitória não é?

- Agora há planos para o lançamento do dvd?

Sim claro. Temos muitas cenas extra, que não apareceram no filme mas vão estar no dvd. Temos também 20 horas de bastidores e por isso vamos trabalhar no desenvolvimento do projecto em dvd.

Miguel Lourenço Pereira e Léccio Rocha

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:00 PM | Comentários (1)

setembro 17, 2005

Entrevista II Parte - Telmo Martins "É preciso mais vontade dos jovens autores!"

Portugal continua a ser conhecido por esse mundo fora como o país de Manoel de Oliveira e pouco mais. Uma ideia que espelha bem a realidade do cinema nacional. E como sempre, cabe ás gerações do futuro inverterem a tendência. Porque a "Nouvelle Vague" nunca chegou a Portugal, continuamos à espera que as jovens promessas como Telmo Martins, sejam o futuro do cinema português.

É complicado ser-se um jovem autor em Portugal?

Tudo é complicado em Portugal...mas no meu ponto de vista, e como um amigo meu dizia, “azeite em água mais tarde ou mais cedo vem à superfície”. Trabalhando com garra, vontade e crença tudo se consegue…há quem não goste, mas recomendo “O Alquimista”...é muito parecido comigo.

O problema com os jovens realizadores nacionais começa na formação
profissional ou quando entram no mercado de trabalho?

Para uma boa casa se manter em pé, e não cair com uma ligeira brisa ou com um terramoto, são necessários bons alicerces. Portanto penso que o problema começa na formação, e depois com uma ligeira brisa do mercado, a casa cai.
Mas o principal problema reside no facto de as pessoas ficarem sentadas à espera que algo suceda. É preciso trabalhar…muito, para se conseguir chegar lá.


O cinema é uma mistura de muitas coisas!


Há uma certa ideia de que em Portugal se faz o mesmo filme todos os anos, anos a fio. Normalmente é cinema de autor para autor ver, deixando uma grande fatia do público do lado de fora. Sente que a falta de uma indústria cinematográfica forte é o principal problema do cinema português?

O cinema é uma mistura de muitas coisas, cinema de autor, cinema entretenimento, cinema seca e cinema divertido. Tem que existir um pouco de tudo. Quando existe muito só de uma coisa a balança fica desequilibrada.
Acho que em Portugal também é preciso cinema entretenimento, é este cinema que vai fazer com que os portugueses acreditem no cinema nacional, e se disponibilizem a ver os outros tipos.
Gosto muito de bom cinema, mas na verdade, existem muitos dias em que não me apetece nada ver um filme “para a cabeça”, mas sim ver um bom filme de acção, um bom thriller, ou uma boa comédia, que me faça esquecer o mau dia que passei.
O cinema de autor peca principalmente, por bater sempre no drama da vida, nos problemas e condição humana…bastam (pelo menos) as 18horas por dia em que estamos acordados e somos bombardeados por todos esses dramas e problemas.

Trabalhar em curtas-metragens é habitualmente um primeiro passo antes da chegada às longas-metragens. Em Portugal respeita-se o valor das curtas, ou continua a olhar-se para elas como um genero menor da produção cinematográfica?

Os espectadores começam a perceber e a gostar de verem curtas metragens. Está a deixar de ser um género menor.
De qualquer maneira, é um formato muito agradável, curto e directo…pelo menos deveriam ser assim.
Mas, claro que, se não é, deveria ser um primeiro passo para a longa metragem.

rupofobia4.jpeg

O Cibercentro da Covilhã tem vindo, aos poucos, a tornar-se conhecido por servir de base de trabalho a jovens autores. São precisos mais espaços como este pelo país, ou são os trabalhos do Cibercentro que precisam de mais divulgação?

É preciso mais vontade dos jovens autores. Com vontade de trabalhar, os jovens autores acabam sempre por conseguir um cybercentro ou outro espaço qualquer que os apoie e lhes dêem condições para trabalhar.

É um realizador premiado por alguns dos seus trabalhos anteriores e já teve presenças em festivais internacionais. Como é que os estrangeiros olham para o nosso cinema?

Muito honestamente, não sei...porem, parece-me que começam a acreditar e a dar-lhe algum valor.

Gosto de fazer filmes que relatem a parte boa da vida e não a má!

Se lhe fosse dado a escolher entre um óscar da Academia ou uma Palma de Ouro de Cannes, o que preferia. O reconhecimento na Europa, ou uma
experiência em Hollywood?

Os dois…

A realização tem futuro em Portugal? É algo que sinta que vai fazer para o resto da sua vida?

