março 05, 2006
Fantas - Dia 13
Frostbitten dominou todas as conversas do 13º dia de Fantasporto. Pela manhã foi anunciado como o grande vencedor da edição deste ano. Pela noite voltou ao grande auditório para a consagração oficial.

Para muitos foi uma total surpresa. Mas a verdade é que o equilíbrio entre os filmes a concurso era tal que haveria sempre quem achasse surpreendente, qualquer que tivessem sido as escolhas do juri.
Foi Frosbitten, o primeiro filme de vampiros made in Suécia, a triunfar. Um filme simpático, bem feito, e que se enquadra no espírito do Fantas, cada vez mais longe do cinema hardcore de terror, e cada vez mais aberto a filmes de grandes audiências.
O filme fechou a noite no grande auditório, depois de Fragile de Jaime Balagueró ter funcionado como o grande atractivo da noite. O cineasta espanhol regressa com mais um filme de arrepios, com Calista Flockhart (que por pouco não esteve no Fantas, juntamente com Harrison Ford), no principal papel.
Antes tinha havido a cerimónia de entrega de prémios com um Rivoli a rebentar pelas costuras, muito humor, e recados a um secretário de estado em noite negra. O público disse presente, confirmando a ideia de que os números previstos pela organização foram alcançados, senão mesmo superados.
A tarde passou-se entre conferências de imprensa – o destaque foi para a presença de John Howe, o ilustrado do Senhor dos Anéis com quem o Hollywood falou numa entrevista a publicar quinta-feira – e filmes no grande e pequeno auditório. Super Nova abriu a tarde no espaço central do Fantas, e depois seguiram-se Hair High, a animação premiada de Bill Plympton, e Pleasant Dreams, o filme que abriu o Fantas deste ano.
Já o pequeno auditório esteve com algumas das melhores curtas-metragens nacionais. Para fechar a exibição do pequeno auditório houve ainda The Battle of Planets, animação japonesa de culto, e ainda The Toybox, fime à volta de um mágico imaginário infantil na Grã-Bretanha rural.
Pela noite dentro, o Fantas cumpre uma das suas habituais tradições, com os cinéfilos a transformarem-se em melómanos e a mudarem-se de armas e bagagens do Rivoli para o Teatro Sá da Bandeira, onde terá lugar o Baile dos Vampiros.
Para amanhã estão reservadas as sessões dos filmes premiados.
O grande auditório abre as portas ás 15.00 com The Other Half, prémio do público, seguindo-se Sympathy for Lady Vengance (17.00), Saint-Martys-des Damnés (19.00), Frostbitten (21.15) e Animal (23.15). Já o pequeno auditório exibe os restantes premiados. A Quiet Love, Incautos, Offscreen, The Bow e Be With Me marcam a despedida do festival da cidade do Porto.
A edição do próximo ano está já marcada para o período que vai de 23 de Fevereiro a 3 de Março.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:58 AM | Comentários (0)
março 04, 2006
Fantas - Dorminsky declara "guerra aberta" à Comunicação Social
Na conferência de imprensa que serviu para anunciar os vencedores da 26º edição do Fantasporto, Mário Dorminsky fez duras criticas à comunicação social e anunciou medidas para a edição do próximo ano.

36 conferências de imprensa agendadas. Uma por filme. Só uma é que foi oficialmente realizada.
Números estranhos para um Festival da envergadura do Fantasporto, mas uma realidade que Mário Dorminsky fez questão de referir no encerramento da conferência de imprensa de hoje.
"Isto é lamentável e provoca uma imagem miserável de Portugal lá fora" desabafou o director do Festival, que aproveitou para anunciar que, "por uma questão de ética", deixa todos os cargos na cooperativa Cinema Novo e confirma que a direcção do Festival passa (se é que já não o era) a um triunviarato, que conta ainda com António Reis e Beatriz Pacheco Pereira.
Acusando a Comunicação Social de falta de cobertura, nivelando o Fantas com outros eventos de menor projecção, Dorminsky anunciou que " a partir do próximo ano, o Fantas vai ter uma cobertura diária nos jornais própria, no formato de publicidade paga". Visivelmente irritado - e perante uma sala que espelhava as suas criticas, ou seja quase sem jornalistas - rematou "isto é a guerra aberta à Comunicação Social."
Protocolo com a Realizar
Antes do anúncio dos vencedores, a organização do Fantasporto - pela mão de Beatriz Pacheco Pereira - assinou um protocolo com a empresa Realizar, que assim passa a gerir a parte comercial do festival.
"Isto é muito importante para nós" disse Dorminsky, "porque permite-nos apostar exclusivamente na produção artistica do certame." Manuel Vaz, o representante da Realizar, mostrou-se satisfeito pelo acordo alcançado e garantiu que o objectivo da empresa é colocar a marca Fantasporto - uma das cinquenta maiores do país - "a respirar durante todo o ano".
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:57 PM | Comentários (0)
Fantas 2006 - O ano dos Nórdicos
Entre algumas surpresas e inevitabilidades, o palmarés do Fantasporto não andou muito longe do que se esperava. Ainda não foi desta que um filme português levou o Grande Prémio para casa. 2006, foi o ano dos vikings.

Frostbitten, o divertido filme de vampiros vindo da Suécia, foi o grande vencedor da edição deste ano Fantas.
Realizado com Anders Banke - com quem o Hollywood falou numa entrevista a publicar amanhã - este filme é também a primeira aposta do cinema sueco num universo fantástico. A qualidade do filme não escapou ao juri que lhe atribuiu o prémio principal da 26º edição do Fantasporto.
Outro grande vencedor foi o dinamarquês Adam´s Apple. O filme de Anders Jensen levou para casa três prémios na secção da Semana dos Realizadores. Para além de ter sido o melhor filme, também venceu em argumento e melhor actor, graças ao desempenho de Ulrich Thomensen. Depois de Green Butchers, este é mais um prémio "fantástico" para Jensen.
Coisa Ruim ficou a ver navios - houve sempre no ar a ideia de que era desta que um filme português saía vencedor - e foi Animal (co-produção luso-francesa integralmente filmada em Portugal) a vencer na categoria de Melhor Filme Europeu de cinema Fantástico. Por arrasto, é o candidato do Fantas ao prémio Mélies de Ouro.
A secção Orient Express viveu uma decisão salomónica. The Bow - o melhor filme que passou pelo festival - levou o prémio do juri e Sympathy for Lady Vengance ficou com o grande prémio.
Johana, operata polémica do hungaro Kornel Mundruczó, leva para casa dois prémios: o Prémio Especial do juri na secção de competição e o prémio para a melhor actriz, Orsi Toth. Jaume Garcia Arijo, em Zulo foi o melhor actor do ano.
Robin Aubert venceu na realização pelo seu aclamado Saints-Martys-des-Damnés.
Na semana dos realizadores Victoria Abril (Incautos, filme que não podia passar sem um prémio) foi a melhor actriz no meio dos prémios conquistados por Adams Apple.
A Lenda do Espantalho, do espanhol Marc Besas, e Home Delivery, de Elio Quiroga, foram as curtas-metragens premiadas na edição deste ano.
Entre os restantes prémios, A Quiet Love venceu como melhor fotografia e como prémio do juri da critica. The Other Half levou para casa o prémio do público e Bill Plympton, Christiane Torloni e Manoel de Oliveira estiveram entre os nomes homenageados pela organização do Festival.
Hoje há Fragile a fechar os filmes em exibição e depois há a mostra de Frostbitten, o grande campeão e 2006. De seguida mais uma inevitabilidade: o baile dos Vampiros.
Palmarés completo:
Secção Oficial Cinema Fantástico
GRANDE PRÉMIO: Frostbiten de Anders Banke (Sue/Swe)
PRÉMIO ESPECIAL DO JURI: Johanna de Kornél Mundruczó (Hung)
MELHOR REALIZAÇÃO: Robin Aubert por Saints Martyrs des Damnés (Can)
MELHOR ACTOR: Jaume Garcia Arija em Zulo (Esp/Spa)
MELHOR ACTRIZ: Orsi Tóth em Johanna (Hun)
MELHOR ARGUMENTO: Roselyne Bosch por Animal (Por, Fra,GB/Por, Fra, UK)
MELHOR FOTOGRAFIA: Manuel Mack em A Quiet Love (Ale/Ger)
MELHOR CURTA-METRAGEM: Home Delivery de Elio Quiroga (Esp/Spa)
MENÇÃO HONROSA: Shadow Man de David Benullo (EUA)
16ª Semana dos Realizadores
PRÉMIO SEMANA DOS REALIZADORES FANTASPORTO 2006: Adam's Apple de Anders Thomas Jensen (Din)
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI: Be With Me de Eric Khoo (Sing)
MELHOR REALIZADOR: Pieter Kuijpers por Offscreen (Hol)
MELHOR ACTOR: Ulrich Thomensen em Adam's Apple (Din)
MELHOR ACTRIZ: Victoria Abril em Incautos (Esp/Spa)
MELHOR ARGUMENTO: Anders Thomas Jensen por Adam's Apple (Din)
Secção Oficial Orient Express
GRANDE PRÉMIO ORIENT EXPRESS: Simpathy for Lady Vengeance de Chan Wook Park (Cor Sul/South Korea)
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI: The Bow de Kim Ki Duk (Cor Sul,Jap/South Korea/Jap)
Méliès D'Argent
MÉLIÈS DE PRATA: Animal de Roselyne Bosch (Por, Fra,GB/Por, Fra, UK)
MÉLIÈS DE PRATA CURTA-METRAGEM: A Lenda do Espantalho de Marc Besas (Esp/Spa)
O Júri da Crítica do Fantasporto 2006 decidiu atribuir o prémio a:
A Quiet Love de Till Franzen (Ale/Ger)
O Júri do Público/Premio Jornal Público do Fantasporto 2006 :
The Other Half de Marlowe Fawcett e Richard Nockels
Prémio Norteshopping A Tua Curta no Fantasporto:
Estranhos Casos Ocorrem
de Luis Pato, Fernando Braga, João Marques e Daniel Marques
Prémios Carreira:
Manoel de Oliveira
Christiane Torloni
Bill Plympton
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:39 PM | Comentários (3)
Fantas - Dia 12
O grande auditório foi pequeno demais para acolher o público de Hostel. Casa mais do que lotada num dos filmes mais aplaudidos da edição deste ano. E não foi por acaso que este se tornou no grande favorito do ano dos espectadores do Fantas...

