abril 13, 2006

Opinião - Cinemateca, o fim de uma era!

O jornal Público avança hoje a notícia que João Bénard da Costa não será reconduzido como presidente da Cinemateca Nacional. É o fim de uma era para uma instituição que, de Cinemateca Nacional passou progressivamente a Cinemateca de Lisboa, para acabar por se tornar na Cinemateca Bénard da Costa...
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Para qualquer cinéfilo português, o nome João Bénard da Costa é tão familiar como um Godard ou Nicholas Ray. O fundador da revista O Tempo e o Modo tornou-se nos últimos trinta anos uma figura do próprio cinema português. Os seus textos sobre os mais proeminentes nomes da história do cinema encheram páginas de livros e as suas iniciativas marcam a cultura cinematográfica portuguesa. Disso não há a minima dúvida. João Bénard da Costa marcou uma era. O período em que dirigiu a Cinemateca Nacional ficou marcado pelo restaura de muitas obras-priams que se encontravam em péssimas condições nas prateleiras da Cinemateca. A recuperação das salas de cinema, o desenvolvimento do museu e os livros lançados pela Cinemateca foram apenas algumas das suas contribuições para o Santo Sepulcro dos cinéfilos nacionais. Os ciclos de cinema de autores desconhecidos foram um importante farol para os mais novos, e o recuperar de vários clássicos tornaram-se num cartão de visita obrigatório de um espaço que era cada vez mais seu.
A reforma chegou em 2005 mas ninguém parecia ter coragem de separar o homem da sua casa, qual siameses insperáveis, e ele foi ficando, com uma licença especial. Hoje soube-se que a licença vai acabar. A partir de Julho o cargo de Presidente fica vago. O homem sairá, a obra fica.
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Mas, sejamos realistas e honestos. João Bénard da Costa foi o grande impulsionador do desenvolvimento da Cinemateca, mas também foi o homem que tornou a Cinemateca Nacional numa colecção privada, restringida aos habitantes da capital. Como programador ficou conhecido por passar repetidamente as suas obras de eleição, em ciclos que se repetiam anualmente para o seu gáudio pessoal. Como director da Cinemateca foi o responsável do atraso cinematográfico em que o resto do país vai vivendo. Seguindo a ideia de que Portugal é Lisboa, e o resto é provincia, foi durante o seu mandato que se começou uma prática que resume o que de pior há na macrocefalia cultural em Portugal. As obras que a Cinemateca tem em arquivo, que são a esmagadora maioria dos filmes que estrearam em Portugal, nunca sairam de Lisboa. Se um cineclube queria organizar um ciclo temático, não podia contar com as cópias da Cinemateca. O que seria supostamente de interesse público resumia-se ao interesse privado de meia dúzia de nomes. A Cinemateca vive ainda hoje para Lisboa, e Lisboa é a alma da Cinemateca. Mas no resto do país, não há o mesmo direito em ver Lang, Godard, Hitchcock ou Capra como há na capital? Certamente que sim. Mais ainda, sendo a Cinemateca uma instituição pública, suportada pelos contribuintes, estejam eles no Principe Real ou em Bragança, é no minimo censurável esta politica de centralização cultural que a Cinemateca foi fazendo. Com a benção do seu programador.
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Discutir os gostos de Bénard da Costa é trivial. Discutir o seu papel como programador na área do cinema é ridiculo. Mas pode-se discutir o seu papel como administrador de uma instituição pública que é de todos. Para que a Cinemateca não se torne numa Cinemateca de Lisboa ou numa Cinemateca Bénard da Costa era preciso mudar. Não se sabe ainda quem será o seu sucessor. Mas o que urge saber é se a politica de guettos cinematográficos vai continuar a ser praticada, ou se os novos rostos da Cinemateca vão perceber que não é só em Lisboa que há amantes de cinema clássico. A era Bénard da Costa chega agora ao fim. Mas isso significará uma viragem na política levada a cabo pelo Ministério da Cultura e pela própria Cinemateca? Esperemos que sim!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:05 PM | Comentários (1)

abril 06, 2006

Opinião - Directamente de Angola

Angola vai acontecendo. A sétima arte no país continua ainda a viver à custa da sombra de Na cidade Vazia, que será vista no festival de cinema de Toronto.

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Por Edson Macedo

Depois de Na cidade Vazia, O Herói e O Comboio da Canhoca, nada mais foi feito em termos de cinema ou mesmo para o cinema. Felizmente, apareceu uma empresa, a CAREL que decidiu realizar por conta própria, uma mostra de cinema de curta-metragem.
A realizar-se a partir do dia 8 de Abril, a Mostra de Cinema Carel, em jeito de concurso, trará para a cidade e para os cinéfilos curtas produzidos e realizados por jovens.
É verdade, todos eles são jovens dos seus 20 e 24 anos de idade. Todos eles, rapazes do teatro, que vai crescendo no país, e alguns ainda em fase de formação no Instituto Nacional de Artes.
Amantes do cinema, estão a apostar todos no sucesso dessa Mostra tanto que um deles, conseguiu com que o seu curta-metragem intitulado “A Filha do Nada” vá ser visto ainda antes da mostra no Cinema São João, que até a pouco tempo era também armazém de contentores de mercadoria diversa. (parece mentira mas é a pura verdade).

A movimentação dessa Mostra está a fazer com que alguns dos detentores de salas de cinema procurem por esses “pequenos realizadores pequenos” para que usem as suas salas. Assim vamos mesmo ver que em termos de cinema Angola acontece.
Para espanto da organização, liderada por um casal amante do cinema e que regressou a Angola depois de 4 anos a viver na África do Sul, estão até ao momento inscritos 14 curta-metragens com até uma hora de duração.
Em fase já de observação pelo corpo de jurados vamos todos aguardar para que o prémio seja entregue ao vencedor do certame, na certeza de que, como todos eles afirmaram, os vencedores são todos.

Edson Macedo
Colaborador Hollywood

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:26 PM | Comentários (10)

março 16, 2006

Opinião - Filmar, mas com paixão!

O meu trabalho como jornalista tem-me levado a vários locais onde o cinema é religião. No entanto são espaços que o grande público não conhece, ou sequer suspeita da sua existência. É nesses lugares que moram alguns dos mais promissores jovens autores portugueses. E nesses locais que tenho a oportunidade de conhecer as pequenas pérolas que vou descobrindo. Uma delas é Utensílios do Amor.
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Já há alguns meses falei de Telmo Martins. O jovem cineasta, já multi-premiado cá dentro e lá fora, foi o autor de Rupofobia, uma curta-metragem que aconselhei de imediato. Estreou com o filme Um Rio... e, sem surpresa, foi eleito para a selecção do Fantasporto. Não é preciso mais para ver que é material de qualidade. Utensilios de Amor é o seu mais recente trabalho. Uma curta-metragem (ainda) sobre a problemática das relações de casais. Dois casais, duas histórias, dois finais diferentes. Duas mulheres, dois homens, a dualidade inerente a uma relação. Não é Cassavettes mas podia ser. Não é Allen mas também podia ser. O que é então? É um novo sopro no cinema português. Para já no universo das curtas - o balão de ensaio ideal (a par da publicidade) para estes novos nomes - mas a piscar o olho ás longas-metragens.
De onde acham que apareceram os Marco Martins, Tiago Guedes e todas essas promessas que injectam sangue novo ao cinema em Portugal? A verdade é nua e crua. Ninguém quer saber. Ninguém está preocupado em divulgar o trabalho dos jovens cineastas, mesmo que eles sejam o futuro. Como também ninguém está interessado em mudar o sistema podre do ICAM. Ou melhor, há quem esteja, mas não tem o poder necessário para o conseguir. O que vai dar ao mesmo.
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Utensilios de Amor é mais um caso de qualidade em português. Dirigido por Telmo Martins e escrito Jorge Vaz Nandes - com um elenco com caras conhecidas (Margarida Vila Nova, Maria João Pinho) e jovens promessas (Luís Dias, Raquel Carrilho, João Feitor) o filme é tudo aquilo que um filme de autor não é: feito pela paixão da cinéfilia.
Hoje em dia o cinema de autor é cada vez mais um exercicio de prepotência e autismo. O cinema feito pelos cinéfilos, o cinema puro, ainda imberbe na magia da 7º arte, ficou relegado para segundo, terceiro plano. E onde é que o encontramos? Em alguns autores irreverentes, claro, mas essencialmente nos jovens lobos que se vão afirmando. Chamem-se eles o que quer que seja, tenham os filmes os titulos que tenham. O que importa aqui é a corrente, ou melhor, a contra-corrente à podridão em que se instalou o cinema nacional.
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Parece que Portugal não tem orgulho de nada que faça, a não ser que uma bola de futebol esteja envolvida. Há muitos anos que o português olha de lado para o seu cinema. E com razão porque o cinema português também olha de lado para o espectador português. A esperança que deposito, sempre que vejo um nome novo, um filme diferente, é que esteja aqui alguém que é diferente. A Nouvelle Vague nunca chegou a Portugal, e mesmo a Nouvelle Vague deixou facilmente de ser o que era. O cinema português não vai andar para a frente com os peitos da Soraia Chaves no Crime do Padre Amaro ou o humor brejeiro de Balas e Bolinhos. A indústria cinematográfica portuguesa tem de ser um objectivo. Para que os novos valores se afirmem. Para que haja mais e melhores filmes portugueses. Para que o cinéfilo português não tenha vergonha do seu cinema.
Acabo o artigo com um pequenissimo texto que não é meu. É de Telmo Martins, o tal realizador que ninguém conhece e devia pensar em começar a conhecer. Porque a paixão que ele demonstra pelo cinema, é a mesma paixão que falta ao cinema português para que todos se apaixonem por ele.

"Estou e fui, nada a fazer. Acaba quando o primeiro vai, e vai morrendo, devagar, a tristeza rápida nos rostos de quem fica. Está quase, estás sem forças mas tens de acabar, o que não queres que acabe. Mas é assim nada a fazer, tudo vai e em caixinhas fica. A vida condensada de quem está, por pouco tempo, que em muito se torna. O riso de quem chora, a saudade de quem ri. Mas é assim, estou mas fui, volto mas não sei quando. E... no fim... a tentativa desesperada de não perder, de voltar a ter a vida condensada de quem esteve mas foi..."


Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:23 PM | Comentários (2)

março 09, 2006

Opinião - É a Academia estúpido!

Esqueçam as questões de que filme é melhor. Esqueçam a problemática da arte da compensação, a que Hollywood já nos habituou. Esqueçam os prémios acumulados por um filme, e os não acumulados por outro. Esqueçam tudo isso. O que os óscares deste ano nos ensinaram, é que a Academia continua igual a si mesma. E isso não vai mudar!
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O mundo queria que ela mudasse. Os amantes do cinema queriam que ela mudasse. Raios, eu queria que ela mudasse. Mas a Academia continua igual a si própria, fechada sobre si mesma, fazendo orelhas moucas ao que se passa lá fora.
A vitória de Crash foi uma surpresa para aqueles que achavam e queriam que a Academia mudasse. Ou seja, foi uma surpresa para todos. Todos os que se deixaram guiar pelo coração e pela lógica. Patetas. Deviamos ter-nos deixado levar pela tradição, muito mais simples de entender e mais dificil de contornar.
Pessoalmente - e isso acontece com muitos cinéfilos, de um e do outro lado da barricada - Crash é um filme melhor. É um filme mosaico muito bom, dentro do genero de cinema mosaico (daí as 4 estrelas e meia que o Hollywood deu), com um bom elenco, muito competente, e um argumento belissimo. Tecnicamente impressiona pouco, e no fundo acaba por cair na Biblia do sociologicamente correcto, o que, ver o filme num dia mau, pode levar a que o odiemos do principio ao fim. Já Brokeback Mountain é um filme assumidamente mediano, tecnicamente muito bem conseguido, com alguns bons momentos do grupo de actores, mas sem ambições ou coragem para ir mais além.
E cinematograficamente estamos conversados.

Claro que isso para a Academia de Hollywood é a coisa mais irrelevante do mundo. Como se eles alguma vez tivessem pensado na qualidade dos filmes quando votam. Se assim fosse, filmes como Citizen Kane, It´s a Wonderful Life, Some Like it Hot ou Vertigo - apenas para citar os mais escandalosos - tinham tido o seu quinhão de óscares. Mas claro, a Academia está-se a marimbar para isso. A Academia é a face com glamour de uma indústria poderosissima que está em conflito com ela mesma. E isso é que interessa focar.
Num ano em que a indústria continuou a perder dinheiro (e ideias, e talentos, e tudo), o cinema independente liberal ganhou o seu espaço. Na falta de filmes entertenimento capazes de atrair multidões (a la Titanic, diga-mos) a Academia teve de abraçar este braço irreverente de Hollywood. Mas se muitos acham que este braço quer-se separar do corpo, e tentar viver por si, enganam-se. Os George Clooneys deste mundo cinematográfico sabem que não conseguem viver sem a poderosa indústria por detrás deles. Senão não seriam mais do que autores europeus. E todos nós sabemos que ninguém quer isso (nem nós, meros mortais espectadores, quanto mais eles).
Sendo assim há sempre o habitual compromisso. Uns protestam, a Academia finge abraçar as ovelhas negras da família, perdoa-os com prémios, e eles voltam para a familia. Todos ficam a ganhar, ninguém fica a perder.

