dezembro 03, 2006
Casino Royale: Diamante em Bruto é um Diamante
Estar céptico pode ser uma benção. Nada esperar, nada querer. E tudo o que vier será bom. Assim, foram muitos que preferiram nada querer com este novo e estranho Bond...e sairam da sala recompensados por isso. Mas não tanto quanto os que acreditavam que ele ia ser genial - porque esses viram a sua expectativa ser superada. E não há nada que bata isso. Parabéns aos que puseram as fichas na mesa por este Casino Royale. Sairam a ganhar em grande, porque o mito renasce e vive com surpreendente naturalidade na pele de Daniel Craig.
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Toda a gente merece um novo começo, costuma dizer-se. No entanto, às vezes a história é tão grande que a resistência a esse novo ponto de partida é enorme. Esquecer Connery, Moore, Brosnan? Impossível. Mas não é disso que se trata. Esses viverão para sempre, só temos que pôr na cabeça que vêm "depois" de Craig e que a única coisa que querem que nós esqueçamos não é outra senão essa transformação absurda de um dos agentes secretos mais smooth operator que alguma vez existiu num action-man básico e banal. Sejamos honestos, se não fosse por Pierce Brosnan, os últimos dois Bonds seriam insuportáveis. Assim, foram só maus, mas de uma forma ou de outra fizeram James perder a essência. Daniel Craig trouxe-a de volta, podem esquecer o ar de brutamontes e a cara de fundamentalista que punha bombas em Munich. Este Daniel é outro. Este Daniel é James Bond.

Casino Royale é mesmo o que nos prometeram. Um renascer. E um renascer a extodos os níveis. Brosnan não podia fazer este papel, simplesmente era-lhe impossível. Daniel Craig não é propriamente bonito, não tem metade da classe, mas também tem o seu charme e um grande carisma. E tem algo que Brosnan não tem - um ar presunçoso, jovial e irresponsável, imprudente. É que este Bond dos primeiros dias não tem nada que ver com o Bond que conhecemos. Ele veste-se informalmente, com uma tremenda falta de estilo. É tosco, escorrega nos momentos cruciais, destrói tudo o que consegue, dispara como uma menina e mata indiscriminadamente. Movido pelo seu próprio ego, é um miúdo que chega cedo demais onde muitos nunca chegarão. Não é sarcástico nem súbtil, não é o mais inteligente dos agentes e nem sequer o mais esperto. Ou seja, não é propriamente Bond. Dele (do verdadeiro Bond) começa com poucas características - é perserverante, teimoso e consciente da sua importância. Mas durante estas duas horas e vinte e cinco minutos (!) vai crescer, vai tomar consciência dos erros, aprimorar as virtudes, sofrer as consequências.

Craig é, portanto, uma excelente surpresa. Honestamente, depois de sair da sala não era capaz de imaginar os outros sondados no papel. Hugh Jackman sem hipótese, Goran Visnjic sem a essência, Owen sem ser ele. Não, a esolha é de facto a acertada. Craig faz mais do que lhe pedem - ele simplesmente é aquil que se espera dele. Não é forçado quando tem que ser violento (este Bond é violento, não é uma questão de tiros a distância e pescoços partidos subtilmente), não é forçado quando tem que ser sereno ou encantador. Espelha emoções como raiva, surpresa, gozo, dor e revolta com uma admirável capacidade teatral, ao estilo do teatro britânico do mais alto nível. Aliás, é mesmo essa a escola dele. Além disso, Craig é capaz de ter presença sem ser exibicionista o que lhe dá certamente a coolness necessária para ser James. E ter isso é óptimo para um homem que tem que convencer meio mundo que não está naquele lugar por acaso - mas porque o merece. Depois, tem a sorte de ter a companhia de Eva Green, sinceramente ainda mais bela neste filme que o habitual nela, mas principalmente capaz de construir uma personagem forte e essencial à caracterização gradual daquele que conhecemos como James Bond. Vesper não é uma Bond Girl tonta que simplesmente and com Bond de um lado para o outro. Ela é uma personagem secundária de extrema importância em toda a história e Green esta muito à altura do papel. Não era uma carinha bonita como Denise Richards ou uma sex symbol como Hale Berry quem iria fazer o lugar, impossível. Interessante também ver o ínicio da relação de Bond com M, onde se mantém Judi Dench, apesar de isso poder causar alguma confusão aos que já a viram com Brosnan. Enfim, das duas uma, ou se tem Casino Royale como um James Bond de facto separado dos outros ou então imagina-se que ela sempre tenha estado lá. Claro que ela não aparece nos filmes de Connery, Moore ou Dalton, mas isso resolve-se com um bocadinho de imaginação...ninguém impede M de tirar umas férias, digo eu! Mads Mikelsen é um vilão interessante, poderoso, perturbado e reservado. Não há muito mais a exigir.

A intriga deste Casino Royale deve ter custado umas boas horas de pensamento ou então uns curtos momentos de inspiração a Ian Fleming. Apesar do muito trabalho dos argumentistas que permite arrastar a história durante tanto tempo sem causar cansaço ao espectador (bom, quase sempre), a intriga principal pertence ao criador de Bond, e é preciso dizer-se que tem o seu quê de originalidade sem ser demasiado fantasiosa. Claro que há um vilão, um vilão com uma qualquer característica física e um passado assombroso que o define, mas há também uma ideia genial na forma como se cria uma história à volta de um jogo de póquer. A emoção até ao último momento de cada rodada que o jogo tem per se espelha-se nas várias situações do filme e nos vários twists que este vai arrancando. As cenas de acção são concentradas no ínicio do filme para depois se passar a uma abordagem mais inteligente, mais súbtil. É um grande trabalho de realização e argumento ser capaz de construir um filme do 007 com mais de 30 minutos à volta de uma mesa de casino. E depois, há as cenas nunca vistas de um Bond humano, torturado, mas cada vez mais "ele". Ver para crer...
Visualmente, é um filme fantástico. Quem é que não quer passar por Praga no Inverno, por África num instante, pelo luxo nas Bahamas e depois pelo Montenegro para um banho de verde e de requinte...? Ah, e acaba em Veneza... Se isto não ajuda um filme a ser apelativo, então nada ajuda.

Pergunto-me, honestamente, porque é que o realizador Martin Campbell não continuou com a saga depois de ter brilhado com Golden Eye? Um dos melhores filmes de James Bond desde os anos 60, a melhor trama, o melhor actor a seguir a Sean Connery. Estava tudo lá, Campbell podia ter feito história. Mas não fez, e por causa disso ( três filmes depois) teve que começar a história do ínicio. Pelo menos começou-a bem, acertando naquilo que o verdadeiro público de Bond espera e gosta. A honestidade das cenas mais sensuais, a perseguição automóvel reduzida ao mínimo indispensável, a beretta disparada apenas quando necessário, a intriga digna de um policial de nível e não uma simples desculpa para explodir casa e voar em carros...Depois, conduziu Craig ao longo do processo de transformação mais credível que esta série viu, e só por isso louva-mo-lo. A trabalhar com e para Campbell há três guionistas que sabem o que fazem, sendo que dois deles já tinham mão nos últimos dois Bond (Pervis e Wade) mas o terceiro é um homem que sabe escrever e escolher guiões...Não tivesse o ano passado ganho um Óscar com Crash à custa disso - Paul Haggis é um nome que salta a vista quando vêmos os créditos. Diz-se mesmo que Haggis foi contratado para apenas "polir" o guião mas que teve que acabar por re-escrever grande parte dele. Se é verdade, então fez muito bem. Não conseguiu, no entanto, evitar que alguns bons velhos vícios de Bond viessem a cena, como sendo acabar o filme com um edíficio inteiro a vir abaixo... Não se pode ter tudo. Depois, claro, há mais um Aston Martin a acabar desfeito. Mas enfim, um Bond que não destrói um carro não é um Bond e por aqui se vê que a mania dele em o fazer começa "de pequenino".
A produção continua a cargo da inevitável e histórica família Broccoli que já há muitos anos não abandona James, como se ele fosse um filho.

Um diamante bruto. É de facto a expressão ideal. Bruto. E diamante. Porque nos dão a conhecer o Bond mais humano que alguma vez vimos, com muitas, muitas arestas para limar. Se não foi filmado de forma gradual, então ainda mais crédito para Daniel Craig, porque ele é realmente um senhor actor. Durante aqueles 144 minutos a mudança que se opera em James Bond, enquanto personagem, é fenomenal, fica na memória. A forma como a sua arrogância se transforma em confiança, a sua brutalidade em eficiência, a sua ingenuidade em experiência são de facto situações novas para qualquer um dos fãs. Aliás, este Bond tem um outro trunfo na manga, que é apresentar-se convenientemente a toda uma geração que nunca se sentiu ligada a ele e tem agora a opurtunidade de o acompanhar desde o ínicio.
E depois há os detalhes, o facto de James não pedir nunca um "vodka martini shaken not stirred" mas sim outras bebidas até chegar à ideal, o facto de nunca se apresentar com o clássico "Bond, James Bond" até ao verdadeiro momento em que se torna nesse mito são momentos brilhantes. Começa humano, ineficaz, e termina como o agente que conhecemos, mais incisivo, menos humano, cheio daqueles traços de uma estranha história que não conhecemos mas que o moldou definitivamente. Agora, passamos a conhecer. E nem assim ele perde o seu encanto.
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O Melhor - O renascimento de uma saga, de um mito. O nascimento e crescimento de Daniel Craig/James Bond e a confiança de que os futuros filmes podem manter o excelente nível. O dar a conhecer a uma nova geração um herói que de outra forma não lhes seria apetecível conhecer.
O Pior - Os inevitáveis tiros que nunca acertam em Bond. Nunca...
Frases: "That's good, right there. Go on. This way everyone will know you died scratching my balls." Bond
"Vodka Martini" Bond; "Shaken or stirred sir?" Empregado; "...Do I look like I care?" Bond
"The name is Bond. James Bond".
Para ver quando... quiserem. Casino Royale adequa-se a muitos estados de espírito porque tem aquilo que é mais louvável no cinema - criar um estado de espírito próprio.
Site Oficial - www.jamesbond.com
Realizador - Martin Campbell
Elenco - Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright
Produtora - MGM
Duração - 144 m
ficha completa no IMDB
Publicado por Manuel António Martins às 07:58 PM | Comentários (4)
novembro 15, 2006
Descubra as diferenças
Cinema latino com sabor americano. Ou será ao contrário? Em Children of Men, a irreverência de Alfonso Cuarón enquanto cineasta e o seu corte com os habituais padrões de Hollywood está bem patente, mas a verdade é que este é um argumento muito americanizado. Os dois géneros não se fundem, mas coexistem de forma poucas vezes vista e portadora de um significado especial

A câmara treme. Mas treme mesmo, não dá para enganar. Para quê um tripé? Alfonso Cuarón tem mãos e faz questão de mostrar à audiência que pode muito bem segurar uma câmara. E durante bastante tempo, diga-se. Mas ele insiste, e prova que tem razão, porque passados cerca de quinze minutos o nosso cérebro já se adaptou - a custo - àquele balanço frenético.
Os primeiros frames são dedicados a uma dupla inédita mas, no mínimo, interessante. Clive Owen e Michal Caine são Theodore Faren e Jasper Palmer, dois amigos de longa data que conversam calmamente, como se não tivessem futuro. E a verdade é que não têm. A Humanidade está por um fio, as mulheres não conseguem engravidar há já 18 anos e a sociedade definha. Tranquilamente, Theo e Jasper fumam uma charro - criado por Jasper que lhe chamou "tosse de morango" - e debatem acerca de coisas que foram e que nunca mais serão. Esta conversa é seguida de perto por planos improváveis de Cuarón, que segue (literalmente) Theo para onde quer que ele vá, nem que seja so recostar-se no sofa ou estender o braço para pegar no cinzeiro. Mano a mano, a câmara está lá. Por esta altura, um espectador mais esclarecido já se apercebeu que este filme não vai ser propriamente um blockbuster de tiroteio e perseguição nem um sci-fic banal...