Pessoas sentadas no chão. Pessoas encostadas às paredes. Cadeiras vazias, nem vê-las. O grande auditório esgotou por completo para a exibição da 1h15 da manhã. O motivo? A produção dava pelo nome de Hostel e trazia o rótulo de Quentin Tarantino e Eli Roth. Nem era preciso dizer mais nada. O público hardcore do Fantas, que este ano esteve um pouco de costas voltadas com a programação, entrou em delirio. Aplaudiu várias vezes durante o filme, aplaudiu antes do filme começar, e deu a maior ovação do festival quando tudo terminou. Para trás ficou hora e meia de puro gore, salpicado sempre com muito humor e erotismo. O favorito do público está encontrado, mas como o filme não está em competição, certamente que amanhã haverá falatório quando os prémios forem anunciados.
E se o público delirou com Hostel, também não se pode dizer que não tenho adorado os outros dois filmes da noite. Ghost in the Shell 2 recuperou o espirito anime do Japão, depois do sucesso do filme original em 1997, enquanto que o segundo, Sars Wars - já com direito a exibição no AMC e no pequeno auditório - converteu um público céptico com uma história que não lembra ao diabo. Pela tarde já tinha havido três horas de Angelopoulos, que trouxe a primeira parte do seu novo épico The Weeping Meedow, onde se pretende abordar as diferentes etapas dos últimos 100 anos da Grécia, e claro, o festival Sick and Twist Animation.
Pelo pequeno auditório tinham passado várias curtas portuguesas, incluindo Rupofobia, de que aqui já se falou, e vários filmes da série Ginger Snaps.
O público disse mais do que presente hoje e amanhã espera-se um dia em grande para fechar em beleza. Domingo é dia de reposições.
E se o destaque de amanhã vai todinho para a conferência de imprensa que anunciará os vencedores, isso não quer dizer que o Festival pare. No grande auditório há Super Nova, Hair High (pela quinta vez) e Pleasant Days, filme que abriu o festival. A noite fica marcada pela sessão de encerramento, seguida da exibição do filme Fragile, de Jaime Balegueró e do filme vencedor da competição de cinema fantástico.
No pequeno auditório há mais curtas portuguesas para ver e Battle of Planets, uma serie de animação de culto. Pela noite poderão ver The Toybox, o filme que encerra o Festival na segunda sala do Rivoli.
O Hollywood recomenda uma presença nocturna que passa por Fragile - já esgotado - e pelo filme vencedor da competição. Aceitam-se apostas.
A preferência do Hollywood vai para Coisa Ruim, mas Frostbitten, Johanna, Zulo e Cruel World são favoritas. Nas restantes secções The Bow e Sympathy For Lady Vengance são favoritos, mas é um crime Incautos passar sem qualquer prémio. Amanhã se saberá!
O FILME DO DIA
Hostel
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Eli Roth já tinha explorado as fronteiras do cinema gore com Cabin Fever. Foi premiado no Fantas e prometeu voltar com mais e melhor. Cumpriu. Com Tarantino na produção, este Hostel é um filme deliciosamente macabro e masoquista.
Roth sabe agarrar o público. Divide o filme em duas partes. Na primeira seduz o público com um registo muito leve, mas captivante. O humor - ao estilo das comédias de adolescentes tão em voga - e os corpos nus de algumas das mais belas actrizes que já passaram pelo Fantas, vão-nos hipnotizando, como se Roth não quisesse que nos apercebessemos que estavamos no universo gore. E depois de muitos seios nus e muitas piadas capazes de arrancar aplausos, eis que começa o festival de sangue, tripas e sadismo. São cerca de quarenta minutos trepidantes, onde se mostra um pouco de tudo, sem qualquer despudor, mas com muito engenho. Para terminar o pack faltava a indispensável vingança pessoal, que é conduzida com grande estilo, aqui mais com o dedo de QT certamente.
Apesar de acentar numa narrativa altamente previsivel - tudo o que acontece, a ordem dos mortos, os motivos, ... - Roth sabe jogar com as emoções. Sabe que o ecrãn negro é para o cinema de terror o que o silêncio é para a comédia, e usa-o de forma eficaz. Tanto é capaz de relaxar o espectador como uma escaldante cena de sexo, como logo a seguir o deixa a espreitar por cima do ombro.
Com Jay Hernandez e Derek Richardson num registo interessante (se bem que aqui o que importa mesmo são as actrizes eslovacas), o filme aguenta-se sempre bastante bem, sem altos e baixos, e com um final violentissimo, capaz de saciar o verdadeiro amante do cinema gore. Com o bónus da presença de Takeshi Miike (descubram-no) o filme agrada ao espectador comum. Mas para os amantes do género, é uma pérola a não perder.
Realizador - Eli Roth
Elenco - Jay Hernandez, Derek Richardson e Eythor Gudjonson
Duração - 95 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:55 AM | Comentários (10)
março 03, 2006
Fantas - Dia 11
"Oliveira não faz cinema. Oliveira é o cinema". Palavras de Beatriz Pacheco Pereira, directora do festival que expressa bem a homenagem que o Fantas preparou este ano para o patrono da Semana dos Realizadores. A completar a festa houve exibição de Espelho Mágico.

Agustina Bessa-Luis não apareceu, mas a festa continuou como planeado. Discursos emocionados e reverenciais, perante o cineasta de maior renome em Portugal, e um discurso modesto por parte de um realizador que já conta com 97 anos, mas que na manhã de ontem estava em Paris a filmar as últimas cenas de Belle Toujour, o seu mais recente trabalho.
E foi essa paixão pelo cinema que o Fantas quis homenagear perante uma plateia onde encontrar uma cara mais nova era como encontrar uma agulha num palheiro. A velha guarda juntou-se para aplaudir o decano dos realizadores, mas o aplauso final a Espelho Mágico esteve longe da apeteose de Coisa Ruim. Um facto que se explica bem pelo falhanço que é o filme do realizador a que muitos apelidam de "Mestre". Sem capacidade de passar do texto original de Agustina para uma linguagem cinematográfica, e num estilo de teatro-filmado, castrador de emoções e desempenhos, Espelho Mágico é o exemplo perfeito de um cinema que só Oliveira sabe fazer, e que só muito poucos conseguem gostar.
Depois da exibição arrastada e longa, houve ainda Animal, filme franco-canadiano com Diogo Infante como protagonista. De tarde já tinha havido
Looking for Alexander, Off Screen e Spirit Trap - todos já exibidos previamente - marcaram a tarde fantástica, num dia em que o auditório encheu pela noite, mas continuou sem conseguir esgotar pela tarde.
O pequeno auditório viajou pelo universo das curtas-metragens chegadas da Bélgica, mas o destaque foi para a exibição da noite de The Last Horror Movie, onde os fãs hardcore do Fantas se refugiaram. No Passos Manuel a tarde foi de Passion for Life e continuou a retro de Bollywood na Almeida Garrett com a exibição de mais duas peliculas: Dil Se e Chori Chori Chupke Chupke.
Hoje é dia de reflexão. Os filmes em competição acabaram e amanhã de manhã são divulgados os grandes vencedores deste 26º Fantas.
Talvez por isso esta seja a noite que mais vai agradar aos fãs tradicionais do Festival. O grande auditório passa a tarde entre Sick and Twisted Animation Festival e The Weeping Meedow, o primeiro capitulo de uma trilogia épica que Theo Angelopoulos quer fazer sobre a Grécia no século XX.
Pela noite há anime japonês com A Ghost in the Shell 2 e The Hamster Cage, em reposição depois de já ter passado pelo pequeno auditório e o AMC. A noite fecha em grande, já na madrugada do dia seguinte, com Hostel, produzido por Quentin Tarantino e realizado pelo premiado Eli Roth.
No pequeno auditório o dia está reservado ás curtas metragens nacionais e a três filmes da série Ginger Snaps. Por fim há ainda Main Ho Nahh e Khabi Kushi Khabie Gham a fechar o ciclo Bollywood na Almeida Garrett.
O Hollywood recomenda aos fãs do cinema gore a paragem obrigatória em Hostel. Os fãs da anime made in Japan vão certamente querer ver Ghost in the Shell 2.
FILME DO DIA
Espelho Mágico
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Manoel de Oliveira é o maior nome do cinema português. E convenhamos que, quem realiza aos 97 anos com a mesma naturalidade com que realizava aos trinta, merece todo o respeito do mundo. Mas se Oliveira já foi capaz de filmes muito interessantes (Francisca, Non ou a Vã Glória de Mandar, Vale Abraão), nunca esteve ao nivel dos grandes realizadores europeus como Bergman, Renoir, Rossellini, Truffaut, Godard, Fassbinder, Wenders, Almodavar...Mas eles foram passando, e ele foi ficando, sempre com o seu estilo de teatro-filmado. Se no inicio da carreira Oliveira defendeu a importância da montagem na criação de um filme, hoje o cineasta usa cada vez menos esse artificio. A ligação entre planos é do mais básico e rudimentar possivel, e se exceptuar-mos o plano em que Benard da Costa (um excelente escritor de cinema, um péssimo actor) narra a viagem a Itália e Jerusálem, é seco e sem alma.
Oliveira é para muitos um "mestre" e ninguém se atreve a contestar tal titulo. Faz um cinema que muitos poucos gostam, mas como esses muito poucos têm uma palavra mais importante que muitos outros, o epiteto foi ficando. No entanto Espelho Mágico é a prova que Manoel de Oliveira está completamente desfazado de três aspectos fundamentais da criação cinematográfica.
Por um lado, os planos longos e arrastados - qual peça de teatro - são filmados sempre a uma relativa distância dos actores, para possibilitar um plano de conjunto. Um erro crasso que impede que vamos vendo as mudanças de expressão nas faces dos actores, essa ferramente fundamental para perceber o que vai na alma das personagens. E claro, uma direcção de actores em que uns não se olham nos olhos dos outros, é do mais castrador possivel para uma profissão que vive do choque intenso entre personagens. Dos desempenhos Leonor Silveira continua ao seu bom nivel e Ricardo Trêpa alterna o bom com o muito mau. Sobra um elenco cheio de nomes com pouco tempo para fazerem das suas, como nos têm habituado tão bem.
Por outro lado há o problema do espaço. Os planos em Oliveira são normalmente bidimensionais e não exploram a profundidade do campo que envolve a acção. Perdem-se os pequenos pormenores, a utilização fundamental do espaço na criação da história, e com isso o filme perde vive. Ninguém gosta de cinema a duas dimensões, estático e sem pingo de emoção. Falta de emoção essa que deriva da aposta de Oliveira em, não adaptar o romance de Agustina Bessa-Luis, A Alma dos Ricos, mas transcrever os diálogos. Passagens que fazem todo o sentido num livro, já não o fazem no teatro e muito menos num filme. Ouvir coisas que nunca ninguém diz, expressões que nem se quer são narráveis, é um verdadeiro desperdicio de tempo e talento.
Feitas as contas, Oliveira continua igual a si próprio, a realizar como quer, quando quer e com quem quer. E o país, ávido de nomes celebres, dá-lhe redea solta. A critica adora, o público não. Ambos têm as suas razões, e no final do dia, Espelho Mágico tem muito de espelho de uma obra de décadas, mas muito pouco de mágico.
Realizador - Manoel de Oliveira
Elenco - Leonor Silveira, Ricardo Trepa e João Benard da Costa/Duarte de Almeida
Duração - 135 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 05:08 PM | Comentários (0)
março 02, 2006
Fantas - Dia 10
A poesia de Kim Ki Duk marcou o décimo dia de Festival. A reposição confirmou The Bow como o grande filme do Fantas, quando estamos a apenas três dias do fim. Hoje é o dia de Manoel de Oliveira.

