dezembro 03, 2006

Casino Royale: Diamante em Bruto é um Diamante

Estar céptico pode ser uma benção. Nada esperar, nada querer. E tudo o que vier será bom. Assim, foram muitos que preferiram nada querer com este novo e estranho Bond...e sairam da sala recompensados por isso. Mas não tanto quanto os que acreditavam que ele ia ser genial - porque esses viram a sua expectativa ser superada. E não há nada que bata isso. Parabéns aos que puseram as fichas na mesa por este Casino Royale. Sairam a ganhar em grande, porque o mito renasce e vive com surpreendente naturalidade na pele de Daniel Craig.

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Toda a gente merece um novo começo, costuma dizer-se. No entanto, às vezes a história é tão grande que a resistência a esse novo ponto de partida é enorme. Esquecer Connery, Moore, Brosnan? Impossível. Mas não é disso que se trata. Esses viverão para sempre, só temos que pôr na cabeça que vêm "depois" de Craig e que a única coisa que querem que nós esqueçamos não é outra senão essa transformação absurda de um dos agentes secretos mais smooth operator que alguma vez existiu num action-man básico e banal. Sejamos honestos, se não fosse por Pierce Brosnan, os últimos dois Bonds seriam insuportáveis. Assim, foram só maus, mas de uma forma ou de outra fizeram James perder a essência. Daniel Craig trouxe-a de volta, podem esquecer o ar de brutamontes e a cara de fundamentalista que punha bombas em Munich. Este Daniel é outro. Este Daniel é James Bond.

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Casino Royale é mesmo o que nos prometeram. Um renascer. E um renascer a extodos os níveis. Brosnan não podia fazer este papel, simplesmente era-lhe impossível. Daniel Craig não é propriamente bonito, não tem metade da classe, mas também tem o seu charme e um grande carisma. E tem algo que Brosnan não tem - um ar presunçoso, jovial e irresponsável, imprudente. É que este Bond dos primeiros dias não tem nada que ver com o Bond que conhecemos. Ele veste-se informalmente, com uma tremenda falta de estilo. É tosco, escorrega nos momentos cruciais, destrói tudo o que consegue, dispara como uma menina e mata indiscriminadamente. Movido pelo seu próprio ego, é um miúdo que chega cedo demais onde muitos nunca chegarão. Não é sarcástico nem súbtil, não é o mais inteligente dos agentes e nem sequer o mais esperto. Ou seja, não é propriamente Bond. Dele (do verdadeiro Bond) começa com poucas características - é perserverante, teimoso e consciente da sua importância. Mas durante estas duas horas e vinte e cinco minutos (!) vai crescer, vai tomar consciência dos erros, aprimorar as virtudes, sofrer as consequências.

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Craig é, portanto, uma excelente surpresa. Honestamente, depois de sair da sala não era capaz de imaginar os outros sondados no papel. Hugh Jackman sem hipótese, Goran Visnjic sem a essência, Owen sem ser ele. Não, a esolha é de facto a acertada. Craig faz mais do que lhe pedem - ele simplesmente é aquil que se espera dele. Não é forçado quando tem que ser violento (este Bond é violento, não é uma questão de tiros a distância e pescoços partidos subtilmente), não é forçado quando tem que ser sereno ou encantador. Espelha emoções como raiva, surpresa, gozo, dor e revolta com uma admirável capacidade teatral, ao estilo do teatro britânico do mais alto nível. Aliás, é mesmo essa a escola dele. Além disso, Craig é capaz de ter presença sem ser exibicionista o que lhe dá certamente a coolness necessária para ser James. E ter isso é óptimo para um homem que tem que convencer meio mundo que não está naquele lugar por acaso - mas porque o merece. Depois, tem a sorte de ter a companhia de Eva Green, sinceramente ainda mais bela neste filme que o habitual nela, mas principalmente capaz de construir uma personagem forte e essencial à caracterização gradual daquele que conhecemos como James Bond. Vesper não é uma Bond Girl tonta que simplesmente and com Bond de um lado para o outro. Ela é uma personagem secundária de extrema importância em toda a história e Green esta muito à altura do papel. Não era uma carinha bonita como Denise Richards ou uma sex symbol como Hale Berry quem iria fazer o lugar, impossível. Interessante também ver o ínicio da relação de Bond com M, onde se mantém Judi Dench, apesar de isso poder causar alguma confusão aos que já a viram com Brosnan. Enfim, das duas uma, ou se tem Casino Royale como um James Bond de facto separado dos outros ou então imagina-se que ela sempre tenha estado lá. Claro que ela não aparece nos filmes de Connery, Moore ou Dalton, mas isso resolve-se com um bocadinho de imaginação...ninguém impede M de tirar umas férias, digo eu! Mads Mikelsen é um vilão interessante, poderoso, perturbado e reservado. Não há muito mais a exigir.

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A intriga deste Casino Royale deve ter custado umas boas horas de pensamento ou então uns curtos momentos de inspiração a Ian Fleming. Apesar do muito trabalho dos argumentistas que permite arrastar a história durante tanto tempo sem causar cansaço ao espectador (bom, quase sempre), a intriga principal pertence ao criador de Bond, e é preciso dizer-se que tem o seu quê de originalidade sem ser demasiado fantasiosa. Claro que há um vilão, um vilão com uma qualquer característica física e um passado assombroso que o define, mas há também uma ideia genial na forma como se cria uma história à volta de um jogo de póquer. A emoção até ao último momento de cada rodada que o jogo tem per se espelha-se nas várias situações do filme e nos vários twists que este vai arrancando. As cenas de acção são concentradas no ínicio do filme para depois se passar a uma abordagem mais inteligente, mais súbtil. É um grande trabalho de realização e argumento ser capaz de construir um filme do 007 com mais de 30 minutos à volta de uma mesa de casino. E depois, há as cenas nunca vistas de um Bond humano, torturado, mas cada vez mais "ele". Ver para crer...

Visualmente, é um filme fantástico. Quem é que não quer passar por Praga no Inverno, por África num instante, pelo luxo nas Bahamas e depois pelo Montenegro para um banho de verde e de requinte...? Ah, e acaba em Veneza... Se isto não ajuda um filme a ser apelativo, então nada ajuda.

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Pergunto-me, honestamente, porque é que o realizador Martin Campbell não continuou com a saga depois de ter brilhado com Golden Eye? Um dos melhores filmes de James Bond desde os anos 60, a melhor trama, o melhor actor a seguir a Sean Connery. Estava tudo lá, Campbell podia ter feito história. Mas não fez, e por causa disso ( três filmes depois) teve que começar a história do ínicio. Pelo menos começou-a bem, acertando naquilo que o verdadeiro público de Bond espera e gosta. A honestidade das cenas mais sensuais, a perseguição automóvel reduzida ao mínimo indispensável, a beretta disparada apenas quando necessário, a intriga digna de um policial de nível e não uma simples desculpa para explodir casa e voar em carros...Depois, conduziu Craig ao longo do processo de transformação mais credível que esta série viu, e só por isso louva-mo-lo. A trabalhar com e para Campbell há três guionistas que sabem o que fazem, sendo que dois deles já tinham mão nos últimos dois Bond (Pervis e Wade) mas o terceiro é um homem que sabe escrever e escolher guiões...Não tivesse o ano passado ganho um Óscar com Crash à custa disso - Paul Haggis é um nome que salta a vista quando vêmos os créditos. Diz-se mesmo que Haggis foi contratado para apenas "polir" o guião mas que teve que acabar por re-escrever grande parte dele. Se é verdade, então fez muito bem. Não conseguiu, no entanto, evitar que alguns bons velhos vícios de Bond viessem a cena, como sendo acabar o filme com um edíficio inteiro a vir abaixo... Não se pode ter tudo. Depois, claro, há mais um Aston Martin a acabar desfeito. Mas enfim, um Bond que não destrói um carro não é um Bond e por aqui se vê que a mania dele em o fazer começa "de pequenino".

A produção continua a cargo da inevitável e histórica família Broccoli que já há muitos anos não abandona James, como se ele fosse um filho.

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Um diamante bruto. É de facto a expressão ideal. Bruto. E diamante. Porque nos dão a conhecer o Bond mais humano que alguma vez vimos, com muitas, muitas arestas para limar. Se não foi filmado de forma gradual, então ainda mais crédito para Daniel Craig, porque ele é realmente um senhor actor. Durante aqueles 144 minutos a mudança que se opera em James Bond, enquanto personagem, é fenomenal, fica na memória. A forma como a sua arrogância se transforma em confiança, a sua brutalidade em eficiência, a sua ingenuidade em experiência são de facto situações novas para qualquer um dos fãs. Aliás, este Bond tem um outro trunfo na manga, que é apresentar-se convenientemente a toda uma geração que nunca se sentiu ligada a ele e tem agora a opurtunidade de o acompanhar desde o ínicio.

E depois há os detalhes, o facto de James não pedir nunca um "vodka martini shaken not stirred" mas sim outras bebidas até chegar à ideal, o facto de nunca se apresentar com o clássico "Bond, James Bond" até ao verdadeiro momento em que se torna nesse mito são momentos brilhantes. Começa humano, ineficaz, e termina como o agente que conhecemos, mais incisivo, menos humano, cheio daqueles traços de uma estranha história que não conhecemos mas que o moldou definitivamente. Agora, passamos a conhecer. E nem assim ele perde o seu encanto.

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O Melhor - O renascimento de uma saga, de um mito. O nascimento e crescimento de Daniel Craig/James Bond e a confiança de que os futuros filmes podem manter o excelente nível. O dar a conhecer a uma nova geração um herói que de outra forma não lhes seria apetecível conhecer.

O Pior - Os inevitáveis tiros que nunca acertam em Bond. Nunca...

Frases: "That's good, right there. Go on. This way everyone will know you died scratching my balls." Bond
"Vodka Martini" Bond; "Shaken or stirred sir?" Empregado; "...Do I look like I care?" Bond
"The name is Bond. James Bond".

Para ver quando... quiserem. Casino Royale adequa-se a muitos estados de espírito porque tem aquilo que é mais louvável no cinema - criar um estado de espírito próprio.

Site Oficial - www.jamesbond.com

Realizador - Martin Campbell
Elenco - Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright
Produtora - MGM
Duração - 144 m
ficha completa no IMDB

Publicado por Manuel António Martins às 07:58 PM | Comentários (4)

novembro 15, 2006

Descubra as diferenças

Cinema latino com sabor americano. Ou será ao contrário? Em Children of Men, a irreverência de Alfonso Cuarón enquanto cineasta e o seu corte com os habituais padrões de Hollywood está bem patente, mas a verdade é que este é um argumento muito americanizado. Os dois géneros não se fundem, mas coexistem de forma poucas vezes vista e portadora de um significado especial
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A câmara treme. Mas treme mesmo, não dá para enganar. Para quê um tripé? Alfonso Cuarón tem mãos e faz questão de mostrar à audiência que pode muito bem segurar uma câmara. E durante bastante tempo, diga-se. Mas ele insiste, e prova que tem razão, porque passados cerca de quinze minutos o nosso cérebro já se adaptou - a custo - àquele balanço frenético.
Os primeiros frames são dedicados a uma dupla inédita mas, no mínimo, interessante. Clive Owen e Michal Caine são Theodore Faren e Jasper Palmer, dois amigos de longa data que conversam calmamente, como se não tivessem futuro. E a verdade é que não têm. A Humanidade está por um fio, as mulheres não conseguem engravidar há já 18 anos e a sociedade definha. Tranquilamente, Theo e Jasper fumam uma charro - criado por Jasper que lhe chamou "tosse de morango" - e debatem acerca de coisas que foram e que nunca mais serão. Esta conversa é seguida de perto por planos improváveis de Cuarón, que segue (literalmente) Theo para onde quer que ele vá, nem que seja so recostar-se no sofa ou estender o braço para pegar no cinzeiro. Mano a mano, a câmara está lá. Por esta altura, um espectador mais esclarecido já se apercebeu que este filme não vai ser propriamente um blockbuster de tiroteio e perseguição nem um sci-fic banal...

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Children of Men passa-se em 2027 a uns escassos 21 anos da nossa existência, portanto. Mas não deixa de ser um futuro apetecível a uma mega produção que queira candidatar-se ao Óscar de melhor guarda-roupa, desenhar uns apartamentos improváveis, toda uma organização social diferente do que conhecemos, criar carros dignos de figurar nos sonhos dos designers mais arrojados, como vimos por exemplo em I.Robot ou mesmo em Artificial Intelligence. Aqui não. Em 2027 o mais moderno que temos é um punhado de Renaults ligeiramente modificados e um Rolls Royce belíssimo mas perfeitamente actual. Mas o melhor de tudo é a carrinha amarela. Uma Citroën de 1982 com uns upgrades que são no entanto incapazes de camuflar a sua personalidade. E amámo-la por isso! De resto, nem roupa, nem edificios, nem armas, nem barcos...nada é levado "ao futuro", nada leva um hipotético espectador que nada soubesse da história a perceber que está no futuro. E a ideia é mesmo essa, porque Children of Men tem muitas mensagens escondidas. O trabalho de fotografia é muito bem feito, concedendo a história um ar ainda mais cinzento do que o habitual no Reino Unido. O objectivo, em conjunto com o cenário, é passar a ideia de que não só o Homem está em risco mas também a Terra está a morrer, fruto dos excessos irresponsáveis que cometemos ao longo de séculos.

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Quanto à história. Theodore Faren é um homem bem sucedido na vida, ocupa um cargo importante, tem amigos poderosos e consegue andar na rua e sentir-se seguro. Mas é sozinho e sombrio, de uma forma como apenas Clive Owen consegue ser, esbanjando charme mesmo com umas olheiras profundas e um semblante carregado - apesar do bom desempenho de todos os actores secundários, torna-se claro que o filme "é dele". A acção começa rapidamente. Theo é raptado por um grupo de activistas que ainda acredita que vale a pena lutar apesar de não haver futuro (literalmente, repito). O seu objectivo é conseguir condições de vida justas aos milhões de emigrantes que povoam a Grã-Bretanha e que são tratados como animais e criminosos. Essa é uma das principais mensagens de Cuarón neste filme, impossível de dizer-se sub-repticia quando vêmos Clive Owen passear na rua calmamente enquanto a polícia se esforça por manter em verdadeiras jaulas um número incontável de negros, mulatos, asiáticos, àrabes e não só. Os "Fisches", nome do grupo, são liderados por Julian Taylor (Julianne Moore), mulher que mantém uma estranha relação de confiança com Theo, e que o solta logo após ele se comprometer a ajudá-los: Theo deve arranjar um livre-trânsito para uma criança clandestina muito especial.

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É a volta desta criança que o resto do filme se desenrolará, pois ela não é outra senão aquela que pode vir a salvar a humanidade. A primeira, em 18 anos, a transportar um filho. Theo encontra a sua razão para viver, mais do que sobreviver os últimos anos que o esperam e vai empenhar-se numa cruzada solitária para salvar a vida da jovem Kee e a tão preciosa vida por ela transportada, abdicando da sua própria vida recatada e bem planeada. Para mostrar que afinal, ainda é possível um homem preocupar-se com o seu semelhante, mesmo que não saiba nada sobre ele.
São vários os twists contra os quais eles se irão defrontar, mas que certamente são capazes de deliciar e surpreender o espectador. E os detalhes pelo caminho são fenomenais, de génio em alguns momentos. Como amigo de Theo que tem a Guernica na sala de jantar ou então o carro de fuga que não pega (é um clássico reactualizado!) ou acima de tudo o facto de Theo fazer mais de uma hora de filme em havaianas - sim, as chinelas. Outros, ficam para surpresa.

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O futuro é um cenário, a "infertilidade" quase uma desculpa - nunca sequer se preocupam em explicar porquê ou como surgiu. Porque este filme é sobre o presente e tem uma clara mensagem política e social como poucas vezes se vê. Não é propaganda, não é subliminar. É como uma manifestação pacífica de milhões de pessoas ao mesmo tempo, uma marcha silenciosa pelo respeito à vida, seja ela de uma criança, de nós mesmos, dos outros ou do planeta. Children of Men não é um filme fácil. Não é imperativo amá-lo, nem sequer gostar dele. Mas é imperativo que nos faça pensar, que nos faça dar valor às coisas que consideramos imutáveis e eternas.

Classificação: fuckthestarsqw.giffuckthestarsqw.giffuckthestarsqw.gifmeia_estrelaf12q.gif
Actores:Clive Owen, Michael Caine, Julianne Moore, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam....
Género: Drama/ Thriller/ Ficção Científica
no IMDB

para ver quando..... se sentirem capazes de deixar o filme pensar convosco e contagiar-vos. Ou quando apetecer fugir um pouco ao cinema totalmente americano. Num dia de chuva.

Publicado por Manuel António Martins às 12:51 PM | Comentários (4)

outubro 03, 2006

Porque já ninguém conta histórias...

Há quem diga que o mundo tem tanto que desconhecemos que é quase insultuoso não aproveitar toda essa matéria prima e preferir a ficção. Há de facto, ainda nos nossos dias, muito que não conhecemos, mas grande parte desse "muito" não tem sequer comparação quando posto ao lado do poder da imaginação. E então quando a comparação é com a mente de um criador de fábulas dos tempos modernos, torna-se evidente que as suas criações são de uma beleza e simplicidade em pouco igualáveis pelo que existe por aí, palpável. A imaginação vence o real. A imaginação torna-se real. E não há maneira de não se querer mergullhar num mundo de sonhos como o que Shyamalan criou, uma noite, para as suas filhas.
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Lady in the Water foi uma desilusão para muitos. Alguns fãs disseram-se desapontados, perdidos na ideia que tinham idealizado para um realizador que achavam especial, ousado, estranho. Desta vez, não houve sobrenatural, não houve um constante suspense capaz de prender os olhos à tela e fazer a frequência cardíaca tão instável quanto o Médio Oriente. Desta vez, não houve uma atmosfera negra e soturna, não houve sequer metade do habitual jogo ardiloso entre sombras, som e movimento, não houve twists inimagináveis nem uma linha de acção imprevisível. Desta vez, Shyamalan foi limpinho, foi previsível, foi humano. E foi belo, acima de tudo. Porque das coisas simples nascem as coisas belas, e o realizador soube ser simples ao seu estilo.