Children of Men passa-se em 2027 a uns escassos 21 anos da nossa existência, portanto. Mas não deixa de ser um futuro apetecível a uma mega produção que queira candidatar-se ao Óscar de melhor guarda-roupa, desenhar uns apartamentos improváveis, toda uma organização social diferente do que conhecemos, criar carros dignos de figurar nos sonhos dos designers mais arrojados, como vimos por exemplo em I.Robot ou mesmo em Artificial Intelligence. Aqui não. Em 2027 o mais moderno que temos é um punhado de Renaults ligeiramente modificados e um Rolls Royce belíssimo mas perfeitamente actual. Mas o melhor de tudo é a carrinha amarela. Uma Citroën de 1982 com uns upgrades que são no entanto incapazes de camuflar a sua personalidade. E amámo-la por isso! De resto, nem roupa, nem edificios, nem armas, nem barcos...nada é levado "ao futuro", nada leva um hipotético espectador que nada soubesse da história a perceber que está no futuro. E a ideia é mesmo essa, porque Children of Men tem muitas mensagens escondidas. O trabalho de fotografia é muito bem feito, concedendo a história um ar ainda mais cinzento do que o habitual no Reino Unido. O objectivo, em conjunto com o cenário, é passar a ideia de que não só o Homem está em risco mas também a Terra está a morrer, fruto dos excessos irresponsáveis que cometemos ao longo de séculos.

Quanto à história. Theodore Faren é um homem bem sucedido na vida, ocupa um cargo importante, tem amigos poderosos e consegue andar na rua e sentir-se seguro. Mas é sozinho e sombrio, de uma forma como apenas Clive Owen consegue ser, esbanjando charme mesmo com umas olheiras profundas e um semblante carregado - apesar do bom desempenho de todos os actores secundários, torna-se claro que o filme "é dele". A acção começa rapidamente. Theo é raptado por um grupo de activistas que ainda acredita que vale a pena lutar apesar de não haver futuro (literalmente, repito). O seu objectivo é conseguir condições de vida justas aos milhões de emigrantes que povoam a Grã-Bretanha e que são tratados como animais e criminosos. Essa é uma das principais mensagens de Cuarón neste filme, impossível de dizer-se sub-repticia quando vêmos Clive Owen passear na rua calmamente enquanto a polícia se esforça por manter em verdadeiras jaulas um número incontável de negros, mulatos, asiáticos, àrabes e não só. Os "Fisches", nome do grupo, são liderados por Julian Taylor (Julianne Moore), mulher que mantém uma estranha relação de confiança com Theo, e que o solta logo após ele se comprometer a ajudá-los: Theo deve arranjar um livre-trânsito para uma criança clandestina muito especial.

É a volta desta criança que o resto do filme se desenrolará, pois ela não é outra senão aquela que pode vir a salvar a humanidade. A primeira, em 18 anos, a transportar um filho. Theo encontra a sua razão para viver, mais do que sobreviver os últimos anos que o esperam e vai empenhar-se numa cruzada solitária para salvar a vida da jovem Kee e a tão preciosa vida por ela transportada, abdicando da sua própria vida recatada e bem planeada. Para mostrar que afinal, ainda é possível um homem preocupar-se com o seu semelhante, mesmo que não saiba nada sobre ele.
São vários os twists contra os quais eles se irão defrontar, mas que certamente são capazes de deliciar e surpreender o espectador. E os detalhes pelo caminho são fenomenais, de génio em alguns momentos. Como amigo de Theo que tem a Guernica na sala de jantar ou então o carro de fuga que não pega (é um clássico reactualizado!) ou acima de tudo o facto de Theo fazer mais de uma hora de filme em havaianas - sim, as chinelas. Outros, ficam para surpresa.

O futuro é um cenário, a "infertilidade" quase uma desculpa - nunca sequer se preocupam em explicar porquê ou como surgiu. Porque este filme é sobre o presente e tem uma clara mensagem política e social como poucas vezes se vê. Não é propaganda, não é subliminar. É como uma manifestação pacífica de milhões de pessoas ao mesmo tempo, uma marcha silenciosa pelo respeito à vida, seja ela de uma criança, de nós mesmos, dos outros ou do planeta. Children of Men não é um filme fácil. Não é imperativo amá-lo, nem sequer gostar dele. Mas é imperativo que nos faça pensar, que nos faça dar valor às coisas que consideramos imutáveis e eternas.
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Actores:Clive Owen, Michael Caine, Julianne Moore, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam....
Género: Drama/ Thriller/ Ficção Científica
no IMDB
para ver quando..... se sentirem capazes de deixar o filme pensar convosco e contagiar-vos. Ou quando apetecer fugir um pouco ao cinema totalmente americano. Num dia de chuva.
Publicado por Manuel António Martins às 12:51 PM | Comentários (4)
outubro 03, 2006
Porque já ninguém conta histórias...
Há quem diga que o mundo tem tanto que desconhecemos que é quase insultuoso não aproveitar toda essa matéria prima e preferir a ficção. Há de facto, ainda nos nossos dias, muito que não conhecemos, mas grande parte desse "muito" não tem sequer comparação quando posto ao lado do poder da imaginação. E então quando a comparação é com a mente de um criador de fábulas dos tempos modernos, torna-se evidente que as suas criações são de uma beleza e simplicidade em pouco igualáveis pelo que existe por aí, palpável. A imaginação vence o real. A imaginação torna-se real. E não há maneira de não se querer mergullhar num mundo de sonhos como o que Shyamalan criou, uma noite, para as suas filhas.

Lady in the Water foi uma desilusão para muitos. Alguns fãs disseram-se desapontados, perdidos na ideia que tinham idealizado para um realizador que achavam especial, ousado, estranho. Desta vez, não houve sobrenatural, não houve um constante suspense capaz de prender os olhos à tela e fazer a frequência cardíaca tão instável quanto o Médio Oriente. Desta vez, não houve uma atmosfera negra e soturna, não houve sequer metade do habitual jogo ardiloso entre sombras, som e movimento, não houve twists inimagináveis nem uma linha de acção imprevisível. Desta vez, Shyamalan foi limpinho, foi previsível, foi humano. E foi belo, acima de tudo. Porque das coisas simples nascem as coisas belas, e o realizador soube ser simples ao seu estilo.
O ínicio do filme é simplesmente fantástico. E diz-nos tudo o que precisamos saber. Geométricos desenhos de giz em tela negra contam que, "era uma vez", havia, em tempos que o Homem já esqueceu, uma grande ligação dos seres da terra com os seres da àgua e todo o mundo era mágico e harmonioso. Mas essa ligação foi quebrada, e o Homem fugiu para a sua própria solidão e ignorância, e assim tem vivido até hoje, sem se aperceber. Agora, num momento escolhido a dedo na interminável linha do tempo, está na altura de procurar o Homem e trazê-lo de volta a tudo o que ele perdeu.
E assim, aparece Story na piscina de Cleveland e a história começa.

Brilhantemente filmado, Shyamalan mantém o dom para criar planos que não estão nos livros. Médio plano, grande plano, plano de conjunto, são totalmente ultrapassados por cenas onde tudo está desfocado, por pés a moverem-se habilmente num escadote, por reflexos nas paredes e pontos de fuga que nos fazem sentir dentro da cena. Jogos de luz e sombra, música aliada aos momentos mais incisivos, silêncios colocados de forma inteligente.
E alguns momentos em que se aproveita do facto de muitos já conhecerem o seu estilo de preparar um momento de explosão, que depois nunca acontece. A audiência acalma, e esse ponto de clímaz surge então como nova surpresa daí a alguns segundos. Outras vezes, deixa-nos adivinhar claramente o que vai acontecer, como se fossemos crianças a embrenharmo-nos na história...
De negativo, é obrigatório realçar o microfone que por mais de uma vez é apanhado dentro do campo de filme. Uma pena e dificilmente explicável para quem tanto prima pelos detalhes.

Interpretações de nível. Mas aí surpresa seria o contário. Paul Giamatti é um "senhor actor", irrepreensível no que a encarnar diz respeito. Ele simplesmente é um empregado de condomínio, daqueles simpáticos e gorduchos que se entregam a toda a gente, que estão sempre presentes quando é preciso, que são intolerantes quando alguém quebra as regras da casa e que gostam de saber tudo o que se passa sem dar muito nas vistas. E gagueza fabulosamente, diga-se. De repente, Cleveland torna-se num herói acidental e claramente não sabe lidar com a situação. E gagueja muito bem, saliente-se.
Bryce Dallas Howard é de outro mundo. Claramente. Passa quase a totalidade do tempo com o olhar fixo, perdido no espaço e tempo, falando quase sempre mais para si própria do que para Giamatti ou o próprio Shyamalan. A caracterização está fantástica e com certeza é essencial para nos envolver na aura mágica da personagem Story, mas é a expressão facial da jovem actriz que mais nos faz querer ajudar, protegê-la. É poderosa, parece crescer em torno de Giamatti e ainda assim criar a sensação que é totalmente dependente dele. Enebriante.
Depois, é inevitável falar do papel de Shyamalan enquanto actor. Vick é uma personagem essencialmente presencial, e Shyamalan sabe-o. Já tendo aparecido em todos os seus filmes, desta vez muitos acharam que o realizador se excedera ao escolher para si um papel secundário. Vick é sem dúvida importante e até tem algumas marcas de relevo, mas não é uma personagem que fique na memória, não tanto como a chinesinha que ajuda Cleveland a desvendar a história ou o antipático novo inquilino. Simplesmente, está lá e está bem feito. Sem dar nas vistas.

Lady in the Water é brilhante porque é tudo o que nos prometeram. "A bedtime story - by M. Night Shyamalan". Conjuga o imaginário místico do realizador com todos os cânones básico de uma boa história de dormir, de um conto da nossa infância. Um senhor que tinha uma vida simples, uma menina que precisa de ajuda, um senhor que se torna um herói acidental, um grupo de amigos estranhos, um sábio, um excênctrico, um vilão, uma força salvadora, uma linha de história com um plano perfeito que começa por falhar e uma segunda oportunidade que funciona quando o momento é o mais certo, depois de um grito de grande tensão quando toda a esperança parece perdida...
Para os que sairam desiludidos da sala de cinema há uma grande probabilidade de terem perdido aquela inocência tão especial que lhes fazia os olhos brilhar de entusiasmo e tremer de emoção escondendo-se debaixo dos cobertores. Porque todos os perigos parecem reais e todas as esperanças plausíveis. Não se questiona que a acção decorra tão rapidamente, que haja personagens tão impensáveis, que a chave para todos os mistérios seja descoberta em segundos, que todos os personagens mágicos necessários para salvar o mundo estejam reunidos no mesmo condomínio...Isso não são sequer detalhes. Porque este mundo é mágico, é único. E o que é preciso é ajudar Story a salvar-se e salvar-nos. É isso que realmente importa.
Publicado por Manuel António Martins às 02:19 PM | Comentários (7)
Porque já ninguém conta histórias...
Há quem diga que o mundo tem tanto que desconhecemos que é quase insultuoso não aproveitar toda essa matéria prima e preferir a ficção. Há de facto, ainda nos nossos dias, muito que não conhecemos, mas grande parte desse "muito" não tem sequer comparação quando posto ao lado do poder da imaginação. E então quando a comparação é com a mente de um criador de fábulas dos tempos modernos, torna-se evidente que as suas criações são de uma beleza e simplicidade em pouco igualáveis pelo que existe por aí, palpável. A imaginação vence o real. A imaginação torna-se real. E não há maneira de não se querer mergullhar num mundo de sonhos como o que Shyamalan criou, uma noite, para as suas filhas.