Já tinha passado, voltou a passar. Os amantes de cinema agradecem. The Bow é indiscutivelmente o melhor filme do Festival, e um mais que justo vencedor do prémio da Semana dos Realizadores (ou do Orient Express). A bela história de amor entre um velho pescador e uma jovem de dezassete anos é o ponto de partida para esta viagem mágica e cheia de pormenores deliciosos. O público respondeu positivamente e a noite foi animado. A seguir houve, mais na onda do cinema fantástico que os amantes do Fantas tanto gostam, o filme Saints-Martys-des-Damnés, um terror vindo directamente do Canadá que teve prelúdio em português, com a apresentação da curta-metragem A Sombra de Thule.
A noite foi um sucesso, a tarde nem por isso. Nem Inconscientes (comédia no universo freudiano do próprio Freud), nem El Desenlace, filme sobre o final do Dogma95 de von Trier e Vinterberg, conseguiram estar à altura de Incautos, o filme espanhol do festival. The Voice fez a transição tarde/noite de forma tranquila, com um leve toque de terror.
No pequeno auditório houve curtas da casa da Animação e mais Bill Plympton. Pelo meio ainda houve Hellevator, o porno japonês e Gamerz, uma comédia escocesa. Desperate Remedies esteve de novo em exibição no Passos Manuel e o cinema de Bollywood, tão popular na década de 70, continuou sem convencer na Almeida Garrett.
Hoje o dia é de Manoel de Oliveira. Patrono da Semana dos Realizadores há quinze anos, o Fantas vai marcar a ante-estreia nacional do seu mais recente filme, O Espelho Mágico, depois deste ter aberto o Festival de Veneza. Oliveira será homenageado - com direito a discurso de apresentação pela amiga e autora do livro que inspirou o seu mais recente filme, Agustina Bessa Luis - e depois da apresentação do seu filme há mais cinema português, numa co-produção com a França sob o titulo Animal. Diogo Infante é a estrela deste filme futurista.
O pequeno auditório passa a tarde a mostrar curtas-metragens belgas e acaba a noite com o mais recente filme do premiado Julian Richards, que dá pelo nome The Last Horror Movie.
The Passion of Life, no Passos Manuel, e Dil Se e Chori Chori Chupke Chupke, na Almeida Garrett, completam a programação do dia.
O Hollywood lembra a oportunidade única de ver ao vivo Oliveira, já com 97 anos, a apresentar o seu mais recente filme. Um dos mais acessiveis dos últimos anos, diz quem viu.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 05:42 PM | Comentários (0)
março 01, 2006
Fantas - Dia 9
Domino marcou o dia. O estilo visual arrojado de Tony Scott agradou ao público que escolheu o Fantas para passar a tarde de Carnaval. Com o regresso a The Rider Named Death já pela noite, a verdade é que a terça-feira carnavalesca foi morna, isto quando estamos a três dias de conhecer os vencedores.

O público continua a dizer presente à noite e a picar pouco o ponto durante o dia. Ao nono dia de Festival ainda não houve o filme que deixasse todos de boca aberta. É natural. A competição deste ano aposta menos em primeiras obras de "jovens turcos", e mais em filmes de consagração de autores já premiados no Festival.
O filme Domino de Tony Scott abriu o dia. Uma estreia pouco auspiciosa nos Estados Unidos faziam muitos temer o pior. Mas para os amantes do arrojo visual de Scott, o filme não desilude. A forma sobre o conteudo, a montagem rápida, as cores garridas e a cara de anjo-demónio de Keira Knightley foram mais do que suficientes para ajudar a encher o grande auditório do Rivoli.
Já o poético Be With Me foi menos visto, mas deixou também boa imagem junto do público, confirmando o bom momento do cinema asiático no festival. Dead Meat, o primeiro filme irlandês de zombies, mexeu com o público mais gore, que até hoje ainda não teve muitos motivos para festejar. Afinal este ano o Fantas afirma-se cada vez menos pelo fantástico, uma tendência antiga, mas que é cada vez mais evidente.
A noite repetiu o épico russo The Rider Named Death, e depois seguiu-se uma viagem ao cinema fantástico de Till Franzen em A Quiet Love.
Se o grande auditório esteve longe da enchente, o pequeno auditório passou pelo mesmo problema. A mostra de curtas hungaras e a viagem - mais uma - ao mundo animado de Bill Plympton cativaram pouco. Já Love Hotel e Cruel World, dois filmes interessantes, o primeiro sobre o poder da sexualidade e da morte numa relação amorosa no Japão entre um suicida e uma prostituta, e o segundo num jogo de vingança inspirado nos efeitos colaterais dos reality show, foram mais aplaudidos. A noite foi longa e fechou com The Unburied Man de Marta Mészaros, mas a ressaca do Carnaval foi mais forte que o cinema.
Para hoje o destaque vai para a re-exibição de The Bow, o genial filme de Kim Ki Duk, e Saints-Martyres des Damnés, filme de terror da autoria do actor canadiano Robin Aubert. Pela tarde do grande auditório vão ainda rolar Cazuza - biopic de um popular músico brasileiro - El Desenlace e Voice. A anteceder o filme de Aubert há a curta-metragem portuguesa As Sombras de Thule.
No pequeno auditório o dia é das curtas nacionais com as curtas animadas, numa parceria Fantas/Casa da Animação. Há ainda um remake do clássico The Gabinet of Doctour Caligari e a comédia escocesa Gamerz. A noite acaba com mais uma serie de curtas de Bill Plympton.
Mughal-E-Azam e WAQT continuam a retro Bollywood na Almeida Garrett e Desperate Remedies é o sumpstuoso filme neo-zelandês que rola em Love Connection no Passos Manuel. Já o AMC continua com Mundos Paralelos e passa Hamster Cage, o perturbador filme de Larry Kent.
O Hollywood recomenda uma visita a The Bow - para quem perdeu o poema visual de Kim Ki Duk - e uma espreitadela a Saints-Martyres des Damnés, para aqueles que acham que há pouco terror na edição deste ano do Fantas.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:13 PM | Comentários (0)
fevereiro 28, 2006
Fantas - Dia 8
A entrar na sua última semana, o Fantas ficou marcado pelo documentarismo interventivo de Carlos Benpar e pela exibição do perturbador Shooting Dogs.

Segunda-feira de Carnaval atraiu pouca gente as sessões da tarde. E foi pena porque os dois documentários de Carlos Benpar - feitos como um só, exibidos em separado - eram imperdiveis. Cineastas vs Magnatas e Cineastas en Accion são dois trabalhos sobre a profissão "autor de cinema" e sob os problemas que esses autores encontram no exercicio do seu trabalho. Questões como os direitos de autor, as dobragens ou a exibição televisiva dos filmes foram os alvos que Benpar, cineasta catalão, atacou com toda a força. E para isso contou com a ajuda de uma serie de notáveis autores (Woody Allen, Frederico Fellini, Arthur Penn,...), de uma bela narração de Marta Belmonte e de um excelentre trabalho de composição.
Com o cineasta presente, foi mesmo pena a casa pouco cheia. Mas o pequeno auditório também estava longe de ser um local concorrido, já que a exibição de O Casamento de Romeu e Julieta e Crash Test Dummies também não encheu a sala.
A noite no pequeno auditório prosseguiu com Diary For My Father, F.A.Q., I.K.U e Dr Mabuse, e já benificiou bastante das mudanças da tarde. Mas perdeu muitos amantes do Carnaval, tal como o grande auditório que, depois da reposição de Sympathy for Lady Vengance, tentou cativar o público com filmes choque. Foi o caso de Shooting Dogs, o retrato de Michael Caton Jones do genocidio do Ruanda, e ainda One Missed Call 2, que recupera a história já premiada no Fantas. Para fechar a noite um thriller erótico com a sensual Kelly Brook, Three. Mas muitos já dançavam ao som da música carnavalesca.
Fora do Rivoli houve Angel Guts no Passos Manuel e mais duas obras de Bollywood, Khakee e Kuch Kuch Hota Hai, mas o dia não foi dos mais procurados pelos portuenses, mais interessados em explorar a tarde solarenga de Carnaval.
Para hoje, segunda feira há mas cinema indiano - Munna Bahi M.B.B.S e Deewar - e mais Love Conection - The Woman with the Red Hair. Mas o centro das atenções vai voltar a ser o Rivoli.
Para aproveitar o longo dia de feriado é Domino quem abre a contenda logo ás 14h35. Depois há filme vindo directamente da Singapura, com paragem anterior em Cannes, Be With Me, e para fechar a tarde a reposição do épico russo The Rider Named Death. A noite fica a cargo de A Quiet Love, filme onde podemos reencontrar uma das maiores actrizes alemãs de sempre, Hannah Schygulla. Já o pequeno auditório abre com uma serie de curtas-metragens hungaras antes de passar para Love Hotel, de Shinji Somai, e Cruel World, filme de Kelsey Howard. A noite termina com a homenagem a Imre Nagy, The Unburied Man.
O Hollywood recomenda Domino, de Tony Scott e ainda um reencontro com a inesquecivel Hannah Schygulla em A Quiet Love.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:25 PM | Comentários (0)
fevereiro 27, 2006
Fantas - Dia 7
A peróla do dia estava guarda para a última sessão. Mas durante o dia o Rivoli esteve cheio de cinéfilos, sedentos por um fim de semana cheio de filmes com o selo de qualidade do Fantasporto. E não ficaram desiludidos.