Ninguém? Bem, não é bem assim.
Perdemos nós, que acreditamos que se devem premiar os melhores. Ou pelo menos, que se devem premiar os movimentos cinematográficos que apontem para o futuro. Aqueles que em 1968 preferiam que vencesse 2001, Space Odity, eram aqueles que queriam o futuro. Os membros da Academia votaram em Oliver,. Percebem agora a diferença?
Brokeback Mountain - mesmo tendo ganho tudo, mas mesmo tudo o que havia para ganhar - nunca iria vencer o óscar. É fácil dize-lo agora, mas é a conclusão mais lógica de todas. E o mais curioso é que, no ano de toda a polémica, tenha ganho o filme menos polémico de todos. Munich e Good Night and Good Luck., infinitamente superiores, nem um óscar levaram. Lógicamente, está claro. Ninguém cospe no prato onde come, e a Academia não ia passar a fazer isso, apenas porque os filmes são melhores. Que preciosismo!
Crash venceu, não por mérito (não é o melhor dos filmes, não venceu nenhum prémio até agora, não é filme que fique para a posteridade), mas por tradição. Na dúvida entre um filme polémico e um filme consensual, votem no consensual. Taxi Driver perdeu para Rocky. All the Presidents Man perdeu para Rocky. Network perdeu para Rocky. Agoram substituam Rocky por Crash, e os outros filmes pelos três polémicos nomeados deste ano, e cheguem a uma conclusão. Como suprema das ironias, no ano em que Hollywod celebrou a sua abertura ao mundo, mais não fez que se fechar sobre si mesma. Crash é um filme sobre Los Angeles para quem vive em Los Angeles. É quase um filme sobre as pessoas que votam para os óscares, para as pessoas que votam para os óscares. Está tudo aí. Estúpidos fomos nós, que continuamos a achar que a Academia vai mudar!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:30 PM | Comentários (2)

fevereiro 01, 2006

Opinião - Óscares com Consciência

O orçamento não contou. As receitas do box-office muito menos. O apoio dos criticos não foi fundamental e as nomeações pelas Guilds foram mesmo secundárias. No final de contas, o que aconteceu com a Academia? Num ano fraco, a colheita final foi a mais selectiva possivel. Numa viagem aos anos 70, a Academia decidiu que 2005 seria o ano em que os óscares voltariam a ter consciência...
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Nem o bem sucedido Walk the Line conseguiu. Nem pensar em filmes como Memoirs of a Gueisha ou King Kong. Não. Este ano o requisito para ser nomeado para melhor filme não foi ter muitas nomeações, ou as "nomeações certas". Foi ser um filme que fizesse as pessoas pensar. Um filme de conteudo. Um filme de debate, de consciencialização.
É esse o elo de ligação entre os cinco filmes escolhidos. Brokeback Mountain, Good Night and Good Luck., Crash, Capote e Munich contam histórias. Não histórias simples, fáceis de digerir, feitas de maneira profissional mas sem alma e chama. Contam histórias sérias, sobre assuntos importantes. Histórias com sentido e significado. Da luta contra o comunismo ao amor entre homossexuais, do racismo ao terrorismo, passando pela eterna problemática da inocência, os cinco nomeados deste ano são filmes que têm algo a dizer. O que há muito não acontecia.
É preciso recuar aos anos 70 para encontrar alinhamentos tão politizados. E mesmo assim nunca nenhum ano conseguiu escolher filmes tão low-profile, tão afastados da indústria que normalmente utiliza os óscares para se auto-glorificar com grandes produções.
Ganhe quem ganhar - e apesar das oito nomeações, Brokeback tem menos vantagem do que se possa pensar - é o cinema norte-americano que vai benificiar desta escolha. Está aberta a temporada do pensamento politico no cinema, deriva natural da extremização da sociedade norte-americana após o segundo mandato de George Bush.
Como Munich e Capote conseguiram apoio para serem o melhor filme sem qualquer base entre os actores, no primeiro caso, ou nos técnicos, no segundo, é a prova de que, mesmo esses souberam distinguir, pela primeira vez em muito tempo, o importante do acessório. Para as nomeações técnicas havia filmes mais indicados do que os cinco principais. Daí as nomeações de Walk the Line, Memoirs of a Gueisha ou The Chronicles of Narnia. Mas mesmo esses membros perceberam que, apesar de na sua área estes serem as escolhas certas, no top5 final era preciso algo mais. E daí as nomeações de filmes que, num qualquer outro ano, dificilmente passariam das duas ou três centenas de votos.
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Num ano extremamente politico, a Academia ignorou os money-making films. Walk the Line era visto como um Ray II, para quem não percebeu. Memoirs of a Gueisha, um dramalhão de época, muito bem feitinho mas sem alma. E King Kong, Jarhead ou The New World nunca pegaram muito no goto dos membros, não se espantando a sua ausência.
Uma tendência que dificilmente será para continuar, já que, ano após ano, a Academia tem tentado questionar a sua postura, acabando sempre por repetir os mesmos anos do passado. Apesar dos filmes profundamente politicos que 2006 nos reserva (World Trade Center, All the King´s Men), provavelmente haverá um maior sentido de escape, um sentimento de dever cumprido, que permitirá que tudo volte á habitual rotina. Até lá, as nomeações de The Constant Gardener, Capote, Crash, Munich, Good Night and Good Luck. e de Brokeback Mountain são uma vitória para aqueles que defendem que o cinema é algo mais que entertenimento. Hollywood pode não se converter a esse pensamento nunca, seria aliás uma própria antitese da sua natureza. Mas pode perceber que esse é um mundo que convém não ignorar. Depois do que aconteceu este ano, certamente que os estúdios, e os próprios profissionais da indústria, perceberam que por vezes, é preciso saber arriscar!
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Mais uma vez a Academia cometeu as habituais injustiças no dia das nomeações.
Scarlett Johansson ficou de fora, pelo terceiro ano consecutivo, no que parece ser um sinal da Academia de que será dificil á promissora actriz conseguir a sua primeira nomeação. Nem mesmo por um filme de Woody Allen, o realizador que mais óscares secundários femininos "ofereceu". A ausência do cineasta é também uma questão interessante. Num ano tão politico, onde pela primeira vez desde 1981 o DGA foi igual aos óscares, haveria certamente espaço para um trabalho tão provocador como foi Match Point. Uma ausência que é dificil de perdoar.
As ausências quase absolutas de Star Wars III e de temas são igualmente temas de discussão.
Depois de ter idolatrado até ao limite (só faltou o óscar principal, que esteve quase para acontecer), a primeira trilogia, a segunda foi praticamente ignorada. Esperava-se mais para o último capitulo da saga mais marcante da história do cinema nos últimos quarenta anos.
Quanto á questão dos temas, não se percebe as limitações que a Academia levanta, ano após ano, reduzindo sempre ao máximo os potenciais nomeados. A ausências de temas de Brokeback Mountain ou Walk the Line são exemplos. Com apenas três nomeados, fica a ideia de que esta categoria tem de ser repensada, rapidamente.
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Jarhead e King Kong, e também Cinderella Man, á sua maneira, foram ausências pré-anunciadas, mas que se lamentam, tal como os desempenhos de Maria Bello, Viggo Mortensen, Robert Downey Jnr, Joan Allen, Ralph Fiennes e Peter Sasgaard. Nomes com quem, claramente, a Academia não vai á bola, como a história nos tem dado a entender.
De salutar a nomeação de Paul Giamatti. Depois de dois anos de ausência forçada, com dois soberbos desempenhos, o actor foi finalmente nomeado. Receberá o óscar? É dificil, mas possivel. Ao menos essa injustiça, a Academia soube emendar a tempo e horas!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:59 PM | Comentários (1)

janeiro 25, 2006

Opinião - Documentário, esse estranho ser!

Se há cada vez menos pessoas a irem ás salas de cinema verem filmes, que dizer dos documentários. Para o grande público o documentário é um estranho ser. Demasiado colado ao termo que abunda em programas da natureza na televisão, o documentário é o primo directo do cinema e em comum têm a origem. Depois, à medida que foram crescendo, como invarivelmente acontece, cada qual seguiu o seu caminho...
De 27 de Janeiro a 5 de Fevereiro o documentarismo volta a Lisboa...vale a pena recordar essa longa viagem desde tempos imemoriais...
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Conhecido também como "o outro cinema", o documentarismo tem sido sempre olhado com desconfiança pelo grande público.
Pelo contrário, as elites e um pequeno nicho de cinéfilos sempre procurou dar ao documentarismo a sua importância devida, elevando algumas das suas obras ao estatuto de obras-primas.
E talvez a grande importância do documentarismo é esse afastamento que há em relação ao cinema narrativo. O documentarismo sempre passeou entre tipos estilos diferentes, que, invariavelmente, se acabavam por interligar.
Para os mais activistas, o documentarismo de denúncia é uma ferramenta importante para denunciar o que vai mal na sociedade. Seja através de factos, personalidades ou eventos, ao longo dos anos houve sempre documentários prontos a mostrar a outra face da lua. Um activismo que pode ir dos manifestos quase panfletários de Michael Moore, sempre preparado para disparar a qualquer inimigo em movimento, ou ficar-se apenas por um estilo mais honesto, como o que nos habitou Errol Morris, o homem que está para os documentários como Alfred Hitchcock está para o cinema. A sua obra, que remonta até aos anos 80, tem titulos tão marcantes como Thin Blue Line, Mr Death e o mais recente - e oscarizado - Fog of War, onde Morris defronta Robert McNamara, uma antiga nemesis dos dias da contestação à guerra do Vietname.
Este estilo documental tem claramente um objectivo. Pegar numa situação e desnudá-la perante a plateia. Algo que o cinema também faz, é certo, mas que aqui tem todo o tom do realismo que o cinema, por muito realista que seja, não consegue ter. No entanto o documentário de denuncia não deixa de utilizar técnicas de montagem, de som e fotografia como faz qualquer filme. A optimização estética existe, mas não condiciona nunca a mensagem.
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Mas o estilo documental não se fica pelos produtos de contestação e denúncia politica e social. Houve sempre quem viu na camara algo mais que um olho-verdade, como enunciou Dziga Vertov, também ele um iminente documentarista na época em que o género estava em alta.
Pelo contrário, houve sempre aqueles que viram na camara poesia visual, e com o cinema sempre preso a uma narrativa que vive essencialmente de personagens e argumento, com cabeça, tronco e membros, foi no documentário que encontraram o seu porto de abrigo.
É talvez aqui que residem os mais belos e sedutores trabalhos documentais. São documentários que não abdicam da ideia de tomarem uma posição perante a sociedade, a humanidade e tudo o resto...mas fazem-no de outra forma. Recorrendo a notáveis trabalhos de fotografia, a bandas sonoras escolhidas cirurgicamente, cineastas como o georgiano Artavadz Peleschyen procuram criar uma ligação mais profunda entre o homem e a natureza, e entre o homem e si mesmo. Trabalhos como Tarva Yeghanakner-As Quatros Estações, foram o reflexo da sua obra, marcada ainda pela invenção da montagem distante, uma ferramenta que faz pouco sentido no cinema, mas que resulta na perfeição no documentário.
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E por fim chegamos ao documentário experimental. Aliás, esta é a origem do documentário. Dos trabalhos de Dziga Vertov, Serguei Eisenstein, Manoel de Oliveira, Jean Vigo, Walter Ruttman ou jean Rouch - o documentarista-sociólogo - saiu muito do que hoje é a bibla dos documentáristas. O seu sentido de inovação foi decisivo para o desbravar de fronteiras no genero documental. Filmes vanguardistas, surrealistas, herdeiras das novas tecnologias, trabalhos verdadeiramente experimentais que não encontram espaço em mais lado nenhum, são a vanguarda do documentarismo, e de uma certa forma, do próprio cinema. É muitas vezes nestes autores - hoje, com uma forte presença de documentaristas asiáticos e europeus nesta vanguarda - que encontramos ideias mais tarde recuperadas pelos cineastas conhecidos do grande público. A eles atribuem-se as inovações, mas muitas vezes elas vêm de trás, muito de trás.
E em Portugal é importante saber que há espaço para todo este imenso universo que é o documentarismo. Seja em Vila do Conde, no Panorama ou no DocLisboa, o cinéfilo português - mais, o espectador português - não tem desculpas para continuar de costas voltadas para o documentarismo.
Porque os documentários não só os filmes da natureza do National Geographic, chegou a hora do documentário deixar de ser, esse estranho ser.