Lady in the Water foi uma desilusão para muitos. Alguns fãs disseram-se desapontados, perdidos na ideia que tinham idealizado para um realizador que achavam especial, ousado, estranho. Desta vez, não houve sobrenatural, não houve um constante suspense capaz de prender os olhos à tela e fazer a frequência cardíaca tão instável quanto o Médio Oriente. Desta vez, não houve uma atmosfera negra e soturna, não houve sequer metade do habitual jogo ardiloso entre sombras, som e movimento, não houve twists inimagináveis nem uma linha de acção imprevisível. Desta vez, Shyamalan foi limpinho, foi previsível, foi humano. E foi belo, acima de tudo. Porque das coisas simples nascem as coisas belas, e o realizador soube ser simples ao seu estilo.
O ínicio do filme é simplesmente fantástico. E diz-nos tudo o que precisamos saber. Geométricos desenhos de giz em tela negra contam que, "era uma vez", havia, em tempos que o Homem já esqueceu, uma grande ligação dos seres da terra com os seres da àgua e todo o mundo era mágico e harmonioso. Mas essa ligação foi quebrada, e o Homem fugiu para a sua própria solidão e ignorância, e assim tem vivido até hoje, sem se aperceber. Agora, num momento escolhido a dedo na interminável linha do tempo, está na altura de procurar o Homem e trazê-lo de volta a tudo o que ele perdeu.
E assim, aparece Story na piscina de Cleveland e a história começa.

Brilhantemente filmado, Shyamalan mantém o dom para criar planos que não estão nos livros. Médio plano, grande plano, plano de conjunto, são totalmente ultrapassados por cenas onde tudo está desfocado, por pés a moverem-se habilmente num escadote, por reflexos nas paredes e pontos de fuga que nos fazem sentir dentro da cena. Jogos de luz e sombra, música aliada aos momentos mais incisivos, silêncios colocados de forma inteligente.
E alguns momentos em que se aproveita do facto de muitos já conhecerem o seu estilo de preparar um momento de explosão, que depois nunca acontece. A audiência acalma, e esse ponto de clímaz surge então como nova surpresa daí a alguns segundos. Outras vezes, deixa-nos adivinhar claramente o que vai acontecer, como se fossemos crianças a embrenharmo-nos na história...
De negativo, é obrigatório realçar o microfone que por mais de uma vez é apanhado dentro do campo de filme. Uma pena e dificilmente explicável para quem tanto prima pelos detalhes.

Interpretações de nível. Mas aí surpresa seria o contário. Paul Giamatti é um "senhor actor", irrepreensível no que a encarnar diz respeito. Ele simplesmente é um empregado de condomínio, daqueles simpáticos e gorduchos que se entregam a toda a gente, que estão sempre presentes quando é preciso, que são intolerantes quando alguém quebra as regras da casa e que gostam de saber tudo o que se passa sem dar muito nas vistas. E gagueza fabulosamente, diga-se. De repente, Cleveland torna-se num herói acidental e claramente não sabe lidar com a situação. E gagueja muito bem, saliente-se.
Bryce Dallas Howard é de outro mundo. Claramente. Passa quase a totalidade do tempo com o olhar fixo, perdido no espaço e tempo, falando quase sempre mais para si própria do que para Giamatti ou o próprio Shyamalan. A caracterização está fantástica e com certeza é essencial para nos envolver na aura mágica da personagem Story, mas é a expressão facial da jovem actriz que mais nos faz querer ajudar, protegê-la. É poderosa, parece crescer em torno de Giamatti e ainda assim criar a sensação que é totalmente dependente dele. Enebriante.
Depois, é inevitável falar do papel de Shyamalan enquanto actor. Vick é uma personagem essencialmente presencial, e Shyamalan sabe-o. Já tendo aparecido em todos os seus filmes, desta vez muitos acharam que o realizador se excedera ao escolher para si um papel secundário. Vick é sem dúvida importante e até tem algumas marcas de relevo, mas não é uma personagem que fique na memória, não tanto como a chinesinha que ajuda Cleveland a desvendar a história ou o antipático novo inquilino. Simplesmente, está lá e está bem feito. Sem dar nas vistas.

Lady in the Water é brilhante porque é tudo o que nos prometeram. "A bedtime story - by M. Night Shyamalan". Conjuga o imaginário místico do realizador com todos os cânones básico de uma boa história de dormir, de um conto da nossa infância. Um senhor que tinha uma vida simples, uma menina que precisa de ajuda, um senhor que se torna um herói acidental, um grupo de amigos estranhos, um sábio, um excênctrico, um vilão, uma força salvadora, uma linha de história com um plano perfeito que começa por falhar e uma segunda oportunidade que funciona quando o momento é o mais certo, depois de um grito de grande tensão quando toda a esperança parece perdida...
Para os que sairam desiludidos da sala de cinema há uma grande probabilidade de terem perdido aquela inocência tão especial que lhes fazia os olhos brilhar de entusiasmo e tremer de emoção escondendo-se debaixo dos cobertores. Porque todos os perigos parecem reais e todas as esperanças plausíveis. Não se questiona que a acção decorra tão rapidamente, que haja personagens tão impensáveis, que a chave para todos os mistérios seja descoberta em segundos, que todos os personagens mágicos necessários para salvar o mundo estejam reunidos no mesmo condomínio...Isso não são sequer detalhes. Porque este mundo é mágico, é único. E o que é preciso é ajudar Story a salvar-se e salvar-nos. É isso que realmente importa.
Publicado por Manuel António Martins às 02:19 PM | Comentários (7)
julho 01, 2006
Fast and the Furious 3 : Tokyo Drift - Western em rodas
O primeiro Fast and the Furious era um filme sobre tunning que criou uma legião de fãs. Um filme bem orquestrado, rápido e eficaz. A sequela limitou-se a ser um show off à Hollywood onde se repetia a dose com mais estilo e menos eficácia. Tokyo Drift afirma-se por ser um filme diferente. Não só por ter um cenário e um novo elenco, mas por ser menos um filme de carros e mais um filme de condutores. Menos espalhafatoso, menos genial no aspecto de acção, mas mais bem construido em termos de narrativa, o terceiro Fast and the Furious é um filme agradável para um Verão cinematográfico habituado a coisas bem piores. Um filme que nos transporta para os ideais dos velhos westerns, onde os duelos são em carros e não com pistolas, e onde a Nova Fronteira não está na pradaria mas sim nas ruas de Tóquio.
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Há filmes que ficam para a história. Outros vão desaparecendo ao longo dos tempos. Curiosamente ao escrever o Cine Guia pude redescobrir muitos filmes que já nem me lembrava que existiam. Alguns que eu nem sabia que existiam mesmo. E o que é curioso é que a saga Fast and the Furious, até ao seu segundo capitulo, tinha um pouco de ambos. Enquanto o primeiro ficará na história como o primeiro filme dedicado ao fenómeno tunning - cada vez mais popular em todo o Mundo - sendo um bom filme dentro do seu género, o segundo certamente passará despercebido ao longo da história, a não ser para os admiradores de Eva Mendes ou Paul Walker.
O terceiro filme vive numa especie de limbo. Tem todos os condimentos para ficar na memória de alguns, mas corre o risco de repetir uma fórmula já batida e por isso desaparecer da face da Terra cinematográfica daqui a um ano ou dois. Um risco que a produtora correu e que só o tempo explicará. Mas a verdade é que se não há muito no filme que não tenha já sido feito - o drift tem a sua piada para quem gosta, mas é na verdade bem menos aliciante que uma corrida simples - tem na exploração das suas personagens o seu ponto forte. O que até é raro num filme do genero.

Sean Boswell é um jovem problemático que adora correr. Mas arranjou demasiados problemas para continuar impune. É por isso forçado a ir viver para Tóquio onde o seu pai, um oficial do exército retirado, vive e trabalha, também ele longe de casa. A principio a relação entre os dois é tensa. Nenhum deles quer aquela situação. Até que Sean começa a conhecer a cidade. Os carros que vão desfilando nas concentrações em parques de estacionamento. E as mulheres. A habitual combinação carros-mulheres atrai-o para um mundo onde o crime e as corridas de automóveis, em modelo de derrapagem constante, estão associados. O respeito é para os vencedores e habitualmente os vencedores são como ele. Gabarolas, irresponsáveis e desejos de impressionar. Apesar de perceber imediatamente que está no seu mundo "versão oriental", é em Han, um jovem japonês que se torna seu amigo e mentor, que Sean procura a inspiração. Han corre, mas quando quer e não para vencer. Han está de bem com a vida, sempre relaxado com tudo e todos. Han é uma verdadeira personagem de western que encontra ali a sua nova fronteira, como ele próprio diz quando se refere a Tóquio como o seu novo México. É uma das mais interessantes personagens do ano, por tudo o que representa e pela forma como consegue mudar as rotações da história. Transforma Sean que acaba por contagiar todos à sua volta para uma reviravolta final esperada - com a sua surpresa inevitável - e repleta de acção. Mas entre o inicio bombástico e o final explosivo, Tokyo Drift aguenta-se bem como uma história de redenção bem ao velho estilo do Oeste americano.

Com elenco renovado Tokyo Drift fugiu ao grupo predominante da saga. A tónica agora está nos adolescentes. Sean (interpretado tranquilamente e sem grande aparato por Lukas Black) chega a um mundo onde o universo é repleto de jovens da sua idade. O que também se justifica já que o fenómeno tunning se alastrou também para a comunidade adolescente. Claro que há sempre a beldade de serviço (Nathalie Kelley), o comediante (o rapper teenager Bow-Wow), o vilão (Brian Tee) e até há tempo para o mitico Sonny Chibba aparecer, numa versão de don Corleone oriental. E caro Sung Kan, o actor que realmente interpreta, já que os outros praticamente se limitam a dar corpo e voz às personagens num filme em que Justin Lin se limita a dirigir com coerência, explorando bem o potencial das coreografias de corridas, com o mesmo timing e aparato que alguns dos clássicos musicais de Hollywood e Bollywood. O pormenor do final revela que um quarto filme pode estar em linha de montagem, mas é também uma especie de homenagem ao fundador do movimento Fast and the Furious. Os apreciadores de corridas de carros vão provavelmente achar mais piada a Cars. Os amantes do tunning irão criticar a pouca dose de carros trabalhados. Os mais cépticos e criticos terão a oportunidade de ver como afinal o peso de um nome não é necessariamente algo mau. E o espectador pontual de um dia de Verão ficará agradavelmente surpreendido.
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O Melhor - A personagem Han, a lembrar um pouco os Gary Cooper´s do oeste.
O Pior - Algum surrealismo nas corridas e o habitual leque de personagens de uma dimensão.
Curiosidade - Vin Diesel estava para protagonizar o filme e apenas não o fez por questões de cachet. No final a produção dá a mão à palmatória.
Site Oficial - www.thefastandthefurious.com
Realizador - Justin Lin
Elenco - Lucas Black, Sung Kang, Bow Wow, ...
Produtora - Universal
Classificação - m/12
Duração - 98 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:37 AM | Comentários (18)
junho 30, 2006
Cars - A Nova Fábrica de sonhos
Quando a Disney se afirmou com a principal fábrica de sonhos de Hollywood, capaz de criar universos que estavam bem para lá do convencional filme para crianças, nunca ninguém pensou que essa situação mudasse. Mas há mais de uma década que a Disney não consegue estar ao nivel a que habituou o público. Felizmente o cinema de animação continuou a sua evolução natural. E agora tem uma nova fábrica de sonhos. Cars confirma o que os últimos filmes tinham antecipado. A Pixar é o estúdio número um de Hollywood!
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Não deixa de ser irónico que a Disney tenha acabado de comprar a Pixar num negócio que favorece mais o estúdio de Steven Jobs do que propriamente o grande gigante fundado nos anos 20 por Walt Disney, um dos maiores génios da história do cinema. Mas até ele ficaria orgulhoso da nova aquisição. Afinal, há sensivelmente uma década que a produção da Pixar se tem mostrado ao mesmo nivel do que acontecia com a Disney na sua era de ouro. Há a animação japonesa - a melhor para os puristas do traço do desenho na animação - há a animação em stop motion de que o delirante Wallace and Gromitt é o simbolo principal, a animação de autor como só Burton é capaz de fazer ou simplesmente a animação mais corriqueira e de traço simples que se faz um pouco por todo o mundo. Mas ninguém está ao nivel da Pixar. Em desenho, em imaginação, em humor, em personagens, momentos ou mesmo elencos. Hoje a Pixar é o estúdio mais imaginativo e produtivo de Hollywood. Numa era onde o cinema vive uma gritante falta de ideias com remakes e sequelas a torto e a direito, adaptação de tudo o que é herois de banda desenhada, são poucos os autores que sobressaem. E muito poucos os estúdios que se demarcam do marasmo geral. É dificil olhar para a Pixar e não ver ali um farol de ideias, de dinâmica, de imaginação como não há em qualquer estúdio norte-americano. E Cars é a prova. É o seguimento de uma tendência que começou com Toy Story há dez anos e que se tem afirmado, ano após ano. E como o cinema de animação não é um genero menor, longe disso, poucos poderão se orgulhar de apresentar - e basta dizer isto - um trio de pequenas grandes obras primas: Finding Nemo, The Incredibles e agora Cars. O maior filme de animação continua a ser Lion King, mas a este ritmo a Pixar um dia até isso rouba à Disney.