O dia era de derby em Lisboa, e ao fim de tarde isso notou-se de alguma forma. Mas o principio da tarde foi a prova viva de que o festival está em força. Um Lobisomem na Amazónia, do brasileiro Ivan Cardoso, abriu a tarde, para logo de seguida voltar a passar Incautos, o fascinante thriller de Miguel Bardem de que já falamos aqui várias vezes.
Num festival que teve uma primeira semana com tardes em que o movimento era pouco, este fim de semana foi uma lufada de ar fresco com salas cheias e filas para comprar bilhetes. No pequeno auditório do Rivoli a manhão trouxe a serie televisiva Triângulo Jota, e a tarde priveligiou Masters of Horror e o cinema hungaro, com os filmes The Witness e Time Stands Still.
Já antes disso a biblioteca Almeida Garrett tinha passado um dos mais aplaudidos filmes de sempre de Bollywood, Devdas, e ainda Kal Ho Naa Ho.
Com a hora do jogo a aproximar-se, só os inevitáveis fãs de Park Chan Wook, Takeshi Miike e Fruit Chan ficaram para Dumplings, a continuação de Three Extremes que tinha fechado a noite de sábado. O inicio da noite fez-se sob os auspicios do maestro Kim Ki Duk, com Samaritan Girl, mas o choque estava guardado para mais tarde com a exibição de Johana. A ópera em tons cinematográficos de Kornel Mundruczó, sobre uma jovem que ganha poderes especiais para curar os enfermos, através do sexo, chocou muitos que cedo abandonaram a sala, mas os que aguentaram até ao fim juram a pé juntos que este é um dos filmes do festival. Veremos se chega aos prémios.
Entretanto o pequeno auditório também tinha as suas pequenas pérolas polémicas, de Death Tunnel ao disfuncional The Hamster Cage, onde desde incesto a abusos sexuais, há um pouco de tudo para alegrar uma familia completamente surreal.
Mas o prato forte da noite estava mesmo guardado para o final.
O filme surpresa da edição deste ano do Fantas, Good Night and Good Luck. conseguiu arrastar bastante gente para o grande auditório, apesar do adiantar da hora. E se muitos sairam da sala, certamente depois de terem olhado para o relógio, os que ficaram não deixaram de ovacionar o filme no final. De facto, Good Nighta and Good Luck., é seguramente um dos melhores exemplos do cinema de cruzada, e a confirmação absoluta do talento de George Clooney para a realização. Um filme que marca também esta edição do Fantas pelo seu statement politico, como a directora Beatriz Pacheco Pereira, tinha feito questão de salientar, no discurso de inauguração.
A partir de hoje o Fantas entra na sua semana decisiva. Muitos filmes em competição, muito suspense sobre quem será premiado.
O destaque da segunda-feira de Carnaval vai para os docuemntários Cineastas vs Magnatas e Cineastas en Accion, do espanhol Carlos Benpar. Seguem-se Simpathy for Lady Vengance - prato forte do primeiro dia - e Shooting Dogs. A noite fecha com One Missed Call 2, um regresso, e a reposição de Three..Extremes.
Já o pequeno auditório abre as portas ao cinema brasileiro com O Casamento de Romeu e Julieta. Seguem-se Crash Test Dumies - filme austriaco - e Diary for My Father and Mother, que continua a retrospectiva hungaro, 50 anos que se completam da chegada dos soviéticos a Budapeste. À noite há F.A.Q, filme espanhol em competição, e I.K.U, mais uma história provocante que chega do Japão na secção Love Connection. A noite longa acaba com mais uma obra máxima da filmografia alemã, Dr. Mabuse de Fritz Lang.
O AMC 20 continua com Mundos Paralelos e dedica uma sala a Spirit Trap, e o Passos Manuel continua a sua viagem pela Love Connection com Angel Guts. Por sua vez a retro Bollywood continua com Khakee e Kuch Kuch Hota Hai.
OS FILMES DO DIA
A review de Good Night and Good Luck. será apresentada à parte do resumo diário do Festival.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:44 AM | Comentários (0)
fevereiro 26, 2006
Fantas - Dia 6
Dia recheado de candidatos a prémios, o Rivoli encheu à noite para a ante-estreia mundial de Edison e para o bom humor do cinema sueco de terror. Quase a chegar a meio, o festival começa a arrancar para a sua fase mais interessante.

A enchente do dia de abertura não foi superada, mas mesmo assim muita gente disse presente no Rivoli, apesar da chuva que teima em não abandonar a cidade do Porto.
Durante a tarde houve uma reposição de The Other Half, mas o destaque foi para os filmes em competição de quem se esperava muito.
Adam´s Apple e Zulo foram os filmes da tarde. O primeiro uma comédia dinamarquesa com neo-nazis e o segundo um filme de cortar a respiração vindo directamente de Espanha.
O público disse presente, mas os problemas da organização estavam na sala de imprensa onde a equipa de Coisa Ruim e Luis de La Madrid, que tinham previsto um encontro com a imprensa, acabaram por faltar, e os jornalistas que não foram às exibições para falarem com os autores, acabaram por perder a tarde.
No pequeno auditório a tarde tinha sido passada com Masters of Horror e Bill Plympton, que foi homenageado à noite pela organização, culminando uma retrospectiva da sua obra.
E se Street of Joy e Pleasent Days - no Passos Manuel - e Main Hoon Na e Deewar - na Almeida Garret - animaram a tarde, as atenções estavam voltadas para a noite no grande auditório.
Edison, estreava mundialmente, e tinha um elenco de luxo como chamariz. Kevin Spacey, Morgan Freeman, Justin Timberlake, LL Cool J e Dylan McDermott protagonizaram este filme de acção policial dirigido por David J. Burke. O filme pautou pela mediania mas o público não gostou, e ouviram-se alguns apupos e poucas palmas no final da sessão.
Seriam A Lenda do Espantalho - animação espanhola pré-candidata ao óscar - e Frostbitten, filme onde a comédia de adolescentes encontra o cinema de vampiros, a aquecer a sala, com os autores a serem aplaudidos em palco, e os filmes a serem recebidos de braços abertos por um público sedento de sangue.
A fechar a noite, ainda com casa cheia, houve Three...Extremes, onde três Takeshi Miike, Chan Woo Park e Fruit Chan se encontraram para um retrato cruel do horror.
Amanhã o dia começa cedo e acaba bem tarde.
Um Lobisomem na Amazónia, filme de Ivan Cardoso, abre a tarde no Rivoli que prossegue com Incautos - em reposição - Dumplings e Samaritan Girl, o segundo filme de Kim Ki Duk no festival. A noite prossegue com Johana, filme do hungaro Kornel Mundruczó, também ele com outro filme no festival, e termina com um filme que é uma estreia em Portugal, apesar de estar já prevista a sua chegada às salas na próxima quinta-feira. Trata-se de Good Night and Good Luck., filme nomeado a seis estatuetas douradas na edição deste ano dos óscares e que promete ser o statement politico que o Fantasporto quis fazer este ano.
No pequeno auditório o dia é devotado ao cinema hungaro, com dois filmes e a noite prossegue com Deat Tunnell e The Hamster Cage, filme de um dos homens que inspirou Cronenberg.
Para os mais alternativos há Devdas, um dos maiores filmes da história do cinema de Bollywood, na Almeida Garrett e três filmes no AMC - Mundos Paralelos, Hair High e Spirit Trap.
O Hollywood recomenda o obrigatório Good Night and Good Luck., de George Clooney, e ainda Samaritan Girl e The Hamster Cage. Resta saber se Dumplings e Samaritan Girl não vão sair prejudicados pela inevitável romaria a casa para assistir ao derby entre Porto e Benfica.
OS FILMES DO DIA
Frostbitten
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O cinema sueco tem um historial impar no cinema europeu, desde nomes como Sjostrom ao inevitável Bergman. Mas felizmente há mais para além do cinema de autor no gelo da Suécia, e Anders Banke é a prova viva disso mesmo.
Forsbitten é tanto um filme de vampiros - com muitos litros de sangue (6, para ser mais exacto), como é uma comédia de adolescentes à americana, recheada das mesmas situações, do mesmo humor truculento e voraz, e do mesmo espirito de diversão.
Como o realizador fez questão de salientar, o filme prima por ser uma comédia, e é de facto aí que está o seu ponto alto. A história em si está carregada de falhas e a realização não é propriamente inesquecivel, numa produção que também não se pode dizer que tenha sido muito barata. Mas tudo isso desaparece quando as mais inverosimeis situações e falas vão surgindo no ecrãn. Apanhar os clichés dos filmes de vampiros e junta-los aos cliches dos filmes para adolescentes nem sempre é uma tarefa fácil. Mas Banke superou-se e constroi uma história engraçada, com um final a pedir uma sequela, e com a vontade de ver mais cinema sueco assim, e mais filmes com a promissora Grete Havnesköld.
Realizador - Anders Banke
Elenco - Petra Nielsen, Grete Havneskold e Emma Aberg
Duração - 98 m

Edison
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Edison tem três graves problemas, que condenam à partida qualquer hipótese do filme se destacar dos demais no genero.
Em primeiro lugar recorre a demasiados clichés do filme de acção policial. Tenta copiar ideias a filmes como Training Day, mas o realizador parece ter sido apanhado com o copianço na mão, tal é a falta de originalidade em alguns momentos. A juntar a isso um fraco argumento, com pessimas falas, daquelas que nunca ninguem diz em situação alguma, e o desenvolvimento de uma história em hora e meia que já está contada nos primeiros dez minutos, arrasam qualquer filme.
Temia-se muito pela presença de Justin Timberlake no filme. Mas o menino bonito da pop não se safa mal, só que anda perdido, tal como os veteranos Kevin Spacey e Morgan Freeman, enchertados ali um pouco a esforço, e sem grande convição. Fica para Dylan McDermott e LL Cool J as honras do filme, apesar deste último protagonizar uma cena final de acção que, para além de ter pouco a ver com o resto do filme, acaba por lhe retirar a pouca credibilidade que a história vinha tendo.
Apesar de arrancar bem, o filme perde-se cedo e nunca se reencontra, nem sequer procura um atalho para se salvar. Cai na monotonia e na mediocridade narrativa, e acaba por ser o exemplo perfeito de que um elenco chamativo não faz por si um bom filme.
Realizador - David J. Burke
Elenco - Justin Timberlake, Kevin Spacey e Morgan Freeman
Duração - 97 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:07 AM | Comentários (1)
fevereiro 25, 2006
Fantas - Dia 5
O Rivoli vestiu-se de gala para a cerimónia oficial de abertura do 26º Fantasporto. Personalidades dos mais diferentes quadrantes da sociedade juntaram-se para verem Coisa Ruim, o primeiro filme português a abrir o Fantas. Isto tudo numa noite onde se pode ver o melhor e o pior da edição deste ano do festival.