PS: Os U2 tiveram a sua experiência cinematográfica em Million Dollar Hotel. Não correu muito bem, mas continuam a ser uma das bandas mais populares do mundo. O site português U2Only está a preparar uma sondagem para descobrir qual é a melhor música da banda irlandesa para os fãs portugueses. Os interessados devem participar aqui.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:33 PM | Comentários (0)

janeiro 18, 2006

Opinião - A Sagrada Juventude

Longe vai o tempo onde eram os adultos que enchiam as salas de cinema. Hoje são os jovens que têm tempo livre e dinheiro para gastar. Em grupos, casais ou sozinhos, acompanhados invariavelmente pelo saco de pipocas e pela bebida da praxe, são eles que compõem a plateia das salas de cinema, um pouco por todo o mundo. E esta mudança reflecte-se no próprio cinema. Hoje, para um actor ter sucesso, já não é preciso só talento. É preciso agradar à sagrada juventude...
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Nem é preciso pensar muito. Quem são as estrelas que enchem as salas? Só essa análise ajuda a perceber a época em que se vive, e o estado em que vive a indústria cinematográfica.
Já houve os dias dos cavalheiros dos anos 30, dos actores do método dos anos 50, das estrelas cool dos anos 70 e dos herois de acção da década de 90. Hoje, mais do que generos, o que conta é a idade.
Durante quase cem anos o cinema foi um divertimento para adultos. As grandes produções de Hollywood eram feitas para homens e mulheres já feitos, e os actores e as histórias que eram contadas no grande ecrãn também. Nomes ilustres como James Stewart, John Wayne, Cary Grant ou Katherine Hepburn atravessaram épocas, porque o público adulto conseguia sempre identificar-se com eles. Os mais novos e as suas sessões de drive in iam vendo as estrelas passar, desde os primeiros passos até se lançarem na ribalta. Depois tornavam-se nos actores dos "papás" e havia que descobrir a nova next big thing.
É claro que nomes como Steve McQuenn ou Paul Newman eram transversais, mas a realidade era essa. O cinema era para adultos.
A partir dos anos 80 a situação foi-se alterando. Os novos hábitos familiares prendiam os adultos ao trabalho e à casa, mas deixavam os mais jovens á solta. Surgiram as comédias para adolescentes, os filmes de acção e os romances, interpretados, cada vez mais, por nomes mais novos. E se o cinema norte-americano ainda se foi aguentando, dividindo a produção entre os filmes para adultos e o crescente mercado dos jovens, já na Europa os autores nunca perceberam essa mudança. Mais do que outra coisa qualquer, nunca um Godard ou um Bergman fizeram filmes para os mais novos. E não o fazem hoje. Só que o seu público desapareceu, o público dos Cahiers já praticamente não existe e os novos públicos não estão interessados. A Europa, mais uma vez e como sempre, centrou-se em si própria, e fez filmes para salas vazias. A América, pragmática como em tudo, tentou adaptar-se.
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Uma das principais consequências desta radical mudança da faixa etária que domina o box-office, aconteceu no meio dos actores. Hoje Dustin Hoffman, Al Pacino, Meryl Streep ou Jack Nicholson já não enchem salas. Nem de longe nem de perto. Porquê? Ora, porque são muito velhos. O espectador de hoje quer ver muita acção, humor ao seu estilo, muitos corpos despidos e um ritmo que não dá nem para respirar. E onde encaixar estes "gigantes"?
Hollywood não o soube. Rendeu-se ao menor sinal de alerta. Os guiões passaram a excluir estas personagens com mais de 40 anos, ou enviaram-nas para papeis secundários. E se hoje há imensos actores na casa dos quarenta para cima, ainda a conseguir aparentar serem mais novos (e no fundo é isso que os vai safando), já com as mulheres a situação é negra. Não há uma única actriz que fosse popular há vinte anos que ainda o seja. A idade não perdoa, o corpo não pode competir com as das novas teen queens e os papeis para quarentonas só servem para mães de jovens disfuncionais ou para sátiras à própria idade. Não fosse o cinema indie, sempre avesso a estas coisas dos públicos, ou uma ou outra produção, e estes actores estariam hoje sem emprego. Como acontece com tantos e tantos outros, que procuram nos teatros ou na televisão a salvação.
Perguntem ao espectador tipo de hoje se prefere ir ver um filme com Harrisson Ford ou com um Heath Ledger. A resposta dificilmente oferecerá dúvidas, e entre uma Kathleen Turner e uma Jessica Alba poucos se darão ao trabalho de sequer responder. As salas de bairro fecham porque os jovens só vêm filmes em shoppings, ninguém faz reposições porque nenhum jovem quer ver filmes a preto e branco do tempo do bisavô...na verdade a sagrada juventude tomou de assalto as salas e revolucionou a indústria, de uma forma que os jovens rebeldes dos anos 60 nunca conseguiram.
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Hoje os idolos dos jovens são também eles jovens. Para raparigas de 17 ou 18 anos é nas Lindsay Lohan, Hilary Duff, Emma Watson, Scarlett Johansson que estão os seus modelos. Raparigas da mesma idade, com os mesmos problemas, o mesmo aspecto e as mesmas atitudes. E se os Brad Pitt, Tom Cruise ou Johnny Depp ainda captivam, tanto jovens como adultos, é porque conseguiram manter a mesma expressão juvenil que tinham há dez ou quinze anos atrás. Enganar o mundo para sobreviver. Até porque qualquer jovem actor que não seja propriamente um sweet-hearth das jovens e histéricas adolescentes que ululam nas salas sempre que vêm um Paul Walker em tronco nu, tem grandes dificuldades em vingar. Talvez por isso seja dificil encontrar bons actores com menos de 40 anos. Porque para haver renovação de gerações é preciso papeis sérios e pesados, que nenhum actor jovem está preparado, ou quer desempenhar, por saber que isso estraga a sua imagem junto do seu público.
O problema parece não bater á porta das estrelas de hoje, mas o que acontecerá a uma Natalie Portman quando os seus fãs de agora não tiverem tempo de ir ver os seus desempenhos, e os jovens do futuro acharem que ela já não é interessante a ponto de entrar num filme? E quanto tempo conseguirão Cruise ou Depp aguentar a fama que têm junto das gerações que se seguem?
Questões complicadas que nunca se colocaram, desde que há cinema.
Em 1928 muitos actores foram para o desemprego porque não tinham voz para aguentar o sonoro. Hoje, em pleno século XXI, muitos actores não trabalham porque não têm o aspecto e a idade suficientes para agradar à sagrada juventude, aquela a que tudo é permitido, a mesma que revoluccionou a produção cinematográfica.
A mesma juventude que está, pouco a pouco, a destruir o cinema!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:26 PM | Comentários (3)

dezembro 14, 2005

Opinião - A encruzilhada americana...

Entre um filme de um realizador altamete popular, directamente feito como mais uma apologia da comunidade israelita em Hollywood, sob a bandeira do combate ao terrorismo, e uma história de amor homossexual filmada no coração da América, parecia fácil perceber qual seria o favorito dos americanos. Mas o inicio do mês de Dezembro veio confirmar uma súbita paixão por Brokeback Mountain, e um progressivo afastamento em relação a Munich. O primeiro já conquistou vários prémios e lidera as nomeações aos Globos. O segundo conquistou apenas um prémio e nenhuma menção honrosa, e viu-se humilhantemente restringido a duas nomeações nos Globos. É verdade que ainda não estreou e que o público pode ser a sua salvação, mas mesmo aí Brokeback já leva vantagem.
Entre uma história de amor homossexual e mais um filme "pró-Israel" de Spielberg, qual será a escolha da América. Um país que vive uma encruzilhada moral!
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Os Estados Unidos são o país quesão. Para umas coisas, o bastião da liberdade, dos direitos humanos, uma pérola democrática que vale a pena admirar. Mas também podem ser o país mais conservador, ditatorial e mais odiável à face da terra. Essa dictomia americana está sempre presente quando se fala em prémios de cinema. Porque os prémios de uma das maiores indústrias de cinema espelham muitas vezes a própria sociedade. Quando o medo do comunismo surgiu, filmes como The Grapes of Wrath foram vetados propositadamente. Quando a alta-finança se viu atacada, trabalhos como Citizen Kane foram deixados de lado. Homens como Sidney Poitier venceram óscares não pelo talento mas pela conjuntura social. Atacar os ideias e a estrtura da América equivale a ser ostracizado. Elogiar o modelo americano é habitualmente premiado. Mexer com questões polémicas da sociedade é entrar num labirinto de onde não se sabe muito bem por onde se vai sair. Pode ser-se arrasado quando se fala em pedófilia (Lolita), escravatura (Amistad) ou quando se atacam comunidades importantes (The Passion of the Christ e os judeus, White Dog de Samuel Fuller e os negros). E ser-se elogiado quando se fala no all-american hero (a obra de Capra) os quando se elogiam incapacitados, fisicos e mentais, ou as mesmas comunidades: os judeus e a comunidade negra, casos de The Schindler´s List ou In the Heat of the Night.
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Por isso este ano parece estar tudo louco. Quando a critica, os Globos de Ouro, e - parece cada vez mais provável - os sindicatos, aclamam de pé, repetidamente, Brokeback Mountain, uma história de amor entre dois cowboys, que são obrigados a seguir a vida como homens "normais", para não serem perseguidos pela sociedade, mas que não querem desistir do seu amor, todo este racicionio que é fundamentado por décadas de história, perde sentido.
Mais ainda, num ano em que um filme tipicamente americano, Cinderella Man, é totalmente ignorado pelo público e pela critica em prémios de final de ano, e quando o filme "que antes de ter sido sequer feito já era o melhor filme de sempre de Spielberg" - o que demonstra bem o facciosismo de alguns dos amantes deste realizador...e de outros - é excluido dos principais prémios do ano, começamos a questionar-mos: para onde está a ir o cinema americano?
Cinderella Man é um caso particular, sem explicação plausivel. Um filme de muita qualidade, muito melhor que o filme que a anterior parceria Howard-Gazer-Crowe, A Beautiful Mind, mas que o público não quis ver, a critica não quer premiar, e que provavelmente, a Academia irá ignorar. Já Munich é outra coisa. Apontado directamente para agradar à comunidade judaica, pegando nos herois que abateram os "terroristas" palestinianos que perpetraram os ataques de Setembro de 1972, esperava-se que o filme fosse arrasador. Entre a critica, público e Academia. Estando o filme ainda por estrear, e a Academia por divulgar os seus nomeados, fica a critica para analisar. As reviews ao filme nem sempre são as melhores. Experimentalismo, pretensiosismo, falta de estrutura, falta de garra, são alguns dos adjectivos menos simpáticos para caracterizar o mais recente trabalho de Spielberg. Isto num filme que fala sobre uma questão actual (o terrorismo) e numa questão intemporal (a vitimização da comunidade judaica). Como os judeus são, como se sabe, um dos mais fortes blocos dentro da Academia, é provavel que o filme recebe as nomeações previstas, e que até ganhe algumas - até mesmo, não se pode excluir, a de melhor filme. Não vi ainda o filme, não vou fazer o contrário do que fazem os seus defensores, ou seja, arrasar o filme ainda antes de o ver, como eles o elogiam da mesma forma. Como também ainda não vi Brokeback Mountain não posso comparar, apesar de ser claramente o filme com melhores reviews do ano, bem melhores das que Munich ou qualquer outro terá.
Pergunto-me apenas, se a América está preparada para isto?
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Outro dos grandes sucessos do ano nos Estados Unidos, junto do público e da critica, foi o filme Crash. Lida muito bem com o multiculturalismo de Los Angeles - microcosmos da América de hoje - e com o racismo. É um filme politicamente correcto, bem ao estilo americano. Mas é um filme honesto e cheio de alma. Brokeback Mountain parece seguir pelo mesmo caminho. Um filme honesto, um filme com alma. Com dois homossexuais como personagens principais. Isso importa?
Em termos cinematográficos não, em termos sociais, sim. A América ainda não resolveu bem os seus assuntos com a comunidade homossexual. Sucessos televisivos como Queer Eye for the Straight Guy foram abrindo aos poucos o cobertor colocado por cima dessa comunidade de opção sexual alternativa. Já este ano temos o mais forte candidato ao óscar de melhor actor, Philiph Seymour-Hoffman, a viver Truman Capote, um autor popularissimo, mas homossexual. E se vencesse não seria o primeiro caso. Joel Grey em Cabaret, William Hurt em The Kiss of the Spider Woman, Tom Hanks em Philadelphia são apenas exemplos de que isso seria possivel. Mas quando a questão mexe com o prémio mais alto, a história já é outra.
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A América vive muito de esteriótipos e a Academia de Hollywood também. Para eles será sempre mais fácil premiar Munich, um filme apontada para agradar a quem pode decidir, do que votar num filme arrojado, que aposta em trazer cá para fora uma questão que está escondida há demasiado tempo. Uma história de amor, será sempre uma história de amor, sejam lá quem forem os seus protagonistas. Ang Lee filmou-a e conseguiu catapultar esse sentimento cá para fora. Os prémios que o filme tem vindo a conquistar dão-lhe razão. A vitória nos Globos de Ouro é mais do que provável.
Mas, e a Academia? Estará pronta para dar esse passo final, e começar ela própria - que tem inúmeros membros homossexuais - a quebrar esse tabu? Ou cairá no prémio fácil, no prémio das minorias influentes (Munich), do dinheiro popular (King Kong), do cinema de autor (Match Point, Good Night and Good Luck.) ou da escolha mais familiar (Walk the Line)?
Este ano é, como já não acontecia há muito, uma boa hipótese da América mandar um sinal ao mundo. Mas até dia 5 de Março, ela vive numa encruzilhada.

Miguel Lourenço Pereira

PS - Estava, como sempre, prevista para a quarta-feira passada o habitual artigo de opinião. Imprevistos pessoais impediram-no de ser publicado a tempo e horas. Por isso peço desculpas.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 06:35 PM | Comentários (9)

novembro 30, 2005

Opinião - O Que aconteceu ao cinema portuense?