Ter futuro tem, agora pode ser um futuro mais ou menos presente.
Depende se esse futuro for mais ou menos presente, entretanto vou também trabalhando naquilo em que me estou a formar, Design Multimédia.


Como se define como realizador?

Gosto de fazer filmes que relatem a parte boa da vida e não a má. Gosto de proporcionar aos espectadores um bom momento de descontracção, em que na hora e meia em que vêm um filme se esqueçam dos seus problemas e saiam da sala com um sorriso nos lábios.

Partindo do principio que há nomes capazes de realizar com competência em Portugal, o que é que falta ao cinema português: actores, ideias ou produções ambiciosas?

Um pouco de tudo.

Telmo Marins - "Existem coisas no cinema que não se consegue e não se pode explicar!"
Rupofobia - Tragicomédia do dia a dia

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:11 PM | Comentários (0)

Entrevista - Telmo Martins "Existem coisas no cinema que não se podem nem conseguem explicar!"

É um dos jovens valores do cinema português. Já foi premiado em diversos festivais de cinema nacionais e assume-se desde já como um nome a ter em conta para o futuro. O seu mais recente trabalho, Rupofobia, estreou na passada quinta-feira nas salas nacionais como complemente da exibição do filme Um Rio... Sobre isso e sobre muito mais, Telmo Martins aceitou falar com o Hollywood.

rupofobiatelmomartins.jpeg
Telmo Martins na ante-estreia de Rupofobia no Rivoli

Que dizer de um jovem que aos 27 anos é presença assidua em todos os festivais de cinema nacionais, tendo já inclusive recebido prémios pelo seu trabalho?
Este ano é Rupofobia o seu novo trabalho que já tem passaporte para os Festivais de Ovar e Montpllier. Com exibição garantida no circuito comercial, abrem-se novas portas para este jovem autor, natural de Vale de Cambra, que é também designer multimédia premiado internacionalmente. Por ser um nome em clara ascensão, impunha-se que falassemos não só de Rupofobia mas de todo o panorama cinematográfico nacional. A palavra é de Telmo Martins.


Hollywood - Ao ver-mos Rupofobia, ficamos com a ideia que o filme se movimenta no universo do cinema mudo, o mesmo espaço que nos mostrou Keaton, Chaplin, Langdon e Tati. Foi essa a principal inspiração desta curta metragem?

Telmo Martins - Não posso dizer que tenha sido a principal inspiração, para dizer a verdade acho que a principal inspiração foi a memória do meu avô, nos momentos em que me contava a anedota que o filme teve como suporte.
No entanto, um filme faz-se também durante a rodagem...as várias abordagens ao argumento vão-se criando, vão evoluindo com o trabalho dos actores, do director de fotografia e do que o realizador sente no momento de dizer "ACÇÃO". Claro que o universo das referências como Keaton, Chaplin, Langdon e Tati estão presentes no filme, mas este universo apareceu de forma natural, sem ter sido planeado.
Existem coisas no cinema que não se podem nem conseguem explicar...apenas se sentem.


O filme explora a inquietação de um empregado de balcão de um café quando confrontado com uma obsessão pela higiene do seu patrão. Apesar do desempenho do actor Alvaro Faria ter sido em tom de comédia, a verdade é que a sua personagem está a viver um pequeno drama. Foi fácil conseguir essa dupla abordagem à mesma situação?

Desde o início da escrita do guião, foi principal objectivo não cair na comédia fácil, num sketch ou num cliché. Não queríamos um filme em que os espectadores sorrissem cinquenta vezes, mas sim um filme em que os espectadores rissem com gargalhadas duas ou três vezes.
Claro que a estória é também um drama, o drama de um empregado de balcão que se sujeita a ser vítima, o que só acontece na vida real quando o permitimos.
Não foi fácil conseguir esta dualidade, mas era um objectivo primordial, e como tal, foi feito o esforço necessário por parte de todos os intervenientes no filme para consegui-lo.

Para um bom filme é imprescindível bons actores, são eles que nos arrancam das cadeiras e nos puxam para o universo e “realidade” do filme.

Quais foram as principais dificuldades com que a produção se deparou na rodagem de Rupofobia?

Tempo e dinheiro…como sempre.

rupofobia2.jpeg
Álvaro Faria, a trave-mestra de Rupofobia

O desempenho de Alvaro Faria é muitissimo bem conseguido. Acredita que ter um leque de grandes actores é só por si meio caminho para o sucesso de um filme, ou o cinema é mais do que isso?

É mais de meio caminho. Para um bom filme é imprescindível bons actores, são eles que nos arrancam das cadeiras e nos puxam para o universo e “realidade” do filme. Claro que existem muitos outros factores de grande importância para que um filme resulte, a realização, a fotografia, o som e até os figurinos e espaços são de grande importância. Todos eles “falam” e comunicam com o espectador, têm que estar no universo da estória e dos actores.