Camaras de televisão, imprensa e muito, muito público para o arranque oficial do festival.
O Rivoli esgotou por completo, num dia muito especial para o Fantas e para o cinema português. Pela primeira vez em 26 anos, era um filme português a ter honras de abertura.
Honras totalmente merecidas. Coisa Ruim é um filme brilhantemente concebido, cheio de boas ideias cinematográficas numa história fantástica, cheia de magia oculta. Um filme que vale mesmo a pena ver, e que nos mostra, mais uma vez, que o cinema português continua a ter qualidade, apesar de não ter muita expressão. Nem cá, nem lá fora...tal como Alice, se este fosse um filme norte-americano, teriamos aqui um dos filmes mais falados do ano...cá, e lá fora!
Beatriz Pacheco Pereira fez o discurso de abertura, a louvar o público, os patrocinadores e todos aqueles que fazem do Fantas uma realidade, e sob enorme aplauso a equipa de Coisa Ruim subiu ao palco principal, onde os nervosos Tiago Guedes e Frederico Serra não escondiam a emoção do momento.
Antes do filme houve tempo ainda para uma boa curta portuguesa, da autoria de Regina Pessoa, e com o apagar das luzes, começou a magia do filme de Guedes e Serra.
No final, como não podia deixar de ser, um enorme coro de aplausos, e uma aceitação enorme a um filme que se torna agora um fortissimo candidato a ser o vencedor do ano.
O pior veio depois. Com metade da imprensa e da organização a festejar o sucesso de Coisa Ruim, numa festa oferecida pela produção no Passos Manuel, os restantes espectadores ficaram com Sigaw. E não podiam ter ficado pior acompanhados, já que dificilmente haverá este ano (e noutros) um filme tão mau a passar pelo Rivoli. Risos, desistência e muito, muito sono, quebraram a magia que se tinha criado à volta da primeira grande "noitada". Para os mais resistentes ainda houve The Nun, filme de terror escrito por Jaime Balagueró (que vem fechar o festival) e dirigido por seu montador, Luis de La Madrid.
A tarde tinha sido mais calma, mas o ambiente já se começava a sentir. O grande auditório dividiu-se entre Desperate Remedies, drama neo-zelandês, A Tale of Two Sisters, um regresso ao Fantas, e Sword in the Moon, épico de artes marciais coreano. No pequeno auditório houve mais expressionismo alemão, com dois filmes magistrais - Fausto e Nosferatu - e Love, de Karóly Makk. A noite viu uma homenagem a Robert Wise, com The Day the Earth Stood Still, numa má escolha de hora - à mesma hora começava Coisa Ruim - e a noite acabou entre Zombie Kings e Masters of Horrors.
Nos outros palcos do festival, o cinema de Bollywood continuou a encantar os espectadores da Almeida Garrett, e no AMC houve Mundos Paralelos e o imperdivel Incautos. No Passos Manuel, a preparar-se para a festa de gala da noite, houve Rain a abrir.
Para hoje, sábado, há mais cinema de competição.
Agora que o festival arrancou, a sério, as expectativas aumentam.
No grande auditório a tarde começa com The Other Half, filme bem recebido na passada terça-feira, e seguem-se Adam´s Apple e Zulo, dois filmes que prometem dar que falar. Pela noite dentro há Edison, Forsbitten e Three...Extremes, mas três filmes imperdiveis no festival.
No pequeno auditório o destaque vai para a exibição de Triângulo Jota, a serie televisiva transmitida na RTP, e ainda para Master of Horrors. O resto do dia é praticamente da responsabilidade do talento criativo de Bill Plympton com The Tune e uma serie das suas curtas-metragens.
Main Hoon Na e Deewar são as obras de Bollywood em exibição na Almeida Garrett e no Passos Manuel há Street of Joy. Para terminar, no AMC, para além de Mundos Paralelos, há a exibição do épico russo The Rider Named Death.
O Hollywood recomenda uma tarde e noite bem passadas no grande auditório onde há, nada mais do que quatro filmes que vale a pena espreitar (cinco para quem perdeu The Other Half). De Adam´s Apple a Forsbitten, passando por Zulo e Edison, o dia promete ser bem passado.
OS FILMES DO DIA
Coisa Ruim
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É refrescante ver um filme português como Coisa Ruim.
Um filme que é capaz de utilizar uma estrutura cinematográfica definida - podemos dizer mesmo, uma fórmula de sucesso - mas que a consegue adaptar à nossa realidade. Todos os que conhecem o mundo rural português, conhecem terras como aquela misteriosa aldeia - da qual nunca sabemos o nome - onde "coisas ruins" aconteçaram no passado...e voltarão a acontecer.
O argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho é delicioso, no sentido em que joga com os grandes medos do mundo rural português, e consegue estabelecer um elemento de ligação com o Portugal urbano, onde os problemas parecem ser outros. Mas na hora h, a fusão parece inevitável, e no fundo, são sempre os estranhos que trazem o mal...a não ser que ele já lá esteja, à espera da sua hora.
Arrumemos desde logo duas questões. Coisa Ruim tem tiques de cinema português. Apesar de muito bom, o argumento continua a ter falas que, ninguém diz em lado algum, e que fazem impressão ao ouvido. Mas o pior mesmo é que não consegue perder o problema do cinema nacional que é, o de se arrastar, sem ritmo, durante demasiado tempo. Um problema que parece ser impossivel de ultrapassar, por muito imaginativos que sejam os argumentistas nacionais. Com um ritmo em crescendo (a la Shyamalan, com quem o filme partilha muitas semelhanças), mas mais pausado, Coisa Ruim faz-nos entrar num mundo que existe de facto, recheado de crenças e folclore, desde o inicio dos tempos. Mas faz mais do que isso. Cria uma estrutura narrativa, recheada de pistas falsas e momentos de brilhante tensão dramática, capaz de prender o espectador e levá-lo até a um filme espantoso.
No final de contas, qualquer um percebe que, mais uma vez, "não se acredita em bruxas, mas que as há...há", mas o filme é mais do que isso. O dramatismo final - e temos um pouco de tudo, desde incesto a mortes, passando por exorcismos - não é exagerado. Há uma proporção dramática constante, que se vai mantendo, e que torna tudo ainda mais credivel. No final ajuda ter um belissimo elenco, um cenário belissimo e uma realização segurissima e extremamente imaginativa, para ter-mos aqui um dos grandes candidatos a filme português do ano. E quem sabe, a receber o grande prémio!
Realizador - Tiago Guedes e Frederico Serra
Elenco - Adriano Luz, Manuel Couto e José Afonso Pimentel
Duração - 97 m

Sigaw
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Deste filme só se pode dizer que foi certamente dos piores filmes a passarem pelas 26 edições do Fantas. Montagem desastroso, efeitos sonoros do pior que já se viu, a somar a todos os clichés possiveis e imaginários num filme do genero, o pior de tudo neste Sigaw é que Yem Laranas nunca sabe para o que vai, como vai e como vai sair dali. Seguramente um dos piores filmes alguma vez a serem feitos, e uma boa razão para que poucas pessoas conheçam cinema de terror das Filipinas. Afinal, se este é um exemplo do que há de bom, ninguem vai querer imaginar como são os filmes maus.
Realizador - Yem Laranas
Elenco - Richard Guttierez, Angel Locsin e Jorami Yallana
Duração - 102 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:17 PM | Comentários (3)
fevereiro 24, 2006
Fantas - Dia 4
A noite do velho e o mar. Ao quarto dia o Fantas viu aquele que será provavelmente um dos grandes filmes do festival. Kim Ki-Duk regressou em grande com The Bow, um filme assustadoramente belo. O último dia, antes do arranque oficial da competião, ficou também marcado pela exibição de dois dos filmes mais miticos da história do cinema...

Sunrise - que é a par de It´s a Wonderful Life o filme mais belo de sempre - abriu a tarde no pequeno auditório.
Um dos poucos filmes que se podem verdadeiramente considerar perfeitos, Sunrise é o expoente máximo da obra de F.W. Murnau.
Filmado nos EUA, aquando da sua passagem pela Fox, o filme é de uma poesia visual assombrosa, além de ser muitissimo avançado para a época (1927).
Logo de seguida, e ainda num pequeno auditório praticamente cheio, passou Metropolis.
O primeiro filme verdadeiramente futurista confirmou Fritz Lang como um dos maiores cineastas da história.
A história de uma cidade - Metrópolis - que vive dividida entre operários e pensadores, é o balão de ensaio para esta análise à luta de classes, a força do amor e sobre eventuais cenários do futuro.
No grande auditório o dia começou com Love Filme, obra apaixonada de Istvan Szabo. A fechar a tarde, nova viagem ao cinema erótico japonês com Professional Specialist.
O quarto dia de festival marcou também a chegada do Fantas ao AMC com a exibição de dois filmes, Mundos Paralelos e Um Lobisomem na Amazónia. A retrospectiva de Bollywood continua na biblioteca Almeida Garet com WAQT e Kal Ho Naa Ho.
A noite teve o grande atractivo com o regresso do brilhante cineasta coreano Kim Ki Duk.
Depois do aclmado Bin-Jip, Ki Duk voltou a superar-se com um verdadeiro poema sob o titulo de The Bow, o filme que mais público trouxe hoje ao grande auditório, ainda longe das enchentes previstas para a próxima semana.
Para fechar a noite houve uma viagem à Rússia czarista com The Rider Named Death, épico ambicioso e arrojado.
No pequeno auditório a noite fechou com dois filmes da retrospectiva dos irmãos Shaw: The Kingdom and the Beauty e One Armed Swordsman.
Hoje, sexta-feira, o Fantas arranca finalmente a todo o gás.
O ponto alto será a cerimónia de abertura, seguido da exibição do filme Coisa Ruim, o primeiro filme português com honras de abertura do festival.
Pela tarde passam Desperate Remedies, A Tale of Two Sisters e Sword on the Moon, e na primeira grande noitada à Fantas, há The Eco e The Nun.
O pequeno auditório continua a homenagem ao cinema alemão com a exibição do Fausto e Nosferatu. À noite há homenagem a Robert Wise com o popular The Day The Earth Stood Still, e para fechar há Zombie Kings e dois episódios de Masters of Horrors.
Na biblioteca Almeida Garrett há mais dois filmes de Bollywood: Mumma Bahi M.B.B.S e Dil Se.
No AMC continua Mundos Paralelos e é exibido o aclamado Incautos, isto no dia em que o Fantas chega ao Passos Manuel com Rain a abrir a sala ao festival.
As nossas recomendações para o dia passam obrigatoriamente por Coisa Ruim - já esgotado - e pelo visionamento obrigatório de dois filmes magistrais do cinema europeu, Fausto e Nosferatu. Para quem quer rever ou teve a infelicidade de não ter visto, Incautos é um filme a ver.
OS FILMES DO DIA
The Bow
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Nunca se disse tanto em tão pouco.
Quando nos deparamos com um filme em que meras trocas de olhares, sorrisos e lágrimas são capazes de contar, só por si, uma grande história de amor, então temos de reconhecer que estamos diante de uma pérola rara. The Bow é isso mesmo, um filme rarissimo, tanto pela sua originalidade como pela sua beleza.
A história de amor de um velho pescador e de uma jovem de 16 anos, que ele resgatou há dez anos e com quem pretende casar no seu próximo aniversário, poderia ter sido tratado de mil e umas maneiras, cheias de diálogos punjantes e performances avassaladoras. Mas Kim Ki Duk é um cineasta-poeta e aqui só é permitido falar quem está fora da história. Os personagens principais não abrem a boca. Não precisam. Comunicam através do olhar, do silêncio e de um arco, que tanto serve para fazer música, ao som das águas, como para espantar todos aqueles que quiserem quebrar esta união insólita.
Só que há um dia em que tudo é questionado. Parece que o silêncio já não diz tudo, e que há mais para descobrir, a ver. De dos, o jogo passa a três, e com este novo jogador tudo se complica. Os sorrisos tornam-se lágrimas, a dor invade caras alegres. A jovem percebe a importância do sexo, o velho percebe a sua impotência diante o fulgor dos novos. E quando tudo podia acabar mal, de forma corriqueira e pouco interessante, Kim Ki Duk entra no universo mistico e fantástico e desenha um final como poucos poderiam imaginar. Um final tão belo que até custa a acreditar. No final, The Bow fica na memória como um filme inesquecivel, e Kim Ki Duk consolida a sua imagem de ave rara no universo cinematográfico.
Realizador : Kim Ki Duk
Elenco : Seong-hwang Jeon, Yeo-reum Han e Gook-hwan Jeon
Duração : 88 m