O ínicio do filme é simplesmente fantástico. E diz-nos tudo o que precisamos saber. Geométricos desenhos de giz em tela negra contam que, "era uma vez", havia, em tempos que o Homem já esqueceu, uma grande ligação dos seres da terra com os seres da àgua e todo o mundo era mágico e harmonioso. Mas essa ligação foi quebrada, e o Homem fugiu para a sua própria solidão e ignorância, e assim tem vivido até hoje, sem se aperceber. Agora, num momento escolhido a dedo na interminável linha do tempo, está na altura de procurar o Homem e trazê-lo de volta a tudo o que ele perdeu.
E assim, aparece Story na piscina de Cleveland e a história começa.
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Brilhantemente filmado, Shyamalan mantém o dom para criar planos que não estão nos livros. Médio plano, grande plano, plano de conjunto, são totalmente ultrapassados por cenas onde tudo está desfocado, por pés a moverem-se habilmente num escadote, por reflexos nas paredes e pontos de fuga que nos fazem sentir dentro da cena. Jogos de luz e sombra, música aliada aos momentos mais incisivos, silêncios colocados de forma inteligente.
E alguns momentos em que se aproveita do facto de muitos já conhecerem o seu estilo de preparar um momento de explosão, que depois nunca acontece. A audiência acalma, e esse ponto de clímaz surge então como nova surpresa daí a alguns segundos. Outras vezes, deixa-nos adivinhar claramente o que vai acontecer, como se fossemos crianças a embrenharmo-nos na história...
De negativo, é obrigatório realçar o microfone que por mais de uma vez é apanhado dentro do campo de filme. Uma pena e dificilmente explicável para quem tanto prima pelos detalhes.
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Interpretações de nível. Mas aí surpresa seria o contário. Paul Giamatti é um "senhor actor", irrepreensível no que a encarnar diz respeito. Ele simplesmente é um empregado de condomínio, daqueles simpáticos e gorduchos que se entregam a toda a gente, que estão sempre presentes quando é preciso, que são intolerantes quando alguém quebra as regras da casa e que gostam de saber tudo o que se passa sem dar muito nas vistas. E gagueza fabulosamente, diga-se. De repente, Cleveland torna-se num herói acidental e claramente não sabe lidar com a situação. E gagueja muito bem, saliente-se.

Bryce Dallas Howard é de outro mundo. Claramente. Passa quase a totalidade do tempo com o olhar fixo, perdido no espaço e tempo, falando quase sempre mais para si própria do que para Giamatti ou o próprio Shyamalan. A caracterização está fantástica e com certeza é essencial para nos envolver na aura mágica da personagem Story, mas é a expressão facial da jovem actriz que mais nos faz querer ajudar, protegê-la. É poderosa, parece crescer em torno de Giamatti e ainda assim criar a sensação que é totalmente dependente dele. Enebriante.
Depois, é inevitável falar do papel de Shyamalan enquanto actor. Vick é uma personagem essencialmente presencial, e Shyamalan sabe-o. Já tendo aparecido em todos os seus filmes, desta vez muitos acharam que o realizador se excedera ao escolher para si um papel secundário. Vick é sem dúvida importante e até tem algumas marcas de relevo, mas não é uma personagem que fique na memória, não tanto como a chinesinha que ajuda Cleveland a desvendar a história ou o antipático novo inquilino. Simplesmente, está lá e está bem feito. Sem dar nas vistas.
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Lady in the Water é brilhante porque é tudo o que nos prometeram. "A bedtime story - by M. Night Shyamalan". Conjuga o imaginário místico do realizador com todos os cânones básico de uma boa história de dormir, de um conto da nossa infância. Um senhor que tinha uma vida simples, uma menina que precisa de ajuda, um senhor que se torna um herói acidental, um grupo de amigos estranhos, um sábio, um excênctrico, um vilão, uma força salvadora, uma linha de história com um plano perfeito que começa por falhar e uma segunda oportunidade que funciona quando o momento é o mais certo, depois de um grito de grande tensão quando toda a esperança parece perdida...
Para os que sairam desiludidos da sala de cinema há uma grande probabilidade de terem perdido aquela inocência tão especial que lhes fazia os olhos brilhar de entusiasmo e tremer de emoção escondendo-se debaixo dos cobertores. Porque todos os perigos parecem reais e todas as esperanças plausíveis. Não se questiona que a acção decorra tão rapidamente, que haja personagens tão impensáveis, que a chave para todos os mistérios seja descoberta em segundos, que todos os personagens mágicos necessários para salvar o mundo estejam reunidos no mesmo condomínio...Isso não são sequer detalhes. Porque este mundo é mágico, é único. E o que é preciso é ajudar Story a salvar-se e salvar-nos. É isso que realmente importa.

Publicado por Manuel António Martins às 02:19 PM | Comentários (7)

Porque já ninguém conta histórias...

Há quem diga que o mundo tem tanto que desconhecemos que é quase insultuoso não aproveitar toda essa matéria prima e preferir a ficção. Há de facto, ainda nos nossos dias, muito que não conhecemos, mas grande parte desse "muito" não tem sequer comparação quando posto ao lado do poder da imaginação. E então quando a comparação é com a mente de um criador de fábulas dos tempos modernos, torna-se evidente que as suas criações são de uma beleza e simplicidade em pouco igualáveis pelo que existe por aí, palpável. A imaginação vence o real. A imaginação torna-se real. E não há maneira de não se querer mergullhar num mundo de sonhos como o que Shyamalan criou, uma noite, para as suas filhas.
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Lady in the Water foi uma desilusão para muitos. Alguns fãs disseram-se desapontados, perdidos na ideia que tinham idealizado para um realizador que achavam especial, ousado, estranho. Desta vez, não houve sobrenatural, não houve um constante suspense capaz de prender os olhos à tela e fazer a frequência cardíaca tão instável quanto o Médio Oriente. Desta vez, não houve uma atmosfera negra e soturna, não houve sequer metade do habitual jogo ardiloso entre sombras, som e movimento, não houve twists inimagináveis nem uma linha de acção imprevisível. Desta vez, Shyamalan foi limpinho, foi previsível, foi humano. E foi belo, acima de tudo. Porque das coisas simples nascem as coisas belas, e o realizador soube ser simples ao seu estilo.

O ínicio do filme é simplesmente fantástico. E diz-nos tudo o que precisamos saber. Geométricos desenhos de giz em tela negra contam que, "era uma vez", havia, em tempos que o Homem já esqueceu, uma grande ligação dos seres da terra com os seres da àgua e todo o mundo era mágico e harmonioso. Mas essa ligação foi quebrada, e o Homem fugiu para a sua própria solidão e ignorância, e assim tem vivido até hoje, sem se aperceber. Agora, num momento escolhido a dedo na interminável linha do tempo, está na altura de procurar o Homem e trazê-lo de volta a tudo o que ele perdeu.
E assim, aparece Story na piscina de Cleveland e a história começa.
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Brilhantemente filmado, Shyamalan mantém o dom para criar planos que não estão nos livros. Médio plano, grande plano, plano de conjunto, são totalmente ultrapassados por cenas onde tudo está desfocado, por pés a moverem-se habilmente num escadote, por reflexos nas paredes e pontos de fuga que nos fazem sentir dentro da cena. Jogos de luz e sombra, música aliada aos momentos mais incisivos, silêncios colocados de forma inteligente.
E alguns momentos em que se aproveita do facto de muitos já conhecerem o seu estilo de preparar um momento de explosão, que depois nunca acontece. A audiência acalma, e esse ponto de clímaz surge então como nova surpresa daí a alguns segundos. Outras vezes, deixa-nos adivinhar claramente o que vai acontecer, como se fossemos crianças a embrenharmo-nos na história...
De negativo, é obrigatório realçar o microfone que por mais de uma vez é apanhado dentro do campo de filme. Uma pena e dificilmente explicável para quem tanto prima pelos detalhes.
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Interpretações de nível. Mas aí surpresa seria o contário. Paul Giamatti é um "senhor actor", irrepreensível no que a encarnar diz respeito. Ele simplesmente é um empregado de condomínio, daqueles simpáticos e gorduchos que se entregam a toda a gente, que estão sempre presentes quando é preciso, que são intolerantes quando alguém quebra as regras da casa e que gostam de saber tudo o que se passa sem dar muito nas vistas. E gagueza fabulosamente, diga-se. De repente, Cleveland torna-se num herói acidental e claramente não sabe lidar com a situação. E gagueja muito bem, saliente-se.

Bryce Dallas Howard é de outro mundo. Claramente. Passa quase a totalidade do tempo com o olhar fixo, perdido no espaço e tempo, falando quase sempre mais para si própria do que para Giamatti ou o próprio Shyamalan. A caracterização está fantástica e com certeza é essencial para nos envolver na aura mágica da personagem Story, mas é a expressão facial da jovem actriz que mais nos faz querer ajudar, protegê-la. É poderosa, parece crescer em torno de Giamatti e ainda assim criar a sensação que é totalmente dependente dele. Enebriante.
Depois, é inevitável falar do papel de Shyamalan enquanto actor. Vick é uma personagem essencialmente presencial, e Shyamalan sabe-o. Já tendo aparecido em todos os seus filmes, desta vez muitos acharam que o realizador se excedera ao escolher para si um papel secundário. Vick é sem dúvida importante e até tem algumas marcas de relevo, mas não é uma personagem que fique na memória, não tanto como a chinesinha que ajuda Cleveland a desvendar a história ou o antipático novo inquilino. Simplesmente, está lá e está bem feito. Sem dar nas vistas.
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Lady in the Water é brilhante porque é tudo o que nos prometeram. "A bedtime story - by M. Night Shyamalan". Conjuga o imaginário místico do realizador com todos os cânones básico de uma boa história de dormir, de um conto da nossa infância. Um senhor que tinha uma vida simples, uma menina que precisa de ajuda, um senhor que se torna um herói acidental, um grupo de amigos estranhos, um sábio, um excênctrico, um vilão, uma força salvadora, uma linha de história com um plano perfeito que começa por falhar e uma segunda oportunidade que funciona quando o momento é o mais certo, depois de um grito de grande tensão quando toda a esperança parece perdida...
Para os que sairam desiludidos da sala de cinema há uma grande probabilidade de terem perdido aquela inocência tão especial que lhes fazia os olhos brilhar de entusiasmo e tremer de emoção escondendo-se debaixo dos cobertores. Porque todos os perigos parecem reais e todas as esperanças plausíveis. Não se questiona que a acção decorra tão rapidamente, que haja personagens tão impensáveis, que a chave para todos os mistérios seja descoberta em segundos, que todos os personagens mágicos necessários para salvar o mundo estejam reunidos no mesmo condomínio...Isso não são sequer detalhes. Porque este mundo é mágico, é único. E o que é preciso é ajudar Story a salvar-se e salvar-nos. É isso que realmente importa.

Publicado por Manuel António Martins às 02:19 PM | Comentários (7)

julho 01, 2006

Fast and the Furious 3 : Tokyo Drift - Western em rodas

O primeiro Fast and the Furious era um filme sobre tunning que criou uma legião de fãs. Um filme bem orquestrado, rápido e eficaz. A sequela limitou-se a ser um show off à Hollywood onde se repetia a dose com mais estilo e menos eficácia. Tokyo Drift afirma-se por ser um filme diferente. Não só por ter um cenário e um novo elenco, mas por ser menos um filme de carros e mais um filme de condutores. Menos espalhafatoso, menos genial no aspecto de acção, mas mais bem construido em termos de narrativa, o terceiro Fast and the Furious é um filme agradável para um Verão cinematográfico habituado a coisas bem piores. Um filme que nos transporta para os ideais dos velhos westerns, onde os duelos são em carros e não com pistolas, e onde a Nova Fronteira não está na pradaria mas sim nas ruas de Tóquio.
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Há filmes que ficam para a história. Outros vão desaparecendo ao longo dos tempos. Curiosamente ao escrever o Cine Guia pude redescobrir muitos filmes que já nem me lembrava que existiam. Alguns que eu nem sabia que existiam mesmo. E o que é curioso é que a saga Fast and the Furious, até ao seu segundo capitulo, tinha um pouco de ambos. Enquanto o primeiro ficará na história como o primeiro filme dedicado ao fenómeno tunning - cada vez mais popular em todo o Mundo - sendo um bom filme dentro do seu género, o segundo certamente passará despercebido ao longo da história, a não ser para os admiradores de Eva Mendes ou Paul Walker.
O terceiro filme vive numa especie de limbo. Tem todos os condimentos para ficar na memória de alguns, mas corre o risco de repetir uma fórmula já batida e por isso desaparecer da face da Terra cinematográfica daqui a um ano ou dois. Um risco que a produtora correu e que só o tempo explicará. Mas a verdade é que se não há muito no filme que não tenha já sido feito - o drift tem a sua piada para quem gosta, mas é na verdade bem menos aliciante que uma corrida simples - tem na exploração das suas personagens o seu ponto forte. O que até é raro num filme do genero.
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Sean Boswell é um jovem problemático que adora correr. Mas arranjou demasiados problemas para continuar impune. É por isso forçado a ir viver para Tóquio onde o seu pai, um oficial do exército retirado, vive e trabalha, também ele longe de casa. A principio a relação entre os dois é tensa. Nenhum deles quer aquela situação. Até que Sean começa a conhecer a cidade. Os carros que vão desfilando nas concentrações em parques de estacionamento. E as mulheres. A habitual combinação carros-mulheres atrai-o para um mundo onde o crime e as corridas de automóveis, em modelo de derrapagem constante, estão associados. O respeito é para os vencedores e habitualmente os vencedores são como ele. Gabarolas, irresponsáveis e desejos de impressionar. Apesar de perceber imediatamente que está no seu mundo "versão oriental", é em Han, um jovem japonês que se torna seu amigo e mentor, que Sean procura a inspiração. Han corre, mas quando quer e não para vencer. Han está de bem com a vida, sempre relaxado com tudo e todos. Han é uma verdadeira personagem de western que encontra ali a sua nova fronteira, como ele próprio diz quando se refere a Tóquio como o seu novo México. É uma das mais interessantes personagens do ano, por tudo o que representa e pela forma como consegue mudar as rotações da história. Transforma Sean que acaba por contagiar todos à sua volta para uma reviravolta final esperada - com a sua surpresa inevitável - e repleta de acção. Mas entre o inicio bombástico e o final explosivo, Tokyo Drift aguenta-se bem como uma história de redenção bem ao velho estilo do Oeste americano.
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Com elenco renovado Tokyo Drift fugiu ao grupo predominante da saga. A tónica agora está nos adolescentes. Sean (interpretado tranquilamente e sem grande aparato por Lukas Black) chega a um mundo onde o universo é repleto de jovens da sua idade. O que também se justifica já que o fenómeno tunning se alastrou também para a comunidade adolescente. Claro que há sempre a beldade de serviço (Nathalie Kelley), o comediante (o rapper teenager Bow-Wow), o vilão (Brian Tee) e até há tempo para o mitico Sonny Chibba aparecer, numa versão de don Corleone oriental. E caro Sung Kan, o actor que realmente interpreta, já que os outros praticamente se limitam a dar corpo e voz às personagens num filme em que Justin Lin se limita a dirigir com coerência, explorando bem o potencial das coreografias de corridas, com o mesmo timing e aparato que alguns dos clássicos musicais de Hollywood e Bollywood. O pormenor do final revela que um quarto filme pode estar em linha de montagem, mas é também uma especie de homenagem ao fundador do movimento Fast and the Furious. Os apreciadores de corridas de carros vão provavelmente achar mais piada a Cars. Os amantes do tunning irão criticar a pouca dose de carros trabalhados. Os mais cépticos e criticos terão a oportunidade de ver como afinal o peso de um nome não é necessariamente algo mau. E o espectador pontual de um dia de Verão ficará agradavelmente surpreendido.

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O Melhor - A personagem Han, a lembrar um pouco os Gary Cooper´s do oeste.

O Pior - Algum surrealismo nas corridas e o habitual leque de personagens de uma dimensão.

Curiosidade - Vin Diesel estava para protagonizar o filme e apenas não o fez por questões de cachet. No final a produção dá a mão à palmatória.

Site Oficial - www.thefastandthefurious.com

Realizador - Justin Lin
Elenco - Lucas Black, Sung Kang, Bow Wow, ...
Produtora - Universal
Classificação - m/12
Duração - 98 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:37 AM | Comentários (18)