Mas falemos de Cars. Um filme que vive de pequenos e deliciosos detalhes que fazem logo a diferença. Nomes, vozes, situações, pormenores que provam que a equipa de John Lasseter, Brian Bird e Steven Jobs é absolutamente genial. Cars é a história de um carro de corrida novato que está à beira de fazer história. Mas o sucesso subiu-lhe à cabeça. Como qualquer jovem estrela (e isto acontece em qualquer desporto, basta olhar para um Cristiano Ronaldo por exemplo) tornou-se egocêntrico, vaidoso e só sabe pensar em si e no seu sucesso. Um dia, enquanto seguia para a Califórnia onde ia disputar o titulo do mundo com outros dois carros (duas personagens tipo, o "rei" à beira de se retirar e o eterno segundo arrogante capaz de fazer tudo por uma vitória) tem um acidente e fica retido numa pequena vila. Uma vila que já fora um local de passagem obrigatória quando a estrada 66 estava na moda. Mas que agora é habitada por uma dezena de curiosas personagens. E, como é previsivel, a principio ele só quer sair de lá, mas no final percebe que aquela semana no meio do nada se revelou mais importante para si do que qualquer prémio. Um filme com várias licções de moral - um apanágio do cinema de animação ainda - onde a amizade, a humildade, o espirito de sacrificio e, acima de tudo, uma valorização de uma vida tranquila longe do ritmo frenético dos grandes espaços urbanos, são os valores fulcrais.
Mas, como é habitual na Pixar, tudo isso surge com naturalidade. As situações hilariantes dão vida à história, as personagens estão longe de ser esteriótipos - há mesmo uma verdadeira profundidade dramática em algumas delas - e, e isso é que é o grande trunfo - tudo aquilo acontece com carros mas poderia acontecer com pessoas. E a magia do cinema de animação passa por aí, por transportar para outros mundos metáforas do próprio comportamento humano.

E se o cinema de animação não tem actores, a verdade é que os actores têm sido fulcrais para o sucesso da Pixar (e mesmo de outros filmes, basta lembrar-mo-nos do que faz a Dreamworks). Um filme com Paul Newman é sempre um filme com Paul Newman. Os olhos azuis mais famosos do cinema estão lá, a voz seca de um sábio que já passou por décadas de cinema e vida também. E a ironia de Newman ter sido um grande piloto e ser dono de uma das maiores equipas norte-americanas de corridas é sublime. Newman é a voz que dá realismo à história, como Owen Wilson é a voz que dá ritmo ao filme, até porque a escolha de casting é perfeita. Desde Mack, a carrinha de transporta, a Mate, o inseparável amigo, sem esquecer todos aqueles tiques e sotaques tipicos de um país que é mais do que isso, é um verdadeiro continente, fazem o filme ser mais humano do que se fosse realmente. E claro, detalhes deliciosos como um Michael Schumacher em forma de Ferrari, ou o nome repetido em unissono, McQueen, a lembrar outro apaixonado das corridas, Steve McQueen, não passa despercebido. Nada é feito ao acaso. Nem os pormenores das corridas que nos transportam para verdadeiras provas de velocidade, nem a recriação de um Monument Valley à John Ford...nada é deixado ao acaso. E é de material como este que os sonhos são feitos.
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O Melhor - Desde o guião ao desenho, das situações às personagens, sem esquecer as vozes, Cars é um filme impecável em toda a linha. Um verdadeiro topo de gama.
O Pior- A corrida não final não ser mais intensa, não haver uma ligação ainda mais forte entre Lightning e Doc no desenrolar da prova como acontecia, por exemplo, com Tom Cruise e Robert Duvall em Days of the Thunder.
Curiosidade - Várias são as vozes conhecidas que passam pelo filme de Tom Hanks a Jay Leno. Mas o toque mais genial é o aparecimento de dois campeões do Mundo de F1, Mário Andretti, um habitué do Nascar, e aquele que é muito provavelmente o maior corredor da história, Michael Schumacher, que dá voz ao belo Ferrari.
Site Oficial - disney.go.com/disneypictures/cars/
Realizador - John Lassater
Vozes - Owen Wilson, Paul Newman, Bonnie Hunt, ...
Produtora - Pixar
Classificação - m/6
Duração - 114 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:37 AM | Comentários (5)
junho 27, 2006
Hard Candy - Duro de roer
A metáfora do Capuchinho Vermelho e do Lobo Mau foi explorada até aos limites. Tentando repescar o suspense hitchockiano, David Slade procurou criar um duelo psicológico intenso. Mas a fragilidade das personagens e o amadorismo na realização acabaram por contribuir para que Hard Candy tenha sido um doce muito duro de engolir.
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Há cenas em Hard Candy que são impensáveis numa obra cinematográfica. Tentando não o ser, Hard Candy é o filme mais politicamente correcto dos últimos anos. O fantasma da pedofilia atacou nos Estados Unidos e marcou profundamente uma sociedade que até tem estados inteiros controlados por comunidades onde isso é prática corrente. Hard Candy é um filme sobre a pedofilia, mas por isso mesmo, é um tiro de pólvora seca.
Hayley, ou lá como a rapariga prefere ser chamada, é transformada numa super-heroina, numa justiceira dos jovens indefesos. Jeff é demonizado como o mais impiedoso e brutal dos pedófilos. A partir do momento em que as apresentações são feitas - demasiado cedo sublinhe-se - o filme está definitivamente estragado. Nem é pelo facto do realizador David Slade tomar claramente o partido da justiceira (compreensivel). É pela construção de toda a história.
Se Jeff é pedófilo (e o mais provável é que seja) isso é muito mal explicado. É um fotógrafo, sim. Gosta de "teclar" com raparigas mais novas na net? Também. Mas tudo o resto, todas as acusações feitas por Hayley qual promotora da justiça precoce, nunca são exibidas. E quando um realizador explora uma história destas tem de mostrar os dois lados. A justiceira Hailey - preparada para tudo, qual Batman adolescente - cedo se percebe, tem contas a ajustar com este homem. E cedo se percebe também que são contas que não iremos nunca conhecer bem. Ora não se podem fazer juizos de valor sem ouvir as duas partes. O amadorismo convencional e militante de David Slade castrou essa oportunidade de inicio. O que faz logo de Hard Candy um filme insuportável à partida.

Claro que há aspectos positivos no filme. O desempenho maturissimo de Ellen Page como Hayley é do melhor que se tem visto numa actriz tão nova. Pode até ter 19 anos mas é convincente com uma adolescente à procura de respostas. Claro que não ajuda ter uma personagem totalmente psicótica e sem ponta por onde se lhe pegue, mas a entoação dada e a postura é de actriz, disso não há qualquer dúvida. Tal como Patrick Wilson, que tem aqui o seu mais sólido desempenho e que é a alma do filme, pelo sofrimento que consegue transparecer em vários momentos do filme. O elenco a dois - praticamente já que há ainda Sandra Oh e Odessa Ray que aparecem durante alguns instantes - é uma solução interessane, especialmente para filmes de grande tensão psicológica e emocional. Num espaço reduzido e com apenas duas personagens Slade consegue de facto relembrar a intensidade dramática de um clássico de Lang ou Hitchock. Mas só na forma, já que o conteudo é demasiado sofrivel para aguentar tamanha herança.

Para os que gostam de experiências perturbadoras, Hard Candy é a aposta certa. Mas para se gostar de um filme como este é preciso gostar-se mais da forma do que do contéudo, da encenação espalhafatosa e pretenciosa, até porque o argumento tem mais buracos que um queijo suiço. Quem gosta de cenas fortes e intensas pode gostar de Hard Candy. Quem gosta de cenas bem construidas provavelmente vai querer sair a meio. Um filme capaz de despertar ódios e paixões, Hard Candy está longe de ser uma fábula em tons noir. É uma história de vingança implacável por uma adolescente que de teen não tem nada contra um homem que de pedófilo tem pouco.
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O Melhor - O desempenho da dupla de actores Ellen Page-Patrick Wilson.
O Pior - As falhas assustadoras do guião.
Curiosidade - O titulo do filme resulta de um termo utilizado na internet para classificar raparigas menores que frequentam chats de adultos.
Site Oficial - hardcandymovie.com
Realizador - David Slade
Elenco - Ellen Page, Patrick Wilson, Sandra Oh
Produção - Lions Gate
Classificação - m/16
Duração - 103 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:35 PM | Comentários (0)
junho 01, 2006
The Other Half - A Tribo do Futebol
Peguem em Portugal, colorido de bandeiras a tresandar a futebol e juntem um inglês fanático que esperou a vida toda para ver a selecção inglesa jogar. Agora juntem-lhe uma mulher norte-americana, que não vai à bola com o desporto-rei e que acha que veio para o nosso país passar a lua de mel. Estão aqui os ingredientes para este desafio inesquecivel, uma autêntica final com 98 minutos de muito humor e um estranho sentimento de proximidade.
Afinal o cenário é Portugal durante o 2004 e tudo nos parece familiar.
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O jogo tem todos os condimentos de uma grande partida. Há um treinador, versão consciência, sempre com uma táctica para cada situação de jogo vivido pelo sempre fabuloso Vinnie Jones. E claro, jogo que é jogo tem de ter os seus bitaites. Para isso há dois comentadores excêntricos, como todo o comentador deve ser, tão disparatados como a história em si, mas sempre prontos a fazer a análise do jogo. E claro, duas equipas equilibradas e com desejos diferentes, mas cuja a vitória é o objectivo absoluto.
O desempenho da troupe de actores é hilariante e realista, o retrato de Portugal é caricato mas que não envergonha ninguém, e tal como uma final do Mundial que se avizinha, há altos e baixos, mas sempre envoltos em grande emoção.