Metropolis
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Hoje Metropolis é um filme datado. Ao contrário de outros filmes de Lang, e outros filmes da época, o trabalho técnico de Metropolis - que à época era fabuloso - hoje cansa a vista. Não que a montagem não seja espantosa, especialmente ao nivel da narrativa visual, mas o filme ambiciona ser mais do que o que poderia ter sido. O tom épico fica-lhe bem, mas à medida que o filme vai avançando, nota-se que este se vai arrastando em algumas cenas. Os ante-titulos como "contadores" de partes importantes da história, sem imagem correspondente, também ajudam a quebrar o ritmo.
Mas de qualquer forma, Metropolis é um marco da sétima arte.
Da banda sonora ao trabalho de montagem, do simbolismo da história à dimensão prospectiva de Lang, tudo no filme é fascinante.
Lang não filme aqui apenas uma história de um amor impossivel. O que há aqui na verdade é uma analise à luta de classes, tipicamente num tom marxista, onde o operariado se cansa de esperar pela melhoria das condições de vida e parte à rebelião (ao som de La Marseillese), sendo depois confrontados com as consequências do seu acto. Da mesma forma o patronato (aqui sob o titulo dos "pensadores), despreza o operariado e vive à custa deles, acabando por ser o gatilho da revolução, apercebendo-se iguamente tarde da gravidade do seu acto. E apesar de pelo meio Metropolis, qual Babel, ter estado à beira da destruição total, a mensagem do filme é bem diferente. Lang é um conciliador, e a aposta do filme está no elo de ligação entre operários e patronato, na figura do filho perfeito, disposto a tudo para salvar a mulher que ama, os seus irmãos operários mas também o seu pai e a sua cidade.
A figura mais interessante do filme acaba por ser Maria, o robot criado por vingança e que acaba por funcionar com o elo de ligação entre as duas facções, sendo ela quem despoleta todos os confrontos. Mas à Maria demoniaca, queimada na fogueira, há a sua versão santa e imaculada, a jovem donzela Maria, numa especie de dicotimia biblica entre uma Maria Madalena, corruptora dos homens, e uma Virgem Maria, a sua santa protectora.
A religião é figura omnipresente em todo o filme, tal como a importância da ciência na evolução da especie humana.
No final - e apesar dos desempenhos exageradissimos, mesmo para a época - o filme convence os mais cépticos. Não é Sunrise - a obra máxima desse ano - nem M, essa obra-prima "Languiana", nem Fury, You Only Live Once e The Woman on the Window, as suas obras máximas do periodo americano, mas é um marco histórico fundamental e um filme inesquecivel.
Realizador : Fritz Lang
Elenco : Gustav Fröhlich, Brigitte Helm e Alfred Abel
Duração: 153 m

Sunrise
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Dele já se disse tudo.
Talvez tenha sido François Truffaut o melhor a defini-lo, ao catalogar Sunrise como "o filme mais belo de sempre". Há poucos filmes que se possam considerar verdadeiramente perfeitos. Não serão mais de uma dúzia em mais de cem anos de cinema. Mas Sunrise é um deles.
F. W. Murnau criou um filme que ainda hoje se vê normalmente, apesar da sua mudez crónica e dos seus oitenta anos. Aliás, não é preciso som em Sunrise. Os efeitos técnicos, da tempestade final ao rebuliço da cidade estão descritos de tal forma que não precisamos de ouvir nada. Basta ver que o som começa a ecoar, naturalmente, nos nossos ouvidos. E o mesmo se passa com os assombrosos desempenhos de Janet Gaynor - a primeira actriz a vencer o óscar, nesse mesmo ano - e de George O´Brien. Da inocência angelical da primeira opõe-se a natureza orgulhosa do segunda. Mas juntos formam uma dupla inesquecivel, que acompanhamos, para o bem e para o mal, como em todos os casamentos, ao longo da história.
Do filme já tudo se disse. Que tem alguns dos maiores planos da história do cinema. Que a cena final da tempestade ainda hoje não foi superada por nenhum filme. Que quando o filme parecia acabar de forma melodramática e leve, Murnau dá uma reviravolta e cola-nos à cadeira para um suspense final de cortar a respiração. Tudo. Já se disse tudo.
Mas o que não cansa é dizer que não há plano, sequência, instante, em que não nos deixemos contagiar pela beleza poética desta história de um amor sofrido, um amor que apesar dos altos e baixos, é maior que tudo e que todos.
Sunrise é ainda hoje a prova viva de que a perfeição existe!
Realizador : F. W. Murnau
Elenco : George O´Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingstone
Duração : 95 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:27 AM | Comentários (0)
fevereiro 23, 2006
Fantas - Dia 3
E ao terceiro dia chega a primeira grande obra do festival. Fortissimo candidato na secção Semana dos Realizadores, Miguel Bardem faz de Incautos um dos mais bem construidos thrillers da filmografia espanhol. Um filme cheio de ritmo, humor e emoção até ao fim.

E se a noite fechou de forma perfeita com o filme espanhol, a verdade é que a programação durante a tarde continua a não chamar multidões ao Rivoli. Espera-se que, com a abertura da competição cheguem mais filmes fantásticos, e com eles, mais público.
O dia de hoje ficou marcado pela estreia da retrospectiva de Bollywood na biblioteca Almeida Garrett. Dois filmes em exibição, Chori Chori Shupke Shupke e Mughal-e-Azam, este último um clássico da década de 60.
Para os amantes da cinematografia japonesa Akai kami no onna abriu o dia no grande auditório. Mais um softcore nipónico da secção Love Connection que tem vindo a despertar pouco entusiasmo junto do público e da critica, com filmes abaixo do nivel a que o festival habituou os seus fãs. The Midas Touch, parte da retrospectiva hungara - bem mais interessante - e Frau im Mond, filme fantástico de Fritz Lang, datado de 1929, fecharam a tarde no grande e pequeno auditório.
Hoje foi também mais um dia em cheio para os adeptos de Bill Plympton, um dos homenageados do ano pelo Fantas. No pequeno auditório o dia abriu com The Tune, filme de 1992, e a noite começou no espaço central do festival com o seu filme mais recente, o aplaudido Hair High. Para fechar o dia no pequeno auditório houve ainda um terceiro filme do cineasta, Mutant Aliens.
Mas claramente o grande evento da noite foi mesmo Incautos.
Com um notável leque de desempenhos e um guião magistral, a lembrar filmes como The Sting, The Usual Suspects ou Matchstick Man, o filme de Miguel Bardem levou um coro de aplausos e muitos sinais positivos de uma casa mais bem composta. É para já o grande nome a reter desta 26º edição do Fantasporto.
Amanhã é o último dia antes da abertura oficial, por isso espera-se a mesma rotina dos primeiros dias.
No Rivoli, o grande auditório apresenta Love Film, do consagrado István Szabo, e Professional Specialist, mais um porno japonês. The Bow do coreano Kim Ki-Duk (presença a confirmar no festival) e The Rider Named Death, vindo da Rússia, fecham o dia.
No pequeno auditório o dia é recheado de verdadeiras pérolas cinematográficas. Sunrise, uma das maiores obras-primas da história, e Metropolis, que também não lhe fica muito atrás, são as atracções da tarde. Pela noite há cinema de Hong Kong com The Kingdom and the Beauty e One Armed Swordsman.
A retrospectiva do cinema de Bollywood continua com WAQT e Kal No Haak Ho na biblioteca Almeida Garrett.
O Hollywood recomenda uma visita obrigatório a dois clássicos intemporais, Sunrise e Metropolis, e uma viagem ao cinema do fascinante Kim Ki Duk em The Bow.
O FILME DO DIA
Incautos
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Miguel Bardem é um dos cineastas mais promissores do cinema espanhol. Se La Mujer Mas Fea Del Mundo tinha sido um sinal, este Incautos é a confirmação absoluta do seu talento.
Filme de 2004, conta a história de um burlão, Ernesto, que em discurso directo nos vai contando a história da sua vida, desde a sua primeira mentira - quando estava num colégio católico - até ao maior golpe da sua vida. O filme é muito em registo de discurso directo, um pouco ao estilo do brilhante Kiss Kiss Bang Bang, que vimos há pouco tempo. E tal como o filme de Shane Black, aqui o ritmo é avassalador e o humor a nota dominante de um argumento extremamente imaginativo e sem pontas soltas.
A forma como o espectador é enganado, totalmente enganado, vezes sem conta, ao longo da história é apenas um dos exemplos que poderiam ser dados sobre a frescura deste filme. Os desempenhos do elenco - onde se destaca o trio principal composto por Ernesto Alterio, Vitoria Abril e Federico Luppi - encaixam que nem uma luva no espirito de um filme que nunca deixa de perder a sua mágia.
Com todo o romantismo do filme de burlões (alguém se lembrou de The Sting?) e com toda a virtude de um cineasta imaginativo, Incautos é até ao momento o maior filme a passar pelo festival, e a nossa primeira aposta para a Semana dos Realizadores. Ainda faltam muitos, e bons filmes, mas será dificil criar uma empatia tão forte com a audiência como conseguiu esta notável comédia em tons de thriller.
Realizador : Miguel Bardem
Elenco : Ernesto Alterio, Vitoria Abril e Federico Lupi
Duração : 110 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:58 AM | Comentários (0)
fevereiro 22, 2006
Fantas - Dia 2
Entre a genialidade de Fritz Lang e a provocação do cinema softcore japonês, o segundo dia do festival correu como esperado, sem grandes sobressaltos, mas também sem grandes pontos altos. O destaque vai para The Other Half, uma divertidissima comédia futebolistica com Portugal como pano de fundo...