junho 30, 2006

Cars - A Nova Fábrica de sonhos

Quando a Disney se afirmou com a principal fábrica de sonhos de Hollywood, capaz de criar universos que estavam bem para lá do convencional filme para crianças, nunca ninguém pensou que essa situação mudasse. Mas há mais de uma década que a Disney não consegue estar ao nivel a que habituou o público. Felizmente o cinema de animação continuou a sua evolução natural. E agora tem uma nova fábrica de sonhos. Cars confirma o que os últimos filmes tinham antecipado. A Pixar é o estúdio número um de Hollywood!
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Não deixa de ser irónico que a Disney tenha acabado de comprar a Pixar num negócio que favorece mais o estúdio de Steven Jobs do que propriamente o grande gigante fundado nos anos 20 por Walt Disney, um dos maiores génios da história do cinema. Mas até ele ficaria orgulhoso da nova aquisição. Afinal, há sensivelmente uma década que a produção da Pixar se tem mostrado ao mesmo nivel do que acontecia com a Disney na sua era de ouro. Há a animação japonesa - a melhor para os puristas do traço do desenho na animação - há a animação em stop motion de que o delirante Wallace and Gromitt é o simbolo principal, a animação de autor como só Burton é capaz de fazer ou simplesmente a animação mais corriqueira e de traço simples que se faz um pouco por todo o mundo. Mas ninguém está ao nivel da Pixar. Em desenho, em imaginação, em humor, em personagens, momentos ou mesmo elencos. Hoje a Pixar é o estúdio mais imaginativo e produtivo de Hollywood. Numa era onde o cinema vive uma gritante falta de ideias com remakes e sequelas a torto e a direito, adaptação de tudo o que é herois de banda desenhada, são poucos os autores que sobressaem. E muito poucos os estúdios que se demarcam do marasmo geral. É dificil olhar para a Pixar e não ver ali um farol de ideias, de dinâmica, de imaginação como não há em qualquer estúdio norte-americano. E Cars é a prova. É o seguimento de uma tendência que começou com Toy Story há dez anos e que se tem afirmado, ano após ano. E como o cinema de animação não é um genero menor, longe disso, poucos poderão se orgulhar de apresentar - e basta dizer isto - um trio de pequenas grandes obras primas: Finding Nemo, The Incredibles e agora Cars. O maior filme de animação continua a ser Lion King, mas a este ritmo a Pixar um dia até isso rouba à Disney.
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Mas falemos de Cars. Um filme que vive de pequenos e deliciosos detalhes que fazem logo a diferença. Nomes, vozes, situações, pormenores que provam que a equipa de John Lasseter, Brian Bird e Steven Jobs é absolutamente genial. Cars é a história de um carro de corrida novato que está à beira de fazer história. Mas o sucesso subiu-lhe à cabeça. Como qualquer jovem estrela (e isto acontece em qualquer desporto, basta olhar para um Cristiano Ronaldo por exemplo) tornou-se egocêntrico, vaidoso e só sabe pensar em si e no seu sucesso. Um dia, enquanto seguia para a Califórnia onde ia disputar o titulo do mundo com outros dois carros (duas personagens tipo, o "rei" à beira de se retirar e o eterno segundo arrogante capaz de fazer tudo por uma vitória) tem um acidente e fica retido numa pequena vila. Uma vila que já fora um local de passagem obrigatória quando a estrada 66 estava na moda. Mas que agora é habitada por uma dezena de curiosas personagens. E, como é previsivel, a principio ele só quer sair de lá, mas no final percebe que aquela semana no meio do nada se revelou mais importante para si do que qualquer prémio. Um filme com várias licções de moral - um apanágio do cinema de animação ainda - onde a amizade, a humildade, o espirito de sacrificio e, acima de tudo, uma valorização de uma vida tranquila longe do ritmo frenético dos grandes espaços urbanos, são os valores fulcrais.
Mas, como é habitual na Pixar, tudo isso surge com naturalidade. As situações hilariantes dão vida à história, as personagens estão longe de ser esteriótipos - há mesmo uma verdadeira profundidade dramática em algumas delas - e, e isso é que é o grande trunfo - tudo aquilo acontece com carros mas poderia acontecer com pessoas. E a magia do cinema de animação passa por aí, por transportar para outros mundos metáforas do próprio comportamento humano.
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E se o cinema de animação não tem actores, a verdade é que os actores têm sido fulcrais para o sucesso da Pixar (e mesmo de outros filmes, basta lembrar-mo-nos do que faz a Dreamworks). Um filme com Paul Newman é sempre um filme com Paul Newman. Os olhos azuis mais famosos do cinema estão lá, a voz seca de um sábio que já passou por décadas de cinema e vida também. E a ironia de Newman ter sido um grande piloto e ser dono de uma das maiores equipas norte-americanas de corridas é sublime. Newman é a voz que dá realismo à história, como Owen Wilson é a voz que dá ritmo ao filme, até porque a escolha de casting é perfeita. Desde Mack, a carrinha de transporta, a Mate, o inseparável amigo, sem esquecer todos aqueles tiques e sotaques tipicos de um país que é mais do que isso, é um verdadeiro continente, fazem o filme ser mais humano do que se fosse realmente. E claro, detalhes deliciosos como um Michael Schumacher em forma de Ferrari, ou o nome repetido em unissono, McQueen, a lembrar outro apaixonado das corridas, Steve McQueen, não passa despercebido. Nada é feito ao acaso. Nem os pormenores das corridas que nos transportam para verdadeiras provas de velocidade, nem a recriação de um Monument Valley à John Ford...nada é deixado ao acaso. E é de material como este que os sonhos são feitos.

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O Melhor - Desde o guião ao desenho, das situações às personagens, sem esquecer as vozes, Cars é um filme impecável em toda a linha. Um verdadeiro topo de gama.

O Pior- A corrida não final não ser mais intensa, não haver uma ligação ainda mais forte entre Lightning e Doc no desenrolar da prova como acontecia, por exemplo, com Tom Cruise e Robert Duvall em Days of the Thunder.

Curiosidade - Várias são as vozes conhecidas que passam pelo filme de Tom Hanks a Jay Leno. Mas o toque mais genial é o aparecimento de dois campeões do Mundo de F1, Mário Andretti, um habitué do Nascar, e aquele que é muito provavelmente o maior corredor da história, Michael Schumacher, que dá voz ao belo Ferrari.

Site Oficial - disney.go.com/disneypictures/cars/

Realizador - John Lassater
Vozes - Owen Wilson, Paul Newman, Bonnie Hunt, ...
Produtora - Pixar
Classificação - m/6
Duração - 114 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:37 AM | Comentários (5)

junho 27, 2006

Hard Candy - Duro de roer

A metáfora do Capuchinho Vermelho e do Lobo Mau foi explorada até aos limites. Tentando repescar o suspense hitchockiano, David Slade procurou criar um duelo psicológico intenso. Mas a fragilidade das personagens e o amadorismo na realização acabaram por contribuir para que Hard Candy tenha sido um doce muito duro de engolir.
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Há cenas em Hard Candy que são impensáveis numa obra cinematográfica. Tentando não o ser, Hard Candy é o filme mais politicamente correcto dos últimos anos. O fantasma da pedofilia atacou nos Estados Unidos e marcou profundamente uma sociedade que até tem estados inteiros controlados por comunidades onde isso é prática corrente. Hard Candy é um filme sobre a pedofilia, mas por isso mesmo, é um tiro de pólvora seca.
Hayley, ou lá como a rapariga prefere ser chamada, é transformada numa super-heroina, numa justiceira dos jovens indefesos. Jeff é demonizado como o mais impiedoso e brutal dos pedófilos. A partir do momento em que as apresentações são feitas - demasiado cedo sublinhe-se - o filme está definitivamente estragado. Nem é pelo facto do realizador David Slade tomar claramente o partido da justiceira (compreensivel). É pela construção de toda a história.
Se Jeff é pedófilo (e o mais provável é que seja) isso é muito mal explicado. É um fotógrafo, sim. Gosta de "teclar" com raparigas mais novas na net? Também. Mas tudo o resto, todas as acusações feitas por Hayley qual promotora da justiça precoce, nunca são exibidas. E quando um realizador explora uma história destas tem de mostrar os dois lados. A justiceira Hailey - preparada para tudo, qual Batman adolescente - cedo se percebe, tem contas a ajustar com este homem. E cedo se percebe também que são contas que não iremos nunca conhecer bem. Ora não se podem fazer juizos de valor sem ouvir as duas partes. O amadorismo convencional e militante de David Slade castrou essa oportunidade de inicio. O que faz logo de Hard Candy um filme insuportável à partida.
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Claro que há aspectos positivos no filme. O desempenho maturissimo de Ellen Page como Hayley é do melhor que se tem visto numa actriz tão nova. Pode até ter 19 anos mas é convincente com uma adolescente à procura de respostas. Claro que não ajuda ter uma personagem totalmente psicótica e sem ponta por onde se lhe pegue, mas a entoação dada e a postura é de actriz, disso não há qualquer dúvida. Tal como Patrick Wilson, que tem aqui o seu mais sólido desempenho e que é a alma do filme, pelo sofrimento que consegue transparecer em vários momentos do filme. O elenco a dois - praticamente já que há ainda Sandra Oh e Odessa Ray que aparecem durante alguns instantes - é uma solução interessane, especialmente para filmes de grande tensão psicológica e emocional. Num espaço reduzido e com apenas duas personagens Slade consegue de facto relembrar a intensidade dramática de um clássico de Lang ou Hitchock. Mas só na forma, já que o conteudo é demasiado sofrivel para aguentar tamanha herança.
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Para os que gostam de experiências perturbadoras, Hard Candy é a aposta certa. Mas para se gostar de um filme como este é preciso gostar-se mais da forma do que do contéudo, da encenação espalhafatosa e pretenciosa, até porque o argumento tem mais buracos que um queijo suiço. Quem gosta de cenas fortes e intensas pode gostar de Hard Candy. Quem gosta de cenas bem construidas provavelmente vai querer sair a meio. Um filme capaz de despertar ódios e paixões, Hard Candy está longe de ser uma fábula em tons noir. É uma história de vingança implacável por uma adolescente que de teen não tem nada contra um homem que de pedófilo tem pouco.

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O Melhor - O desempenho da dupla de actores Ellen Page-Patrick Wilson.

O Pior - As falhas assustadoras do guião.

Curiosidade - O titulo do filme resulta de um termo utilizado na internet para classificar raparigas menores que frequentam chats de adultos.

Site Oficial - hardcandymovie.com

Realizador - David Slade
Elenco - Ellen Page, Patrick Wilson, Sandra Oh
Produção - Lions Gate
Classificação - m/16
Duração - 103 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:35 PM | Comentários (0)

junho 01, 2006

The Other Half - A Tribo do Futebol

Peguem em Portugal, colorido de bandeiras a tresandar a futebol e juntem um inglês fanático que esperou a vida toda para ver a selecção inglesa jogar. Agora juntem-lhe uma mulher norte-americana, que não vai à bola com o desporto-rei e que acha que veio para o nosso país passar a lua de mel. Estão aqui os ingredientes para este desafio inesquecivel, uma autêntica final com 98 minutos de muito humor e um estranho sentimento de proximidade.
Afinal o cenário é Portugal durante o 2004 e tudo nos parece familiar.
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O jogo tem todos os condimentos de uma grande partida. Há um treinador, versão consciência, sempre com uma táctica para cada situação de jogo vivido pelo sempre fabuloso Vinnie Jones. E claro, jogo que é jogo tem de ter os seus bitaites. Para isso há dois comentadores excêntricos, como todo o comentador deve ser, tão disparatados como a história em si, mas sempre prontos a fazer a análise do jogo. E claro, duas equipas equilibradas e com desejos diferentes, mas cuja a vitória é o objectivo absoluto.
O desempenho da troupe de actores é hilariante e realista, o retrato de Portugal é caricato mas que não envergonha ninguém, e tal como uma final do Mundial que se avizinha, há altos e baixos, mas sempre envoltos em grande emoção.
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O final, já se está a ver, é um empate, até porque no casamento ninguém ganha e ninguém perde. Mas o que fica pelo meio é hilariante, especialmente na primeira metade do filme, e nos minutos finais. O que fica a perder é a clara falta de meios que impediu a produção de conseguir imagens dos jogos em questão, substituindos por animações que apesar de terem o seu charme, fogem completamente ao espirito da história. Há pontos fracos no guião, as o filme tem um ritmo muito próprio, que ora acelera, ora trava de repente.
Mesmo assim, depois dos 90 minutos (aqui são 98, somem-lhe os descontos), o empata agrada a gregos a troianos, e traz uma boa imagem de Portugal lá fora, e uma boa comédia para se ver, cá dentro.
Criado com poucos meios mas com um grande sentido de imaginação, The Other Half era o filme que faltava sobre o futebol. Não é sobre o jogo, sobre as vedetas. É sobre aqueles que fazem do futebol o desporto-rei: os adeptos apaixonados, a tribo do futebol.

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O Melhor - A ideia.

O Pior - A falta de orçamento para ir mais além.

Curiosidade - A produção não conseguiu autorização da UEFA para filmar dentro dos estádios e teve de optar por animações imaginativas.

Site Oficial - www.piperfilms.co.uk/the_other_half/index2.html

Realizador: Marlowe Fawcett e Richard Nockles
Elenco: Danny Dyer, Gillian Kearney e Vinnie Jones
Produtora - Momentum PicturesClassificação - m/12
Duração : 98 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:51 AM | Comentários (1)

maio 19, 2006

The Da Vinci Code - O Código Estilhaçado

Quanto mais alto se sobe, maior é a queda. A expectativa à volta de Da Vinci Code era altissima. Afinal, esta era a adaptação do grande best-seller dos últimos anos, um livro que tinha tanto de polémico como de cinematográfico. Em duas horas e meia Ron Howard fez de tudo para destruir a mensagem e o ritmo apaixonante do livro. Criou um dos filmes mais chatos e inconsequentes da história. E confirmou o seu estatuto de realizador sem imaginação. No final, Howard não descodificou o código...estilhaçou-o!
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É dificil perceber porque é que um livro perfeitamente cinematográfico tem de ser alterado quando adaptado para o cinema. A resposta é uma: Ron Howard.
Incapaz de ter uma boa ideia cinematográfica (os flashback e os elementos de apoio às explicações de Langdon e Teabing são anedótico para não dizer mais), Ron Howard teve o condão de destruir uma adaptação extremamente promissora. E nem foi só a abordagem politicamente correcta onde a Opus Dei se transforma em vitima de um lunático, e onde a ideia defendida por Brown parece mil vezes mais inverosímel do que no livro do autor. Foi a forma como Howard destruiu por completo a personagem central da história, Robert Langdon, e com ele toda a ideia do filme. Se Langdon (um action hero à Indiana Jones com o intelecto de um Orson Welles) tem menos falas do que alguns elementos do elenco, a questão torna-se obrigatória: no que estava Howard a pensar?
Nem Tom Hanks - um dos melhores actores da história do cinema, apesar do que se vai dizendo - consegue fazer milagres com uma personagem assim. Não foi o penteado ridiculo de Hanks ou o seu ar de americano tipico que tornou Langdon o seu pior desempenho de sempre. Foi a forma como Howard olhou para a história, numa especie de corrida contra o tempo onde se acelera, do primeiro ao último minuto, sem se dar qualquer tempo para desenvolver personagens, situações e para que o espectador seja envolvido pela dimensão sobrehumana da narrativa. Quando isso acontece, nem o melhor livro sobrevive. Foi o que aconteceu.
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É dificil falar do filme sem dar pistas da história, e como o Hollywood não faz spoilers e há muitos certamente que irão ver o filme e não leram o livro, a situação torna-se dificil explicar. Mas imagem esta situação. Um livro tem uma premissa que é desrespeitada, um ritmo atropelado, e algumas invenções de Akiva Goldsmith sem sentido. Só isso já seria suficiente para perceberem o que foi feito a Da Vinci Code. Há sequências inanarráveis de tão más que são, e falas totalmente despropositadas quando não há um sólido contexto por trás - como acontece, e brilhantemente, com o livro. As personagens no livro já não são muito desenvolvidas - afinal o ritmo da história, um dia, não permite grandes deambulações e, teoricamente, Langdon já era conhecido dos leitores - mas no filme atingem limites que explicam as gargalhadas em Cannes ou os suspiros de desencanto dos espectadores portugueses que viram o filme em ante-estreia. O elenco, tão criticado, acabou por ser a principal vitima de Howard. Tom Hanks em piloto automático é irritante, Audrey Tatou é a escolha mais disparatada de sempre para um papel com a importância dramática que tem Sophie Nevau, e claro, Jean Reno e Alfred Molina são escolhidos não tanto pelas personagens, mas por serem, francês e hispânico nomeadamente, o que continua a mostrar que Hollywood prefere o aspecto à essência.
Salvam-se Ian McKellan e Paul Bettany. O primeiro é o único que consegue dar dimensão à sua personalidade, misturando a habitual fleuma britânica com a própria essência dúbia de Leigh Teabing, o lado mais culto e snob da personagem vivida por Sean Connery em Indiana Jones and the Last Cruzade. Quanto a Paul Bettany o que impressiona é a transformação do actor - um dos mais constantes e promissores actores britânicos da actualidade - capaz de fazer do seu Silas uma personagem realmente perturbada e assustadora, talvez a menos apunhalada por Goldsmith e Howard na adaptação.
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Vazio, oco, sem ideias. Da Vinci Code é tudo isso e muito mais, infelizmente. É um desperdicio de tempo e dinheiro. É um passo em falso brutal na carreira de Ron Howard, o senhor "certinho" que raramente consegue fugir de uma mediania confrangedora (Cinderella Man e Apollo 13 serão as excepções). É uma mossa no nome de Dan Brown, que ficará sempre mal visto por aqueles que viram o filme e não leram o livro (ainda são muitos, apesar de tudo). E é a perda de uma óptima oportunidade de fazer cinema - bom cinema - a partir de literatura - boa literatura - escrita também já a pensar na adaptação. No final perdemos todos. Quem diria que o livro mais provocante e fascinante dos últimos anos iria dar origem ao mais chato filme made in Hollywood em muito tempo.

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O Melhor - Sir Ian McKellan e Paul Bettany. Duas excepções num mar de mediania confrangedora.

O Pior - A adaptação de Goldsmith e a fraquissima realização de Howard.

Curiosidade - A produção conseguiu os direitos de filmar nos locais centrais da trama como o Louvre, Westminster e Roslyn.

Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/thedavincicode

Realizador - Ron Howard
Elenco - Tom Hanks, Audrey Tatou, Ian McKellan, ...
Produtora - Columbia
Duração - 149 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:11 PM | Comentários (4)

maio 18, 2006

The Matador - O Anti-Bond

O timing de The Matador é fulcral para se apreciar devidamente o filme. Brosnan acabou de ser forçado a sair da saga que o imortalizou. Surge um papel que reune os condimentos habituais de 007 mas com uma particularidade. Julian Noble é o lado negro de Bond. E se Brosnan era sedutor e captivante como o agente secreto mais famoso do mundo, a verdade é que se torna genial na pele de um assassino em crise existencial. Imperdível!
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Muito kitsch. Muito relaxado. Muito cool. Três condições essenciais para The Matador ser um filme verdadeiramente refrescante. Não genial, não brilhante, mas mesmo assim, imperdível! E tudo porque Brosnan consegue fazer de Julian Noble o mesmo que Johnny Depp fez de Jack Sparrow (claro que Sparrow será sempre Sparrow, nem vale a pena entrar por aí). Ou seja, salvar o filme através de uma transformação única que faz de uma personagem limitada a verdadeira estrela do filme. Noble é, em tudo, verdadeiramente detestável. Assassino contratado, bebada, frequentador habitual de casas de prostituição e extremamente rude, Julian Noble é alguém que qualquer um evitaria sempre. Mas o desastrado Danny Wright não teve essa sorte. E a relação de amizade que criou com Noble num dia quente da Cidade do México acabou por criar laços para uma vida. Especialmente para Julian, que apesar de todo o glamour que gosta de transmitir, é uma personagem acabada. Na profissão, onde já não consegue pressionar o gatilho, e na vida, onde está só, como sempre esteve. Uma crise existencial que, por arrasto, coloca a sua vida em perigo. Agora ele tem apenas uma pessoa que o pode ajudar. Mas estará Danny, um homem habitualmente medroso e sem grande aura de heróis, à altura da tarefa?
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Richard Shepard é um nome com um fraco cartão de visita. Mas depois do sucesso de The Matador certamente que é um nome a seguir. A realização do filme é sóbria e cheia de lances geniais, sempre trabalhados de forma subtil e divertida. Desde a sequência inicial à viagem pela "caliente" Cidade do México, o filme é tratado com mestria. Não ambiciona a ser mais do que o que é, e esse pretenciosismo ausente contribui ainda mais para o seu sucesso. Filmes que querem ser mais do que são (podem ser), resultam normalmente em grandes equivocos. The Matador não é o caso.
Mas poucos terão tempo de reparar no trabalho de Shepard já que Brosnan é omnipresente. O actor irlandês - que muitos julgavam acabado depois de ter sido despachado da saga 007 - tem aqui o desempenho de uma vida. Ele que já tinha brilhado na série Remington Steele e no filme The Thomas Crown Affair, mas sempre viveu à sombra do estigma de Bond (só Connery se salvou, dez anos depois, da personagem que o marcou para sempre). As caracteristicas da personagem ajudam. O alcool, os tiques, o ambiente, tudo isso contribuiu para que Noble se torne uma personagem fascinante. Mas é a forma como Brosnan pega na personagem e lhe dá vida que é contagiante. Claro que a réplica de Greg Kinnear (o seu melhor papel desde As Good As It Gets) ajuda a evidenciar ainda mais o desempenho de Brosnan, mas só por si Brosnan vale uma visita ao filme. Ele é "o filme"!
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Divertido e bem montado, The Matador é um filme perfeito para esta altura do campeonato. Solto como a Primavera, quente como o Verão, o filme é também uma pequena pérola para aqueles que aqueles que acreditam que Pierce Brosnan mais do que um actor com estilo, é um actor com talento. Resta saber se aos 53 anos não será tarde demais para o sucessor por excelência de um grande senhor chamado Sean Connery. Enquanto o tempo não responde a essa pergunta, fica The Matador para prová-lo.