O final, já se está a ver, é um empate, até porque no casamento ninguém ganha e ninguém perde. Mas o que fica pelo meio é hilariante, especialmente na primeira metade do filme, e nos minutos finais. O que fica a perder é a clara falta de meios que impediu a produção de conseguir imagens dos jogos em questão, substituindos por animações que apesar de terem o seu charme, fogem completamente ao espirito da história. Há pontos fracos no guião, as o filme tem um ritmo muito próprio, que ora acelera, ora trava de repente.
Mesmo assim, depois dos 90 minutos (aqui são 98, somem-lhe os descontos), o empata agrada a gregos a troianos, e traz uma boa imagem de Portugal lá fora, e uma boa comédia para se ver, cá dentro.
Criado com poucos meios mas com um grande sentido de imaginação, The Other Half era o filme que faltava sobre o futebol. Não é sobre o jogo, sobre as vedetas. É sobre aqueles que fazem do futebol o desporto-rei: os adeptos apaixonados, a tribo do futebol.
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O Melhor - A ideia.
O Pior - A falta de orçamento para ir mais além.
Curiosidade - A produção não conseguiu autorização da UEFA para filmar dentro dos estádios e teve de optar por animações imaginativas.
Site Oficial - www.piperfilms.co.uk/the_other_half/index2.html
Realizador: Marlowe Fawcett e Richard Nockles
Elenco: Danny Dyer, Gillian Kearney e Vinnie Jones
Produtora - Momentum PicturesClassificação - m/12
Duração : 98 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:51 AM | Comentários (1)
maio 19, 2006
The Da Vinci Code - O Código Estilhaçado
Quanto mais alto se sobe, maior é a queda. A expectativa à volta de Da Vinci Code era altissima. Afinal, esta era a adaptação do grande best-seller dos últimos anos, um livro que tinha tanto de polémico como de cinematográfico. Em duas horas e meia Ron Howard fez de tudo para destruir a mensagem e o ritmo apaixonante do livro. Criou um dos filmes mais chatos e inconsequentes da história. E confirmou o seu estatuto de realizador sem imaginação. No final, Howard não descodificou o código...estilhaçou-o!
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É dificil perceber porque é que um livro perfeitamente cinematográfico tem de ser alterado quando adaptado para o cinema. A resposta é uma: Ron Howard.
Incapaz de ter uma boa ideia cinematográfica (os flashback e os elementos de apoio às explicações de Langdon e Teabing são anedótico para não dizer mais), Ron Howard teve o condão de destruir uma adaptação extremamente promissora. E nem foi só a abordagem politicamente correcta onde a Opus Dei se transforma em vitima de um lunático, e onde a ideia defendida por Brown parece mil vezes mais inverosímel do que no livro do autor. Foi a forma como Howard destruiu por completo a personagem central da história, Robert Langdon, e com ele toda a ideia do filme. Se Langdon (um action hero à Indiana Jones com o intelecto de um Orson Welles) tem menos falas do que alguns elementos do elenco, a questão torna-se obrigatória: no que estava Howard a pensar?
Nem Tom Hanks - um dos melhores actores da história do cinema, apesar do que se vai dizendo - consegue fazer milagres com uma personagem assim. Não foi o penteado ridiculo de Hanks ou o seu ar de americano tipico que tornou Langdon o seu pior desempenho de sempre. Foi a forma como Howard olhou para a história, numa especie de corrida contra o tempo onde se acelera, do primeiro ao último minuto, sem se dar qualquer tempo para desenvolver personagens, situações e para que o espectador seja envolvido pela dimensão sobrehumana da narrativa. Quando isso acontece, nem o melhor livro sobrevive. Foi o que aconteceu.

É dificil falar do filme sem dar pistas da história, e como o Hollywood não faz spoilers e há muitos certamente que irão ver o filme e não leram o livro, a situação torna-se dificil explicar. Mas imagem esta situação. Um livro tem uma premissa que é desrespeitada, um ritmo atropelado, e algumas invenções de Akiva Goldsmith sem sentido. Só isso já seria suficiente para perceberem o que foi feito a Da Vinci Code. Há sequências inanarráveis de tão más que são, e falas totalmente despropositadas quando não há um sólido contexto por trás - como acontece, e brilhantemente, com o livro. As personagens no livro já não são muito desenvolvidas - afinal o ritmo da história, um dia, não permite grandes deambulações e, teoricamente, Langdon já era conhecido dos leitores - mas no filme atingem limites que explicam as gargalhadas em Cannes ou os suspiros de desencanto dos espectadores portugueses que viram o filme em ante-estreia. O elenco, tão criticado, acabou por ser a principal vitima de Howard. Tom Hanks em piloto automático é irritante, Audrey Tatou é a escolha mais disparatada de sempre para um papel com a importância dramática que tem Sophie Nevau, e claro, Jean Reno e Alfred Molina são escolhidos não tanto pelas personagens, mas por serem, francês e hispânico nomeadamente, o que continua a mostrar que Hollywood prefere o aspecto à essência.
Salvam-se Ian McKellan e Paul Bettany. O primeiro é o único que consegue dar dimensão à sua personalidade, misturando a habitual fleuma britânica com a própria essência dúbia de Leigh Teabing, o lado mais culto e snob da personagem vivida por Sean Connery em Indiana Jones and the Last Cruzade. Quanto a Paul Bettany o que impressiona é a transformação do actor - um dos mais constantes e promissores actores britânicos da actualidade - capaz de fazer do seu Silas uma personagem realmente perturbada e assustadora, talvez a menos apunhalada por Goldsmith e Howard na adaptação.

Vazio, oco, sem ideias. Da Vinci Code é tudo isso e muito mais, infelizmente. É um desperdicio de tempo e dinheiro. É um passo em falso brutal na carreira de Ron Howard, o senhor "certinho" que raramente consegue fugir de uma mediania confrangedora (Cinderella Man e Apollo 13 serão as excepções). É uma mossa no nome de Dan Brown, que ficará sempre mal visto por aqueles que viram o filme e não leram o livro (ainda são muitos, apesar de tudo). E é a perda de uma óptima oportunidade de fazer cinema - bom cinema - a partir de literatura - boa literatura - escrita também já a pensar na adaptação. No final perdemos todos. Quem diria que o livro mais provocante e fascinante dos últimos anos iria dar origem ao mais chato filme made in Hollywood em muito tempo.
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O Melhor - Sir Ian McKellan e Paul Bettany. Duas excepções num mar de mediania confrangedora.
O Pior - A adaptação de Goldsmith e a fraquissima realização de Howard.
Curiosidade - A produção conseguiu os direitos de filmar nos locais centrais da trama como o Louvre, Westminster e Roslyn.
Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/thedavincicode
Realizador - Ron Howard
Elenco - Tom Hanks, Audrey Tatou, Ian McKellan, ...
Produtora - Columbia
Duração - 149 m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:11 PM | Comentários (4)
maio 18, 2006
The Matador - O Anti-Bond
O timing de The Matador é fulcral para se apreciar devidamente o filme. Brosnan acabou de ser forçado a sair da saga que o imortalizou. Surge um papel que reune os condimentos habituais de 007 mas com uma particularidade. Julian Noble é o lado negro de Bond. E se Brosnan era sedutor e captivante como o agente secreto mais famoso do mundo, a verdade é que se torna genial na pele de um assassino em crise existencial. Imperdível!
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Muito kitsch. Muito relaxado. Muito cool. Três condições essenciais para The Matador ser um filme verdadeiramente refrescante. Não genial, não brilhante, mas mesmo assim, imperdível! E tudo porque Brosnan consegue fazer de Julian Noble o mesmo que Johnny Depp fez de Jack Sparrow (claro que Sparrow será sempre Sparrow, nem vale a pena entrar por aí). Ou seja, salvar o filme através de uma transformação única que faz de uma personagem limitada a verdadeira estrela do filme. Noble é, em tudo, verdadeiramente detestável. Assassino contratado, bebada, frequentador habitual de casas de prostituição e extremamente rude, Julian Noble é alguém que qualquer um evitaria sempre. Mas o desastrado Danny Wright não teve essa sorte. E a relação de amizade que criou com Noble num dia quente da Cidade do México acabou por criar laços para uma vida. Especialmente para Julian, que apesar de todo o glamour que gosta de transmitir, é uma personagem acabada. Na profissão, onde já não consegue pressionar o gatilho, e na vida, onde está só, como sempre esteve. Uma crise existencial que, por arrasto, coloca a sua vida em perigo. Agora ele tem apenas uma pessoa que o pode ajudar. Mas estará Danny, um homem habitualmente medroso e sem grande aura de heróis, à altura da tarefa?

Richard Shepard é um nome com um fraco cartão de visita. Mas depois do sucesso de The Matador certamente que é um nome a seguir. A realização do filme é sóbria e cheia de lances geniais, sempre trabalhados de forma subtil e divertida. Desde a sequência inicial à viagem pela "caliente" Cidade do México, o filme é tratado com mestria. Não ambiciona a ser mais do que o que é, e esse pretenciosismo ausente contribui ainda mais para o seu sucesso. Filmes que querem ser mais do que são (podem ser), resultam normalmente em grandes equivocos. The Matador não é o caso.
Mas poucos terão tempo de reparar no trabalho de Shepard já que Brosnan é omnipresente. O actor irlandês - que muitos julgavam acabado depois de ter sido despachado da saga 007 - tem aqui o desempenho de uma vida. Ele que já tinha brilhado na série Remington Steele e no filme The Thomas Crown Affair, mas sempre viveu à sombra do estigma de Bond (só Connery se salvou, dez anos depois, da personagem que o marcou para sempre). As caracteristicas da personagem ajudam. O alcool, os tiques, o ambiente, tudo isso contribuiu para que Noble se torne uma personagem fascinante. Mas é a forma como Brosnan pega na personagem e lhe dá vida que é contagiante. Claro que a réplica de Greg Kinnear (o seu melhor papel desde As Good As It Gets) ajuda a evidenciar ainda mais o desempenho de Brosnan, mas só por si Brosnan vale uma visita ao filme. Ele é "o filme"!