Ainda sem competiçao oficial - e nota-se no contingente de imprensa e nos espectadores - o Fantas decorre no Rivoli com toda a naturalidade de um festival que ainda está a dar os primeiros passos nesta sua 26º edição.
O dia de hoje foi consagrado ao cinema softcore japonês. O dia abriu no grande auditório com A Woman Called Abe Sada, a história que inspirou o aclamado Império dos Sentidos de Oshima. Um filme onde o sexo é um elemento da vida de uma mulher, uma gueisha, que para se vingar do amante lhe corta o pénis, matando-o em seguida.
De seguida passou, ainda no grande auditório, o filme Angel Guts, a segunda parte de uma serie de filmes softcore na década de 70 do Japão. Um filme desconcertante, até para a própria audiência que não parecia estar à espera de algo tão desapontante.
No pequeno auditório já tinha rolado M, a obra-prima alemã de Fritz Lang, que marcou o seu ponto alto nos estúdios da UFA, antes de viajar para Hollywood onde continuou uma brilhante carreira por mais vinte anos. Aind ano pequeno auditório houve retrospectivo dos irmãos Shaw, com The House of 72 Tenants e Bill Plympton com o filme, I Married a Strange Person. Já noite dentro fechou-se a saga dos Nibelungos com A Vingança de Cremilde, o segundo filme de Lang do dia, um fecho com chave de ouro para o pequeno auditório.
No espaço central do festival houve The Other Half, comédia em futebolês com um incrivel reportório de gags, que só perdem por se notar claramente que é um filme com poucos meios.
Para fechar o dia, ainda no grande auditório houve Spirit Trap, a trabalhar no modelo clássico do cinema de terror.
Amanhão o Fantas continua, com a abertura da retro Bollywood na biblioteca Almeida Garret. São exibidos os filmes Chori Chori Chupke e Mughal-E-Azham.
No pequeno auditório há The Tune, de Bill Plympton, e A Mulher na Lua de Fritz Lang. De noite The Love Etern continua a retro dos manos Shaw e Plympton regressa, desta feita com Mutant Aliens.
Para o espaço principal estão reservados quatro filmes. The Woman With Red Hair, um softcore japonês, The Midas Touch que chega da Hungria, Har High, o último filme de Plympton, e, para fechar, Incautos de Miguel Bardem.
As nossas recomendações vão para A Mulher na Lua, de Lang, o mais recente trabalho de Bill Plympton e para o filme de 2004 cineasta espanhol que realizou A Mulher Mais Feia do Mundo.
OS FILMES DO DIA
M
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A grande obra-prima da filmografia de Fritz Lang na Alemanha.
O cineasta adaptada a história real do "vampiro de Dusseldorf", executado dois meses depois da estreia do filme, para fazer um verdadeiro retrato do terror, uma especie de antevisão do regime nazi que já espreitava na Alemanha.
Um suposto pedófilo - desempenho assombroso de Peter Lorre - rapta criançase e mata-as. A cidade vive em constante terror com a sua omnipresença, qual fantasma, e a policia é impotente nas suas buscas. Sempre que ele está perto, consegue escapar e diluir-se na multidão anónima. É então que os ladrões da cidade, impedidos de trabalhar pelas apertadas medidas policiais, decidem ser eles a capturar o pedófilo. Trabalham em grupo, descobrem-no e marcam-no com um M, desenhado a giz nas costas do seu casaco.
M é uma obra-prima em termos técnicos. O filme utiliza todo o potencial do sonoro, na altura ainda a dar os primeiros passos na Europa, misturando sequências de mudo com diálogos espantosos. É mesmo graças ao som do assobio que o criminoso faz, repetidamente, que os ladrões da cidade o conseguem descobrir e identificar. Montagem primorosa, decors espantosos e um ritmo frenético no filme que, não só um alerta ao aparecimento do regime nazi (convulsão social, justiça pelas próprias mãos), como acaba por ser o pai de todos os thrillers, desenvolvidos mais tarde por Lang nos Estados Unidos, mas também por nomes como Alfred Hitchcock ou John Carpenter.
A maior obra-prima do cinema alemão e o último filme de Lang na Alemanha. Os nazis não gostaram do retrato e o realizador decidiu exilar-se, apesar da argumentista Thea von Harbou - que era também a sua mulher - se ter tornado numa das maiores colaboracionistas do regime hitleriano.
Realizador : Fritz Lang
Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann e Inge Landgut
Duração: 117 m

Angel Guts
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O primeiro - e espera-se último - grande fiasco do festival este Angel Guts.
Dirigido por Chusei Sone, este é o segundo capitulo de uma serie de filmes que marcaram o cinema soft core japonês do final dos anos 70. Um filme datado, tanto no ritmo como na cor, e cheio de habilidades técnicas que não disfarçam o pobre argumento e desempenho dos seus actores.
Um pornógrafo, com pretensões a artista erótico, fica viciado numa actriz porno, Nami, que vê num filme. Um dia, encontra-a por acaso como recepcionista do hotel onde são feitos os ensaios fotográficos para a sua revista. Promete-lhe amor eterno, mas falta ao encontro do dia seguinte, depois de ter sido preso. A mulher desesperada entra numa espiral de masoquismo psicológico onde o sexo desempenho o motor da sua nova vida. E quando se reencontram, três anos depois, nada volta a ser o que foi.
Um filme provocante, mas timido no tratamento do sexo. Soft core quanto baste, Angel Guts tem provavelmente a mais longa e maçadora cena de sexo da história do cinema japonês, onde a obsessão aliada a uma jovem insaciável criam alguns momentos de humor, mas sem profundidade alguma.
O filme acaba por descarrilar no final, perdendo de vez todo o contacto com o real, e fazendo perder a paciência a uma plateia maioritariamente composta por jovens que, aparentemente, não sabiam ao que vinham.
Realizador : Chusei Sone
Elenco : Keizo Kanie, Yuuki Mizuhara e Jun Aki
Duração: 79 m

The Other Half
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Peguem em Portugal, colorido de bandeiras a tresandar a futebol e juntem um inglês fanático que esperou a vida toda para ver a selecção inglesa jogar. Agora juntem-lhe uma mulher norte-americana, que não vai à bola com o desporto-rei e que acha que veio para o nosso país passar a lua de mel. Estão aqui os ingredientes para este desafio inesquecivel, uma autêntica final com 98 minutos de muito humor e um estranho sentimento de proximidade.
Afinal o cenário é Portugal durante o 2004 e tudo nos parece familiar. O jogo tem todos os condimentos de uma grande partida. Há um treinador, versão consciência, sempre com uma táctica para cada situação de jogo. Dois comentadores excêntricos, como todo o comentador deve ser, e duas equipas equilibradas e com desejos diferentes.
O final, já se está a ver, é um empate, até porque no casamento ninguém ganha e ninguém perde. Mas o que fica pelo meio é hilariante, especialmente na primeira metade do filme, e nos minutos finais. O que fica a perder é a clara falta de meios que impediu a produção de conseguir imagens dos jogos em questão, substituindos por animações que apesar de terem o seu charme, fogem completamente ao espirito da história. Há pontos fracos no guião, as interpretações são divertidas, mas pouco mais, e o filme tem um ritmo muito próprio, que ora acelera, ora trava de repente.
Mesmo assim, depois dos 90 minutos (aqui são 98, somem-lhe os descontos), o empata agrada a gregos a troianos, e traz uma boa imagem de Portugal lá fora, e uma boa comédia para se ver, cá dentro.
Realizador: Marlowe Fawcett e Richard Nockles
Elenco: Danny Dyer, Gillian Kearney e Vinnie Jones
Duração : 98 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:20 AM | Comentários (0)
fevereiro 21, 2006
Fantas - Dia 1
A abertura oficial é só na próxima sexta-feira, mas o Fantas já rola no Rivoli.
A abrir o dia uma viagem à Hungria dos nossos dias. A fechar, o final da trilogia da vingança de Chan Woo Park. Bem vindos ao Fantasporto 2006.

Ainda estão a ser dados os últimos retoques na organização. Bancas a serem montadas, muita imprensa a levantar as acreditações e pouco público, minutos antes de abrir não-oficialmente a 26º edição do Fantas.
O primeiro filme, Pleasant Days, também não é chamativo. Filme hungaro com legendas em francês é uma isca pouco apetecivel e o resultado é uma plateia vazia, maioritariamente composta pela imprensa acreditada. No final do filme, reacções mistas naquela que foi a primeira experiência cinematográfica do Festival.
Continuando pela tarde dentro houve viagem à Nova Zelândia com Rain, mas estavam guardados para o final da noite os verdadeiros chamarizes.
Para os amantes do cinema oriental a Secção Oriente Express trazia o aclamado Simpathy for Lady Vengeance, o terceiro capitulo da trilogia da vingança de Chan Woo Park. Sucessor de Simpathy for Mr Vengance e Oldboy, o filme foi recebido com um coro de aplausos no final da projecção. Definitivamente os amantes do Fantas dão-se bem com a obra do cineasta sul-coreano.
Para os mais nostálgicos o pequeno auditório do Rivoli passou a primeira parte do épico de Fritz Lang, Die Niebelung. Escrito por Thea von Harbou, a polémica mulher do realizador, o primeiro capitulo desta saga, A Morte de Siegfried, foi o primeiro grande épico do cinema alemão dos anos 20, na altura a viver a sua era de ouro.
Um dia com um balanço positivo. O público respondeu positivamente na sessão da noite e a organização foi extremamente competente e atenciosa num primeiro dia onde é natural não haver uma rotina de "festival".
Para amanhã a emoção e os filmes continuam, ainda sem a secção competitiva. A retrospectiva do cinema alemão traz a obra maior de Lang na Alemanha, M, e ainda o capitulo final da saga dos Nibelungos. Há ainda no pequeno auditório o primeiro filme da retrospectiva de homenagem a Bill Plympton e a comédia de Hong Kong The House of the 72 Tenants.
No grande auditório o dia arranca com A Woman Called Abe Sada, a história que inspirou o aclamado e polémico Império dos Sentidos, e prolonga-se com os filmes Angel Guts, The Other Half - com Portugal durante o Euro 2004 como pano de fundo - e Spirit Trap a fechar a noite.
O Hollywood recomenda as duas obras do brilhante cineasta alemão Fritz Lang, bem como uma espreitadela ao irreverente Vinnie Jones em The Other Half. Para os amantes de um cinema mais hardcore uma sessão continua de A Woman Called Abe Sada e Angel Guts é a opção certa.
OS FILMES DO DIA
Pleasant Days
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A coqueluche do cinema magiar, Mundruczó, teve em Pleasant Days a sua consagração internacional, em 2002. Um dos grandes vencedores da edição desse ano do festival de Locarno, o filme conta a história de três jovens húngaros totalmente desadaptados, numa cidade perdida de um país sem rumo.
O filme é cru e despudorado, do principio ao fim. Inspirado directamente na obra O Estranho de Albert Camus, há uma constante alienação nos elementos deste triângulo de jovens perdidos. A rotina do dia a dia é retratado com imenso realismo, mas os seus sonhos, devaneios e pessimismos têm todos um quê de surreal. O corpo nu – e mais do que isso, o próprio sexo – é presença obrigatória na rotina do dia a dia destes jovens.
Tratado com imensa normalidade, sem vontade de chocar ou provocar, é o sexo o elo de ligação entre os jovens, cada qual à procura de um rumo. Entre insinuações de incesto, paixões ardentes e vontade de mudança, Pleasant Days traz uma imensa ironia no seu titulo, porque há muito que há algo de podre na Hungria. Mundruczó é, acima de tudo, um fascinante cineasta de rostos, captando toda a essência das personagens com planos tranquilos das suas faces perdidas no meio do nada.
Com um desempenho muito bom de Orsolya Tóth, o filme arranca bem e aguenta-se a bom nível, apesar da rotina do dia a dia ter o seu preço na rotina cinematográfica. O final, abrupto e imperdoável, é o recado de Mundruczó. Aqui não há dias, personagens ou momentos agradáveis. É o olhar perfeito do desencanto!
Realizador : Kornel Mundruczó
Elenco : Tamás Polgár, Orsolya Tóth e Kata Wéber
Duração : 99 m