O Porto foi a pátria do cinema em Portugal. Poucos sabem disso mas é verdade. Foi aqui que se fizeram as primeiras filmagens, onde houve os primeiros estúdios de cinema nacionais. E claro, Douro Faina Fluvial trouxe definitivamente a capital do Norte para o mapa. Hoje, o Porto é um oásis cinematográfico. Mas, porquê?
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Hoje ir ver um filme ao Nun´Alvares é quase um ritual de despedida. Um dos mais antigos cinemas portuenses, o último cinema de bairro da Invicta, está ás portas da morte. Abandonado, sem público, com filmes que ninguém quer ver. Sessões canceladas, bilhetes guardados debaixo da caixa porque ninguém os quer levantar, suspiros de dor. E um adeus anunciado.
Mas um adeus que se repete, ano após ano. As miticas salas da cidade já não existem, senão na nossa própria imaginação. E na saudade, sempre na saudade de outros dias, outros tempos!
O Nun´Alvares era um sobrevivente. Vai deixar de o ser. Vai juntar-se aos outros, qual Valahla dos cinemas históricos, e descansar eternamente na nossa memória. Antes dele, já uma quinzena de cinemas tinham perecido. Uma luta inglória, desigual, e como todo o filme, trágica. Uma luta que ninguém pode ganhar, mas que todos acabarão por perder.
Do Águia D´Ouro ao Olimpia, do Vale Formoso ao Vitória. Até mesmo o Batalha e o Trindade já não existem. E que dizer de todos os outros, o Charlot, o Lumiere, o Julio Dinis, a Casa das Artes, o Foco, o Rivoli, até mesmo o Central Shopping. Foram desaparecendo com os anos, os mesmos locais de peregrinação dos mais devotos fieis dessa religião que é a 7º Arte. Foi nesses espaços que vi alguns dos filmes mais miticos da história. E nunca mais lá voltarei. Porquê?
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A verdade é que o Porto, como cidade, é já um espaço fantasma. Rodeado de autênticas cidades dormitório (Gaia, Rio Tinto, Gondomar, Matosinhas, Maia, ...), os portuenses já não dormem no Porto. Já não vivem no Porto. Limitam-se a ir lá trabalhar, voltando depois para a sua rotina urbana nos suburbios. E e lá onde encontram os lares, mas também os grandes shoppings, os templos do século XXI. E é lá, no cume desses mesmos templos, como convém, que se encontram as salas de cinema, os complexos da Lusomundo, da AMC ou da Castello Lopes, onde os filmes se amontoam em cartaz. E lá podemos encontrar tudo, desde o pior filme em exibição, ao segundo pior, e daí por diante até conseguimos ver um ou outro filme que vale a pena. Os preços, ridiculos; o ambiente, impróprio para consumo. Mas que é que um cinéfilo pode fazer?
Nada. A desertificação da cidade levou à desertificação do espólio cultural do Porto. E o cinema, esse, ninguém lhe liga nenhuma. O Nun´Alvares vai fechar. E ninguém se importa. O Passos Manuel poderá ser o senhor que se segue. O único local que faz reposição regular de grandes clássicos numa verdadeira sala de cinema. Mas poderá não durar muito. E onde é que os portuenses vão poder rever Hitchcock, Ford ou Hawks? Mas a quem manda na cidade isso não lhe interessa. Não é coisa de dar votos, isso do cinema.
E então fecha-se. Até porque há os shoppings não é verdade? Nem o facto das salas Lusomundo serem miseráveis, e do AMC estar à venda parece servir de desculpa para pensar o cinema na cidade do Porto.
Aliás, haverá ainda cinema na Invicta?
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Os mais atentos dirão que sim. O Cine-Teatro do Campo Alegre ainda consegue escapar à rotina e exibir algumas pérolas cinematográficas que não encontramos em lado nenhum. O mesmo se passa com o Passos Manuel, que ainda vai vivendo, a custo. Mas já os cinemas do Cidade do Porto vivem de um preço proibitivo e de uma fraca oferta de filmes. De vez em quando algumas faculdades fazem uns pequenos ciclos, mas isso é mais cinéfilia que cinema. Ou seja, as condições são demasiado fracas para criar um ambiente de cinema, apesar do espirito pairar por lá!
Continuamos sem perceber muito bem a politica cultural do Porto. As pessoas vão-se embora e o que é o cinema sem as pessoas! Mas, o cinema também pode puxar pelas pessoas e não o contrário. Há muito que à cidade do Porto - que até foi, não sei se se lembram, capital europeia da cultura há quatro anos atrás - lhe é devida uma politica cultural.
Uma Cinemateca portuense é algo que os portuenses pedem e merecem há muito tempo. Um local onde os grandes filmes possam coabitar com a oferta habitual da indústria. Um ponto de encontro de pessoas, ideias. Um local de descoberta, de ensino, de verdadeira cultura. Não vi nenhum politico falar disso na campanha. Não vejo ninguem falar desse monopólio que a Cinemateca de Lisboa tem sobre todo o país. De vez em quando dá um brinde e todos ficam contentes. Contentam-se com pouco!
Não estamos a falar de projectos para darem lucro. Estamos a falar de uma identidade cultural de uma cidade que se devia orgulhar das suas raizes na história do cinema português, mas que teima em desviar o olhar e assobiar para o alto.
O Nun´Alvares vai fechar! E ninguém se parece importar muito! O Nun´Alvares vai fechar! E, nós, para onde vamos agora?

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:21 PM | Comentários (3)

novembro 23, 2005

Opinião - A tal crise!

Esta semana foram conhecidos os dados que confirmam a ideia de uma crise na indústria cinematográfica em Portugal. E já não apenas uma crise de conteudos. Com menos de 2 milhões de espectadores nas salas, com os cinemas Freeport de portas fechadas e estando as salas da AMC à venda, é a altura de falar da tal crise que assombra o mundo do cinema...
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Uma crise que não é nacional.
Desde há vários anos para cá que as salas de cinema estão a perder espectadores. Em Portugal, França ou Estados Unidos. O fenómeno é global e tem os seus motivos. É na cegueira dos estúdios norte-americanos - responsáveis pela maior distribuição mundial de produção cinematográfica - e na impotência da Europa ter a sua própria indústria, que encontramos a genese deste problema.
Nos Estados Unidos Hollywood vive dias dificeis. Depois da gravissima crise dos anos 70, os estúdios foram gradualmente recuperando as suas posições, vivendo dias de glória em meados dos anos 90. Eram os dias em que os filmes indies davam lucro e que as apostas dos grandes estúdios acabavam por compensar. A decada dos Schindler´s List, Forrest Gump, Bravehearth ou Titanic. Grandes produções que davam margem de manobra suficiente para os estúdios apostar noutro tipo de filmes que, ou tinha sucesso no box-office numa menor escala (Unforgiven, Pulp Fiction, L.A. Confidential), ou não tinha esse sucesso. Mas nesse caso o excedente dos outros projectos mantinha a cabeça dos estúdios bem acima da água. Enfim, eram esses os dias que Hollywood desejava viver hoje. Mas não vive!
Desde o histórico - e até à bem pouco tempo imbativel - estúdio da Disney à venda do mitico leão da MGM, Hollywood está desorientada. Não há uma politica concertada por parte dos estúdios de forma a ultrapassar a crise. Pior! Alguns recusam-se a acreditar na ideia de crise, lançando fiascos atrás de fiascos no mercado, à espera que um pegue e apague todos os erros do passado. Mas o jogo já não resulta bem assim!
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Os três maiores problemas do cinema americano são faceis de descobrir, mas muito dificeis de curar.
É evidente para todos o claro problema de falta de ideias das majors norte-americanas. Os estúdios perderam a imaginação. Sucedem-se os remakes de sucesso antigos, as sequelas de sucessos actuais, a constante e veroz adaptação de livros, ao minimo sinal de sucesos nas bancas da mesma forma que há cinquenta anos se fazia com uma peça da Broadway. Guiões originais, filmes diferentes ao que estamos habituar a ver, já não se fazem. Ou melhor, fazem-se, mas não são ideias que partem de dentro para fora. Têm de ser recrutadas. E é isso que os estúdios têm feito, a peso de ouro.
E esse é o segundo grande problema. A divisão entre os indies e os majors está-se a desvanecer rapidamente. Sem ideias, sem um pingo de imaginação, os executivos dos estúdios passam cheques em branco aos autores independentes, ao primeiro sinal de sucesso. "Se a critica gostou daquele filme, - pensam eles - e o público até foi ver, pode ser que este argumentista me faça aí uma serie de sucessos. Vai custar-me uma fortuna mas vai acabar por compensar." Só que nunca compensa. Hoje os Tarantinos, Crowes, Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Charlie Kauffman ou Alexander Payne são nomes únicos devido à sua imensa originalidade, capaz de atingir tanto a critica como o público. Mas são caros demais e estão a levar os estúdios à falência.
Vejamos! Para filmar uma história de um Payne ou de um Kauffman, em principio, pela sua natureza indie, o filme custaria entre 10 a 20 milhões. Demoraria três a quatro semanas a filmar, teria um orçamento restrito - e este tipo de filmes nem custama ultrapassar orçamentos - teria um ou outro nome de luxo no elenco (porque os actores sabem que têm de ir ao cinema de autor procurar a credibilidade, e aos filmes de estúdio, o dinheiro), e daria lucro no box-office. Porquê? Por ser um filme indie não teria gasto uma gigantesca verba em publicidade - já lá vamos. E depois porque teria uns 30 a 50 milhões de receitas nas bilheteiras. Um lucro total de 20 milhões, assim por alto. Mas isso são os filmes assumidamente indies, que desde os anos 80 têm sido uma verdadeira lufada de ar fresco no cinema norte-americano. Mas o que acontece com as grandes produções?
O mesmo filme - qualquer um - custaria a fazer, o dobro. Porquê? Porque os estúdios não indiferenciam as suas próprias produções. O orçamento desse filme seria aumentado no dobro, não teria um alto controlo de despesas - é nas produções das majors que se ultrapassa o orçamento...e muito - as filmagens em vez de durarem 4 semanas, estender-se-iam por meses, e as estrelas que dariam a cara, misturariam o autor com o estúdio, e iriam querer o dobro. Isto sem esquecer o já milionário contracto com o tal autor, e a enormidade de dinheiro que seria gasto em publicidade. O mesmo filme custaria agora 40 milhões, a que juntariamos cerca de 20 a 30 de publicidade. Com as mesmas reviews - ou, tendencialmente, piores - e o mesmo público, o hipotético lucro de 20 milhões passa a prejuizo. E as contas saem furadas.
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Porque, como já se falou, nem são os contractos e os gastos da produção dos filmes que fazem deles buracos nos orçamentos dos estúdios. É o dinheiro que se gasta em publicidade que o tornam flops de bilheteira. Basta ver o caso de Cinderella Man por exemplo. Porque no caso anterior, sem a agressiva campanha de publicidade, o filme não daria lucro mas também não daria prejuizo. Viveria num limbo, que se arrastaria eternamente, mas não afundaria a indústria numa crise clara. Os milhões que a Dreamworks gastou na publicidade de The Island condenaram o filme á partida. O mesmo aconteceu com The Polar Express no ano passado. E como o mercado de dvd está cada vez a tornar-se uma ameaça aos filmes - não aos estúdios, porque são eles que os produzem e já estão contabiliizados nos lucros futuros de cada filme - e aos distribuidores, é preciso convencer o público de que vale a pena ir ao cinema. Mas por vezes essa campanha é um autêntico tiro no pé. É exactamente isso que está a acontecer. Convencer o público a voltar ás salas está-se a revelar demasiado despendioso.
Os estúdios fariam melhor em perceber as suas próprias limitações. Voltar ao exemplo dos anos dourados. Deixar os filmes de critica, de autor, para pequenas produtoras - ou subsidiárias como a Fox Searchlight ou a Warner Independent - capazes de promover sem problemas, e com lucro, o material indie, e manter a sua ideia de lucro. Apostar em projectos de sucesso à partido, aquilo que Anne Thompson resume a "sequelas, filmes que se valorizem e não se esgotem num só modelo". O que a jornalista do Hollywood Reporter quis dizer neste artigo, é simplesmente que a continuar assim e o sistema entra em colapso. É preciso acordar Hollywood, antes que sejam os credores a faze-lo.
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Na Europa o cenário é o oposto. Se nos Estados Unidos vive-se a crise de ideias dos estúdios, na Europa vive-se a eterna crise da ausência de estúdios. Filmes financiados constantemente pelo Estado ou pela União Europeia, dirigidos para um público que está na minoria das minorias, é continuar a insistir num modelo falhado...há mais de cinquenta anos.
Quer seja o caso português, quer seja o exemplo da França, a crise é notória. Não tanto em ideias, mas sim na aplicação prática das mesmas. O cinema de autor europeu é uma imagem de marca desde os anos 60, e faz do cinema made in Europa especial, capaz de procurar novos caminhos dentro da gramática cinematográfica. Mas resumir a produção cinematográfica de um continente e a apenas isso é manifestamente pouco. Porque o público - e por muito que os intelectuais não o queiram aceitar - não será nunca o consumidor dessas obras. A própria Nouvelle Vague francesa teve de perceber isso da pior maneira. O público dos Oliveiras, Canijos, Godard, Chabrol ou Bergmans existe, mas em número extremamente reduzido. Nunca farão de um filme europeu um sucesso de bilheteira. Mas isso não invalida que estes filmes existam. Claro que não! Só que têm de ser - definitivamente e sem mais falsos pudores - enquadrados numa politica de mercado. Porque o cinema é arte, mas também é indústria. E a Europa teima em não perceber.
Por cada Oliveira deviam existir dois sucessos comerciais. A qualidade pode não ser a mesma - e atenção que eu não estou a pedir dois "Crimes do Padre Amaro" ou "Balas e Bolinhos", porque isso seria passar do 8 ao 80 sem sentido algum. Não, a questão não passa por aí. Passa por explorar a imaginação dos autores europeus para filmes de outra magnitude, capazes de criar identidas, de captivar os espectadores. Um continente com um passado histórico, uma cultura tão rica, e paisagens tão diversas e cinematográficas, não se pode reduzir a filmar planos de 10 minutos numa sala escura. Tem de trazer o cinema cá para fora, para as planicies de Espanha, os vales do Loire, os Alpes, a verdura das florestas e prados da Alemanha, as ilhas britânicas. Tem de fazer épicos históricos, dramas intensos, comédias com sentido - pedem-se, desesperadamente novos Goodbye Lenin!, La Vitta É Bella, Tudo Sobre Mi Madre...
Porque, mesmo que custe ao inicio, o que o público europeu precisa de saber é que há vida para além de Hollywood. E se os estúdios norte-americanos estão em crise, e enchem as salas portuguesas com produtos mediocres, é natural que hajam menos 2 milhões de espectadores. Tirando o espectador-pipoca de sábado á noite que, se o filme que quer ver está esgotado vai ver o mais absurdo que está na lista de disponiveis, sem problemas, já ninguém tem paciência para assistir aos sucessivos falhanços de Hollywood. Mas quando o cinema europeu está como está - e basta ver, não só os filmes, mas a própria campanha montada à sua volta (trailers, posters, entrevistas) - a vontade de os ver é igualmente minima. E assim as pessoas ficam em casa, e a tal crise teima em não desaparecer.
Um conselho: olhem para Alice. Filmado com recursos minimos, em pouqissimo tempo, com um grande elenco mas sem ser muito dispendioso, esteve em Cannes - onde conquistou a critica - e esteve em exibição largas semanas nas salas nacionais - onde conquistou o público. Aliou a qualidade do cinema de autor europeu, expresso num poderoso drama, que tanto podia ser candidato à Palma de Ouro como ao Óscar, com uma notável campanha de publicidade, extremamente eficaz, que soube levar as pessoas para as salas. Ao menos fossem todos os filmes como Alice! E mesmo que não fossem, bastava seguir o seu exemplo para já serem alguma coisa, num panorama tão mediocre como o que vivemos!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:33 AM | Comentários (2)