A ideia originalissima (e o titulo acrescento) ajuda a perceber um pouco que vamos testemunhar um momento praticamente non-sense. No entanto é tudo feito com imensa sobriedade. Porquê esse contraste entre o que está a acontecer e a forma como o público testemunha esse happening?

A ideia é mesmo essa. A vida acaba sempre por ser non-sense, as contrariedades, aquilo a que nós chamamos sorte ou destino, o amor o ódio…tudo isso é non-sense, mas é o que nos faz sorrir ou chorar, e no fim, o que torna a vida divertida.
O contraste é mesmo esse...é a minha maneira de ver as coisas, e a maneira de as viver. Mesmo no pior, existe sempre motivo para sorrir e seguir em frente.


Quais são para si os pontos altos da produção Rupofobia?

Relembrar uma pessoa de quem gostava muito.


O filme tem legitimas ambições a concorrer a diversos festivais. Sente que tem aqui um trabalho que pode de facto conquistar prémios, ou este é para si mais um passo na sua evolução como argumentista e realizador profissional?

São as duas coisas.

Telmo Martins - "É preciso mais vontade dos jovens autores"
Rupofobia - Tragicomédia do dia a dia

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 07:22 PM | Comentários (0)

maio 22, 2005

CORTA - José António Fundo em entrevista

É um dos organizadores do CORTA e aceitou falar com o Hollywood sobre a 2º Edição deste interessante festival de curtas-metragens que terminou ontem no Porto.
José António Fundo em discurso directo...
CORTA 013.jpg

Entre o rebuliço das últimas horas de um Festival que tem encantado quem o visitou, José António Fundo teve a amabilidade de dispensar uns minutos ao Hollywood para conversar um pouco sobre como correu esta segunda edição do Festival de Curtas-Metragens do Porto, e qual os projectos futuros do certame.

Hollywood - Qual o balanço desta segunda edição do Corta?

José António Fundo - Eu faço um balanço bastante positivo. Este ano tivemos muito mais público, uma cobertura mediática muito superior, e acho que em termos de qualidade de sessões competitivas e dos eventos paralelos houve uma grande evolução. Por isso o balanço só pode ser positivo. Mas também acho que o CORTA pode ainda crescer e melhorar!

Este é um festival que respira juventude. A organização é muito jovem, os próprios autores divulgados neste certame estão também a dar os primeiros passos. Este é um espirito para manter?

Sim claro. Faz parte do nosso projecto e é um dos aspectos fundamentais do conceito do CORTA. Manter a ligação com os jovens quer no trabalho com os jovens de cursos de audiovisual, tanto em Portugal como no estrangeiro, quer no apoio aos jovens autores, mesmo que surjam fora do âmbito das escolas. Por isso este é um espirito claramente para continuar, até porque é também uma das razões fundamentais do apoio do ICAM ao nosso projecto.

Com a generalização da produção artistica em video, faltava claramente um espaço que divulgasse este trabalho. Sente que o CORTA cumpre essa função?

Foi essa uma das razões pelas quais construimos o CORTA. Não sei se cumprimos totalmente essa função, ainda. Mas espera que no futuro possamos faze-lo, e sobretudo incentivar que outros festivais surjam e o façam também, porque isto é importante que aconteça noutros locais no país, especialmente no interior. Por isso espero que no futuro hajam muitos festivais como o CORTA. Que incentivem a divulgação das novas linguagem do audiovisual. E também que incentivem à criação de escolas e cursos, mesmo ao nivel do ensino secundário, para que de futuro possamos ter um cinema melhor, uma televisão melhor, uma comunicação audiovisual mais justa e mais honesta.

Sente que entre os jovens criadores que o Festival vai divulgando há já nomes que no futuro se possam vir a tornar como referências nesta área?

Sinto. Já percebi que há de facto pessoas, autores, que têm muita qualidade. Só precisam de algum apoio. Infelizmente também sei que estes autores que têm mais potencial, têm um apelo enorme do ensino estrangeiro e brevemente trocarão Portugal por paises como os Estados Unidos, Alemanha, França ou Reino Unido. E eventualmente poderemos perder essas pessoas. Por isso é importante que o CORTA fomentasse a divulgação dos cursos na área do audiovisual para que estes valores não fujam para o estrangeiro. Mas temos bastante gente interessante, algumas das quais já com filmes no CORTA e noutros eventos cinematográficos.

A divulgação de trabalhos feitos no estrangeiro tem conquistado o público português?