Sympathy for Lady Vengeance
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Depois de ter apresentado com sucesso os dois primeiros capitulos da sua trilogia, Chan Woo Park fecha com chave de ouro esta sua saga sobre um dos sentimentos mais primários do ser humano: a vingança.
Acusada de um crime que não cometeu, Lee Geum-Ja quer vingar-se do homem que lhe retirou 13 anos da sua vida, e também a sua filha recém-nascida. Na prisão era conhecida por ser "terna de coração", mas o seu feitio é implacável e agora está disposta a tudo para se vingar. Um filme com todo o fascinio visual de Park, quer no tratamento da imagem (primorosa fotografia), quer no trabalho de edição e montagem, recheado de magia e arrojo, este Sympathy for Lady Vengeance vai agradar sobretudo ao fãs de Kill Bill que encontrarão aqui certamente muitas semelhanças com a história da Noiva criada por Tarantino e Uma Thurman.
Sem a mesma dose de violência visual a que fomos habituados, o filme é pautado essencialmente por um humor brilhante, capaz de fazer rir a audiência mesmo nos momentos de maior tensão dramática. Um truque habilidoso que retira carga emocional a esta vendetta pessoal, que acaba por não o ser, mas que não retira o fascinio de uma história que peca apenas por adormecer demasiadas vezes e durante demasiado tempo, ao longo do filme.
Yeong-ae Lee lidera um elenco muito contido e que vive mais do conjunto de personagens do que das interpretações individuais.
Em suma estamos diante de um filme bem orquestrada, com alguma originalidade, sem no entanto perder os elos de ligação com os outros filmes do autor. Uma lufada de ar fresco que nos chega do oriente e que é o final perfeito para uma primeira de um festival que promete muito mais.
Realizador : Chon Woo Park
Elenco : Yeong-ae Lee, Il-woo Nam e Min-sik Choi
Duração : 112 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:38 AM | Comentários (2)
fevereiro 20, 2006
Fantas 2006 arranca hoje...
E o Hollywood vai estar lá para vos trazer, diariamente, toda a informação sobre o maior festival do cinema português.
Criticas aos filmes em cartaz, testemunhos e textos de opinião sobre o Fantas 2006, aquele que a revista norte-americana Variety classificou com um "dos 25 mais importantes festivais de cinema do Mundo":
Mantenham-se ligados!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:24 PM | Comentários (1)
fevereiro 17, 2006
Fantas 2006 - Onde se pode ir!
Este ano o Fantasporto ganhou novas casas. Para além do Rivoli e do AMC Arrábida 20 agora também o cinema Passos Manuel e o cinema da biblioteca Almeida Garrett vão estar a exibir algumas das maiores pérolas do festival coordenado por Mário Dorminsky.

Depois de ter passado muitos anos no teatro Carlos Albertostrong>, o Fantas encontrou uma casa digna no Rivoli. Com duas salas, o grande e o pequeno auditório, o Rivoli é a base de operações para todos os amantes do Festival. E se este ano os filmes a concurso e a semana dos realizadores se mantêm no grande auditório, é no pequeno audiotório que vão passar algumas retrospectivas, como a do cinema expressionista alemão dos dias de Lang e Murnau.

No Passos Manuel, cinema conhecido pelos filmes alternativos e reposições que vai passando, é a secção Love Connection, um conjunto de estranhos histórias de amor que prometem fazer as delicias dos mais irreverentes.

Na biblioteca Almeida Garrett é o cinema de Bollywood que está em destaque, enquanto que nos cinemas AMC passam alguns dos êxitos do cinema asiático.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 05:04 PM | Comentários (1)
fevereiro 16, 2006
Fantas 2006 - A evolução do Festival
Começou por ser uma Mostra de Cinema Fantástico no inicio dos anos 80. Hoje é considerado um dos vinte e cinco maiores festivais de cinema do Mundo, segundo a prestigiada Variety. Até lá o Fantasporto percorreu um longo caminho, cheio de revelações, surpresas e obstáculos...

Filho da Cooperativa Cinema Novo, o Festival Internacional de Cinema do Porto tornou-se no maior evento nacional na área do cinema. Todos anos estream mais de uma centenas de filmes inéditos em Portugal. Isto para não falar das presenças regulares de nomes marcantes, e não só do cinema fantástico, na cidade Invicta.
O Fantas projectou-se a si próprio e consigo levou o nome da cidade, á Europa e ao resto do Mundo, fazendo da Invicta uma das capitais obrigatórias para os amantes de cinema alternativo.
Da primeira edição, em 1981 até ao seu 26º aniversário, muita coisa aconteceu.
Foram revelados autores, uns já conhecidos por esse mundo fora (Cronenberg, Lynch, Raimi), outros, nomes que permaneceram nas sombras até que foi o mundo lá de fora que os (re)-descobriu. É o exemplo de Peter Jackson, o homem que antes de andar pela Terra Média, era um dos mais conceituados cineastas gore.


Mário Dorminsky, e aqueles que com ele trabalham, viram o festival mudar de casa (do Carlos Alberto para o Rivoli), levaram o cinema fantástico a outros polos da cidade e do país. O Festival que começou por ser uma festa restrita, tornou-se num evento obrigatório, trazendo milhares de espectadores ao Porto.
Um Festival que é um sucesso, não só pelos nomes que projectou, pelos filmes que exibiu, mas pela dinâmica que foi alcançando. Poderia o Fantas ser de outra forma?
É desejável que Portugal, e o Porto, tivesse um grande festival de cinema. Seria desejável que fosse um festival de cinema aberto a todos, com filmes mais mainstream, mais indie e mais alternativos. O Fantas não agrada a todos. Apesar de estar cada vez mais heterogéneo, continua a ser um festival do fantástico. Mas apesar de não agradar a todos, agrada a muita gente. E são esses que vão em procissão ver as mais recentes reliquias do genero. E é para eles que o Festival continua.
O Fantas pode não ser o festival ideal de cinema, mas não deixa de ser o maior festival de cinema português.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:29 PM | Comentários (0)
fevereiro 15, 2006
Fantas2006 - No ano passado foi assim..
Vincenzo Natali é já uma das maiores referências do Fantas. No ano em que se festejaram as bodas de prata, o grande vencedor do Fantasporto foi Nothing, o terceiro filme do canadiano premiado no certame, a concentrar as atenções. Mas houve mais. Chan-Woo Park seduziu o juri da Semana dos Realizadores, enquanto que Park Heung-shik foi o grande campeão no Orient Express...

A mais bem sucedida edição de sempre do Fantas teve um palmarés marcado igualmente pelo cinema alternativo norte-americano. Bubba Ho-Tep de Don Coscarelli venceu o prémio do Jurí e Bruce Campbell foi eleito o melhor actor, ao interpretar um inesquecivel Elvis Presley. A também norte-americana Karen Black foi a melhor actriz por Firecracker.
Oldboy e Sideways dividiram as atenções da Semana dos Realizadores mas foi Chan-Woo Park a sair vencedor com a sua segunda obra da trilogia da vingança. Este ano completa a trilogia com Sympathy for Lady Vengance. Payne e Paul Giamatti foram também premiados pelo seu trabalho na comédia indie. Outro filme que depois faria sucesso junto do público foi Saw, premiado no festival pelo seu notável argumento.
Les Revenants foi igualmente premiado pelo juri e eleito a escolha do Fantas ao prémio Melies de Ouro. Para o Melies de Prata a vitória - que também se repetiu entre as curtas do festival - foi para Le Dernière Minute.

Naoto Kamazawa foi eleito o melhor realizador por Birthday, enquanto que Park Heung-Shik brilhou na secção Orient Express com o seu My Mother the Mermaid. O filme Vital foi outro dos premiados na secção que contribuiu para alargar ainda mais o conjunto de filmes fantástico vindos directamente da Ásia para o público português.
Mais alternativo do que propriamente voltado para o cinema gore ou de terror, a 25º edição do Fantas ficou ainda marcada pelos problemas financeiras que dificultaram a organização de um festival onde se viram mais de 200 filmes, muitos dos quais com lançamento posterior para o circuito comercial nos meses seguintes.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:35 PM | Comentários (0)
fevereiro 14, 2006
O Hollywood no Fantasporto 2006
Considerado pela revista Variety como um dos 25 maiores festivais de cinema do Mundo, o Fantasporto arranca no próximo dia 20 de Fevereiro pronto a confirmar o seu mais recente estatuto.
São dez ante-estreias portuguesas, quatro ante-estreias mundiais, um cartaz de filmes que inclui os mais recentes êxitos do cinema fantástico asiático, europeu e norte-americano, e também uma maior atenção ao cinema português.
O Hollywood vai acompanhar a 26º edição do Fantasporto de dia 20 de Fevereiro a 5 de Março, com resumos dos dias do evento, análises a filmes, artigos de opinião, entrevistas, tudo num dossier completo para os adeptos do maior festival de cinema fantástico português, e um dos maiores do mundo.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:11 PM | Comentários (1)