novembro 22, 2005

Artigos de Leitura Obrigatória

São ás dezenas os artigos semanais de publicações dedicadas ao cinema que valem a pena ser lindo. Muitos dos quais são imperdiveis. Estes são exemplos disso. Provavelmente nunca nenhum artigo conseguiu entender tão bem a crise porque passam os estúdios de Hollywood como o que a jornalista Anne Thompson escreveu no Hollywood Reporter esta semana sob o titulo "Hung up on tentpoles, studios think too big!".
Para quem estiver interessado, aqui fica o link.

Para quem se pergunta o porquê do Oscarwatching, esse estranho passatempo que consiste em adivinhar ao longo do ano quais são os grandes candidatos a levar para casa a mais famosa estatueta dourada do mundo, é igualmente imperdivel o texto que Kris Tapley escreveu no seu dia de aniversário no weblog In Contention. O texto dirá certamente algo a todos os que praticam o oscar-watching (a mim pessoalmente diz ainda mais porque eu e o Kris partilhamos a data em que começamos a jogar este aliciante jogo) e pode ser lido aqui.

Porque ás vezes há textos que são mesmo de leitura obrigatória!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:30 AM | Comentários (1)

novembro 16, 2005

Opinião - Quando o actor salta para trás da camara

Quando o cinema começou não havia sistema, não havia indústria. Era tudo voluntarioso, feito com imaginação e com muita vontade de crescer. Os actores realizavam, os realizadores protagonizavam, e tudo seguia naturalmente o seu curso. Com o consagrar da indústria, os estúdios trataram de por tudo nos seus lugares. E assim foi durante longas décadas. Até ao momento em que os actores começaram a voltar atrás no tempo, sentando-se na cadeira sagrada do realizador...
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Chaplin, Keaton, Renoir e tantos outros, nunca tiveram problemas em representar em realizar. Se os dois primeiros eram, antes de mais, actores, já o francês era um artista, que tanto sabia dirigir com mestria os seus filmes, como fazer uma perninha como actor, sem ficar muito atrás do resto do elenco "profissional". Mas estes nomes foram-se tornando uma raridade. Os estúdios nos anos 30 começaram definitivamente a estruturar a produção cinematográfica. A arte foi inclausurada em tabelas, horários e cargos. Os estúdios tinham os seus próprios realizadores, e iam empergando os mais talentosos, trocando o seu génio artistico nuns filmes, pela sua passagem por produções de estúdio noutros. E com essa rigidez toda, foi desaparecendo o espaço para os actores-realizadores. Orson Welles ainda tentou revitalizar o espirito - na Europa a situação era perfeitamente normal na época como é hoje - mas a sua megalomania (ou grandeza) revelou-se a sua perdição. E lá havia Hitchcock a aparecer em muitos dos filmes, não como actor, mas recuperando por breves instantes a ideia de que os realizadores não têm só de ficar sentados nas cadeiras a dar ordens. Também podiam voar!
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E depois de anos e anos onde os casos de actores-realizadores se tornaram numa minoria gritante, eis que os anos 70 dão a volta ao cenário. Os movie-brats tinham tomado conta da indústria, e sem o saberem, estavam prestes a afundá-la. Hollywood estava entregue ás grandes corporações que iam comprando os despojos de um dos maiores impérios dentro do império americano e não havia salvação à vista. O público parecia divorciar-se do cinema dos movie-brats, condenando os seus mais ambiciosos projectos ao falhanço absoluto. Os blockbusters dos dois jovens mavericks mais aventureiros, Spielberg e Lucas, remavam contra a maré, mas era muito pouco. Quem iria salvar a indústria desta vez? Quem traria o cinema de novo para o coração do público. Ninguém pensou na resposta, mas ela estava mesmo ali. Exactamente, os próprios actores.
Quer na comédia, quer no drama, foram eles que voltaram a procurar dentro da alma dos moviemakers, a essência do cinema. E em pouco mais de uma década, alguns desses actores tornaram-se autênticas figuras de culto pela sua simplicidade e mestria com que encaravam o making de um filme.
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A história é antiga mas recomeça nos anos 70. Recomeça com as piadas de Woody Allen, aquele seu jeito desengonçado e neurótico, à frente das camaras, que contrasta com a sua sobriedade e calma quando está sentado na cadeira de realizador. Essa mitica cadeira que Clint Eastwood sentiu pela primeira vez ainda era um dos "duros" do cinema. No inicio foi dificil convencer o mundo que ali estava um dos mais sóbrios e talentosos cineastas da história do cinema. Filmes como Bird, White Hunter Black Heart, Unforgiven, The Bridges of Madisson County, Perfect World, Mystic River ou Million Dollar Baby chegaram para lhe guardar um lugar na história como realizador. E em todos esses filmes (exceptuando Bird e Mystic River) a sua presença como actor foi sempre uma gigantesca mais valia para o filme. A prova viva de que é possivel por-se em prática dois misteres que muitos julgavam contraditórios.
E quem fala nestes dois génios, fala também do Robert Redford, que transformou o cinema independente em algo popular junto do grande público. Ou de Kevin Costner que, durante dez anos experimentou o céu e o inferno. Ou ainda Warren Beatty, esse inadaptado galanteador. E tantos, tantos outros. E hoje, quando se fala de George Clooney, de Tommy Lee Jones ou de Mel Gibson, temos de nos lembrar onde tudo começou. Hoje todo o actor quer realizar. Muitos não tiveram sucesso (Depp, De Niro, Washington...). Outros perceberam rapidamente que não eram actores e dedicaram-se a viver atrás da camara. Lembram-se da actriz Sofia Copolla? Ou das tentativas de representação de Spike Lee? Ou mesmo o jovem Ron Howard que percbeu cedo que representar não era com ele (para muitos, realizar também não)? Tudo nomes que, de uma forma ou de outra, fizeram história. Atrás ou à frente das camaras. Mas sempre com a mesma postura, a mesma sensibilidade!
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Nomes!
A história faz-se de momentos, de eventos...mas principalmente de nomes! Entre os muitos que poderiam ter vingado, houve aqueles que de facto souberam-se impor, de uma maneira ou de outra, ao sistema, fazendo parte dele sim, mas sempre com um pé de fora. O pé da criatividade, da sobriedade, do criador artistico do qual nunca abdicaram. Desde Woody Allen a Clint Eastwood, foram inúmeros os casos de sucesso. Também houve os casos falhados, como em todo o lado, mas não chegaram para quebrar a corrente. A longo prazo os actores-realizadores ajudaram a manter a indústria de pé. Não são eles que a sustentam, que conseguem os grandes êxitos de bilheteiras Mas são capazes de fazer a ponte entre o público e a critica, a arte e a indústria. Trazem a pureza dos clássicos com a visão do presente, e nalguns casos, do próprio futuro. Trazem uma gramática cinematográfica simplificada, virada para as emoções interiores. Sem grandes explosões, choros ou perseguições. Mas com muito sentimento. Com vida!

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:48 PM | Comentários (2)