Divertido e bem montado, The Matador é um filme perfeito para esta altura do campeonato. Solto como a Primavera, quente como o Verão, o filme é também uma pequena pérola para aqueles que aqueles que acreditam que Pierce Brosnan mais do que um actor com estilo, é um actor com talento. Resta saber se aos 53 anos não será tarde demais para o sucessor por excelência de um grande senhor chamado Sean Connery. Enquanto o tempo não responde a essa pergunta, fica The Matador para prová-lo.
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O Melhor - O desempenho fabuloso e irrepetível de Pierce Brosnan.
O Pior - Algumas debilidades técnicas de Shepard.
Curiosidade - Hope Davis filmou de The Matador enquanto estava grávida.
Site Oficial - www.miramax.com/matador
Realizador - Richard Shepard
Elenco - Pierce Brosnan, Greg Kinnear, Philip Baker-Hall, ...
Produtora - Weinstein Co.
Duração - 96 m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:19 AM | Comentários (2)
maio 10, 2006
The New World - O poeta da Utopia
The New World não é um filme para qualquer. Porque é de Terrence Malick. Porque é poesia em formato de pelicula. Mas, acima de tudo, porque é um retrato único de uma época histórica complexa e fascinante. E quem não perceber isso certamente vai passar ao lado do filme. Infelizmente...
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As primeiras imagens do filme avisam logo ao que se vai. Malick não filma actores nem personagens. Filma cenários. Filma momentos. Mais do que pesoas, filma a Natureza. Nunca isso foi tão notório como em The New World. A poesia já estava em Days of Heaven e The Thin Red Line. Mas aqui há mais do que isso. Há um relembrar constante de um paraíso perdido. De uma terra tão semelhante à Utopia de Thomas Moore, destruida pelo pior que a Humanidade tem: os homens.
O aspecto mais genial em todo o filme é a dupla visão do Novo Mundo. E aqui há dois novos mundos porque quando há dois lados de uma mesma história nunca se deve ficar apenas num dos lados da barricada. O espectador associa-se mais depressa aos colonos britânicos que desembarcam na verdejante Virginia. Para nós aquele foi sempre o Novo Mundo, os indios sempre foram os selvagens que lá viviam antes da civilização ter tratado deles, e aquele pequeno forte, imundo, onde a cobiça dos homens era maior que qualquer coisa, o berço da América. Curioso no minimo. Mas o cineasta prefere explorar o outro lado. Talvez por isso o elo de ligação do filme seja sempre Pocahontas (nunca citada com esse nome, por muito curioso que isso seja), a jovem india que é o elo, a ponte entre as civilizações dos dois lados do Oceano. Para ela o Novo Mundo são aqueles navios de estranha dimensão, aqueles seres enigmáticos, aquele Deus caído dos céus que é John Smith, e mais tarde, a estranha terra que é Inglaterra.
Aos seus inocentes e puros olhos assistimos a todos os eventos históricos que precipitaram o fim de um mundo e o inicio de um novo. Porque não há mundo novo sem se acabar com o velho, o que para o Ocidente foi o raiar de uma nova era, para as tribos indigenas foi o crepúsculo de uma civilização única. Provavelmente a única civilização que conseguiu fazer a ponte entre o Homem e a Natureza de forma quase divina.

Claro que para perceber The New World tem de se perceber o que está por trás disto tudo. Para sentir cada sorriso, lágrima, correr das águas, bradar de espadas, é preciso saber um pouco da história de cada uma destas civilizações. Do seu encontro. E do choque inevitável entre dois povos que, apesar de humanos, eram tão estranhos um ao outro como os alienigenas o são dos terrestres nos filmes de ficção-cientifica. E não é apenas Pocahontas e a sua gente. É também John Smith, o exemplo perfeito do aventureiro da época das descobertas, fascinado pela terra virgem que descobre, pelo novo mundo que lhe surge diante dos olhos, puro, tão distante da sua terra natal. Mas o desejo de continuar a navegar, a explorar novos mundos é sempre maior. A dúvida, o complexo de culpa, tudo está lá, de forma sublime e numa intensidade sempre negada que um olhar traiçoeiro não esconde. Mas como disse, Malick não se apoia em personagens, actores, pessoas. Um filme de Malick conta-se pelos planos da água a escorrer, das árvores a dançar, dos céus em fúria. E nisso The New World é sublime, desde o genérico inicial - o mais atipico e relaxante possivel - até ao último plano. E como não é de actores que Malick gosta - eles são apenas um instrumento, nada mais - pouco se nota que eles estão lá. Colin Farell - eternamente amaldiçoado pelo seu Alexandre loiro, homossexual e imaturo - vive num constante registo de contenção que dá uma aura espantosa à sua personagem, um lider em conflito consigo próprio. Christian Bale continua a sua afirmação como um actor de alto nivel com uma imensa sobriedade na forma como encara a sua simples, mas fulcral, personagem. E claro, Q´Orianka Kilcher, o rosto de um mundo que já não existe. A pureza do seu sorriso só é comparável à expressividade que traz para a sua personagem, que como já dissemos, é o elo perdido entre uma era que passou e uma que anuncia a tiro de canhão a sua chegada.

Tudo isto já era esperado de um filme de Malick, e nisso The New World não desilude. Mas os cinéfilos mais atentos vão reparar que o cineasta mistério, que poucos conhecem, mostrou neste filme que uma das principais influências na sua direcção é o cineasta francês Jean-Luc Godard. Malick nouvelle-vaguiano? Sim, mais do que nunca. Não só na forma como pega na camara, mas acima de tudo como trabalha o filme na sala de montagem. Cortes abruptos, jogos com o som, sempre a apostar num som indirecto, onde a imagem e o que ouvimos não correspondem, truques que desde Le Mépris Godard sempre defendeu, e que na sua fase vertoviana explorou até ao limite. Se Malick é o Godard americano, isso já é outra questão, mas que é certamente o autor norte-americano que mais se aproxima à estética e filosofia da escola da Nouvelle Vague, isso é-o sem qualquer dúvida. The New World é por isso um filme sobre um mundo velho. Seja ele o mundo de Pocahontas, seja ele o mundo do cinema de autor. Um olhar nostálgico, com saudade...a saudade de um mundo utópico que só um poeta como Terrence Malick saberia descrever!
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O Melhor - A dimensão relaxada e poética que o cineasta faz de uma das épocas mais interessantes da história da Humanidade.
O Pior - O excesso de alguns planos e alguns dos cortes mais abruptos. Já o censurava em Godard e continuo a censurá-lo a Malick.
Curiosidade - O nome de Pocahontas nunca é citado no filme apesar da história se basear claramente na sua personagem.
Site Oficial - www.thenewworldmovie.com
Realizador - Terrence Malick
Elenco - Q´Orianka Kilcher, Colin Farrell, Christian Bale, ...
Produtora - New Line
Classificação - m/12
Duração - 135 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:43 AM | Comentários (3)
maio 05, 2006
Mission Impossible 3 - Ressuscitado
J. J. Abrams conseguiu o que era aparentemente impossível. Ressuscitou a saga Mission Impossible, que por culpa de John Woo desceu até à profundeza dos Infernos, ao mesmo tempo que conseguiu reabilitar Tom Cruise como um credivel action-hero, depois de War of the Worlds e Last Samurai não terem corrido como se previa. MI 3 levanta a fasquia alta e é claramente um forte candidato a blockbuster do ano!
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Em 1996 Brian De Palma fez o que parecia impossível. Reciclou a popular série televisiva Mission Impossible e fez dela um dos melhores filmes do ano. Intenso, cerebral, dinâmico, o primeiro MI era um filme bom, muito bom. Talvez por isso o segundo filme fosse esperado com grande expectativa. Mas John Woo mostrou não ter unhas para tocar esta guitarra. E Tom Cruise já não era o mesmo. A maior estrela de cinema do mundo desleixou-se, deixou-se levar numa versão infeliz de Ethan Hunt - a personagem que ele considera como o seu "bebé" em Hollywood - e ajudou a fazer deste um dos piores filmes de acção dos últimos anos. Por isso - e por Cruise estar ainda mais polémico, ainda mais irrascível - a expectativa à volta do terceiro filme era diferente. Havia um receio do filme não superar o anterior, ou de o fazer apenas ligeiramente. Todos os percalços nas filmagens (as mudanças de realizador, de elenco) eram um mau prenúncio.
Mas depois chegou J. J. Abrams. E nesta altura ele é o verdadeiro culpado pelo regresso em força de Ethan Hunt aos cinemas com um espantoso filme de acção a candidatar-se claramente ao rei dos blockbusters de 2006.
Não só pelas espantosas sequências de acção - com alguns exageros é certo - mas pela criação, ou melhor, recriação da personagem central da história: o agente Ethan Hunt.

Para quem foi conquistado pelo jovem Hunt do primeiro filme a imagem estilizada e ultra-cool do segundo parecia completamente despropositada. E felizmente Abrams percebeu isso. Desde o filme de De Palma que era fácil entender que o agente da IMF (Impossible Mission Force) é acima de tudo um herói humano, com pontos fracos que, se pressionados, despoletam a sua raiva como acontece com qualquer um. Não há nele nada de Bond. Ele é um homem como qualquer outro. E o enfoque deste novo filme está no homem, não no agente. Hunt agora é casado, não com a profissão mas com uma bela mulher (Michelle Monaghan, em alta depois de Kiss Kiss Bang Bang) que nada sabe sobre o seu passado. Não desistindo da sua profissão no IMF, Hunt deixou o terreno passando a treinador de jovens recrutas. A idade já pesa e a ideia de formar uma familia suplanta o desejo de acção. Tudo muda no entanto quando a sua agente de eleição (Keri Russell), aquela que ele tinha designado como a sua sucessora natural, é capturada em Berlim. O medo e o sentimento de culpa tomam conta dele e num acesso de fúria, Hunt parte de novo para o terreno. Com ele está Luther (o sempre cool Ving Rhames) companheiro de todas as lutas, e uma nova equipa composta pela chinesa Zheng e pelo divertido Declan (a rising star Jonathan Rhys-Meyers). A missão corre mal e a partir desse momento Hunt esquece tudo numa procura incessante e obsessiva do homem responsável pelo falhanço do seu regresso. Mas Hunt não é omnisciente como tantos outros herois, e acaba por cair numa teia de corrupção dentro do próprio IMF que acabará por fazer dele a presa de um temivel e sádico traficante. O resto, como todo o filme, é simplesmente explosivo e digno de ser visto.

Tom Cruise está de volta. Provavelmente não estamos perante um dos seus melhores papeis (exceptuando Jerry Maguire é a década de 80 ainda aquela que tem o melhor Cruise) mas podemos ver uma clara inversão dos seus mais recentes flops (War of the Worlds, Last Samurai, Minority Report, MI 2). Mais controlado, mais humano, mais intenso, Cruise recupera aqui a sua inocência juvenil com um toque claro de maturidade que dão a indicação clara: a estrela de Hollywood está a entrar possivelmente na sua melhor fase.
Mas este papel também diz muito ao actor. Um homem apaixonado, capaz de tudo pela mulher da sua vida, é uma imagem em tudo igual à do Cruise da vida real, capaz das maiores loucuras para provar o seu amor pela sua mais recente esposa (a 3º), a jovem Katie Holmes. Também por isso esta nova versão de Hunt é credivel. Porque sofre verdadeiramente. Porque passa por terriveis provações. E porque tem um objectivo que ao espectador comum cria uma ponte com a realidade. O herói mais cool da história do cinema de acção pode não ser Ethan Hunt, mas poucos actores conseguem criar uma dimensão bigger than life à sua personagem como Cruise faz com Hunt.
E se Cruise é a estrela omnipresente do filme - poucas são as cenas em que não aparece - Philiph Seymour-Hoffman é delicioso como vilão. Um papel pequeno mas intenso, numa transfiguração assombrosa do mais recente detentor do Óscar de Melhor Actor. Hoffman, tal como Cruise, vinga porque é credivel do primeiro ao último minuto. No momento de sofrimento como no momento de vingança. Possivelmente a mais interessante nemesis do agente do IMF, Hoffman é também um exemplo do Abrams touch no filme, essencialmente pela forma como constroi, modela e integra a sua personagem na história. Já o restante elenco exibe-se a bom nivel, vivendo bem na sombra da estrela maior da constelação de Hollywood. Billy Crudup denuncia-se muito facilmente, mas esse também não é o ponto alto do filme e por isso passa bem despercebido do público. Michelle Monaghan é sedutora e desejável q.b., começando a afirmar-se lentamente no meio, enquanto Rhys-Myers continua a afirmar-se como uma das maiores promessas do cinema britânico. E quando é assim, há pouco mais a dizer.