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O Melhor - O desempenho fabuloso e irrepetível de Pierce Brosnan.

O Pior - Algumas debilidades técnicas de Shepard.

Curiosidade - Hope Davis filmou de The Matador enquanto estava grávida.

Site Oficial - www.miramax.com/matador

Realizador - Richard Shepard
Elenco - Pierce Brosnan, Greg Kinnear, Philip Baker-Hall, ...
Produtora - Weinstein Co.
Duração - 96 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:19 AM | Comentários (2)

maio 10, 2006

The New World - O poeta da Utopia

The New World não é um filme para qualquer. Porque é de Terrence Malick. Porque é poesia em formato de pelicula. Mas, acima de tudo, porque é um retrato único de uma época histórica complexa e fascinante. E quem não perceber isso certamente vai passar ao lado do filme. Infelizmente...
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As primeiras imagens do filme avisam logo ao que se vai. Malick não filma actores nem personagens. Filma cenários. Filma momentos. Mais do que pesoas, filma a Natureza. Nunca isso foi tão notório como em The New World. A poesia já estava em Days of Heaven e The Thin Red Line. Mas aqui há mais do que isso. Há um relembrar constante de um paraíso perdido. De uma terra tão semelhante à Utopia de Thomas Moore, destruida pelo pior que a Humanidade tem: os homens.
O aspecto mais genial em todo o filme é a dupla visão do Novo Mundo. E aqui há dois novos mundos porque quando há dois lados de uma mesma história nunca se deve ficar apenas num dos lados da barricada. O espectador associa-se mais depressa aos colonos britânicos que desembarcam na verdejante Virginia. Para nós aquele foi sempre o Novo Mundo, os indios sempre foram os selvagens que lá viviam antes da civilização ter tratado deles, e aquele pequeno forte, imundo, onde a cobiça dos homens era maior que qualquer coisa, o berço da América. Curioso no minimo. Mas o cineasta prefere explorar o outro lado. Talvez por isso o elo de ligação do filme seja sempre Pocahontas (nunca citada com esse nome, por muito curioso que isso seja), a jovem india que é o elo, a ponte entre as civilizações dos dois lados do Oceano. Para ela o Novo Mundo são aqueles navios de estranha dimensão, aqueles seres enigmáticos, aquele Deus caído dos céus que é John Smith, e mais tarde, a estranha terra que é Inglaterra.
Aos seus inocentes e puros olhos assistimos a todos os eventos históricos que precipitaram o fim de um mundo e o inicio de um novo. Porque não há mundo novo sem se acabar com o velho, o que para o Ocidente foi o raiar de uma nova era, para as tribos indigenas foi o crepúsculo de uma civilização única. Provavelmente a única civilização que conseguiu fazer a ponte entre o Homem e a Natureza de forma quase divina.
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Claro que para perceber The New World tem de se perceber o que está por trás disto tudo. Para sentir cada sorriso, lágrima, correr das águas, bradar de espadas, é preciso saber um pouco da história de cada uma destas civilizações. Do seu encontro. E do choque inevitável entre dois povos que, apesar de humanos, eram tão estranhos um ao outro como os alienigenas o são dos terrestres nos filmes de ficção-cientifica. E não é apenas Pocahontas e a sua gente. É também John Smith, o exemplo perfeito do aventureiro da época das descobertas, fascinado pela terra virgem que descobre, pelo novo mundo que lhe surge diante dos olhos, puro, tão distante da sua terra natal. Mas o desejo de continuar a navegar, a explorar novos mundos é sempre maior. A dúvida, o complexo de culpa, tudo está lá, de forma sublime e numa intensidade sempre negada que um olhar traiçoeiro não esconde. Mas como disse, Malick não se apoia em personagens, actores, pessoas. Um filme de Malick conta-se pelos planos da água a escorrer, das árvores a dançar, dos céus em fúria. E nisso The New World é sublime, desde o genérico inicial - o mais atipico e relaxante possivel - até ao último plano. E como não é de actores que Malick gosta - eles são apenas um instrumento, nada mais - pouco se nota que eles estão lá. Colin Farell - eternamente amaldiçoado pelo seu Alexandre loiro, homossexual e imaturo - vive num constante registo de contenção que dá uma aura espantosa à sua personagem, um lider em conflito consigo próprio. Christian Bale continua a sua afirmação como um actor de alto nivel com uma imensa sobriedade na forma como encara a sua simples, mas fulcral, personagem. E claro, Q´Orianka Kilcher, o rosto de um mundo que já não existe. A pureza do seu sorriso só é comparável à expressividade que traz para a sua personagem, que como já dissemos, é o elo perdido entre uma era que passou e uma que anuncia a tiro de canhão a sua chegada.
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Tudo isto já era esperado de um filme de Malick, e nisso The New World não desilude. Mas os cinéfilos mais atentos vão reparar que o cineasta mistério, que poucos conhecem, mostrou neste filme que uma das principais influências na sua direcção é o cineasta francês Jean-Luc Godard. Malick nouvelle-vaguiano? Sim, mais do que nunca. Não só na forma como pega na camara, mas acima de tudo como trabalha o filme na sala de montagem. Cortes abruptos, jogos com o som, sempre a apostar num som indirecto, onde a imagem e o que ouvimos não correspondem, truques que desde Le Mépris Godard sempre defendeu, e que na sua fase vertoviana explorou até ao limite. Se Malick é o Godard americano, isso já é outra questão, mas que é certamente o autor norte-americano que mais se aproxima à estética e filosofia da escola da Nouvelle Vague, isso é-o sem qualquer dúvida. The New World é por isso um filme sobre um mundo velho. Seja ele o mundo de Pocahontas, seja ele o mundo do cinema de autor. Um olhar nostálgico, com saudade...a saudade de um mundo utópico que só um poeta como Terrence Malick saberia descrever!

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O Melhor - A dimensão relaxada e poética que o cineasta faz de uma das épocas mais interessantes da história da Humanidade.

O Pior - O excesso de alguns planos e alguns dos cortes mais abruptos. Já o censurava em Godard e continuo a censurá-lo a Malick.

Curiosidade - O nome de Pocahontas nunca é citado no filme apesar da história se basear claramente na sua personagem.

Site Oficial - www.thenewworldmovie.com

Realizador - Terrence Malick
Elenco - Q´Orianka Kilcher, Colin Farrell, Christian Bale, ...
Produtora - New Line
Classificação - m/12
Duração - 135 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:43 AM | Comentários (3)

maio 05, 2006

Mission Impossible 3 - Ressuscitado

J. J. Abrams conseguiu o que era aparentemente impossível. Ressuscitou a saga Mission Impossible, que por culpa de John Woo desceu até à profundeza dos Infernos, ao mesmo tempo que conseguiu reabilitar Tom Cruise como um credivel action-hero, depois de War of the Worlds e Last Samurai não terem corrido como se previa. MI 3 levanta a fasquia alta e é claramente um forte candidato a blockbuster do ano!
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Em 1996 Brian De Palma fez o que parecia impossível. Reciclou a popular série televisiva Mission Impossible e fez dela um dos melhores filmes do ano. Intenso, cerebral, dinâmico, o primeiro MI era um filme bom, muito bom. Talvez por isso o segundo filme fosse esperado com grande expectativa. Mas John Woo mostrou não ter unhas para tocar esta guitarra. E Tom Cruise já não era o mesmo. A maior estrela de cinema do mundo desleixou-se, deixou-se levar numa versão infeliz de Ethan Hunt - a personagem que ele considera como o seu "bebé" em Hollywood - e ajudou a fazer deste um dos piores filmes de acção dos últimos anos. Por isso - e por Cruise estar ainda mais polémico, ainda mais irrascível - a expectativa à volta do terceiro filme era diferente. Havia um receio do filme não superar o anterior, ou de o fazer apenas ligeiramente. Todos os percalços nas filmagens (as mudanças de realizador, de elenco) eram um mau prenúncio.
Mas depois chegou J. J. Abrams. E nesta altura ele é o verdadeiro culpado pelo regresso em força de Ethan Hunt aos cinemas com um espantoso filme de acção a candidatar-se claramente ao rei dos blockbusters de 2006.
Não só pelas espantosas sequências de acção - com alguns exageros é certo - mas pela criação, ou melhor, recriação da personagem central da história: o agente Ethan Hunt.
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Para quem foi conquistado pelo jovem Hunt do primeiro filme a imagem estilizada e ultra-cool do segundo parecia completamente despropositada. E felizmente Abrams percebeu isso. Desde o filme de De Palma que era fácil entender que o agente da IMF (Impossible Mission Force) é acima de tudo um herói humano, com pontos fracos que, se pressionados, despoletam a sua raiva como acontece com qualquer um. Não há nele nada de Bond. Ele é um homem como qualquer outro. E o enfoque deste novo filme está no homem, não no agente. Hunt agora é casado, não com a profissão mas com uma bela mulher (Michelle Monaghan, em alta depois de Kiss Kiss Bang Bang) que nada sabe sobre o seu passado. Não desistindo da sua profissão no IMF, Hunt deixou o terreno passando a treinador de jovens recrutas. A idade já pesa e a ideia de formar uma familia suplanta o desejo de acção. Tudo muda no entanto quando a sua agente de eleição (Keri Russell), aquela que ele tinha designado como a sua sucessora natural, é capturada em Berlim. O medo e o sentimento de culpa tomam conta dele e num acesso de fúria, Hunt parte de novo para o terreno. Com ele está Luther (o sempre cool Ving Rhames) companheiro de todas as lutas, e uma nova equipa composta pela chinesa Zheng e pelo divertido Declan (a rising star Jonathan Rhys-Meyers). A missão corre mal e a partir desse momento Hunt esquece tudo numa procura incessante e obsessiva do homem responsável pelo falhanço do seu regresso. Mas Hunt não é omnisciente como tantos outros herois, e acaba por cair numa teia de corrupção dentro do próprio IMF que acabará por fazer dele a presa de um temivel e sádico traficante. O resto, como todo o filme, é simplesmente explosivo e digno de ser visto.
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Tom Cruise está de volta. Provavelmente não estamos perante um dos seus melhores papeis (exceptuando Jerry Maguire é a década de 80 ainda aquela que tem o melhor Cruise) mas podemos ver uma clara inversão dos seus mais recentes flops (War of the Worlds, Last Samurai, Minority Report, MI 2). Mais controlado, mais humano, mais intenso, Cruise recupera aqui a sua inocência juvenil com um toque claro de maturidade que dão a indicação clara: a estrela de Hollywood está a entrar possivelmente na sua melhor fase.
Mas este papel também diz muito ao actor. Um homem apaixonado, capaz de tudo pela mulher da sua vida, é uma imagem em tudo igual à do Cruise da vida real, capaz das maiores loucuras para provar o seu amor pela sua mais recente esposa (a 3º), a jovem Katie Holmes. Também por isso esta nova versão de Hunt é credivel. Porque sofre verdadeiramente. Porque passa por terriveis provações. E porque tem um objectivo que ao espectador comum cria uma ponte com a realidade. O herói mais cool da história do cinema de acção pode não ser Ethan Hunt, mas poucos actores conseguem criar uma dimensão bigger than life à sua personagem como Cruise faz com Hunt.
E se Cruise é a estrela omnipresente do filme - poucas são as cenas em que não aparece - Philiph Seymour-Hoffman é delicioso como vilão. Um papel pequeno mas intenso, numa transfiguração assombrosa do mais recente detentor do Óscar de Melhor Actor. Hoffman, tal como Cruise, vinga porque é credivel do primeiro ao último minuto. No momento de sofrimento como no momento de vingança. Possivelmente a mais interessante nemesis do agente do IMF, Hoffman é também um exemplo do Abrams touch no filme, essencialmente pela forma como constroi, modela e integra a sua personagem na história. Já o restante elenco exibe-se a bom nivel, vivendo bem na sombra da estrela maior da constelação de Hollywood. Billy Crudup denuncia-se muito facilmente, mas esse também não é o ponto alto do filme e por isso passa bem despercebido do público. Michelle Monaghan é sedutora e desejável q.b., começando a afirmar-se lentamente no meio, enquanto Rhys-Myers continua a afirmar-se como uma das maiores promessas do cinema britânico. E quando é assim, há pouco mais a dizer.
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Girando à volta de um whodnit (a expressão criada por Hitchcock para definir o nada que engana os espectadores ao longo do filme) que nunca conseguimos descodificar, Mission Impossible 3 tem todos os condimentos para ser um grande blockbuster. Acção de altissimo nivel, humor de qualidade e muita tensão dramática. Mas o que distingue este de outros filmes do genero é o toque de Abrams, que já é bem conhecido dos amantes de Alias e Lost, duas das mais populares séries televisivas dos últimos anos. Cenas como as que são filmadas inicialmente em Xangai são a prova de que é possivel fazer um cinema de acção diferente. Ficando já a expectativa para nova parceria entre Cruise e Abrams, uma dupla que pode tornar-se imbativel com mais um ou dois filmes em cima, Mission Impossible fica como uma recomendação obrigatória para este início de Verão. Não é mais do que pretende ser, mas consegue o notável feito de ser aquilo para que foi concebido. O que já não se pode dizer de tantos filmes que vão chegando ás salas ano após ano.

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O Melhor - A realização de J. J. Abrams é sublime e a forma como Tom Cruise encara este novo desafio prova o porquê de ele ser uma das grandes estrelas de Hollywood.

O Pior - Algumas das cenas de acção estão de facto exageradas, mesmo para um blockbuster de Verão.

Curiosidade - De 2003 para cá foram três longos anos a produzir MI 3. Primeiro David Fincher, depois Joe Carnach e só agora J. J. Abrams. Três realizadores cogitados para dirigir mais um filme da saga MI, produzida, supervisionada (até ao limite) por Cruise. E para trabalhar com ele estiveram primeiro na mesa os nomes de Kenneth Branagh, Scarlett Johansson e Carrie-Anne Moss. Os atrasos na produção e os problemas pessoais com Cruise fizeram com que o elenco final contasse não com eles mas com Seymour-Hoffman, Monaghan e Russell.

Site Oficial - www.missionimpossible.com/home.html

Realizador - J. J. Abrams
Elenco - Tom Cruise, Philiph Seymour-Hoffman, Michelle Monaghan, ...
Produtora - Paramount
Classificação - m/12
Duração - 126 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:33 PM | Comentários (7)

abril 15, 2006

Inside Man - O Bom polícia e o Bom ladrão

Um heist movie, mas bem diferente do habitual. Um ritmo muito cool, nem muito pausado nem excessivamente acelarado fazem de Inside Man um dos filmes mais bem conseguidos de Spike Lee. Depois do tropeção em She Hate Me, o cineasta nova-iorquino está de volta. E ter Clive Owen e Denzel Washington no elenco também ajuda está claro...
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Inside Man tem um grave problema. Deixa muitas questões sem resposta. Quem é Dalton Russell? Qual o seu verdadeiro propósito ao assaltar o Manhatan Trust Bank? Para quem trabalha? Como soube da história dos diamantes? São questões demasiado importantes para serem deixadas de lado. E são também a única coisa que borra a tinta de um filme muito bem estruturado e com um notável argumento. Evidentemente que a falta de respostas é um calcanhar de Aquiles que destruiria qualquer filme. Mas apesar de tudo isso, Inside Man aguenta-se bem. Porque é bem construido, desde o principio, e porque não vive para ser um filme de respostas curtas e duras. Há espaço para dúvidas (o que é que Frazier faz do anel e do diamante? para onde vai Russell? O que acontece a Case?), mas cuja resposta é desnecessária. Fica ao critério de cada um. E há espaço para respirar, o que parecendo que não, ajuda a entrar no ritmo da narrativa.
Spike Lee não escreveu o guião e não fez de Inside Man uma habitual joint, como tem sido marca registada ao longo da sua carreira. Trabalhou sob as regras de uma produção de estúdio, com Gazer na produção. O que ajudou até porque este não é um filme barato. A começar pelo aparato criado à volta do assalto. E a acabar num elenco que é a alma do próprio filme.
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Denzel Washington é possivelmente o actor negro mais cool do mundo. Clive Owen é, sem dúvida alguma, o actor branco mais cool do momento. Juntar os dois, frente a frente, é uma oportunidade única para qualquer amante de cinema. Inside Man providencia este encontro. Apesar do face to face ser minimo, em presença de ecrãn, o choque entre as duas personalidades é a engrenagem do filme. O frio e calculista Russell, chamemos-lhe o bom ladrão, de um lado. O intenso e romanesco detective Frazier, o eterno bom polícia, do outro. No final ambos ficam a ganhar porque ambos merecem ganhar. Há aqui qualquer coisa de idealista na visão de Lee. Os maus provavelmente serão punidos pelos crimes que a memória não esquece. E os bons serão recompensados, cada qual à sua maneira. O que fica no meio? Um plano genial - que tem equivalente talvez apenas na fuga de McQueen/Brosnan em The Thomas Crown Affair - e uma visão (mais uma) de Lee sobre a sociedade americana. Estamos na cidade dos ipods (ou seja, as pessoas fechadas sobre si mesmas), na terra onde tantas raças juntas significam acima de tudo múltiplas visões do mundo. E onde o racismo existe, continua a existir, e para Lee, provavelmente existirá sempre. A sua militância não chega ao nivel de outros filmes, mas está lá para os mais atentos. E os recados pós-11 de Setembro também. É preciso estar atento, mas Lee não descura um pormenor sequer. A América continua a sangrar e a sua camara é como um microscópio, sempre pronta a dissecar as feridas.
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Inside Man podia ser mais do que é, mas deixava de ser o que Spike Lee quis que fosse. Um filme de estúdio, ou seja, divertimento garantido a valer bem o preço do bilhete, com espaço para mandar uma ou outra nota de aviso sobre o estado actual da América. Olhando assim para o filme, é fácil perceber que a aposta foi ganha. O elenco secundário (Jodie Foster de regresso e em boa forma, bom Chewitel Ejiofor, Willem Dafoe apagadissimo, Christopher Plummer a fazer de..Christopher Plummer) ajuda a criar ritmo, mas é impossivel ignorar o charme de Washington e a coragem de Owen em fazer um filme praticamente debaixo de uma máscara. A banda sonora entranha-se facilmente e a história está construida até ao minimo detalhe. Falha o final, porque tinha de ser. Quem espera um hollywood ending engana-se. Há um falso ending, que é na verdade o final mais fascinante que Lee poderia engendrar. Inside Man não está no top 5 dos filmes de Lee (25th Hour, Mo Better Blues, Malcolm X, Do the Right Thing e Summer of Sam continuam intocáveis), mas não deixa de ser uma aventura fascinante na filmografia de um dos mais irreverentes cineastas da actualidade. A ver, sem dúvida alguma.