novembro 09, 2005

Opinião - Ascenção e Queda da Nova Hollywood

Quando os grandes mestres morreram, abandonaram os sets ou simplesmente deram um tiro no próprio pé, a velha Hollywood ficou em estado de sitio. Não havia luz ao fundo do túnel que desse a volta a uma crise tão repentina, e, ao mesmo tempo, tão evidente. Foi então que surgiu um grupo de jovens, acabadinhos de sair da UCLA. Eles tinham mais do que um plano para ressuscitar a velha Hollywood. Eles queriam ser "A Nova Hollywood". E em dez anos pudemos assistir à sua ascenção...e à sua queda!
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Hoje são talvez os nomes mais amados pelos cinéfilos. Talvez porque muitos deles cresceram sob o seu signo, ouvindo as deixas de filmes como The Godfather, Star Wars ou The Deer Hunter. Ou talvez porque eles representaram um laivo de esperança de um renascimento dos estúdios não graças aos produtores, mas devido aos próprios autores. Era o espirito da United Artists que voltava das cinzas, sob a forma de meia dúzia de jovens autores, influenciados directamente pela Nouvelle Vague francesa, mas também por toda uma cultura cinéfila aprofundada ainda mais pelo trabalho desenvolvido na mitica UCLA, a universidade da Califórnia.
Estes jovens autores - é à Nouvelle Vague que eles vão recuperar o termo - não queriam lutar contra o sistema. Queriam recupera-lo. Depois de terem percebido que os grandes épicos e dramas tinham falhado por completo ao longo dos anos 60, foi para filmes mais pequenos, mais intimistas, mais sombrios, que eles próprios se viraram. Eram os dias de culto de Bonnie and Clyde, dos primeiros filmes de um Mike Nichols ou de um Sam Peckinpah. Cada um desses autores tinha o seu próprio estilo, bem diferente uns dos outros na maioria dos casos. Mas a forma como surgiram ao mesmo tempo, em bloco, e tendo por base uma mesma ideologia, desafiando tudo e todos no verdadeiro faroeste em que se tinha tornado Hollywood valeu-lhes de imediato a alcunha de Mavericks do cinema. E durante dez anos eles seriam isso mesmo, até serem absorvidos pelos estúdios ou abandonarem o sonho que inicialmente acalentavam.
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O popular livro "Easy Riders, Raggin Bulls" de Peter Biskind traça um retrato praticamente perfeito da evolução desta geração. Filhos dos anos 60 - não podia deixar de ser de outra forma - onde a droga, as novas correntes musicais e a liberdade sexual - a abolição em 1967 do Código Haynes foi fundamental para a sua afirmação - tinham lugar de estaque, a geração de 60 foi trabalhando em pequenos projectos no final da década até que um desses jovens destemidos autores, um tal de Dennis Hopper, decidiu dar um pontapé no establishment. Disso resultou directamente o polémico e aclamado Easy Rider. Um filme sobre motoqueiros californianos que vivem do asfalto, da droga, do sexo e do rock and roll, que era acima de tudo uma clara contestação a tudo o que tinha sido feito. No elenco, um nome insuspeito, Peter Fonda, filho do conservador e popular "Hank" Fonda, e um desconhecido - Jack Nicholson - que começava aqui uma carreira fabulosa. O filme foi contagiante - afinal, estavamos em 1969 - revolucionando por completo a forma como se olhava para estes jovens autores. E depois de um nome se ter afirmado, foi fácil a outros seguirem-lhe o exemplo. Rapidamente se começou a ouvir falar de Martin Scorsese, Francis Ford Copolla, William Friedkin, George Lucas, Steven Spielberg ou Michael Cimino, entre tantos, tantos outros.
A década de 70 foi deles. Por todos os motivos e mais alguns. Pelo regresso de Hollywood ás ruas, aos dramas de rua, á crueza dos becos de Nova Iorque - pelas mãos de Scorsese ou Friedkin. A criação da ideia de blockbuster na mente de Spielberg e Lucas. Ou os devaneios artistico-dramáticos de Copolla ou Cimino.
Em 1971 todos os pequenos trabalhos desses realizadores começaram a ser ofuscados pelas suas primeiras obras aclamadas, tanto pela critica - desejosa de encontrar novos herois - quer pelo público, também ele à procura de filmes que lhe dissessem algo.
Nesse mesmo ano a "Nova Hollywood" foi oficialmente consagrada pela indústria quando William Friedkin se tornou no mais novo realizador de sempre a vencer um óscar. O seu filme, The French Connection, foi o grande vencedor do ano, e confirmou o que todos já pensavam. Estes autores tinham vindo para ficar. No ano seguinte foi a vez de The Godfather, a primeira parte da obra-prima em três capitulos de Francis Ford Copolla, ser galardoada. Ao todo, no espaço de dez anos, seriam quatro óscares de melhor filme para os jovens mavericks, nada mau para uma geração em ascensão. E enquanto uns ganhavam oscares, outros conquistavam a critica. Depois de Mean Streets, o excêntrico Martin Scorsese continuou a ganhar admiradores com filmes como Alice Doesn´t Live Here Anymore ou Taxi Driver. O jovem e ousado George Lucas tinha desafiado barreiras em 1971 com o seu THX 1138, e em 1973 voltava a impressionar com o fresco e irreverente American Graffitti, um filme pulp, icónico de uma geração sem causas, bem mais parecida com a sua própria do que Lucas realmente imaginava. Em meia década o panorama cinematográfico tinha-se transformado por completo.
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E enquanto os dramas foram recuperando a imagem de Hollywood, e fazendo a imagens dos "easy riders", um insuspeito Steven Spielberg deu a estocada final na afirmação da sua geração quando em 1974 lança Jaws. O realizador já tinha tido a sua dose de sucesso da critica com o seu filme de estreia, Duel, mas foi a invenção do ideal de blockbuster que culminou com o seu afastamento do grosso da sua geração - ainda virada para filmes mais obscuros e intimistas - mas que, curiosamente, acabaria por salvá-la a longa prazo. Com os blockbusters, os estúdios voltavam a ter liquidez financeira. Estavam agora prontos para retomar algumas das ideias mais ambiciosas destes realizadores. Depois de terem passado cinco anos a fazerem filmes que mais ninguém conseguia fazer, também os Copolla ou os Cimino decidiram fazer filmes que poucos imaginavam que podiam ser feitos. Sem o saberem, tinham aberto a caixa de Pandora, soltando um demónio que não iria conseguir controlar.
Copolla foi o primeiro a aventurar-se. Depois do sucesso dos dois primeiros Padrinhos e de The Conversation, a ideia de adaptar o negro romance de Joseph Conrad, Corações na Penumbra para o cinema levou uma gigantesca equipa de produção para o sudeste Asiático. Entre explosões, febres, ataques cardiacos a actores do set, muita drogra e sexo, e ainda a megalomania de Marlon Brando, recuperado em 1972 pelo próprio Copolla, lá se foi fazendo Apocalipse Now. O filme demorou dois anos, custou mais que os anteriores filmes do realizador juntos e estreou apressadamente em Cannes em 1979. O realizador queria o consenso da critica europeia e o filme lá venceu - em ex-aqueo com O Tambor, filme experimental alemão - a Palma de Ouro. Mas era sol de pouca dura. A Zoetrope, o sonho de Copolla em ter a sua própria produtora, emperrou no box office e nos óscares. Nada conseguia compensar os enormes gastos do filme. O fracasso de Apocalipse Now foi um prenúnico. Para Copolla seria One From the Heart, três anos depois, a dar a estocada final. Para a Nova Hollywood era o começar do fechar da porta.
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Foi no entanto Michael Cimino que ficaria com o titulo menos desejado por qualquer realizador, o de ter sido culpado pelo final da geração dos "easy riders". O realizador tinha tido um sucesso espantoso com The Deer Hunter, arriscando mostrar as marcas do Vietname, apenas três anos após o fim do conflito. Um filme patriótico, controverso, mas que "fez" o nome do autor que teve imediatamente carta branca da United Artists para fazer o filme que quisesse. Cimino escolheu um western épico sobre a própria fundação do Oeste americano, e da eterna luta entre os colonos e os rancheiros. O casting foi horrivel - Kris Kristoffersen ou Isabel Huppert estavam completamente descontextualizados. A produção arrastou-se durante dois anos, os prejuizos foram imensos. O filme inicial tinha três horas de duração e apesar da UA querer cortar, é Cimino quem exige que se respeite a liberdade artistica. Assim acontece. Passado uma semana, Heaven´s Gate é retirado dos cinemas pelo próprio Cimino, cortado a torto e a direito, regressa ás salas, mas o resultado é o mesmo. Heaven´s Gate será um dos maiores fiascos da história do cinema. Custou 44 milhões de dólares e fez apenas 3 milhões nas bilheteiras. Algo impensável e que era o verdadeiro dobrar de finados da Nova Hollywood. Tal como tinha acontecido com os grandes autores dos anos 50, caidos em desgraça na década de 60, os estúdios fecharam as portas aqueles que dez anos antes tinham ajudado a ressuscitar a indústria. Muitos tentaram fundar as suas próprias companhias, mas sem liquidez financeira e continuando em investir em projectos falhados à partida, as suas carreiras entraram num beco sem saída. Copolla teve de voltar a The Godfather para pagar as suas dividas. Desencantado, abandonou o cinema e dedicou-se á sua paixão pela cultura vinicola, abrindo as portas á sua filha para lhe seguir os passos. Martin Scorsese por sua vez teve de alternar os projectos que lhe eram verdadeiramente caros - os Taxi Drivers ou Ragging Bulls - com filmes menos interessantes, mas forçosamente necessários se queria continuar a ser uma opção para os estúdios. Cimino ou Friedkin - e tantos outros como eles - foram nomes riscados do mapa. Os anos 80 abriam as portas a novos realizadores, muitos deles ex-actores que tinham decidido tomar por sua própria conta e risco a direcção de novos projectos. Mas foram, acima de tudo, os anos da confirmação dos blockbusters. Mas isso é outra história!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 05:16 PM | Comentários (2)

novembro 02, 2005

Opinião - O Cinema em Mosaico

Porque é que as histórias têm de ser contadas numa linha linear num filme? Porque seguir uma personagem no principio, meio e fim do filme? Porque não olhar para uma questão, um episódio, por diferentes angulos? Porque não fazer "Cinema Mosaico"? A pergunta tinha pertinência, e a verdade é que, de há uns anos para cá a moda pegou. Que virtudes tem este novo estilo narrativo que tem conquistado tantos admiradores no universo cinematográfico?
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1994. A Academia de Hollywood achou por bem premiar a magnifica comédia de Robert Zemeckis, um tal de Forrest Gump. Mas meses antes, em Cannes, um filme tinha pasmado meio mundo. Era um tal de Pulp Fiction, o segundo filme de um realizador de seu nome Quentin Tarantino. O seu primeiro filme tinha conquistado Sundance. O segundo conquistava o mundo. E o que fazia Pulp Fiction tão diferente de todos os outros? O humor, a violência, os diálogos. Certamente! Mas a grande diferença foi a forma como a história estava montada. Não havia continuidade narrativa, e tinhamos diferentes personagens que seguiamos, longe de suspeitar (ou talvez não), que todas elas se acabariam por cruzar. E assim, de um momento para o outro, todos os jovens autores quiseram também eles quebrar convenções. E é fácil encontrar, no pós-Pulp Fiction nomes jovens ilustres com trabalhos que seguiam uma narrativa paralela, longe da ideia de narrativa continua que sempre pautara a criação cinematográfica!
Sempre? Não, a verdade é que Tarantino não inventou nada. Aliás o realizador é conhecido por homenagear e recilcar, não por inventar. Já nos anos 60 filmes como The Longest Day - essa homenagem grandiosa de Darryl F. Zanuck ao Dia D, com um elenco inesquecivel num dos maiores momentos do Século XX - ou então com The Outrage, filme em que Laurence Harvey, Paul Newman e Claire Bloom dão a sua visão sobre o mesmo acontecimento, mostrando-nos a mesma história três vezes. E também Ship of Fools, essa viagem de Stanley Kramer por um universo de insanidade com uma inesquecivel Vivien Leigh! E mais tarde, já na década de 70, há o incontornável Robert Altman, realizador de Short Cuts, Pret-a-Porter e tantos outros.
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O que é então o cinema mosaico?
Uma designação que pode ser contestada. No fundo o que distingue esta abordagem de outras é a forma como se conta a história. Este tipo de filmes acenta numa ideia. Essa ideia pode ser reduzida a um episódio, a uma personagem, a um momento. É essa a base em que o realizador - aqui intimamente ligado ao argumentista, e não é por acaso, que a esmagadora maioria dos filmes-mosaico são inspirados em argumentos originais - tem para trabalhar. Depois há quem criar um universo múltiplo, onde as personagens se cruzam, mas onde também procuram ter vida própria. Ao contrário dos "clássicos", onde há uma personagem central e várias personagens secundárias que nós só vemos, quando elas têm algo a dizer sobre a personagem principal, neste tipo de filme todos são secundários, todos são principais. Cada um tem a sua vida, cada personagem tem a sua profundidade dramática, a sua evolução espacial e temporal, e é a forma como se correlacionam, como se cruzam, como interagem que dá alma ao filme.
E depois há esses elementos de ligacação entre as personagens que nunca são pura obra do destino. Ou há algo que une todas as personagens, ou há um episódio que acaba por servir de elo unificador. E depois o final não é um final puro, como estamos acostumados. Por haver muitas histórias paralelas há sempre algo que fica em aberto. Porque estes filmes seguem essencialmente a ideia de que a própria vida é um livro aberto, em constante mutação e estranhamente inter-ligado. E ao explorar essa realidade, nos últimos anos, estes autores têm-nos dado filmes inesqueciveis.
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Vale a pena lembrar alguns. Cronologicamente, depois de Pulp Fiction há o inesquecivel Smoke, conjunto de histórias de um conjunto de personagens nova-iorquinas de Paul Auster e Wayne Wang, com um elenco inesquecivel, que começa em William Hurt e passa por Harvey Keitel ou Forrest Withaker em papeis inesqueciveis. Um filme humano que vai influenciar filmes futuros como Magnolia, esse magnifico filme-mosaico de Paul Thomas Anderson, ou o mais recente Crash, essa alegoria do racismo em Los Angeles do antigo escriba hoje também realizador, Paul Haggis. E também nos fomos habituando a jovens e irreverentes autores utilizarem esse mecanismo para explorarem os seus universos alternantivos. Lá encontramos Spike Jonze no seu Adaptation, onde o argumentista Charlie Kauffman se expõe por completo na pele do inesquecivel Nicholas Cage. Ou então o aclamado - mas altamente vazio - Elephant, onde seguindo personagens que, por obra do Destino (ou talvez não) se cruzam diariamente sem saber que a morte os espera calmamente. E quem enumera estes filmes - com medo de se esquecer de outros - lembra-se também da crueza de 21 Grams, de Full Fontral ou ainda de Traffic, ambos do sempre irreverente Soderbergh.
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A questão central que se coloca é se esta moda veio para ficar. Há alguns anos julgava-se que era apenas algo passageiro, ligado essencialmente a pequenos autores em busca de afirmação de uma forma original. De alguma forma tinham razão. Muitos dos filmes-mosaico foram uma das formas de jovens autores se afirmarem á sua maneira. Mas não foi um exclusivo de jovens autores. Cada vez mais, pelas multiplas abordagens que permite, e normalmente, pelo seu baixo custo de produção, este tipo de filmes surge como um produto apetecivel para alguns estúdios. Por ter uma imagem algo indie, longe dos filmes de grande produção, é dificil ainda ver um filme-mosaico atrair a uma grande fatia da audiència, mas a verdade é que, com o passar dos anos, os criticos e amantes do cinema vão-se rendendo a esta nova forma de fazer cinema. Resta saber se o mercado não vai acabar saturado com tantos filmes que deveriam ser alternativos a padronizarem-se num movimento cada vez mais mainstream, ou se o futuro vai apenas pautar-se pela afirmação e consolidação de um espaço próprio para aquilo que se convencionou chamar de "cinema mosaico".

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:47 PM | Comentários (1)

outubro 26, 2005

Opinião - Quando os mestres falharam!