Girando à volta de um whodnit (a expressão criada por Hitchcock para definir o nada que engana os espectadores ao longo do filme) que nunca conseguimos descodificar, Mission Impossible 3 tem todos os condimentos para ser um grande blockbuster. Acção de altissimo nivel, humor de qualidade e muita tensão dramática. Mas o que distingue este de outros filmes do genero é o toque de Abrams, que já é bem conhecido dos amantes de Alias e Lost, duas das mais populares séries televisivas dos últimos anos. Cenas como as que são filmadas inicialmente em Xangai são a prova de que é possivel fazer um cinema de acção diferente. Ficando já a expectativa para nova parceria entre Cruise e Abrams, uma dupla que pode tornar-se imbativel com mais um ou dois filmes em cima, Mission Impossible fica como uma recomendação obrigatória para este início de Verão. Não é mais do que pretende ser, mas consegue o notável feito de ser aquilo para que foi concebido. O que já não se pode dizer de tantos filmes que vão chegando ás salas ano após ano.
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O Melhor - A realização de J. J. Abrams é sublime e a forma como Tom Cruise encara este novo desafio prova o porquê de ele ser uma das grandes estrelas de Hollywood.
O Pior - Algumas das cenas de acção estão de facto exageradas, mesmo para um blockbuster de Verão.
Curiosidade - De 2003 para cá foram três longos anos a produzir MI 3. Primeiro David Fincher, depois Joe Carnach e só agora J. J. Abrams. Três realizadores cogitados para dirigir mais um filme da saga MI, produzida, supervisionada (até ao limite) por Cruise. E para trabalhar com ele estiveram primeiro na mesa os nomes de Kenneth Branagh, Scarlett Johansson e Carrie-Anne Moss. Os atrasos na produção e os problemas pessoais com Cruise fizeram com que o elenco final contasse não com eles mas com Seymour-Hoffman, Monaghan e Russell.
Site Oficial - www.missionimpossible.com/home.html
Realizador - J. J. Abrams
Elenco - Tom Cruise, Philiph Seymour-Hoffman, Michelle Monaghan, ...
Produtora - Paramount
Classificação - m/12
Duração - 126 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:33 PM | Comentários (7)
abril 15, 2006
Inside Man - O Bom polícia e o Bom ladrão
Um heist movie, mas bem diferente do habitual. Um ritmo muito cool, nem muito pausado nem excessivamente acelarado fazem de Inside Man um dos filmes mais bem conseguidos de Spike Lee. Depois do tropeção em She Hate Me, o cineasta nova-iorquino está de volta. E ter Clive Owen e Denzel Washington no elenco também ajuda está claro...
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Inside Man tem um grave problema. Deixa muitas questões sem resposta. Quem é Dalton Russell? Qual o seu verdadeiro propósito ao assaltar o Manhatan Trust Bank? Para quem trabalha? Como soube da história dos diamantes? São questões demasiado importantes para serem deixadas de lado. E são também a única coisa que borra a tinta de um filme muito bem estruturado e com um notável argumento. Evidentemente que a falta de respostas é um calcanhar de Aquiles que destruiria qualquer filme. Mas apesar de tudo isso, Inside Man aguenta-se bem. Porque é bem construido, desde o principio, e porque não vive para ser um filme de respostas curtas e duras. Há espaço para dúvidas (o que é que Frazier faz do anel e do diamante? para onde vai Russell? O que acontece a Case?), mas cuja resposta é desnecessária. Fica ao critério de cada um. E há espaço para respirar, o que parecendo que não, ajuda a entrar no ritmo da narrativa.
Spike Lee não escreveu o guião e não fez de Inside Man uma habitual joint, como tem sido marca registada ao longo da sua carreira. Trabalhou sob as regras de uma produção de estúdio, com Gazer na produção. O que ajudou até porque este não é um filme barato. A começar pelo aparato criado à volta do assalto. E a acabar num elenco que é a alma do próprio filme.

Denzel Washington é possivelmente o actor negro mais cool do mundo. Clive Owen é, sem dúvida alguma, o actor branco mais cool do momento. Juntar os dois, frente a frente, é uma oportunidade única para qualquer amante de cinema. Inside Man providencia este encontro. Apesar do face to face ser minimo, em presença de ecrãn, o choque entre as duas personalidades é a engrenagem do filme. O frio e calculista Russell, chamemos-lhe o bom ladrão, de um lado. O intenso e romanesco detective Frazier, o eterno bom polícia, do outro. No final ambos ficam a ganhar porque ambos merecem ganhar. Há aqui qualquer coisa de idealista na visão de Lee. Os maus provavelmente serão punidos pelos crimes que a memória não esquece. E os bons serão recompensados, cada qual à sua maneira. O que fica no meio? Um plano genial - que tem equivalente talvez apenas na fuga de McQueen/Brosnan em The Thomas Crown Affair - e uma visão (mais uma) de Lee sobre a sociedade americana. Estamos na cidade dos ipods (ou seja, as pessoas fechadas sobre si mesmas), na terra onde tantas raças juntas significam acima de tudo múltiplas visões do mundo. E onde o racismo existe, continua a existir, e para Lee, provavelmente existirá sempre. A sua militância não chega ao nivel de outros filmes, mas está lá para os mais atentos. E os recados pós-11 de Setembro também. É preciso estar atento, mas Lee não descura um pormenor sequer. A América continua a sangrar e a sua camara é como um microscópio, sempre pronta a dissecar as feridas.

Inside Man podia ser mais do que é, mas deixava de ser o que Spike Lee quis que fosse. Um filme de estúdio, ou seja, divertimento garantido a valer bem o preço do bilhete, com espaço para mandar uma ou outra nota de aviso sobre o estado actual da América. Olhando assim para o filme, é fácil perceber que a aposta foi ganha. O elenco secundário (Jodie Foster de regresso e em boa forma, bom Chewitel Ejiofor, Willem Dafoe apagadissimo, Christopher Plummer a fazer de..Christopher Plummer) ajuda a criar ritmo, mas é impossivel ignorar o charme de Washington e a coragem de Owen em fazer um filme praticamente debaixo de uma máscara. A banda sonora entranha-se facilmente e a história está construida até ao minimo detalhe. Falha o final, porque tinha de ser. Quem espera um hollywood ending engana-se. Há um falso ending, que é na verdade o final mais fascinante que Lee poderia engendrar. Inside Man não está no top 5 dos filmes de Lee (25th Hour, Mo Better Blues, Malcolm X, Do the Right Thing e Summer of Sam continuam intocáveis), mas não deixa de ser uma aventura fascinante na filmografia de um dos mais irreverentes cineastas da actualidade. A ver, sem dúvida alguma.
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O Melhor - Clive e Denzel, sem dúvida alguma.
O Pior - As questões que ficam sem resposta.
Curiosidade - Esta é a quarta participação de Spike e Denzel no mesmo filme. Malcolm X, Mo Better Blues e He Got Game foram as três parcerias anteriores.
Site Oficial - www.insideman.net
Realizador - Spike Lee
Elenco - Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, ...
Produtora - Universal
Duração - 129 m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:50 PM | Comentários (16)
abril 14, 2006
Basic Instint 2: Risk Addiction - Autodestruição
Sharon Stone teve pouco a ganhar em voltar a viver a personagem que fez dela um icone sexual. Não é só o argumento de Basic Instint 2: Risk Addiction que se baseia na autodestruição de um psiquiatra. Nesta aventura, também assistimos à destruição de Catherine Trammel como personagem. E não havia necessidade!
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Em 1992 Michael Douglas estava no pico da sua carreira. Tinha ganho um óscar há cinco anos e era um dos actores mais bem pagos de Hollywood. Era ele a estrela de Basic Instinct, o filme policial em tons eróticos que Paul Verhoven ia dirigir. Para contracenar com ele fizeram casting várias actrizes. No final a escolhida foi uma tal de Sharon Stone, que se tinha afirmado em filmes eróticos de pouco orçamento e dramas em quem ninguém reparava. No final do filme todos eram unânimes. A tal de Sharon Stone tinha dado um baile ao consagrado Douglas. A cena do descruzar de pernas (que ela não queria ver na versão final) confirmou o mito. Estava lançada a carreira de uma actriz.
O que era desnecessário era voltar à personagem. A Catherine Tramell do primeiro filme era uma das personagens mais eróticas e sedutoras da história do cinema. Era um icone sexual e um exercicio de representação fascinante. Destruí-la deveria ter sido a última coisa que Stone deveria ter feito. Mas embarcar numa sequela acarretava esse risco. O resultado final prova-o acima de tudo. Por muitas sequelas da sequela que possam vir a haver, a Catherine Trammel que despertou paixões já não existe. Sharon Stone é agora uma pálida imagem de si própria. E não pior coisa que fazer um filme à volta de uma personagem que já não faz qualquer sentido. As cenas de acção são fracas. As cenas de sexo métem dó. A trama é envolvente, mas muito mal explorada. Caton-Jones não é Verhoven e Stone já não é Stone.

Se Stone deu um banho a Douglas no primeiro filme, agora Morrissey dá um banho a Stone. Sem espinhas como se diz na gíria. Andando entre os registos habituais de Clive Owen e Liam Neeson - dois actores óptimos para este papel note-se - David Morrissey afirma-se como uma agradável surpresa, confirmando a teoria que na televisão britânica andam muitas pérolas por explorar. Apesar de toda a publicidade, o objecto central do filme é a sua personagem, Michael Glass. Um psicólogo amargurado por um erro no passado que se deixa levar na teia de dúvidas e suspeições lançadas pela mortal Trammel. Um homem controlado que perde todo o controlo e acaba nas mãos da sedutora escritora, como um boneco de cordas. A autodestruição de Glass é a dinâmica do próprio filme. Trammel está lá apenas para comandar, à distância, todo o processo. Também aí o filme peca por não trabalhar uma dinâmica em dois tons. O primeiro filme jogava no choque. Este joga na exploração do interior de uma só personagem. Um erro fatal que desiquilibra a narrativa de uma forma exagerada, até porque a personagem de Glass, por muito fascinante que seja, não é motivo por si só para ser a razão de uma história. Era preciso algo mais. Mas sem o sexo animalesca do primeiro filme e sem as cenas de acção e perseguição que marcaram o papel de Douglas, há aqui um claro vazio. As comparações não se devem fazer. Mas são, de facto, inevitáveis.

Caton-Jones é também um realizador irritante. O filme é numa Londres irreconhecivel, estilizada ao máximo para parecer uma cidade feita à volta de esteriótipos sexuais. Os edificios fálicos, os vibradores temáticos, a repetição constante do calão sexual, tira toda a classe que o filme poderia ter. Há aqui um despudor irritante à volta do sexo como não havia no primeiro filme. Basic Instint era um filme erótico. Este joga numa pornografia de palavras e actos que não o prestigia em nada. E por fim, é importante dizê-lo, há aqui um copy-paste de planos e ideias do primeiro filme que funciona mais como plágio do que como homenagem. A cena do cinto/picador, os olhares de Trammell, o quarto de banho das mulheres, a insinuação de bi-sexualidade, a cena de sexo violenta do personagem masculino com uma personagem secundária a pensar, inevitavelmente, em Trammel. São demasiadas coincidências. É pura e simplesmente, falta de ideias. Como tudo em Basic Instinct 2. Um filme que poderia ser aturado de forma razóavel não violasse por completo uma história que faz parte da própria magia do cinema. E essa autodestruição é imperdoável!
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O Melhor - A segurança de David Morrissey. O actor de televisão é novato nestas andanças mas quem dá show neste filme é ele.
O Pior - Passados catorze anos Sharon Stone não é a mesma. Mas Catherine Trammel mudou pouco. A forma já não liga bem com o conteúdo e o filme perde-se logo aí. A idade nota-se, e bem!
Curiosidade - Kevin Franks, a primeira vitima de Trammel, não é nem mais nem menos do que o futebolista Stanley Collymore, avançado do Liverpool, Aston Villa e da selecção britânica durante os anos 90. As capas dos jornais no dia seguitne à sua morte utilizam imagens reis do jogador.
Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/basicinstinct2
Realizador - Michael Caton-Jones
Elenco - Sharon Stone, David Morrissey, David Thewlis, ...
Produtora - Sony Pictures
Classificação - m/16
Duração - 114 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:48 AM | Comentários (14)
abril 11, 2006
Ice Age 2: The Meltdown - Delirio pré-histórico!
Depois do sucesso do primeiro filme, é sempre díficil para qualquer filme de animação conseguir uma sequela que iguale ou supere o filme original. Ainda não é desta que isso acontece, mas mesmo assim Ice Age 2 entra no espírito de humor e diversão do primeiro filme, sem deixar de ter um charme muito próprio.
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A Fox tem sabido intrometer-se pontualmente na guerra Pixar-Dreamworks (onde a Disney vai aparecendo pontualmente) que tem marcado o cinema de animação da última meia dúzia de anos. Nas bilheteiras o filme superou o sucesso de Ice Age, a hilariante história de um tigre dentes de sabre, um mamute e uma preguiça que salvam o último bebé humano quando começa a Idade do Gelo. Desrespeitando por completo qualquer evolução histórica - o que torna o filme ainda mais divertido - vamos encontrar os animais pré-históricos a curtirem a época glaciar num imenso vale. Mas um dia alguém anuncia o fim do mundo. Ninguém queria acreditar, mas quando Manny, Diego e Sid descobrem que de facto, o gelo está a derreter por completo e o vale está ameaçado, a debandada é geral. O objectivo é encontrar um mitico barco que se encontra do outro lado do vale. A metáfora da arca de Noé funciona bastante bem, mas é a viagem em si que diverte por completo o espectador.