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O Melhor - Clive e Denzel, sem dúvida alguma.

O Pior - As questões que ficam sem resposta.

Curiosidade - Esta é a quarta participação de Spike e Denzel no mesmo filme. Malcolm X, Mo Better Blues e He Got Game foram as três parcerias anteriores.

Site Oficial - www.insideman.net

Realizador - Spike Lee
Elenco - Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, ...
Produtora - Universal
Duração - 129 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:50 PM | Comentários (16)

abril 14, 2006

Basic Instint 2: Risk Addiction - Autodestruição

Sharon Stone teve pouco a ganhar em voltar a viver a personagem que fez dela um icone sexual. Não é só o argumento de Basic Instint 2: Risk Addiction que se baseia na autodestruição de um psiquiatra. Nesta aventura, também assistimos à destruição de Catherine Trammel como personagem. E não havia necessidade!
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Em 1992 Michael Douglas estava no pico da sua carreira. Tinha ganho um óscar há cinco anos e era um dos actores mais bem pagos de Hollywood. Era ele a estrela de Basic Instinct, o filme policial em tons eróticos que Paul Verhoven ia dirigir. Para contracenar com ele fizeram casting várias actrizes. No final a escolhida foi uma tal de Sharon Stone, que se tinha afirmado em filmes eróticos de pouco orçamento e dramas em quem ninguém reparava. No final do filme todos eram unânimes. A tal de Sharon Stone tinha dado um baile ao consagrado Douglas. A cena do descruzar de pernas (que ela não queria ver na versão final) confirmou o mito. Estava lançada a carreira de uma actriz.
O que era desnecessário era voltar à personagem. A Catherine Tramell do primeiro filme era uma das personagens mais eróticas e sedutoras da história do cinema. Era um icone sexual e um exercicio de representação fascinante. Destruí-la deveria ter sido a última coisa que Stone deveria ter feito. Mas embarcar numa sequela acarretava esse risco. O resultado final prova-o acima de tudo. Por muitas sequelas da sequela que possam vir a haver, a Catherine Trammel que despertou paixões já não existe. Sharon Stone é agora uma pálida imagem de si própria. E não pior coisa que fazer um filme à volta de uma personagem que já não faz qualquer sentido. As cenas de acção são fracas. As cenas de sexo métem dó. A trama é envolvente, mas muito mal explorada. Caton-Jones não é Verhoven e Stone já não é Stone.

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Se Stone deu um banho a Douglas no primeiro filme, agora Morrissey dá um banho a Stone. Sem espinhas como se diz na gíria. Andando entre os registos habituais de Clive Owen e Liam Neeson - dois actores óptimos para este papel note-se - David Morrissey afirma-se como uma agradável surpresa, confirmando a teoria que na televisão britânica andam muitas pérolas por explorar. Apesar de toda a publicidade, o objecto central do filme é a sua personagem, Michael Glass. Um psicólogo amargurado por um erro no passado que se deixa levar na teia de dúvidas e suspeições lançadas pela mortal Trammel. Um homem controlado que perde todo o controlo e acaba nas mãos da sedutora escritora, como um boneco de cordas. A autodestruição de Glass é a dinâmica do próprio filme. Trammel está lá apenas para comandar, à distância, todo o processo. Também aí o filme peca por não trabalhar uma dinâmica em dois tons. O primeiro filme jogava no choque. Este joga na exploração do interior de uma só personagem. Um erro fatal que desiquilibra a narrativa de uma forma exagerada, até porque a personagem de Glass, por muito fascinante que seja, não é motivo por si só para ser a razão de uma história. Era preciso algo mais. Mas sem o sexo animalesca do primeiro filme e sem as cenas de acção e perseguição que marcaram o papel de Douglas, há aqui um claro vazio. As comparações não se devem fazer. Mas são, de facto, inevitáveis.

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Caton-Jones é também um realizador irritante. O filme é numa Londres irreconhecivel, estilizada ao máximo para parecer uma cidade feita à volta de esteriótipos sexuais. Os edificios fálicos, os vibradores temáticos, a repetição constante do calão sexual, tira toda a classe que o filme poderia ter. Há aqui um despudor irritante à volta do sexo como não havia no primeiro filme. Basic Instint era um filme erótico. Este joga numa pornografia de palavras e actos que não o prestigia em nada. E por fim, é importante dizê-lo, há aqui um copy-paste de planos e ideias do primeiro filme que funciona mais como plágio do que como homenagem. A cena do cinto/picador, os olhares de Trammell, o quarto de banho das mulheres, a insinuação de bi-sexualidade, a cena de sexo violenta do personagem masculino com uma personagem secundária a pensar, inevitavelmente, em Trammel. São demasiadas coincidências. É pura e simplesmente, falta de ideias. Como tudo em Basic Instinct 2. Um filme que poderia ser aturado de forma razóavel não violasse por completo uma história que faz parte da própria magia do cinema. E essa autodestruição é imperdoável!

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O Melhor - A segurança de David Morrissey. O actor de televisão é novato nestas andanças mas quem dá show neste filme é ele.

O Pior - Passados catorze anos Sharon Stone não é a mesma. Mas Catherine Trammel mudou pouco. A forma já não liga bem com o conteúdo e o filme perde-se logo aí. A idade nota-se, e bem!

Curiosidade - Kevin Franks, a primeira vitima de Trammel, não é nem mais nem menos do que o futebolista Stanley Collymore, avançado do Liverpool, Aston Villa e da selecção britânica durante os anos 90. As capas dos jornais no dia seguitne à sua morte utilizam imagens reis do jogador.

Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/basicinstinct2

Realizador - Michael Caton-Jones
Elenco - Sharon Stone, David Morrissey, David Thewlis, ...
Produtora - Sony Pictures
Classificação - m/16
Duração - 114 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:48 AM | Comentários (14)

abril 11, 2006

Ice Age 2: The Meltdown - Delirio pré-histórico!

Depois do sucesso do primeiro filme, é sempre díficil para qualquer filme de animação conseguir uma sequela que iguale ou supere o filme original. Ainda não é desta que isso acontece, mas mesmo assim Ice Age 2 entra no espírito de humor e diversão do primeiro filme, sem deixar de ter um charme muito próprio.
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A Fox tem sabido intrometer-se pontualmente na guerra Pixar-Dreamworks (onde a Disney vai aparecendo pontualmente) que tem marcado o cinema de animação da última meia dúzia de anos. Nas bilheteiras o filme superou o sucesso de Ice Age, a hilariante história de um tigre dentes de sabre, um mamute e uma preguiça que salvam o último bebé humano quando começa a Idade do Gelo. Desrespeitando por completo qualquer evolução histórica - o que torna o filme ainda mais divertido - vamos encontrar os animais pré-históricos a curtirem a época glaciar num imenso vale. Mas um dia alguém anuncia o fim do mundo. Ninguém queria acreditar, mas quando Manny, Diego e Sid descobrem que de facto, o gelo está a derreter por completo e o vale está ameaçado, a debandada é geral. O objectivo é encontrar um mitico barco que se encontra do outro lado do vale. A metáfora da arca de Noé funciona bastante bem, mas é a viagem em si que diverte por completo o espectador.
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Depois da fuga dos animais a nossa viagem faz-se com Diego, Manny e Sid, o trio insperável. Quando eles descobrem uma família muito estranha. Essa família é também o garante de que os mamutes não se extinguiram, algo que preocuva Manny desde que ele percebera que não via ninguém da sua raça há muito tempo. Mas se Manny se preocupa com o futuro da sua raça, Sid tem de superar o facto de ser o alvo de chacota de todos os animais pré-históricos, enquanto que Diego vai superar a fobia de todos os tigres dentes de sabre: a água.
No final tudo fica bem quando acaba bem, e o espectador não se pode queixar. Os momentos musicais e o humor são de altissima qualidade, a narrativa é fluída, apesar de não ser perfeita. Mesmo assim consegue convencer o mais céptico dos cépticos.
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No entanto tudo isto seria irrelevante se não fosse por Scrat. O tigre dentes de sabre é, só por si, digno de um filme. Os clips da sua perseguição constante pela última bolota à face da terra são simplesmente geniais. Humor negro da mais alta qualidade naquelas que são, indubitavelmente, as melhores cenas do filme.
O que não é uma critica a Ice Age. É claro que o trabalho de Carlos Saldanha não iguala o original, nem de longe nem de perto. Era dificil. O seu trunfo é não o tentar sequer. Em Ice Age 2: The Meltdown temos um filme que vale por si, como uma interessante história de amor e camaradagem que fica bem a qualquer filme infantil. Para as crianças e para os que gostam de se divertir, não há nada melhor do que um filme assim!

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O Melhor - Scrat. É simplesmente inimitável.

O Pior - Algumas falhas na narrativa.

Curiosidade - Para os mais picuinhas, a Idade do Gelo durou milhões de anos, e não meia dúzia de temporadas.

Site Oficial - www.iceagemovie.com/

Realizador - Carlos Saldanha
Vozes - John Leguizamo, Dennis Leary, Ray Romano, ...
Produtora - 20th Century Fox
Classificaçao - m/6
Duração - 91 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:39 AM | Comentários (3)

abril 07, 2006

La Tigre e la Neve - Amor em tempos de guerra

O humor de Roberto Benigni é de tal forma inocente e puro, que ás vezes parece vir directamente de um clássico de animação da Disney. Mas por detrás de tanta naturalidade, está um olhar crítica à guerra. A todas as guerras. Homenageando o mestre Almodovar e a sua obra-prima, La Tigre e la Neve é o regresso do maior comediante europeu ao seu melhor.
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Uma fábula. Um sonho. Um conto das Mil e Uma Noites. O seu jeito muito especial de contar histórias fez de Roberto Benigni uma das referências máximas do cinema europeu. Já antes da sua consagração mundial com o fabuloso La Vitta É Bella (que lhe valeu o Óscar de Melhor Actor em 1998), Benigni era um dos maiores comediantes do cinema europeu, e um dos mais inventivos e coerentes realizadores da nova vaga do cinema italiano. Il Monstro permanece uma obra-prima da comédia europeia e nem mesmo o fracasso de Pinochio (claramente uma aposta falhada) manchou uma carreira com muitos altos e pouquissimos baixos.
Daí que La Tigre e la Neve surja, de forma natural, como um dos filmes mais esperados do ano. Era o regresso de Benigni ao seu género mais habitual - a comédia tendo por base um tema sério - e voltava a reunir todos os condimentos obrigatórios na sua filmografia: uma personagem central atrapalhada, diálogos fabulosos de duplo sentido e uma atmosfera quase onírica.
Este filme é tudo isso e bastante mais. A Guerra do Iraque surge como pano de fundo de forma algo oportunista. Porque podia ser qualquer guerra em qualque lugar do mundo. Calhou ser na terra das Mil e Uma Noites. Terra de sonhos portanto. Os mesmos sonhos que o perseguem e que ele não consegue interpretar. Freud não parece ser (à primeira vista) a solução - está bem claro de se ver - mas o sonho é presença constante ao longo do filme. E afinal depois percebemos que se calhar Feud estava certo. Só que nem ele nem nos percebemos que o animal no sonho não era ela. Era ele. Ele era o tigre, o animal que estava destinado a tornar a magia do sonho, realidade, no belíssimo final deixado em aberto, mas que parece aos olhos de qualquer mortal, perfeitamente inevivável.
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Attilo é um poeta, professor de poesia, e um trapalhão por natureza. E isso faz dele uma personagem fascinante, capaz de conquistar tudo e todos pela sua prestabilidade e pela dedicação com que se entrega ás causas. O seu grande problema é Vittoria, a mulher da sua vida. A mulher que dia após dia comanda os seus sonhos e por quem ele abandona tudo para salvar. É ao saber que a sua amada entrou em coma, após um atentado terrorista em Bagdade, onde estava a escrever um livro sobre Fuad, o seu amigo poeta iraquiano, que Benigni explode para um desempenho de altíssimo nível. A sua personagem em solo italiano já era divertida e jogava bem com as situações, mas era uma personagem inocente que não trazia nada de novo ao que nos habituamos a ver em Benigni. No entanto a sua ida para o Iraque traz nova vida ao filme e lança-nos para uma aventura inesquecível que é, ao mesmo tempo, uma das mais belas histórias de amor que já foram contadas.
A recriação desta história de amor, na terra das fábulas e sonhos, é surpreendente pela sua dinâmica e frescura. Benigni não faz nenhum statemente politico pró ou contra a guerra. Limita-se a ser contra todas as guerras, contra tudo o que o possa manter afastado da mulher da sua vida. Mulher essa - interpretada como é habitual por Nicholetta Braschi, a própria mulher de Benigni - que desprezamos a príncipio, por não resistir ao nosso principe encantado, mas que nos surpreende no final mais inverosimel e belo que o cineasta poderia ter filmado. Tudo isto numa dimensão humoristica da mesma situação dramática e intensamente vivida por Javier Camara e Leonor Watling em Hablan con Ella de Almodovar.
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La Tigre e la Neve, que conta ainda com o sempre notável Jean Reno e ainda com um cameo de Tom Waits ao piano (que não gostaria de ter Tom Waits a cantar nos seus sonhos), é por isso uma fábula de encantar como todas deviam ser. É divertida, tem um herói que passa por mil e uma atribulações por amor à sua princesa e mexe connosco. A todos os niveis. Todos nós gostariamos de ter um pouco de poeta em nós. A coragem de um apaixonado. E o humor de um génio da comédia. Mas poucos conseguem ter estes três atributos. Para que todos se lembrem como a vida é bela - sim, a vida para este italiano é sempre bela - não há nada como ver La Tigre e La Neve. Um conto para a criança apaixonada que há dentro de cada um de nós!

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O Melhor - O humor físico de Benigni só tem equivalente aos grandes clássicos que foram Linder, Keaton e Chaplin.

O Pior - A maioria das vezes, o humor inocente de Benigni é mágico . Mas ás vezes a sua inocência limita algumas cenas.

Curiosidade - O nome da personagem de Benigni é uma homenagem ao poeta italiano Attilio Bertolucci, pai de Bernard e Giuseppe Bertolucci, que faleceu em 2000.

Site Oficial - ilmup.leonardo.it/sc_latigreelaneve.htm

Realizador - Roberto Benigni
Elenco - Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Jean Reno, ...
Produtora - Focus
Classificação - m/12
Duração - 114 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:32 PM | Comentários (19)

março 17, 2006

A History of Violence - A Mitologia da América

O mais inconvencional dos cineastas convida-nos a uma viagem pelos mitos americanos. O sonho americano salpicado de sangue, sexo e violência num retrato cru e esquizofrénico de um anti-herói surpreendente. A History of Violence é isso e muito mais. É um dos mais perfeitos filmes do "cinema de olhares".
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A History of Violence é, antes de mais, uma history da mitologia norte-americana. É, ao mesmo tempo, um filme de gangsters, um western revivalista, uma comédia negra e um filme sobre a estrutura mais básica da cinematografia norte-americana: a família.
E o mais espantoso é como Cronenberg consegue juntar todos estes elementos num só filme, e mesmo assim manter uma total coerência narrativa. É algo que se nota, este pular de género para género. Mas isso é também uma virtude porque permite uma evolução na história de John Stall, herói e anti-herói americano.
O que é Stall, no fundo, senão a própria identidade da América: esquizofrénico, com um passado negro a esconder, obrigado a mentir para manter uma falsa identidade, e que resolve os seus problemas à lei da bala, ao mesmo tempo que prega o diálogo e o respeito pelos valores da comunidade.
É esta ironia subtil que é deliciosa na evolução de A History of Violence. O argumento genial – repito, genial – de Josh Olsen, é trabalhado ao mínimo detalhe por Cronenberg. Não há aqui muito da sua cinematográfica mais convencional – que é, bastante convencional – mas o que há é claro e fácil de ver. O início e o final são possivelmente os toques mais subtis do filme. No início, porque Cronenberg brinca connosco e graças a um engenhoso exercício de montagem nos dá uma pista errada que vamos seguir durante o primeiro quarto de hora do filme. O final, porque é o final inevitável retratado da forma menos convencional possível. Com o final, encerra-se um capitulo na vida de Tom Stall, mas ao contrário do que ele está habituado, aqui é a aceitação da família que o redime, e não a sua própria atitude. O passado é perdoado, mas provavelmente não será esquecido. Cronenberg não nos deixa saber, mas pelo que vimos é impossível imaginar um happy-ending completo. As marcas desta história de violência ficaram claramente lá.
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Como já tinha dito, A History of Violence é talvez um dos melhores filmes para se perceber a importância que o rosto humano tem na forma como se conta uma história em cinema. Os diálogos são fundamentais, claro está, mas há diferentes maneiras de se contar uma história. Cronenberg usa os rostos. O de Viggo Mortensen é o mais perfeito de todos. Não só porque exprime todas as emoções possíveis e imaginárias com breves e singulares esgares, como é através das suas feições que percebemos a volta de 180º que o filme dá. Não é preciso ele dizer nada – aliás, quando o diz, não é ele mesmo – mas o olhar, o sorriso, não mentem. Há muito tempo que um actor não tinha a capacidade de ser duas personagens numa só com tanta sensibilidade. Não há ninguém que não se sinta atraída por Tom Stall, como também ninguém consegue existir ao seu alter-ego negro, um verdadeiro anjo exterminador. E sem grandes palavras, é esta mutação – sempre expressa no rosto – que é a verdadeira alavanca do filme.
Mas se o olhar de Mortensen é sublime, a verdade é que não há um único elemento do filme que não seja igualmente um exemplo perfeito deste “cinema de rostos”. Ed Harris é claramente o cowboy trocista e pronto a matar sem pestanejar, num registo que já não se via desde Unforgiven de Clint Eastwood. Por outro lado, William Hurt é um gangster perfeito, com traços de humor que o satirizam de uma forma impensável, mas que, no fundo, é essencial para perceber a sua personagem. E claro, Maria Bello é única. Uma mulher de sonho que acaba por se encontrar num dilema visceral, em que o corpo a empurra para um lado – uma cena crua de sexo como há muito não se via – mas o coração magoado a puxa para o outro. Um trabalho memorável de uma actriz cada vez mais matura, e que foi, escandalosamente – tal como Viggo – esquecido pela Academia.
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Os que acusam Cronenberg de se ter afastado da sua cinematografia habitual são os mesmos que se queixam que o público não quer saber nada da obra do realizador canadiano. Preso por ter cão e por não ter, Cronenberg estaria sempre condenado a partir do momento que apostou num filme em que não há cassetes de vídeo a sair da barriga de nenhum dos seus actores. Mas não é preciso preocuparem-se. O realizador menos convencional é tão bom como realizador “convencional” como é como um cineasta radicalmente diferente da corrente mainstream. Se isso só não bastasse para recomendar A History of Violence, fica mais uma ideia. Nunca a violência que corre nas veias da América foi tão bem demonstrada como aqui. Um país esquizofrénico representado de forma nua e crua num filme irrepreensível.