Durante a década de 40 e 50 foram vários os realizadores que chegaram do nada e conquistaram imediatamente o respeito de todos em Hollywood. Eram jovens dinâmicos, capazes de fugir ao academismo de alguns directores da época, e que durante mais de vinte anos encantaram tudo e todos. Mas, chegados aos anos 60, todos eles falharam. Terá sido um sinal dos tempos, demasiada ambição dos próprios cineastas? Ou algo que parecia destinado a acontecer?
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Charlton Heston e Sophia Loren em El Cid

Quando os anos 60 começam Hollywood está longe dos anos de glória que tinha vindo a viver nas quatro décadas anteriores. Muitos dos seus nomes mais ilustres tinham deixado a indústria. Uns, como John Ford, Frank Capra ou Fritz Lang, tinham entendido que a sua hora tinha passado. Calmamente, sem grande alarido, retiraram-se da produção cinematográfica, vivendo à sombra das suas imensas glórias do passado. Outros, menos afortunados por não poderem ter escolhido o seu próprio destino, acabariam por morrer, deixando a indústria orfã. É nesse leque que vamos encontrar muitos dos produtores da época, os chamados moguls de Hollywood. Louis B. Mayer, ou Harry Cohn eram exemplos de verdadeiras instituições de Hollywood que na entrada da nova década deixavam a indústria mais pobre. E pior que isso, sem qualquer sinal de orientação para o futuro!
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John Huston em The Cardinal

Sem os grandes nomes de outrora, irá caber aos jovens cineastas dos anos 40 e 50 a afirmarem-se definitivamente como os grandes nomes da indústria. Durante quase vinte anos a ascensão dos jovens autores - idolatrados pelos Cahiers du Cinema em França, mas até então olhados com alguma suspeição pela indústria - fez-se com base em filmes muito sóbrios e que detinham uma clara marca de autor. John Houston, Otto Preminger e Nicholas Ray eram os homens do cinema noir. Anthonny Man tinha ajudado a revitalizar o western. E todos eles tinham vivido na sombra dos nomes maiores durante muito tempo, demasiado tempo. Se exceptuarmos John Houston e George Stevens, já detentores de óscares, todos esses realizadores queriam mais que o reconhecimento da critica - que tinham. Queriam que a indústria finalmente os abraçasse como um deles. E já tinham percebido que não seriam com os filmes que andavam a fazer até então que esse reconhecimento chegaria. Não seria um Jonnhy Guittar, um Naked Spurs ou um Laura a premiar esses autores. Tinha de ser algo mais espectacular, ao estilo da poderosa indústria que ainda era Hollywood.
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Ben-Hur

E o exemplo chegou em 1959. Com alguns dos grandes realizadores já prontos a bater com a porta, e com a televisão a ganhar cada vez mais espectadores ao cinema, William Wyller teve luz verde para apostar tudo num épico de dimensões gigantescas. O filme parecia ter tudo para ser um fracasso. Falta de um grande nome a liderar o elenco, produção altamente dispendiosa, um realizador pouco habituado a épicos históricos. Mas no final resultou. Ben-Hur - assim se chamava o filme - foi um marco na história do cinema. Bateu todos os recordes de bilheteira, confirmou Charlton Heston como uma das estrelas do cinema norte-americano, e pulverizou a concorrência nos prémios de final de ano. Isso numa altura em que esses autores continuavam a trabalhar em filmes mais pessoais. Só nesse ano Preminger fez Anatomy of a Murder, Nicholas Ray tinha acabado The Savage Inocents e nem eles, nem os seus colegas autores conseguiu algum reconhecimento. Foi talvez então que, quer esses autores quer os estúdios, perceberam que talvez o futuro pertencesse áqueles que conseguissem seguir da melhor maneira a fórmula de sucesso de Ben-Hur. Foi então que os novos directores dos grandes estúdios - aqueles que tinham vindo substituir os grandes nomes que começavam a tornar-se apenas eco na memória de alguns - começaram a antecipar o seu próprio fim. Nos dez anos seguintes não haveria um único estúdio norte-americano que depositasse milhões de dólares na produção de épicos históricos. E para realizar, na ausência dos gigantes do passado, foram contratados aqueles que eram os cineastas do presente, e que se queria, os do futuro. Uma combinação aparentemente sedutora, mas que viria a revelar falta para a indústria e para o cinema norte-americano.
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The Fall of the Roman Empire

Foram os insuspeitos Nicholas Ray e Anthony Mann a começar esta verdadeira hecatombe. Em 1961, Ray apresenta ao mundo King of Kings, a história do Novo Testamento com um H. B. Warner a encarnar a figura de Jesus Cristo. O filme fracassou em toda a linha, tanto junto do público com da critica, e abriu um perigoso precedente para o futuro. Estava dado o primeiro sinal que havia uma certa incompatibilidade entre autores e este genero cinematográfico. No mesmo ano Mann, até então conhecido pelos seus westerns irreverentes, tenta imitar o sucesso de Ben-Hur recrutando a sua estrela cintilante, Charlton Heston, juntando-lhe a grande actriz europeia da época, Sophia Loren. O filme era a história do campeão espanhol, El Cid, e tal como se anunciava, também aqui ninguém conseguiu discernir o minimo traço de Mann atrás da camara. Os realizadores escondiam a sua técnica por detrás de cenários e vestuários sumptuosos, e de batalhas bem encenadas mas sem grande profundidade dramática. E quando todos pensavam que os estúdios - e com isto a Allied Artists e a MGM ficaram financeiramente em sarilhos - eis que no ano seguinte o britanico David Lean recupera o sucesso do genero épico com Lawrence of Arabia. A esperança voltou e nos quatro anos seguintes seriam meia dúzia de grandes produções, que se viriam a revelar também, grandes falhanços.
O insuspeito Joseph L. Manckiewicz realiza para a Fox no ano seguinte Cleopatra. O filme será o maior desastre até então e nem a vida agitada do novo casal da moda em Hollywood - Richard Burton e Elizabeth Taylor - conseguiu levar o público a ver a história da última faraó do Egipto. Ainda nesse ano Nicholas Ray repete o fracasso de dois anos antes com 55 Days at Peking. O filme conta com Heston, mas na altura já se tinha percebido que só ele não era garante de sucesso. O fracasso foi inevitável. Tal como a aposta de Preminger no genero com o filme The Cardinal, onde Antonhy Quinn vive um pouco convincente Papa. E se os fracassos desse ano não foram suficientes, ainda havia mais. Anthonny Mann consegue o seu segundo fracasso consecutivo com The Fall of the Roman Empire. John Houston - o mais aclamado e galardoado dos cineastas em acção - tenta a sua versão de um épico com The Bible. O resultado será o maior fracasso da sua longa carreira. O próprio George Stevens decide apostar no épico religioso com The Greatest Story Ever Told, mas o sucesso também não lhe bateu á porta. E por fim até o insuspeito Carol Reed tenta com The Agony and the Ecstasye, combater a corrente. Sem sucesso.
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Elizabeth Taylor em Cleopatra

Pior do que tudo isto foram as consequências que todos estes filmes deixaram. Se exceptuarmos Cleopatra, são realmente todos eles filmes menores. A principal razão está no facto de, tal como nos primeiros épicos falhados de 61, o estilo do cinema de autor ter desaparecido por detrás da ideia de épico. O elencos fabulosos e o nome ilustre do realizador eram insuficientes para captivar o público a seguir longas histórias, normalmente contadas sem grande alma. E mesmo quando filmes como The Longest Day ou How The West Was Won, sem serem grandes sucessos, provaram que era possivel fazer filmes de grande orçamento com resposta positiva do público e da indústria, ficou patente que nenhum destes realizadores o conseguiria fazer. Para muitos deles isto significaria o final das suas carreiras. Manckiewicz estava já demasiado velho, mas ainda viveria para fazer o brilhante Sleuth. Mas pouco mais. Nicholas Ray e Anthonny Mann, nomes tão idolatrados como promissores, nunca mais conseguiriam trabalhar. Mesmo Stevens ou Preminger acabaram por ver muitas das portas fechadas. E deste grupo só mesmo John Huston se salvou, voltando ao estilo de cinema onde se sentia melhor, dando ainda, nos vinte anos seguintes, obras maravilhosas ao mundo. Mas a verdade é que a ambição cega destes realizadores seria, na maior parte dos casos, o seu próprio fim. Mas eles não cairiam sozinhos. Hollywood caía com eles!
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Anthonny Mann

Qualquer grande estúdio tinha apostado tudo nesta nova tendência do cinema épico. E todos eles falharam. Mais do que isso, todos eles contrairam dividas enormes. Sem a orientação brilhante dos seus antigos directores de produção, estudios como a Fox, a MGM, a Warner Bros, a Paramount ou a Columbia entraram em grave crise financeira. Nem os outros filmes que produziam serviam para equilibrar a balança. Até porque o cenário era de mudança, ou não estivessemos nós na década de 60. O público cada vez mais preferia a televisão ao cinema, as ideias começavam a esgotar-se entre os autores do chamado cinema de serie B, até então fulcral para manter a balança financeira dos estúdios em alta, e o desaparecimento das grandes estrelas (James Stewart, Cary Grant, Bette Davies, o eclipsar de Katherine Hepburn) e dos grandes realizadores da era dourada, tinha criado um vazio entre o público e a indústria. Os novos nomes não convenciam ninguém, os novos filmes não captivavam, a indústria estava oficialmente em colapso. A pouco e pouco, os grandes conglomerados económicos foram comprando os outrora majestosos estúdios. A Sony adquiriu a Columbia, a Time comprou a Warner, e todos os restantes tiveram de vender grandes percentagens das suas quotas para sobreviver. E sobreviver como? O genero épico entraria em hibernação, até The Gladiator, mas mesmo aí, voltaria a mostrar-se amaldiçoado para aqueles que nele viriam a apostar, revelando-se um verdadeiro genero maldito.
Mas a questão continuava a ser, como sobreviver! A resposta estava curiosamente, bem perto de Hollywood. Foi nessa altura, quando os nomes dos respeitados autores ficaram manchados para sempre, que da Universidade da California - não só, mas também - começam a chegar novos realizadores. Cresceram com o cinema, não só o dos grandes estúdios mas essencialmente com o filme noir das sessões da tarde, e têm um estilo muito próprio, muito intimista. São os jovens Mavericks, que saltaram directamente da escola para a linha da frente de Hollywood. Para recuperar uma década perdida, para a salvar de si própria!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 07:01 PM | Comentários (1)

outubro 19, 2005

Opinião - O Cinema e as Cidades

Muitas vezes o Cinema torna-se algo "bigger than life". Muitas vezes não basta ter um sólido argumento e um leque de actores fantásticos para dar magia a um filme. O espaço, a dimensão onde a história se desenrola, é fundamental para sentirmos a verdadeira magia cinematográfica. É por isso que é fácil ver que o Cinema está apaixonado. Pelo Monument Valley de Ford, pelo deserto de Lean, mas acima de tudo, o Cinema está apaixonado pelas cidades.
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Numa entrevista recente, Marcos Martins, o realizador de Alice, comentava que em França os emigrantes vinham ter com ele dizendo que a Lisboa que ele retrata é muito mais realista do que todas as outras que até agora tinham encontrad em filmes nacionais, porque esta era "a Lisboa de onde eles fugiram".
De facto, para além de toda a história de obsessão, dor e perda que molda o fabuloso Alice, a verdade é que a exploração do espaço é vital na composição da história. Lisboa é apresentada no seu tom mais negro, escuro, rodeado de chuva e nevoeiro, longe dos dias solarengos a que estamos habituados. Há na escuridão da CREL, do Marquês, do Rossio, um verdadeiro reflexo de como é a capital portuguesa no dia a dia. E é com mestria que a camara de Marcos Martins consegue capturar esse realismo urbano. Um pouco como a Los Angeles de L.A. Confidential ou de Training Day, filmes crueis para a Cidade dos Anjos. Aí não temos o minimo vislumbre das belas praias que são - muito graças á popularidade da serie televisiva Baywatch - um dos ex-libris da cidade. Pelo contrario, encontramos as zonas mais degradadas, tanto nos anos 40 como agora. E se L.A. Confidential é o espelho do universo de Raymond Chandler, que cria nos seus livros - onde The Big Sleep funciona na perfeição com exemplo - uma antitese da Los Angeles que se conhece. Em Training Day vemos a cidade no seu tom mais urbano, mais cru. E se nos esforçarmos, podemos encontrar em Grand Canyon, a obra mais capriana de Lawrence Kasdan, onde estão lá os lados mais negros e mais solarengos de L.A., mas desta vez pintados com um sinal de esperança.
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E há cidades que foram - e são - amadas das maneiras mais diversas. Tomemos Roma por exemplo. A capital italiana, ainda hoje, desdobra-se em duas cidades completamente diferentes sob o olhar dos dois maiores realizadores italianos de sempre: Roberto Rossellini e Frederico Fellini.
A Roma de Rossellini é a de Roma Cita Aperta. Uma cidade popular, corajosa, longe dos dias de glória (porque sim, também há essas "Romas" de estúdios de eras passadas), mas com uma enorme vontade de viver, de combater, de ultrapassar os problemas do a dia. O sol cansa, o ar pesa, as ruas são pequenas e cobertas da mesma sujidade dos seus habitantes. É uma cidade triste mas pronta a encarar o futuro de pé. Que futuro? Qualquer que ele seja, o que importa é viver.
Já a Roma de Fellini, exposta em algumas das cenas mais fabulosas de La Dolce Vita, mas essencialmente no filme Roma, é uma cidade luminosa, cheia de luz, de dia e de noite. O ambiente é de alegria, a vida foi feita para ser vivida, de dia ou de noite. Trânsito intumpido ás 2 da manhã, avenidas longas e iluminadas, pessoas na rua vestindo-se exemplarmente, esta cidade já tem todos os traços de um centro cosmopolita e de vanguarda. Qual das duas será verdadeira? Ambas o são, na sua era e ainda hoje. Porque uma cidade é capaz de se desmultiplicar em muitas outras, dependendo dos olhos que para ela olham. E onde Rossellini via dor e coragem, Fellini via um vazio interior colmatado por uma enorme extravanganza exterior.
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Outro exemplo bem caracteristico desta paixão que o cinema tem pelas cidades, é inevitavelmente Nova Iorque. A Nova Iorque de Woody Allen. A de Scorsese. A de Spike Lee. A de tantos outros que ajudaram a pintar de multiplas cores uma cidade que muitos insistem em ver como a capital não oficial do Mundo. E se nos filmes de Allen passeamos pelas zonas mais intelectuais e urbanas da Big Aple, já no universo de Lee e de Scorsese, somos atirados para os subúrbios, para os bairros mais tradicionais, de italianos e de negros respectivamente. A Litle Italy de Scorsese - que é tão semelhante, mas ao mesmo tempo, tão diferente da de Copolla e Leone - traz tudo o que há mais de podre nas ruas nova-iorquinas. No entanto são personagens que fascinam, que são também parte da identidade da urbe. E o amor que Scorsese - um homem das ruas mais escuras de Nova Iorque - sente por elas, é proporcional ao amor e respeito que Lee tem pelo Mundo de Brooklyn, onde cresceu e onde, desde sempre, o bairro funciona como um monumento de orgulho da comunidade negra. Mais uma vez temos visões diferentes sobre os mesmos espaços. Do existencialismo humoristico de Allen em Central Park, á rudeza e o pecado de Scorsese nas ruas de má fama da cidade, sem esquecer a visão mais perfeita de Nova Iorque no pós-11 de Setembro que chega pelas mãos de Lee em The 25th Hour, temos um leque de declarações de amor a um lugar onde vivem mais de 10 milhões de pessoas. Onde a magia se confunde com a rotina do dia a dia, criando só por si, um universo fascinante.
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E quem fala de Lisboa, Los Angeles, Roma, Nova Iorque pode falar de inumeras outras cidades. Há a Estocolmo de Bergman, a Berlim de Win Wenders, a Tóquio de Ozu, a Barcelona de Almodovar...Tantas outras cidades, tantas outras histórias, tantos outros nomes, sempre a mesma paixão. Percorrer os Campos Elisios antes e depois de ver A Bout de Soufle não é a mesma coisa. Godard abriu as ruas de Paris ao mundo com o seu filme de estreia e tornou a cidade das Luzes algo completamente diferente do centro romântico que os estúdios de Hollywood há décadas tentavam recriar sem sucesso. A corrente neo-realista do cinema inglês de Griershom fez de Londres não o centro económico e cultural de Inglaterra, mas ajudou a mostrar a rudeza dos seus bairros mais populares, mais tarde explorados brilhantemente por Hitchcock em Frenzy, por Lewis Gilbert no Alfie original ou mais tarde por Mike Leigh e Stephen Frears, os nomes mais ilustres da nova (que já não é assim tão nova) escola de cinema britânico. E claro, o Porto de Manoel de Oliveira. Esse Porto que vai desde Douro Faiva Flunial até Porto da Minha Infância, a recolha de olhares de um amante de uma cidade que foi o berço do cinema em Portugal, mas que ficará imortalizada no olhar único deste homem, ainda hoje visto como intocável como mestre do cinema português.
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Porque o cinema ama as cidades, não quer dizer que as tenha de retratar da forma mais bela possivel. Há quem o faça, e há quem prefire explorar os pontos negativos da cidade, os cantos mais escondidos, os rostos que se confundem na multidão do dia a dia, mas que também têm uma história para contar. Cada cidade é um mistério para cada um de nós. Ninguém vive o mesmo espaço da mesma forma. O "Will Always Have Paris" de Casablanca é um mito. A Paris de Bogart não é a mesma de Bergman. Como também não é a mesma de tantos outros que por lá passaram e se apaixonaram. Nova Iorque é uma cidade composta por milhões de pequenas cidades dentro de si. Cidades pessoais, cidades de cada um. Cidades que através de alguns dos seus habitantes mais ilustres ganharam vida na tela. O que é Tóquio? A cidade de Ozu ou a de Copolla? E o Rio de Janeiro das novelas e o da Cidade de Deus é o mesmo espaço, a mesma vida, os mesmos cariocas, a mesma cidade?
Uma cidade é uma cidade. É um local de peregrinação diária, um local de paixões. Todos nós amamos uma cidade, mesmo que não seja a nossa. O Cinema, ama-las todas!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:37 PM | Comentários (1)