Depois da fuga dos animais a nossa viagem faz-se com Diego, Manny e Sid, o trio insperável. Quando eles descobrem uma família muito estranha. Essa família é também o garante de que os mamutes não se extinguiram, algo que preocuva Manny desde que ele percebera que não via ninguém da sua raça há muito tempo. Mas se Manny se preocupa com o futuro da sua raça, Sid tem de superar o facto de ser o alvo de chacota de todos os animais pré-históricos, enquanto que Diego vai superar a fobia de todos os tigres dentes de sabre: a água.
No final tudo fica bem quando acaba bem, e o espectador não se pode queixar. Os momentos musicais e o humor são de altissima qualidade, a narrativa é fluída, apesar de não ser perfeita. Mesmo assim consegue convencer o mais céptico dos cépticos.

No entanto tudo isto seria irrelevante se não fosse por Scrat. O tigre dentes de sabre é, só por si, digno de um filme. Os clips da sua perseguição constante pela última bolota à face da terra são simplesmente geniais. Humor negro da mais alta qualidade naquelas que são, indubitavelmente, as melhores cenas do filme.
O que não é uma critica a Ice Age. É claro que o trabalho de Carlos Saldanha não iguala o original, nem de longe nem de perto. Era dificil. O seu trunfo é não o tentar sequer. Em Ice Age 2: The Meltdown temos um filme que vale por si, como uma interessante história de amor e camaradagem que fica bem a qualquer filme infantil. Para as crianças e para os que gostam de se divertir, não há nada melhor do que um filme assim!
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O Melhor - Scrat. É simplesmente inimitável.
O Pior - Algumas falhas na narrativa.
Curiosidade - Para os mais picuinhas, a Idade do Gelo durou milhões de anos, e não meia dúzia de temporadas.
Site Oficial - www.iceagemovie.com/
Realizador - Carlos Saldanha
Vozes - John Leguizamo, Dennis Leary, Ray Romano, ...
Produtora - 20th Century Fox
Classificaçao - m/6
Duração - 91 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:39 AM | Comentários (3)
abril 07, 2006
La Tigre e la Neve - Amor em tempos de guerra
O humor de Roberto Benigni é de tal forma inocente e puro, que ás vezes parece vir directamente de um clássico de animação da Disney. Mas por detrás de tanta naturalidade, está um olhar crítica à guerra. A todas as guerras. Homenageando o mestre Almodovar e a sua obra-prima, La Tigre e la Neve é o regresso do maior comediante europeu ao seu melhor.
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Uma fábula. Um sonho. Um conto das Mil e Uma Noites. O seu jeito muito especial de contar histórias fez de Roberto Benigni uma das referências máximas do cinema europeu. Já antes da sua consagração mundial com o fabuloso La Vitta É Bella (que lhe valeu o Óscar de Melhor Actor em 1998), Benigni era um dos maiores comediantes do cinema europeu, e um dos mais inventivos e coerentes realizadores da nova vaga do cinema italiano. Il Monstro permanece uma obra-prima da comédia europeia e nem mesmo o fracasso de Pinochio (claramente uma aposta falhada) manchou uma carreira com muitos altos e pouquissimos baixos.
Daí que La Tigre e la Neve surja, de forma natural, como um dos filmes mais esperados do ano. Era o regresso de Benigni ao seu género mais habitual - a comédia tendo por base um tema sério - e voltava a reunir todos os condimentos obrigatórios na sua filmografia: uma personagem central atrapalhada, diálogos fabulosos de duplo sentido e uma atmosfera quase onírica.
Este filme é tudo isso e bastante mais. A Guerra do Iraque surge como pano de fundo de forma algo oportunista. Porque podia ser qualquer guerra em qualque lugar do mundo. Calhou ser na terra das Mil e Uma Noites. Terra de sonhos portanto. Os mesmos sonhos que o perseguem e que ele não consegue interpretar. Freud não parece ser (à primeira vista) a solução - está bem claro de se ver - mas o sonho é presença constante ao longo do filme. E afinal depois percebemos que se calhar Feud estava certo. Só que nem ele nem nos percebemos que o animal no sonho não era ela. Era ele. Ele era o tigre, o animal que estava destinado a tornar a magia do sonho, realidade, no belíssimo final deixado em aberto, mas que parece aos olhos de qualquer mortal, perfeitamente inevivável.

Attilo é um poeta, professor de poesia, e um trapalhão por natureza. E isso faz dele uma personagem fascinante, capaz de conquistar tudo e todos pela sua prestabilidade e pela dedicação com que se entrega ás causas. O seu grande problema é Vittoria, a mulher da sua vida. A mulher que dia após dia comanda os seus sonhos e por quem ele abandona tudo para salvar. É ao saber que a sua amada entrou em coma, após um atentado terrorista em Bagdade, onde estava a escrever um livro sobre Fuad, o seu amigo poeta iraquiano, que Benigni explode para um desempenho de altíssimo nível. A sua personagem em solo italiano já era divertida e jogava bem com as situações, mas era uma personagem inocente que não trazia nada de novo ao que nos habituamos a ver em Benigni. No entanto a sua ida para o Iraque traz nova vida ao filme e lança-nos para uma aventura inesquecível que é, ao mesmo tempo, uma das mais belas histórias de amor que já foram contadas.
A recriação desta história de amor, na terra das fábulas e sonhos, é surpreendente pela sua dinâmica e frescura. Benigni não faz nenhum statemente politico pró ou contra a guerra. Limita-se a ser contra todas as guerras, contra tudo o que o possa manter afastado da mulher da sua vida. Mulher essa - interpretada como é habitual por Nicholetta Braschi, a própria mulher de Benigni - que desprezamos a príncipio, por não resistir ao nosso principe encantado, mas que nos surpreende no final mais inverosimel e belo que o cineasta poderia ter filmado. Tudo isto numa dimensão humoristica da mesma situação dramática e intensamente vivida por Javier Camara e Leonor Watling em Hablan con Ella de Almodovar.

La Tigre e la Neve, que conta ainda com o sempre notável Jean Reno e ainda com um cameo de Tom Waits ao piano (que não gostaria de ter Tom Waits a cantar nos seus sonhos), é por isso uma fábula de encantar como todas deviam ser. É divertida, tem um herói que passa por mil e uma atribulações por amor à sua princesa e mexe connosco. A todos os niveis. Todos nós gostariamos de ter um pouco de poeta em nós. A coragem de um apaixonado. E o humor de um génio da comédia. Mas poucos conseguem ter estes três atributos. Para que todos se lembrem como a vida é bela - sim, a vida para este italiano é sempre bela - não há nada como ver La Tigre e La Neve. Um conto para a criança apaixonada que há dentro de cada um de nós!
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O Melhor - O humor físico de Benigni só tem equivalente aos grandes clássicos que foram Linder, Keaton e Chaplin.
O Pior - A maioria das vezes, o humor inocente de Benigni é mágico . Mas ás vezes a sua inocência limita algumas cenas.
Curiosidade - O nome da personagem de Benigni é uma homenagem ao poeta italiano Attilio Bertolucci, pai de Bernard e Giuseppe Bertolucci, que faleceu em 2000.
Site Oficial - ilmup.leonardo.it/sc_latigreelaneve.htm
Realizador - Roberto Benigni
Elenco - Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Jean Reno, ...
Produtora - Focus
Classificação - m/12
Duração - 114 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:32 PM | Comentários (19)
março 17, 2006
A History of Violence - A Mitologia da América
O mais inconvencional dos cineastas convida-nos a uma viagem pelos mitos americanos. O sonho americano salpicado de sangue, sexo e violência num retrato cru e esquizofrénico de um anti-herói surpreendente. A History of Violence é isso e muito mais. É um dos mais perfeitos filmes do "cinema de olhares".
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A History of Violence é, antes de mais, uma history da mitologia norte-americana. É, ao mesmo tempo, um filme de gangsters, um western revivalista, uma comédia negra e um filme sobre a estrutura mais básica da cinematografia norte-americana: a família.
E o mais espantoso é como Cronenberg consegue juntar todos estes elementos num só filme, e mesmo assim manter uma total coerência narrativa. É algo que se nota, este pular de género para género. Mas isso é também uma virtude porque permite uma evolução na história de John Stall, herói e anti-herói americano.
O que é Stall, no fundo, senão a própria identidade da América: esquizofrénico, com um passado negro a esconder, obrigado a mentir para manter uma falsa identidade, e que resolve os seus problemas à lei da bala, ao mesmo tempo que prega o diálogo e o respeito pelos valores da comunidade.
É esta ironia subtil que é deliciosa na evolução de A History of Violence. O argumento genial – repito, genial – de Josh Olsen, é trabalhado ao mínimo detalhe por Cronenberg. Não há aqui muito da sua cinematográfica mais convencional – que é, bastante convencional – mas o que há é claro e fácil de ver. O início e o final são possivelmente os toques mais subtis do filme. No início, porque Cronenberg brinca connosco e graças a um engenhoso exercício de montagem nos dá uma pista errada que vamos seguir durante o primeiro quarto de hora do filme. O final, porque é o final inevitável retratado da forma menos convencional possível. Com o final, encerra-se um capitulo na vida de Tom Stall, mas ao contrário do que ele está habituado, aqui é a aceitação da família que o redime, e não a sua própria atitude. O passado é perdoado, mas provavelmente não será esquecido. Cronenberg não nos deixa saber, mas pelo que vimos é impossível imaginar um happy-ending completo. As marcas desta história de violência ficaram claramente lá.

Como já tinha dito, A History of Violence é talvez um dos melhores filmes para se perceber a importância que o rosto humano tem na forma como se conta uma história em cinema. Os diálogos são fundamentais, claro está, mas há diferentes maneiras de se contar uma história. Cronenberg usa os rostos. O de Viggo Mortensen é o mais perfeito de todos. Não só porque exprime todas as emoções possíveis e imaginárias com breves e singulares esgares, como é através das suas feições que percebemos a volta de 180º que o filme dá. Não é preciso ele dizer nada – aliás, quando o diz, não é ele mesmo – mas o olhar, o sorriso, não mentem. Há muito tempo que um actor não tinha a capacidade de ser duas personagens numa só com tanta sensibilidade. Não há ninguém que não se sinta atraída por Tom Stall,