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O Melhor – A forma como Cronenberg capta os olhares dos seus actores. É meia história que se conta desta forma.

O Pior – Cronenberg está o seu melhor e é difícil encontrar aspectos negativos no seu mais recente filme.

Curiosidade – Cronenberg nem leu a banda desenhada que inspirou Josh Olsen a escrever o guião do filme. Algo pouco habitual num realizador muito pouco convencional, que pela primeira vez em muito tempo abraçou um projecto encomendado por um estúdio.

Site Oficial www.historyofviolence.com

RealizadorDavid Cronenberg
Elenco Viggo Mortensen, Maria Bello, William Hurt,
ProdutoraNew Line Cinema
Duração105 m
Classificaçãom/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:59 AM | Comentários (5)

março 12, 2006

North Country - Mulher de armas!

No ano de todos os temas políticos, só faltava mesmo o assédio sexual. Josey Ames, inspirada numa personagem real, fez história com a sua cruzada contra o machismo das corporações industriais norte-americanas. Mas Niki Caro não consegue captar bem a essência da sua luta, e perde-se entre o retrato da mulher e a mãe de família...
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O que irrita em North Country não tem nada a ver com o filme. Aliás, filme que foi muito mal recebido nos Estados Unidos, um verdadeiro flop de critica e de box-office que só se salvou porque o filme é, acima de tudo, Charlize Theron. Mas o que irrita em North Country - e em tantos outros filmes como este - é que continue a existir o preconceito que a beleza é um empecilho à qualidade de um actor. Ou seja, trocando por miudos, um actor ou actriz bonitos só sabem representar quando se despojam da sua beleza e se transformam. É quase como que uma inveja colectiva do mundo perante os Apolos e Afrodites de Hollywood. E se há actriz que tem sofrido esse estigma, ela é sem dúvida Charlize Theron.
A sul-africana - que venceu em 2003 o óscar pela sua transformação completa na serial-killer Ailen Wournoos em Monster - volta a dar um desempenho de grande qualidade. E volta a ter de colocar muito óleo, ferrugem e maquilhagem em cima, para esconder aquela que é uma das caras mais sedutoras de Hollywood. De facto North Country vale por Charlize, e pouco mais. Uma performance recheada de tours de force imensos, com uma profundidade dramática só ao alcance das grandes actrizes - e ela é, de facto, uma das grandes actrizes da actualidade - misturado com momentos de grande tensão interior, que só o seu olhar consegue exprimir com toda a exactidão.
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O potencial de North Country era muito. A história de uma mulher, Josey Ames, vitima de violência doméstica, que volta para casa dos pais e decide começar a trabalhar numa mina, que é também o sustento da população local. Mas uma mulher a trabalhar num poiso de homens é, no final dos anos 80, assunto tabu, e tanto ela como todas as outras mulheres, são tratadas como lixo. O que lhes vale é o trabalho da sindicalista local, e a persistência em continuar. Pelo meio vamos conhecendo o passado sexual da personagem, que ostenta sempre uma imensa aura de libertinagem - que, convenhamos, não coincide com aquele olhar angelical de Theron - e as relações de desaprovação da sua cruzada pessoal pela igualdade de direitos no trabalho.
E se até aí o filme caminha bem, de forma segura e sem grande ambição, a verdade é que Niki Caro não consegue agarrar a história com as duas mãos. Entre seguir a cruzada da mulher, ou passar pelo sofrimento da mãe de família, Caro não ata nem desata. A cena final do tribunal, que supostamente seria para o culminar da luta pela igualdade de direitos, torna-se numa cena de vitimização da personagem central, que afinal não é libertina mas sim vitima de violação por um professor. Se a história é sobre a pioneira, é injustificável que o resultado da sentença - e consequências - fiquem para uma frase no genérico final. Se a obra é sobre a mulher, a mãe de familia, então não se percebe o ritmo que o filme vai levando, de tal forma que as personagens secundárias mais bem trabalhadas são as que estão ligadas à sua causa.
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Frances McDormand, nomeada ao óscar de melhor actriz secundária, tem um desempenho sólido e agradável, mas a sua agonia final não pode servir como justificação para uma grande performance. São Woody Harrelson e Richard Jenkins que dão a melhor réplica a Theron, com trabalhos muito sóbrios e exactos, qual relógio suiço. E se a direcção do filme nem compromete, também não espanta pela originalidade ou frescura, como aconteceu com The Whale Rider, o filme que catapultou a realizadora para a fama. Trabalho técnico aceitável, filme com um ritmo nem muito lento, nem muito rápido, North Country é uma história interessante, trabalhada de maneira confusa, e que acaba por valer pela presença insubstituivel dessa diva que dá pelo nome de Charlize Theron.

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O Melhor - O desempenho de Charlize Theron. Não foi desta que levou o segundo óscar, mas ele deverá chegar. É uma questão de tempo.

O Pior - A confusão do guião na segunda metade do filme, corta um pouco as asas a uma história que até então estava a ser interesante de seguir.

Curiosidade - O titulo original do filme era Class Action.

Site Oficial - northcountrymovie.warnerbros.com

Realizadora - Niki Caro
Elenco - Charlize Theron, Frances McDormand, Woody Harrelson, ...
Produtora - Warner Bros.
Classificação - m/12
Duração - 126 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:32 PM | Comentários (1)

março 04, 2006

Transamerica - Pai e Filho

Transamerica é como ua coleção de cromos de todas as disfunções da sociedade norte-americana. Mas também consegue ser uma comovente história de uma relação complexa entre pai e filho.
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Transexualidade. Homossexualidade. Incesto. Prostituição. Consumo de droga. Alcoolismo. Roubo.
Um autêntico catálogo de disfunções sociais que vão aparecendo, aqui e ali, e que fazem de Transamerica um filme "anormal". Mas de uma "anormalidade" muito simples e honesta. Afinal, todas estas as questões não caem do céu. Há sempre um contexto que pauta o ritmo da história, sempre num tom muito, mas muito sonolento. No entanto a verdade é que tudo isso importa pouco em Transamerica. São elementos que definem as personagem, e mais do que isso, que as transformam em "misfits" da sociedade. É este elo comum que tanto liga Bree (ou Stanley se preferirem), um/uma transexual, a Calvin, um indio com problemas de alcoolismo, ou a Toby, um jovem prostituto, drogado e com tendências homossexuais. Todos estes retratos, todas estas personagens existem também porque são o espelho de uma América profunda que não se vê. Uma América rural, uma América marginal, mas também, uma América genuina.
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O que acaba por funcionar em Transamerica - mais do que este retrato social de um grupo de outsiders - é a road trip de um pai (a aprender a ser mãe) e de um filho.
É a sua relação, primeiro oportunista (um quer o ok do psiquiatra para a operação, o outro quer boleia para a Califórnia, terra dos filmes e do pai que idealiza), que os une. Mas cedo se percebe os fortes laços que os ligam, e que chegam mesmo a um momento de pré-incesto que tem tanto de dramático como de cómico.
Nomeada (e possivel vencedora para uns) para um óscar pelo seu desempenho, Felicity Huffman está num constante underacting do principio ao fim. A transformação fisica (como a próprio diz, não foi algo muito dificil porque ela não é propriamente uma Charlize Theron), tem o condão de a fazer parecer mais com um homem do que com uma mulher, o que dá credibilidade à personagem. Mas apesar dos pequenos maneirismos e de um desempenho sempre num tom seguro, Huffman está longe de ser o motor que o filme precisava para chegar a outro patamar. Já Kevin Zeegers, um Leonardo diCaprio wannabee (há uma dúzia de anos seria impensável outro actor que não ele neste papel) é interessante como o jovem delinquente de bom coração, confuso pela vida que foi obrigado a viver desde novo. A quimica entre Zeegers e Huffman demora a acontecer, mas quando finalmente surge, lá para meio do filme, convence e aguenta o filme, que se perde em episódios que acabam por funcionar mais como altos e baixos do que como uma viagem constante.
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O desconhecido Duncan Tucker não tem pulso para o filme, mas também não compromete. Deixa a história correr num "ver no que dá" que resulta até a fórmula se esgotar. Mas o interesse em Transamerica é menos a história e mais as pessoas deste universo quase paralelo. E quando filme deixa estas personagens respirar à vontade, até que se vê bastante bem.

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O Melhor - A relação entre Huffman e Zeeger quando funciona.

O Pior - A total falta de imaginação do realizador.

Curiosidade - O produtor do filme é William H. Macey, popular actor e marido de Felicity Huffman que aposto forte num papel que pudesse funcionar como a rampa de lançamento da estrela televisiva em Hollywood.

Site Oficial - www.transamerica-movie.com

Realizador - Duncan Tucker
Elenco - Felicity Huffman, Kevin Zeegers, Graham Greene, ...
Produtora - Lions Gate
Classificação - m/16
Duração - 115 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:32 AM | Comentários (10)

fevereiro 28, 2006

Good Night and Good Luck. – Cinema de Cruzada

Edward Murrow fazia jornalismo de cruzada. George Clooney faz cinema de cruzada. Dois homens, o mesmo ideal. E tal como o jornalismo de Murrow, também a forma de realizar de Clooney é sóbria, cívica e exacta. Um poema dedicado a todos os amantes da liberdade!
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Se há algo mais assustador que estar em guerra, isso é estar em guerra com nós mesmos. Os Estados Unidos viveram um clima de paranóia anti-comunista durante toda a Guerra Fria, mas os anos pós-2º Guerra Mundial foram os piores. O senador do Wisconsin, Joseph McCarthy começou uma autêntica “caça ás bruxas”, denunciando a presença de comunistas infiltrados no sistema norte-americano. Durante anos as audiências, feitas pela comissão liderada por McCarthy, causaram o terror diante de todos aqueles que se opunham aos seus métodos. E apesar de haver muitos que queriam denunciar McCarthy, o rótulo comunista era um fardo demasiado pesado para arcar sozinho. Foi então que a equipa de redacção do programa See It Now da CBS decidiu que estava na altura de alguém bater o pé aos atentados aos direitos cívicos dos norte-americanos. O apresentador do programa – e patrono dos jornalistas desde então – era Edward Murrow, um veterano desde a cobertura da guerra na Londres bombardeada. Murrow inspirou milhões com a sua coragem em fazer frente a um dos pesos pesados do Senado norte-americano. E uma dessas pessoas foi o pai de George Clooney, pivot de televisão à época. E foi também numa homenagem ao pai, que Clooney decidiu abraçar este projecto fascinante.
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Clooney já tinha dado traços de enorme potencial na sua primeira obra, Confessions of a Dangerous Mind (também com o universo televisivo como pano de fundo), e agora confirma tudo o que de bom se esperava dele.
Good Night and Good Luck. é um filme que nunca ambiciona mais do que ser um filme de mensagem politica e social, nos dias dificeis que correm – hoje, como ontem – mas que por isso mesmo é um filme brilhante. Tecnicamente muito simples e muito honesto – com uma montagem deliciosa, e uma fotografia a preto e branco do que melhor que já se viu – Good Night and Good Luck. acompanha a luta da equipa da CBS contra McCarthy. Essa é a premissa do filme. O que despoleta a narrativa e o que a fecha. Mas o filme é muito mais do que isso. É um retrato sobre os direitos individuais dos cidadãos, e sobre a liberdade de imprensa. As pressões económicas, politicas e sociais pautam sempre o ritmo de trabalho da equipa. E é aí que surge a figura, quase paternal, de Murrow, como o líder natural do grupo de descontentes. Um líder sempre sóbrio, consciencioso e justo, uma figura como certamente houve poucas.
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E nesse retrato, David Strathairn é impecável, ao mais ínfimo pormenor. Se o espírito do filme é a mensagem politica – Clooney é dos cineastas mais políticos da actualidade – sobre a liberdade de imprensa, o motor da história é o desempenho de Strathairn. Um desempenho de uma enorme contenção dramática, mas com uma revolta interior que não passa despercebida. Mas apesar de líder, Murrow hesita. Sempre que acaba uma emissão, o seu olhar treme levemente, como se estivesse sempre a medir as consequências dos seus actos. E isso torna-o mais humano, mais natural, e mais apaixonante. Mas se Murrow (ou Straitharn) é o líder, o sucesso da investida resulta também da equipa por detrás do líder. George Clooney é como actor o mesmo que é como realizador. Sóbrio e exacto, no papel do produtor televisivo Fred Friendley. Arrisco-me a dizer que há mais Clooney neste papel do que propriamente em Syriana, o filme que lhe valeu a nomeação ao Óscar de melhor actor secundário. Mas quem se destaca no elenco secundário (para além de Frank Langella ou Patrícia Clarkson) é sem dúvida Robert Downey Jnr. Um actor genial, que felizmente está a recuperar de dias difíceis. O seu génio é que permanece lá, e está tão brilhante como antes, quando fora uma rising star.
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Num ano imensamente politico, Good Night and Good Luck. é talvez o mais politico de todos os filmes. Não porque Munich ou Syriana não o sejam, mas porque aqui é a mensagem politica o actor central da narrativa, e Murrow (ou melhor, Strathairn), a sua encarnação. Nesse sentido, o segundo filme de Clooney é um marco histórico importantíssimo, e um retrato perfeito de uma era difícil.
Há filmes que foram feitos para serem grandes filmes. Há filmes que foram feitos para ser um bom entretenimento. E há filmes que nasceram para defender uma causa, um valor, um ideal…Good Night and Good Luck. é um desses filmes. E apesar de não ser um filme muito ambicioso, Good Night and Good Luck. é um filme imperdivel!

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O Melhor – A sobriedade e subtileza de tudo no filme.

O Pior – Um filme destes não tem coisas negativas. Apenas facetas pouco exploradas.

Curiosidade – Todas as imagens do senador McCarthy são imagens de época. Clooney quis manter ao máximo o espírito do filme, e não quis substituir a figura tão real, por um actor.

Site Oficial wip.warnerbros.com/goodnightgoodluck

Realizador George Clooney
ElencoDavid Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jnr,
ProdutoraWarner Independent
Duração93 m
Classificaçãom/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:44 PM | Comentários (1)

fevereiro 27, 2006

Mrs Henderson Presents - O espectáculo tem de continuar

Não é um filme pretencioso, mas isso não o impede de ter uma mensagem. É uma comédia ligeira, mas não deixa de funcionar como um testemunho histórico de uma época onde a coragem era tudo o que as pessoas tinham.
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Estamos logo avisados, desde o genérico inicial, que Stephen Frears não vai filosofar, meditar ou tomar uma posição. Já conhecemos essa sua faceta de autor britânico de outras paragens, mas aqui o jogo é outro. E, apesar da ligeireza do filme - um verdadeiro balão de oxigénio num ano tão carregado de statements politico-sociais - aqui não há o riso pelo riso, ou o nu pelo nu.
Frears tem o cuidado de enquadrar tudo num contexto e sem nunca sair dessa esfera, consegue criar momentos maravilhosos.
Estamos na Londres do pré-2º Guerra Mundial quando Laura Henderson, uma recente viuva rica - decide ir contra as leis estabelecidas da viuvez, e compra um teatro abandonado do West End, o Windmill. Com a perspicácia de um director artistico autoritário, mas com um grande coração, o seu teatro revoluciona a produção tetral londrina. E quando todos o copiam, não há nada como ser original. É então que surgem os seios, os peitos ou as maminhas - depende da perspectiva, como defende a senhor aHenderson - que enchem o teatro e catapultam para fama seis belas jovens. Entretanto deflagra a guerra, e os teatros fecham. Mas não o Windmill. E os peitos que foram arte, para não ser uma indecência, passam agora a ser a tónica de coragem para aqueles que têm de ir combater.
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O retrato criado por Judi Dench de uma dama da alta sociedade britânica que não tem medo de ser genuina, e de pisar a linha, é um dos grandes atractivos do filme. Grande senhora do cinema britânico, Judi Dench é despudoramente snob e sedutoramente maternal, numa personagem que simboliza também a coragem britânica, em dias tão dificeis. A sua relação de cão e gato com Vivian van Damn, vivida na perfeição por Bob Hoskins (injusto esquecimento da Academia), é o motor da história, e um dos seus pontos de maior interesse. Não só pelo choque de classes - há a snob da nobreza imperial, e o burguês do meio artistico - mas pela semelhança de personalidades de ambos, que abre caminho a uma parceria inesquecivel.
E depois há claro as meninas estatuta, que numa época onde o que se fazia no Moulin Rouge ainda era visto como um pecado nas ruas de Londres, tiveram a coragem de mostrar tudo o que tinham para a mostrar. Nesse sentido o filme é extremamente artistico, já que não há um único plano do corpo das seis actrizes que seja minimamente erótico ou sensual. Não há essa exploração do corpo, como poderia ter havido, caso o filme tivesse noutras mãos. E claro, Mrs Henderson Presents serve ainda para nos convencer que Kelly Reilly é um nome a seguir com atenção nos próximos tempos, já que imenso potencial parece ter esta jovem britânica.
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Apesar de não ser um musical, a inevitablidade da história força uma montagem muito à base dos temas mais populares da época. Um registo que fica bem ao ritmo do filme e que mantem a ligeireza da história. Porque para além de ser uma comédia, Mrs Henderson Presents é igualmente um drama. Um drama em tempo de guerra. E se aposta em material documental é interessante, nunca deixamos de ter a sensação de que realmente tudo aquilo se passa debaixo de bombas e blitzkrieg. Mas também não nos esquecemos que o riso, o humor e a boa disposição podem imperar, mesmo nos dias mais turbulentos, como aliás defendia Ernst Lubitsch quando assinou a sua obra-prima, To Be or Not To Be.
Num dos mais patrióticos planos do filme, Kelly Reilly, despida em palco, faz o v de vitória com os dedos, depois do primeiro bombardeamento ao Windmill. Uma vitória que é também a vitória da moral do filme. Mesmo quando os dias mais negros se abatem sobre as nossas cabeças, faz sempre bem um pouco de boa distração. E Mrs Henderson Presents é isso mesmo. Um bom bocado de distração, em tempos cada vez mais dificeis.