Acho que sim. É fundamental abrir fronteiras. É uma globalização pela positiva. No futuro deseja poder mostrar mais coisas de paises do 3º Mundo, de zonas esquecidas mas onde há certamente gente a produzir e a produzir coisas com qualidade. E acho até que há uma enorme curiosidade pelas trocas, e isso é o lado positivo da globalização. Em Portugal há uma procura imensa por linguagens diferentes e por cinematografias diferentes da nossa. O que é preciso é que essa procura não se sobrevalorize e não se sobreponha ao que se faz por cá.

Por falar em Portugal. A oferta de filmes portugueses no CORTA era vasta e variada, mas ficou um pouco aquem dos trabalhos produzidos no estrangeiro. Acredita que este é meramente um erro de casting na selecção deste ano do concurso ou Portugal está atrasado em relação a outros paises na produção de video-arte?

Não há propriamente um atraso. Há uma distorção criada por um simples factor. Recebemos filmes de imensos paises e nenhum pais está tão representado como Portugal na competição. Há 25% de projectos portugueses na competição. Não há nenhum outro país que se aproxime sequer desses números. Este ano parece-me de facto que a qualidade da produção nacional foi inferior à do ano passado. Mas é uma questão meramente casual. A tendência é para melhorar, sempre. E o próprio festival precisa de crescer para atrair mais gente que produza neste país. Mais autores portugueses. Parece-me a mim que os autores estrangeiros são mais generosos e procuram mais oportunidades. Os autores portugueses são mais preguiçosos quando chega à fase de divulgação do seu material. Há certamente muito material com qualidade para exibir mas ele não aparece nos festivais certos. O CORTA é um espaço privilegiado para o video português, mas também é preciso que o CORTA procure estes autores. No futuro a tendência não é para aumentar o número de projectos nacionais mas procurar exibir produtos com mais qualidade. Porque ela existe!

Qual foi o filme que mais lhe encheu as medidas neste Festival?

Isso é uma pergunta muito complicada...Primeiro porque os filmes não estão tão presentes na minha memória como estão dos espectadores, porque a maior parte dos últimos vi-os na fase de pré-selecção. Devo realçar, por um lado, a enorme qualidade dos filmes polacos, que infelizmente não tiveram tanto público como mereceriam. Mas os filmes da Escola Nacional de Filmes de Lodz foram muito bons. E os filmes vencedores são de facto filmes de grande qualidade.
O Raging Bull é um deles, o Toz é um filme turco com bastante interesse. Acho que houve um filme português muito interessante, também premiado este ano, o Eu Descobri Portugal do Armando Coelho. Por outro lado há um filme que não foi premiado e que toda a gente manifestou um enorme carinho pelo filme que foi o The Sound of Silence. Pessoalmente gosto muito do Graveyad and the macaques. Gosto muito do cinema oriental.
Há igualmente duas propostas que posso realçar. Uma delas é o filme ChatNoir. É um filme com alguma originalidade, um filme de facto que retrata um aspecto muito particular da nossa forma de nos relaccionar-mos hoje. E também o filme Ewangelion Pierwsza, um filme polaco que tem uma imagem lindissima e que me deu um gosto imenso quando o vi pela primeira vez.

Qual é o futuro deste Festival?

Sinceramente não sei qual é o futuro deste Festival. O que eu desejo que seja o futuro deste Festival é que não seja maior em termos de tempo, não maior em termos de filmes exibidos, mas maior em termos de qualidade, em termos de influência no que diz vontade a produzir com qualidade em Portugal. Maior em termos de penetração nas escolas de formação superior do audiovisual.
Acho que o CORTA a breve prazo - dois, três anos - tem de ser um dos festivais de referência do video em Portugal. É este o nosso objectivo e temos que apostar muito nisso. E acho que o CORTA vai mesmo ser um festival que assumirá um lugar de relevo tão grande como a cidade do Porto assume no país. Somos a segunda maior cidade do país, temos que ter com certeza um Festival Internacional de Curtas-Metragens do Porto que seja um dos melhores do país e não há que fugir a essa responsabilidade. É esse o futuro do CORTA. Ser um dos maiores festivais de curtas-metragens do país.


O Hollywood aproveita para agradecer a José António Fundo e a toda a organização do CORTA pela grande competência e amabalidade com que fomos tratados durante a cobertura deste festival. Será certamente um espaço que tem o apoio total e inequivoco deste espaço de cinema, que apesar de americano no titulo, quer também ajudar a divulgar o que de melhor se faz por cá. E o CORTA é do melhor que Portugal tem em termos de festivais de cinema.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 05:54 AM | Comentários (1)