julho 18, 2004
Relembrando - Tucker, The Man and his Dream
Na noite de sexta-feira tive a oportunidade de rever um dos filmes mais belos, e ao mesmo tempo mais menosprezados, de Francis Ford Copolla. Em Tucker, o realizador faz uma parábola do mundo das produtoras mas também mostra a dupla face da América: a dos poderosos e a dos sonhadores...

Não espanta a ninguém que ao ver Tucker nos venha de imediato à cabeça o nome de Frank Capra. De facto Tucker é um filme capriano. Um homem, um tipico americano com familia grande e muito bom coração, tem um sonho: o de melhorar a vida dos automobilista norte-americanos. Para isso propõe-se construir o melhor e mais seguro carro alguma vez feito. Só que, como sucedia sempre em todos os filmes de Capra - aconselho a todos que vejam/revejam Mr. Smith Goes To Washington, Its a Wonderful Life ou Mr Deeds Goes To Town para depois poderem encontrar as semelhanças - o poder estabelecido é uma alavanca poderosa pronta a destruir o sonho americano. Se nos filmes de Capra o heroi vencia claramente o sistema, neste filme, mais pessimista, o heroi vence apenas moralmente, pois como diz o fabuloso Jeff Brigdes para o notável Martin Landau quando este último o contrapõe com a dureza dos factos "O sonho é que importa..."
Filmado à volta de uma história veridica e fácil de acreditar - as três construtoras norte-americanas de facto impediram até onde puderam a evolução dos carros norte-americanos (daí a piada sublime de Bridges no tribunal quando levanta a louca hipótese de os americanos passarem a andar de carros...japoneses), este filme tem duas faces importantes a analisar. Se a primeira já foi aqui falada - da América de dupla face, já a segunda é uma visão mais pessoal do realizador e centra-se à volta da fundação da sua companhia de produçao, a Zoetrope.
Copolla conta a história de Tucker como se tivesse a contar a sua própria história. Em vez da Ford, General Motors ou Plymouth, teriamos a Columbia, Warner e Fox. Em vez de um carro maravilha teriamos uma nova forma de fazer cinema, a mesma que vinha sendo preconizada pelos movie-brats da decada de 70, e tal como Tucker, também Copolla sobrevivia apenas com a ajuda dos amigos e familia (olhem com atençao e descubram a jovem Sofia Copolla no filme).
De facto Tucker é de 1988, numa altura em que a Zoetrope estava falida, um pouco por causa do fracasso de One From The Hearth - outro belissimo filme do realizador, completamente menosprezado - mas também pelo boicote que as majors norte-americanos lhe impunham. Tal como Tucker, também Copolla lutou até onde pode, sabendo que no final iria perder. Mas o sonho da Zoetrope seria uma realidade. Eventualmente Copolla realizaria o 3º episódio da saga do Padrinho (e um quarto esteve equacionado, falando da juventude de Sonny, ao mesmo tempo que mostrava a consolidação de Vitto Corleone) para pagar as dividas da produtora, mas esta nunca viria a ser devidamente ressuscitada.
O filme em si é belo e poético. Jeff Bridges é simplesmente perfeito - como sempre - no papel do sonhador sem amarras que navega dentro de um turbulento oceano sem fazer a minima ideia das mortais criaturas que lhes podem surgir diante dos olhos. O seu sorriso e confiança traduzem muito do espirito do pós-guerra nos EUA onde tudo parecia possivel.
Martin Landau é sublime na sua abordagem de empresário que à medida que partilha o sonho e é aceite no nucleo familiar, também se torna ele próprio um sonhador. Mais uma vez voltamos a pescar no imaginário capriano uma personagem semelhante: Dizzy, o jornalista apaixonado por Jean Arthur em "Mr. Smith", interpretado pelo notável Thomas Mitchell.
Joan Allen, Christian Slater, Nina Siemaszko e os restantes membros da familia são os co-adjuvantes perfeitos para o filme, porque nos dão uma dimensão familiar importante para percebermos que Tucker não é só o sonho do homem, é o sonho de uma familia, o sonho da espinha dorsal da América.
O importante em relembrar Tucker é o de relembrar a capacidade de Hollywood em produzir sonhos. Estamos a falar num sonho - o Tuckermobile - que hoje é uma realidade. Um sonho que por estar demasiado avançado para o seu tempo não pode voar. Estamos a falar de um sonhador, de uma geração de sonhadores. E estamos a falar da tomada de consciência de uma geração, a de 70, de que eles não foram os primeiros sonhadores, e que, antes deles outros tentaram e foram bloqueados pelo sistema. Talvez por isso, outro movie-brat, Martin Scorcese, tenha decidido fazer The Aviator, onde outro sonhador - Howard Hughes, que também surge em Tucker - tenta ultrapassar o seu tempo, e se vê constrangido pela sociedade a não o fazer.
Mas na verdade, quem é que consegue travar um sonhador?
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:37 AM