outubro 12, 2005

Opinião - As seis vidas de Bond

Quando nasceu, poucos lhe davam crédito. Hoje 007 é um número de código universal. Simbolo de charme, beleza, sedução, humor e acção, o agente secreto criado por Sir Ian Fleming já viveu múltiplas transformações. Com a escolha de Daniel Craig, Bond prepara-se para viver de novo. Pela sexta vez!
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"Bond, James Bond!"
Uma frase simples, mas única. Em toda a história do cinema há poucas frases que identifiquem imediatamente as personagens. E nenhuma é tão universal como esta simples frase de introdução que passou da cabeça de sir Ian Fleming para o papel, e daí, imortalizando-se, para a tela num aparentemente obscuro Dr. No, já lá vão quarenta e três anos. Nessa altura, este tal de James Bond era vivido por um semi-obscuro escocês de nome Sean Connery. Uma surpresa para quem conhecesse a inspiração do autor, que sempre tinha pensado em Cary Grant e David Niven, dois gentlemans britânicos, para viveram o seu herói no cinema. Mas a idade já pesava em ambos e o projecto não era tão promissor como hoje nos parece. E assim a personagem rejuvenesceu sob a forma de Connery, o actor que até tinha de usar um capachinho para completar a imagem de um agente secreto charmoso, irresistivel ás mulheres, e extremamente talentoso. Uma imagem que Ian Fleming gostava que fosse a dele. A inspiração de Bond vem da sua própria experiência como agente dos serviços secretos britânicos, quando Fleming trabalhava como jornalista na União Soviética. Foi aí que o autor tomou contacto com o conturbado mundo da espionagem da Guerra Fria, e foi essa a inspiração para os muitos livros que iria escrever á volta deste enigmático 007.
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Na altura muito pouca gente dava algo pela adaptação de Dr. No ao cinema. O cinema de acção não era ainda um genero muito popular, e os corpos sedutores das que viriam a ser conhecidas como Bond Girls, eram um teste à ainda apertada censura moral. Mas o filme foi um retumbante sucesso e desenhou o futuro do cinema de acção. Nos anos subsequentes, não havia filme ou serie de acção que não imitasse a essência dos filmes de James Bond. E mesmo a paródia que foi Casino Royale - curiosamente o titulo utilizado pelos seus produtores para o próximo filme da saga - criou seguidores, no sentido de haver filmes a parodiarem outros filmes. E nem é preciso dize-lo, porque já todos se lembraram de Austin Powers.
E o que a principio parecia um projecto arriscado, tornou-se rapidamente numa franchise bilionária. Os filmes foram-se sucedendo, as aventuras pareciam sempre iguais e sempre diferentes - durante muitos anos os rivais da Spectre monopolizaram o confronto com Bond, mas mesmo aí o leque de vilões foi-se alargando - e para além das beldades, das cenas de acção, das engenhocas e do charme, resumido perfeitamente no habitual pedido do "vodka martini...shaked, not stirred!", criou-se um culto à volta da personagem. O que se arrastou também a uma devoção pelo actor, que desde 1962 dava vida a 007. E quando Sean Connery se recusou a reaparecer na serie, a experiência com George Lazenby em On Her Majesty Secret Service - com directa alusão a Portugal - foi tão traumática (apesar deste ser sem dúvida o argumento mais profundo de todos os 20 já feitos), que Connery voltaria ainda mais uma vez, em 1971 com Diamonds Are Forever, e em 1983, num filme não oficial, com Never Say Never Again. O seu Bond ainda hoje é considerado, de longe, como o mais completo. Ao inegável charme e talento do escocês, ficou marcada a imagem de marca do agente, que os actores que se seguiram acabaram por tentar copiar.
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Roger Moore acabou por ser o senhor que se seguiu, já que a hipótese de um regresso de Lazenby foi imediatamente posta de parte. O inglês (curiosamente o primeiro inglês a viver o agente) trouxe um pouco mais de sarcasmo e frieza ao personagem, perdendo em poder de sedução. O que com Connery parecia natural, com Moore soava a algo forçado. E mesmo que tenha sido mais competente nas cenas de acção, que se iam proliferando de filme para filme, tendo direito a ir até ao Espaço em Moonraker ou a navegar debaixo de água, a verdade é que nenhum dos seus sete filmes conseguiu o prestigio de Goldfinger, o filme que em 1964 tinha imortalizado Bond e Connery. Os sete filmes de Moore, entre 1973 e 1985, ajudaram a consolidar o nome do agente secreto, mas falharam em trazer algo de novo. A serie tinha agora concorrência de outros agentes e nomes do universo de acção, que nos anos 80 se tornaram na isca perfeita dos estúdios para conseguirem montar verdadeiros sucessos de box-office. O mundo tinha mudado e poucos pareciam agora render-se ao charme de um heroi charmoso, aparentemente frágil fisicamente mas multi-talentoso. Agora imperavam os homens cheios de músculo e capazes das maiores acrobacias. Talvez por isso a escolha em Timothy Dalton, um actor do teatro britânico, tenha sido infeliz pela falta de timing. Dalton era um nome competente e que seguia o espirito da saga, mas já nem as engenhocas do mitico Q (tão fascinante como Bond é o universo que o rodeia) ou os corpos cada vez mais despedidos (mas nunca totalmente, e aí Bond mantem o "nivel" em comparação com outros filmes) das Bond Girls.
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Se a ideia era manter o espirito inicial da saga, era também preciso saber inovar. Em 1996 a Guerra Fria tinha acabado, a Rússia reorganizava-se e o Mundo parecia viver em segurança. Para quê um agente secreto desactualizado? Os inimigos do futuro pareciam outros, e mulheres bonitas já não eram garante de sucesso a nenhum filme, pela simples razão de estarem em todos. Foi talvez aí que se deu o ponto fulcral da saga. Pierce Brosnan, o quinta actor a viver a personagem, percebeu que se mudam os tempos e com ele, também as vontades, e adaptou o seu Bond ao novo mundo, sem nunca perder o espirito inicial. Goldeneye foi um sucesso e, sete anos depois, 007 voltava e em estilo. A partir daí os filmes foram perdendo alguma qualidade, mas Brosnan era capaz do melhor e do melhor ainda em cada um deles, combinando o charme de Connery com o espirito de acção de Moore. Estamos a ser injustos! Brosnan montou o seu Bond também a partir do seu enorme talento - que ficou definitivamente provado em The Thomas Crown Affair - e por isso manteve a saga viva, quando todos acreditavam que a personagem estava por um fio.
Talvez por sempre ter tido um notável timing, Brosnan tenha desabafado que gostava de ser o actor que iria "matar" Bond. A personagem não se podia eternizar, dizia ele. Já ninguém acredita em rejuvenescimentos milagrosos. A relação com Monneypenny já não convence ninguém, as bond-girls parecem cada vez mais descontextualizadas, e o futuro podia passar por tirar mais a acção e trabalhar mais na trama. Os produtores não gostaram de ouvir Brosnan, especialmente após o enorme sucesso de bilheteira que foi Die Another Day, e o irlandês foi forçado a sair, ficando apenas com cinco filmes como 007.
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É aí que chegamos. Bond já teve cinco vidas, umas maiores que outras, umas com maior impacto que as outras. Goldfinger continua a ser o filme mais amado, Connery o "tal" Bond que todos querem ser, Lazenby o Bond maldito, Moore o Bond mais frio, Dalton o Bond desactualizado e Brosnan continuará a ser visto como aquele que soube ressuscitar a personagem, voltando a traze-la aos seus melhores dias.
A questão que está por detrás dos próximos filmes, é saber se James Bond são os martinis, as armas e engenhocas, as mulheres, os carros, as perseguições, os duelos finais e as frases fortes, ou, se há algo mais por detrás disso. Escolher como próximo filme aquele que, curiosamente, foi o primeiro dos livros a ser escrito, e que é, também, o mais cerebral de todos eles, pode ser uma pista importante. Ter o talentoso Paul Haggis como argumentista também. A questão no entanto passa também pelo sucessor de Bond. A Daniel Craig, caso se confirme que ele é o nome escolhido, cabe a pesada tarefa de continuar o trabalho de Brosnan, junto do grande público, mas, ao mesmo tempo, adaptar-se a este novo Bond que se espera. Um Bond mais inteligente, mais culto, mais enigmático, e menos action-man. Para ver filmes de acção, hoje temos dezenas de personagens. Para vermos um universo altamente complexo e intrigante, onde acção, erotismo, humor e drama estão intimamente ligados, só temos verdadeiramente um. É por isso que James Bond é único. E será por isso que a sexta vida de 007 será tão esperada como todas as outras que a antecederam. Porque Bond será sempre ele mesmo, James Bond!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:45 PM | Comentários (1)

outubro 05, 2005

A (im) pertinência dos remakes!

O palco mágico das ideias que era Hollywood estará em vias de desaparecer? A recente aposta dos estúdios em sucessivos remakes de filmes de sucesso (ou nem isso) tem levantado imensas questões sobre o estado actual do cinema norte-americano. Afinal porquê fazer remakes? Será cinema de homenagem aos trabalhos originais, a tentativa de um realizador melhorar ou alterar o que já foi feito ou apenas uma profunda crise de criatividade na "terra dos sonhos"?
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Só este ano teremos nas salas nacionais remakes de dois grandes clássicos da história do cinema: King Kong e All the King´s Men. Os filmes originais são trabalhos fascinantes. O de Merian C. Cooper é um verdadeiro marco da evolução técnica do cinema numa época em que Hollywood ainda se estava a habituar ao universo do cinema sonoro. Já o filme de Robert Rossen é um drama espantoso sobre uma realidade politica que ainda hoje está presente em qualquer país do mundo, mostrando ao mundo o espantoso actor que era Broderick Crawford. E se ambos os filmes foram um sucesso nos seus anos de origem, porquê fazer agora novas versões de uma história que a maior parte dos amantes de cinema já conhecem?