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O Melhor - A dupla Judi Dench-Bob Hoskins é absolutamente impecável.

O Pior - Alguns problemas na edição do filme, desde os primeiros planos ao final feito um pouco à pressa.

Curiosidade - Para produzir o filme, a equipa de investigação entrevistou as bailarinas sobreviventes, que contaram inumeros episódios que são retratados no filme, como os subtfurgios de Laura Henderson para entrar no seu próprio teatro.

Site Oficial - www.mrshendersonpresentsmovie.co.uk

Realizador - Stephen Frears
Elenco - Judi Dench, Bob Hoskins, Kelly Reilly, ...
Produtora - Weinstein Co.
Classificação - m/16
Duração - 103 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:14 AM | Comentários (1)

fevereiro 24, 2006

Capote - O Preço da Vaidade

O homem que tudo quis, tudo perdeu. Capote não é a história do celebre escritor Truman Capote. É o relato da criação de In Cold Blood, o livro que o celebrizou definitivamente no panorama literário norte-americano, mas que foi o preço que o escritor teve de pagar pelo seu gigantesco egocentrismo. No final os assassinos são mortos. Mas muito de Capote seguiu para o outro mundo com eles.
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Cinco nomeações aos óscares. Um registo impressionante para um filme tão mediano e sonolento. O trailer de Capote tinha ritmo, jogava bem entre o espaço urbano e o espaço rural, e mostrava um Capote intenso. O filme é o registo totalmente oposto.
Ritmo é algo que Capote não tem. O filme demora a arrancar, arrasta-se durante duas horas, e o final não poderia ter sido mais vazio. Pelo meio há uma notável encarnação de Seymour Hoffman na figura do polémico escritor. Mas aqui entra a dúvida que já existia o ano passado com Jamie Foxx em Ray, e que acontece sempre em filmes biográficos. Afinal, copiar os tiques, os maneirismos, as atitudes de uma personagem real é representar, na mesma medida em que criar uma personagem do zero é o verdadeiro mister de um actor?
Se for, então Seymour Hoffman faz realmente uma brutal interpretação como Truman Capote. E o melhor mesmo do seu desempenho é o jogo entre a contenção dramática do homem, com belos planos de olhares e reflexões do escritor, e o over acting exagerado - mas realista - da personagem que Capote criou para escandalizar a sociedade. Aqui vemos as duas facetas do homem. A primeira é facilmente irritante, a segunda consegue ser bastante sedutora. E no fundo, essa é mesmo a alma do filme.
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Se Philiph Seymour Hoffman é o vertice central do filme, a grande surpresa é Clifton Collins Jnr. Um desempenho contido mas extremamente perturbante, é ele o único a dar troco à presença de Capote, que qual carvalho no centro de uma floresta, suga toda a água à sua volta. Talvez por isso Bruce Greenwood, Catherine Keener (inexplicável a sua nomeação) ou Chris Cooper passem o filme em piloto automático. A camara não quer saber deles, a história não quer saber deles. O filme alimenta-se de Capote como Capote se alimenta de todos à sua volta. E nesta centralidade à volta da personagem, o show de Seymour-Hoffman faz sentido. Um actor mediano, que tem aqui, literalmente, o papel da sua vida, teria dificuldades num registo em que tivesse alguém a dar réplica. Como não tem, o show é inevitável. Mas não chega para tirar Capote da imensa mediania em que está, desde o primeiro instante.
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Benneth Miller, o estreante do ano na realização - a par de Paul Haggis - nunca toma pulso ao filme. Ou melhor, decide que o filme não deva ter ritmo. Tal como a história dos assassinatos do Kansas se arrastou durante mais de quatro anos, também o filme se arrasta, lentamente, com muitos fundos negros a servir de ponto de ligação, num autêntico vazio de emoções, onde até há tempo para sentir pena pelos assassinos, e sentir pena pelo homem que faz de tudo para ter o que quer - comprar a autoridade, usar os prisioneiros, usar a justiça...Esse retrato de auto-complacência de Capote, esse espelho do seu egocentrismo, é destroçado no final, quando se percebe que a ligação que se estabelece entre ele, e Perry Smith, um dos criminosos (aliás, o único dos assassinos entre os dois), é grande demais para ser quebrada de forma abrupta. Como o generico final conta - não era preciso - Capote nunca mais conseguiu escrever. O preço da vaidade foi demasiado alto.

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O Melhor - O desempenho de Philiph Seymour Hoffman, obviamente.

O Pior - A falta de ritmo do filme. Está morto na primeira hora!

Curiosidade - Pelo filme passam três conhecidos escritores. Para além do reputado Capote, há ainda Harper Lee (autora do celebre To Kil a Mocking Bird) e Jack Dunphy, que escreveu livros como John Fury.

Site Oficial - www.sonyclassics.com/capote

Realizador - Benneth Miller
Elenco - Philiph Seymour Hoffman, Clifton Collins Jnr, Catherine Keener, ...
Produtora - Sony Pictures
Classificação - m/12
Duração - 120 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:09 PM | Comentários (1)

fevereiro 21, 2006

Walk the Line - John e June

Uma personagem apaixonada. Uma história de amor apaixonante. A história de amor de Johnny Cash e June Carter é provavelmente a maior epopeia romântica da história da música ligeira. Walk the Line é por isso menos um biopic e mais um retrato da forma como este amor eterno fez parte da vida de dois grandes vultos da música norte-americana...
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Ele não gosta dele próprio. Culpa-se da morte do irmão - o filho perfeito - e é constantemente menosprezado pelo pai. Foi na música que encontrou o seu refúgio. A sua voz, constante como um comboio, aguçada como uma lâmina fez história. Os seus concertos eram inesqueciveis. Mas o que mais interessa na vida de Johnny Cash é a sua relação de amor-ódio-amor com June Carter, menina bonita da música country desde a meninice.
É a paixão que o move, é a paixão dela por ele que, eventualmente, o salva. E é essa a mensagem do filme. O amor salva pessoas, quando é genuino e quando vale a pena. Uma mensagem muito xaropeira para os mais irreverentes, de tal forma que nem conseguiu ser nomeado aos óscares. Uma falha imperdoável até porque há mais paixão e arrebatamento no olhar de Joaquin Phoenix do que em todo o Brokeback Mountain. Mas isso são contas de outro rosário.
Em Walk the Line é menos a obra e mais o homem que interessa. Ao contrário de Ray (as comparações acabam por ser inevitáveis) o filme não é feito em torno do músico-homem. É um facto que assistimos à ascensão do "Homem de Negro", desde o primeiro album gravado na Sun Record até à sua dependência de drogas que o levou à prisão. Mas esses detalhes da vida do artista estão lá porque contextualizam a história entre John e June. Conheceram-se na estrada, apaixonaram-se na estrada, afastaram-se na estrada e, como não podia deixar de ser, casaram na estada. Uma história cheia de altos e baixos - como uma boa história deve ser - onde os baixos nunca perdem a emotividade necessária para manterem uma réstia de esperança ao fundo do tunel.
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James Mangold não é propriamente um grande artesão e isso nota-se. Ao contrário de Ray, um filme tecnicamente impecável com um ritmo inebriante, este Walk the Line é um filme modesto. Apesar de começar de forma brilhante com o mitico concerto em Folson, para depois partir para um gigantesco flashback que dura até ao regresso à prisão para o concerto em si, o filme existe em dois planos distintos: em palco e fora dele.
Quando estamos em palco Joaquin Phoenix é fascinante como Johnny Cash, o músico. Cantando (ao contrário do que fez Jamie Foxx) e gesticulando tal e qual como o música, Phoenix convence-nos plenamente do que está a fazer. Não se pode pedir mais a um actor. A música de Cash - já sobejamente conhecida mas que vale sempre a pena rever - é igualmente estonteante, e entre Walk the Line e Ring of Fire dá para traulitar baixinho na sala de cinema. O filme de Mangold acaba igualmente por ser generoso, já que para além de Cash - e Carter - dá-nos a hipótese de ver em acção outros "monstros sagrados" da época como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Roy Orbison num notável retrato de época.
Este é um filme, aquele que mais se assemelha a um biopic no genero de Ray. Mas Walk the Line consegue ser mais do que isso. Fora do palco a história é outra, o ritmo também e o resultado muito mais bem conseguido.
Aqui impera a imensa quimica entre Joaquin Phoenix - um desempenho assombroso e cheio de paixão - e a charmosa e contagiante Reese Whiterspoon. Uma quimica que aguenta o filme durante muito tempo e que resulta claramente, do principio ao fim. Aqui a história de Cash, o homem, é dura, realista e tratada sem falsos pudores. A dependência das drogas é um caso sério, a repressão familiar também e o melhor é que Mangold não deixa o filme perder fascinio apesar de perder ritmo.
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Walk the Line é acima de tudo um filme de amor, de um imenso amor que atravessou décadas e que marcou a história da música norte-americana. Criado com grande simplicidade narrativa, sem grande arrojo cinematográfico (montagem e trabalho visual de bom nivel, mas nada de excepcional) o que vale aqui é a história, a música e os fascinantes desempenhos de Phoenix e Whiterspoon. Ele é a alma do filme, ela é o fantasma que em vez de o atormentar, acaba por fazer dele uma pessoa melhor. Um filme fascinante e leve num ano onde Hollywood passou do 8 para o 80. Se é importante não esquecer o cinema de mensagem, o cinema de causas, também convém não ostracizar por completo o cinema onde as histórias do dia a dia, as histórias que marcam uma vida, são bem mais simples e acabam por ter um final feliz. O que vale é que, tal como a música, os prémios passam e as obras ficam. E Walk the Line promete ficar na memória exactamente o mesmo tempo que as fabulosas músicas de Johnny Cash.

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O Melhor - A quimica apaixonada entre Joaquin Phoenix e Reese Whiterspoon.

O Pior - A falta de arrojo em alguns planos que poderiam levar o filme a nivel ainda maior.

Curiosidade - Foram Johnny Cash e June Carter quem escolher Phoenix e Whiterspoon. Os actores foram apresentados aos músicos (faleceram ambos em 2003) que deram o seu aval para que fossem os seus representantes no biopic que mais do que o filme de Cash, é o filme de John e June.

Site Oficial - www.walkthelinethemovie.com

Realizador - James Mangold
Elenco - Joaquin Phoenix, Reese Whiterspoon, Ginnifer Godwin, ...
Produtora - 20th Century Fox
Duração - 136 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:24 AM | Comentários (7)

fevereiro 20, 2006

The Three Burrials of Melquiades Estrada - Penitência

Tommy Lee Jones decidiu tornar-se realizador. Escolheu uma história escrita pelo conceituado Guillermo Arriaga, arregaçou as mangas, pegou na camara e começou a filmar. O resultado é um dos filmes mais irritantes e sem sentido que já passaram por Portugal nos últimos anos. Um filme onde um homem tem de fazer penitência pelo crime que cometeu. Um filme em que temos de fazer penitência só por ter-mos comprado o bilhete.
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Há muito pouco a dizer sobre este The Three Burrials of Melquiades Estrada. E o que há não é nada abonatório ao filme, ao seu argumentista e ao seu realizador.
Passar pelo Festival de Cannes e sair de lá com dois prémios importantes na mão (melhor actor e melhor argumento), era sinónimo de qualidade. Mas os detractores de Hollywood, que sempre se escudaram em Cannes como o bastião do cinema de altissimo nivel, têm de começar a analisar as suas escolhas. Porque se este filme merecia algum prémio era o de ter sido, não só o mais irritante, como o mais vazio filme feito por um actor com pretensões a realizador.
Tommy Lee Jones não é Clint Eastwood (ou Kevin Costner, ou Robert Redford, ...), e nem filma como se fosse. Mas pretende colar-se à aura dos talentosos actores-realizadores com este ensaio sobre a dor da perda e a penitência humana do crime.
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Em traços gerais - porque a confusão do filme, entre o primeiro e o último enterro, com uma montagem no minimo desastrosa, pelo meio, deixa perceber pouco - há um homem, guarda florestal, que mata um imigrante ilegal mexicano sem querer. As autoridades tentam esconder o crime, mas o melhor amigo do mexicano, um solitário cowboy que tinha criado, mais do que uma amizade, uma relação pai-filho com este Melquiades Estrada, decide fazer justiça pelas próprias mãos. Rapta o guarda, fá-lo desenterrar o corpo, já em estado avançado de decomposição (uma imagem que é repetida vezes sem conta ao longo do filme, sem qualquer sentido), e juntos, os três, lançam-se a cavalo até Jimenez, a aldeia natal de Melquiades. Era lá que ele devia ser enterrado, segundo uma promessa feita por Peter, o cowboy solitário. E para ele, promessas são para cumprir.
O filme demora imenso a arrancar, porque ora vive o presente ora viaja até ao passado, com algumas cenas que pretendiam ser irónicas mas que passam ao lado do filme (o facto do mexicano ter dormido com a mulher do guarda é deixada em aberto, mas nem é deenvolvida). Quando a viagem é anunciada - sim porque o realizador não conseguiu escapar á infantilidade de separadores para dividir o filme - ritmo continua lento, lentissimo, e sem qualquer plano ou imagem fascinante. Um exercicio de sado-masoquismo, de punição, sem meias palavras, antes de chegarmos ao final. Que não poderia ter sido pior. O guião - desastroso do principio ao fim - nem consegue explorar o facto do imigrante ilegal ter mentido ao seu "fiel" amigo, durante o tempo que esteve com ele. O filme, também ele em estado de decomposição desde o inicio, é enterrado sobre o olhar estupefacto do guarda que, tal como nós, não percebe o autêntico ensaio de loucura que se desenrolara diante dos seus olhos.
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O fantasma que é Tommy Lee Jones, numa interpretação tão morta como o próprio Melquiades Estrada, é compensado pela presença de Barry Pepper, mas nem este se afasta do imenso lodaçal que é o filme, do primeiro ao último minuto. Ensaio desastroso de Tommy Lee Jones, este The Three Burrials of Melquiades Estrada por ter enterrado, de vez, as suas pretensões a tornar-se um cineasta de qualidade. Por muitas Palmas de Ouro que tenha no seu curriculo.

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O Melhor - Um filme destes não tem melhor, tem menos mau: seria provavelmente Barry Pepper.

O Pior - O argumento, a montagem, a realização, Tommy Lee Jones....

Curiosidade - O elenco teve de ler O Estranho de Albert Camus, antes das rodagens, por exigência do próprio Tommy Lee Jones.

Site Oficial - www.sonyclassics.com/threeburials

Realizador - Tommy Lee Jones
Elenco - Tommy Lee Jones, Barry Pepper, January Jones, ...
Produtora - Europa
Duração - 121 m
Classificação - m/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:27 PM | Comentários (1)

fevereiro 17, 2006

Rumor Has It - Segredos de Familia

Mais do que uma sequela de The Graduate, Rob Reiner está de regresso com um filme que retrato os danos colaterais da história que celebrizou uma tal de Mrs Robinson. Inspirado num rumor aparentemente verdadeiro, este filme é também um novo fôlego para Jennifer Anniston
Filme de rumorhasit.gifrumorhasit.gifrumorhasit.gif
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A história que deu origem a The Graduate era um dos mais badalados rumores da Pasadena dos anos 60. O filme popularizou a história de uma sedutora Mrs Robinson, que acabou por se deitar com um jovem que era igualmente o namorado da filha, com quem ela fugia no fim. Verdade ou mentira, o rumor ficou e o filme mitificou a história.
Rob Reiner, homem de Hollywood, decidiu pegar nessa história mal contada, e tentar desvendar, não propriamente o que tinha acontecido, mas as consequências de tudo o que se tinha passado para uma jovem, filha da mulher que, supostamente, tinha sido vivida na tela pela deslumbrante Katherine Ross.
Essa mulher é Jennifer Anniston que depois do divórcio com Brad Pitt decidiu ressuscitar a carreira. E em boa hora o fez. A estrela da série Friends tinha vivido quase em reclusão matrimonial, e agora, liberta do espartilho, voltou ao seu melhor com um desempenho sentido e extremamente sólido.
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A sua personagem, está de volta a casa para o casamento com a irmã, mas o que a preocupa é a sua própria vida. O facto de não se integrar com a própria família, o de ter uma carreira estagnada, e uma relação que, apesar de segura, não a entusiasma. E é nessa viagem que descobre um terrível segredo de família. O rumor que tinha celebrizado Mrs Robinson era verdadeiro. E a sedutora desbocada era, nem mais nem menos, que a mãe da sua mãe…isso mesmo, a sua avó. E para complicar ainda mais a história, já bem definitivamente afastada do registo cinematográfico original, a probabilidade de ela ser filha do jovem seduzido – e mais tarde sedutor da mãe – era muito grande. Em estado de choque, decide partir à descoberta desse infame personagem, e quando o descobre, ele convence-a de que não é pai dela, por razões biológicas. O que acaba é por conquista-la, completando um hat-trick de mulheres na mesma família. Depois de uma semana no paraíso, o céu cai-lhe em cima quando o noivo descobre a sua aventura, e no final a moral é simplificada num paralelismo de situações. Tal como a mãe, pouco tempo antes do casamento ela não resistiu a ter uma aventura (curiosamente, com o mesmo homem). Mas tal como a mãe, também essa aventura não foi um escape, mas o motivo que ela precisava para continuar a sua vida da mesma forma como ela estava antes de ter tudo começado.
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Rob Reiner, especialista em comédias românticas como o inesquecível When Harry Meets Sally, não perdeu o seu tom humorístico, mas funciona num registo mais sério ao criar um drama real, que apesar de surreal, é uma desculpa para perceber o que pode atormentar uma mulher. Mulher essa vivida na perfeição por Jennifer Anniston, sempre segura de si e capaz do seu melhor desempenho de sempre no cinema. Mas o que mais impressiona no filme é a regularidade e o talento do elenco secundário (habitual em Reiner, hábil director de actores). Kevin Costner confirma que está de regresso, depois das boas indicações de The Upside of Anger. O homem que, supostamente, foi vivido por Dustin Hoffman, é um poço de charme e emoção contida, que nos ajudam a lembrar porque é que há vinte anos este era um dos nomes mais badalados de Hollywood. Já Mark Ruffallo continua a provar sem um belíssimo actor, apesar de acabar por cair sempre em papéis demasiado simplistas. Richard Jenkins é a agradável surpresa num registo cómico, que o filme perde em não explorar mais vezes. E por fim há Shirley McLaine, essa brilhante actriz capaz de nos convencer plenamente que a caracterização de Anne Bancroft em The Graduate segue piamente a personagem real. Se isto não fosse tudo um rumor, claro.
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Rumor Has It é um filme ligeiro, sem grandes primores técnicos que vive como todas as comédias românticas de uma narrativa em crescendo, com um final a pique, e de um competente leque de actores. Aqui a troupe é mais do que competente e o argumento é mais drama que comédia, com alguns toques de pura cinéfilia (alguém reparou no Rick´s Café?), típicos de um homem da casa como é Reiner. Numa apreciação final, é um filme simpático, que não faz mal nenhum ver. Pelo menos, é o que se diz por aí…

Classificaçãorumorhasit.gifrumorhasit.gifrumorhasit.gif

O Melhor – O desempenho bastante sólido de Jennifer Anniston, num verdadeiro comeback.

O Pior – Alguma simplicidade narrativa, que rouba espaço à comédia para explorar, superficialmente, uma faceta mais dramática.

Curiosidade – É curioso traçar os paralelos entre os actores do filme The Graduate e as supostas personagens reais de Rumor Has It. Sendo assim Shirley McLaine é Anne Bancroft, Kevin Costner passa por Dustin Hoffman e Richard Jenkins é Brian Avery .

Site Oficial - rumorhasitmovie.warnerbros.com/

RealizadorRob Reiner
ElencoJennifer Anniston, Kevin Costner, Shirley McLaine,
ProdutoraWarner Bros.
Classificaçãom/12
Duração105 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:02 PM | Comentários (0)

Rumor Has It - Segredos de Familia

Mais do que uma sequela de The Graduate, Rob Reiner está de regresso com um filme que retrato os danos colaterais da história que celebrizou uma tal de Mrs Robinson. Inspirado num rumor aparentemente verdadeiro, este filme é também um novo fôlego para Jennifer Anniston
Filme de rumorhasit.gifrumorhasit.gifrumorhasit.gif
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A história que deu origem a The Graduate era um dos mais badalados rumores da Pasadena dos anos 60. O filme popularizou a história de uma sedutora Mrs Robinson, que acabou por se deitar com um jovem que era igualmente o namorado da filha, com quem ela fugia no fim. Verdade ou mentira, o rumor ficou e o filme mitificou a história.
Rob Reiner, homem de Hollywood, decidiu pegar nessa história mal contada, e tentar desvendar, não propriamente o que tinha acontecido, mas as consequências de tudo o que se tinha passado para uma jovem, filha da mulher que, supostamente, tinha sido vivida na tela pela deslumbrante Katherine Ross.
Essa mulher é Jennifer Anniston que depois do divórcio com Brad Pitt decidiu ressuscitar a carreira. E em boa hora o fez. A estrela da série Friends tinha vivido quase em reclusão matrimonial, e agora, liberta do espartilho, voltou ao seu melhor com um desempenho sentido e extremamente sólido.
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A sua personagem, está de volta a casa para o casamento com a irmã, mas o que a preocupa é a sua própria vida. O facto de não se integrar com a própria família, o de ter uma carreira estagnada, e uma relação que, apesar de segura, não a entusiasma. E é nessa viagem que descobre um terrível segredo de família. O rumor que tinha celebrizado Mrs Robinson era verdadeiro. E a sedutora desbocada era, nem mais nem menos, que a mãe da sua mãe…isso mesmo, a sua avó. E para complicar ainda mais a história, já bem definitivamente afastada do registo cinematográfico original, a probabilidade de ela ser filha do jovem seduzido – e mais tarde sedutor da mãe – era muito grande. Em estado de choque, decide partir à descoberta desse infame personagem, e quando o descobre, ele convence-a de que não é pai dela, por razões biológicas. O que acaba é por conquista-la, completando um hat-trick de mulheres na mesma família. Depois de uma semana no paraíso, o céu cai-lhe em cima quando o noivo descobre a sua aventura, e no final a moral é simplificada num paralelismo de situações. Tal como a mãe, pouco tempo antes do casamento ela não resistiu a ter uma aventura (curiosamente, com o mesmo homem). Mas tal como a mãe, também essa aventura não foi um escape, mas o motivo que ela precisava para continuar a sua vida da mesma forma como ela estava antes de ter tudo começado.
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Rob Reiner, especialista em comédias românticas como o inesquecível When Harry Meets Sally, não perdeu o seu tom humorístico, mas funciona num registo mais sério ao criar um drama real, que apesar de surreal, é uma desculpa para perceber o que pode atormentar uma mulher. Mulher essa vivida na perfeição por Jennifer Anniston, sempre segura de si e capaz do seu melhor desempenho de sempre no cinema. Mas o que mais impressiona no filme é a regularidade e o talento do elenco secundário (habitual em Reiner, hábil director de actores). Kevin Costner confirma que está de regresso, depois das boas indicações de The Upside of Anger. O homem que, supostamente, foi vivido por Dustin Hoffman, é um poço de charme e emoção contida, que nos ajudam a lembrar porque é que há vinte anos este era um dos nomes mais badalados de Hollywood. Já Mark Ruffallo continua a provar sem um belíssimo actor, apesar de acabar por cair sempre em papéis demasiado simplistas. Richard Jenkins é a agradável surpresa num registo cómico, que o filme perde em não explorar mais vezes. E por fim há Shirley McLaine, essa brilhante actriz capaz de nos convencer plenamente que a caracterização de Anne Bancroft em The Graduate segue piamente a personagem real. Se isto não fosse tudo um rumor, claro.
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Rumor Has It é um filme ligeiro, sem grandes primores técnicos que vive como todas as comédias românticas de uma narrativa em crescendo, com um final a pique, e de um competente leque de actores. Aqui a troupe é mais do que competente e o argumento é mais drama que comédia, com alguns toques de pura cinéfilia (alguém reparou no Rick´s Café?), típicos de um homem da casa como é Reiner. Numa apreciação final, é um filme simpático, que não faz mal nenhum ver. Pelo menos, é o que se diz por aí…

Classificaçãorumorhasit.gifrumorhasit.gifrumorhasit.gif

O Melhor – O desempenho bastante sólido de Jennifer Anniston, num verdadeiro comeback.

O Pior – Alguma simplicidade narrativa, que rouba espaço à comédia para explorar, superficialmente, uma faceta mais dramática.

Curiosidade – É curioso traçar os paralelos entre os actores do filme The Graduate e as supostas personagens reais de Rumor Has It. Sendo assim Shirley McLaine é Anne Bancroft, Kevin Costner passa por Dustin Hoffman e Richard Jenkins é Brian Avery .

Site Oficial - rumorhasitmovie.warnerbros.com/

RealizadorRob Reiner
ElencoJennifer Anniston, Kevin Costner, Shirley McLaine,
ProdutoraWarner Bros.
Classificaçãom/12
Duração105 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:02 PM | Comentários (0)

SYRIANA – Isto é Guerra!

Hollywood decidiu viajar no tempo e voltar ao cinema político dos anos 70. Depois de The Constant Gardener, Jarhead e Munich chega este cruzar de histórias chamado Syriana. No final de contas, a ideia que fica é sempre a mesma. O mundo está em guerra, e são os corruptos que estão a ganhar…
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Claramente filme de um argumentista que decidiu passar para trás da câmara, Syriana é acima de tudo a valorização do conteúdo sobre a forma. Ou seja, tecnicamente o filme não é um primor. Montagem apressada, confusa, e câmara pouco decidida, pode levar a que o espectador comum se deixe rapidamente adormecer. Até porque, é preciso concede-lo, o filme demora a arrancar. Mas quando finalmente arranca, o ritmo é vertiginoso. As peças do puzzle vão-se juntando e o retrato final é assustador. Apesar de previsível, não deixa de o ser. Porque traça um retrato negro do mundo. Só que, infelizmente, esse é mesmo o retrato dos nossos dias. Mas desta vez Hollywood decidiu abrir os olhos em vez de desviar o olhar, como tanta vez faz. E graças a isso, filmes como os já citados (e há ainda Good Night and Good Luck. a caminho) e como este Syriana têm uma dupla missão. Não só cumprem os requisitos de filmes de denúncia, como conseguem projecção e destaque suficiente para convencer o público de que o que se está a passar é realmente sério.
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Por ser um filme de argumentista, a realização fica claramente descurada. Por ser um filme de Stephen Gaghan, os actores têm pouco tempo para se exibirem. O argumentista de Traffic – pelo qual venceu o Óscar em 2000 – privilegia a história acima de tudo. E os actores lá vão desfilando, cumprindo o seu (pequeno) papel nesta narrativa sobre a podridão que controla os Estados Unidos, e por arrasto, o Médio Oriente e o resto do Mundo. George Clooney, nomeado para o Óscar de melhor actor secundário, é curiosamente o elo mais fraco. A sua personagem serve como elo de ligação, não tendo propriamente uma grande importância. E apesar dos quilos ganhos e da notável transformação física, Clooney nunca sai do piloto automático. O que, e é preciso não esquecer que estamos em Hollywood, o não deverá impedir de arrebatar a estatueta.
Muito bem estão Matt Damon, cada vez mais maturo, e Alexander Siddig, como o príncipe saudita a quem lhe roubam, primeiro o trono e depois a vida, por querer ser independente do jogo sujo das companhias (e do governo) norte-americanas. É essa dupla que representa o pólo da, chamemos-lhe, pureza de espírito. Aqueles que têm consciência da podridão do sistema, da fatalidade que é o fim do petróleo, e que querem realmente fazer algo. Do outro lado estão os que vivem o momento, o lucro do momento, sem qualquer preocupação com o resto do mundo, ou com o seu próprio futuro. Nesse pólo está Jeffrey Wright, extremamente sóbrio, e Chris Cooper no seu habitual registo.
Mas curiosamente, o aspecto mais cativante do filme é mesmo a forma como Gaghan recria a forma como as organizações terroristas recrutam jovens para a sua causa. Começa com um despedimento, vitima das politicas norte-americanas, passa pela obrigatoriedade de uma educação ligada directamente ao fundamentalismo islâmico (as madrassas) e acaba no engodo perfeito para o sacrifício, que eles acreditam ser puro, quando não passa de uma jogada, tão suja como as dos bastidores de Washington, dos fundamentalistas religiosos que levantaram os países muçulmanos a ferro e fogo contra a sociedade ocidental.
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Face á guerra do Iraque, e mais recentemente, á polémica dos cartoons (esse ridículo ataque á liberdade de expressão, que só o fundamentalismo islâmico se lembraria, e que só os europeus condescenderiam) Syriana é um filme mais actual do que qualquer outro. E essa actualidade dá-lhe uma outra aura. Não é apenas uma história. Este filme é a história, aquela que se faz, diariamente, diante dos nossos olhos. Gaghan capta bem essa necessidade de provar que as teias de corrupção estão presentes hoje, que não param diante nada, e que hoje são as empresas, e não os governos, que realmente controlam o mundo. Uma mensagem politica, importante é preciso não esquece-lo, mas, mais do que isso, um trabalho quase de reportagem jornalística, tal é a forma como a denúncia do sistema é feita.
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Ao contrário de The Constant Gardener, Jarhead ou Munich – para citar os exemplos mais recentes – Syriana não consegue ser um grande filme. Tem um argumento brilhante, e o filme é obrigatório só por isso mesmo, mas sem grande trabalho técnico e performances arrasadoras, o filme perde-se em alguns pontos, chegando mesmo a parecer monótono quando a história se afasta da mensagem central. Defeitos naturais num filme de estreia de uma argumentista que privilegia sempre a forma em relação ao conteúdo. Ao contrário de Crash, onde apesar da mensagem ser o aspecto central, tudo o resto é feito com extremo sentido poético, este Syriana é um filme cru na forma como é apresentado. Provavelmente porque Gaghan não acredita que se possa retirar algo de poético de tudo isto. E talvez tenha razão. Porque enquanto o mundo se anda a destruir nos bastidores, para uns ficarem mais ricos enquanto outros ficam mais pobres, mais vale apostar na denúncia do que procurar os aspectos positivos da situação. E essa é claramente a mensagem de Syriana. No final, os bons morrem, os maus ganham, e é assim que o Mundo é hoje. Um mundo em guerra. Uma guerra que provavelmente vamos perder!

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O Melhor – O argumento do filme. Entre este e Match Point venha o diabo e escolha. O pior é que a Academia já parece ter escolhido Crash.

O Pior – O arranque do filme é lento, lento….

Curiosidade – Como resultado da sua transformação para viver o agente da CIA Robert Barnes, Clooney teve graves problemas de saúde, tendo sido operado à coluna, e está agora restringido a entrar em filmes de acção.

Site Oficial syrianamovie.warnerbros.com

RealizadorStephen Gaghan
ElencoGeorge Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright,
ProdutoraWarner Bros.
Classificação m/12
Duração135 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:44 PM | Comentários (2)

fevereiro 14, 2006

Brokeback Mountain - Coragem com limites!

Quando um filme tem como premissa uma história de amor entre dois homens, tem de se dizer que este é um filme corajoso. Pela oposião que certamente encontra em vários sectores da sociedade. Pela quase total falta de antecedentes na indústria cinematográfica. E também, pela dificuldade em arranjar quem se comprometa com o projecto, de corpo e alma. Brokeback Mountain é por isso um filme corajoso. Mas quando o filme começa, tudo isso desaparece. Até a própria coragem...
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O problema de Brokeback Mountain é exactamente esse.
Houve coragem - de louvar, registe-se - para avançar com um projecto inédito. Inspirado num conto de Annie Proulx, publicado na New Yorker, Brokeback Mountain é a história de um amor impossivel entre dois homens, que primeiro têm de viver com a dificuldade de aceitar o seu amor, e depois, com a impossibilidade de o assumirem. Esse é o conto, essa é a premissa do filme. Só que ainda não tinhamos chegado a metade do filme e já a história se tinha esgotado. A premissa desvanecia-se em lugares comuns e não havia capacidade de se desenvolver a ideia. Porquê, se a base era tão audaz e permitia sonhar tão alto? Simplesmente porque não houve coragem.
A realização de Ang Lee é poética, é certo. Planos belissimos, com uma fotografia estilo cartão postal (não andassem eles por lá, de um lado para o outro), e uma sucessão de imagens da natureza, intercaladas com um amor contido, que não pode ser expresso por palavras, sob pena de se tornar vulgar. E tudo isso, de forma repetitiva até aos limites da exaustão. E depois, o final apressa-se, sob um pretexto tão esperado como inócuo, para terminar de forma completamente despropositada.
Resumindo, a verdade é que poucos teriam a coragem de ser Ennis e Jack. Poucos teriam a sensibilidade de Ang Lee a dirigir um filme tão contido. Mas ninguém soube ir mais além, fazer desta história de amor o que ela devia ter sido...uma história de amor!
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Porque se o amor homossexual nunca foi tratado em lado algum como foi, vezes conta, o amor heterossexual, também é verdade que isso não acontece em Brokeback Mountain, o filme que mais além conseguiu ir, sem ser crucificado por isso. Mas a verdade é que não foi arrasado, como se esperava, por isso mesmo. Por ter tido a sensibilidade, face ao grande público, de ser o mais contido possivel.
Entre Jack e Ennis não há um amor visivel. Há silência, troca de olhares, frases secas, mas pouco mais. Não há paixão, arrebatamento e verdadeira emoção. Quem esperava um Romeu e Julieta gay, sai desiludido. Há quase que um medo em explorar o que deveria ser uma história de amor. Trágica, é certo, mas, apesar de tudo, uma história de amor. E foi essa falta de coragem, de vontade de chutar de vez contra todos os preconceitos, que fez com que o filme fosse o enorme sucesso que tem sido. Ao não pisar o risco, ao viver do bom senso de mostrar o quanto baste deste "amor", Brokeback Mountain conseguiu agradar a gregos e a troianos. Por um lado, á comunidade homossexual que finalmente se viu retratada no grande ecrãn, com o destaque que lhes é habitualmente vedado. Por outro lado, a razão dos prémios, nomeações, triunfos, deve-se a essa mesma sensibilidade, que permite que o público mainstream goste do filme, sem ter de se preocupar com o facto de em vez deste ser um filme boy meets girl, mas sim um boy meets boy.
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E se Jake Gyllenhall é mais do que se esperava dele, e Heath Ledger bem menos do que se dizia, isso funciona um pouco como reflexo do filme. Sendo Gyellnhall o galã sedutor, aquele que despoleta tudo, mas também aquele que cai em desgraça, vitima da sua diferença, seria natural que num filme como poderia ter sido Brokeback, ele ficasse em segundo plano. E nesse caso seria o amargurado Heath Ledger, o cowboy que não queria ser gay mas que descobriu que não vivia sem o amor de Jack, a figura central. Mas não é isso que vemos. Gyllenhall é sempre o elemento mais forte em cena, mais sincero, mais apaixonado. E Ledger esconde-se por detrás de um underacting levado ao extremo, chegando mesmo ao exagero em alguns pontos. E as pontuais explosões de raiva não funcionam como escape de uma personagem bem mais profunda.
Ambos os actores foram imensamente corajosos em abraçar o projecto, e ambos estão bem em cena. Mas tal como filme, o seu desempenho sabe a pouco. E o mesmo acontece com Michelle Williams e Anne Hathaway, as suas esposas enganadas, que são quase rotuladas de forma esteriótipada, sem quase nenhuma expressão emocional. Salva-se Michelle Williams, mas mesmo assim é muito pouco para quem tem sido um dos nomes mais elogiados do ano.
E fica Ang Lee como ponto perfeito de comparação com a história. Imensamente sóbrio, sem nunca arriscar uma cena - excepto a ida ao México de Jack Twist, que termina com uma caminhada rumo á penumbra memorável - o cineasta realiza de forma muito poética, bonita e limpa. Mas sem arrojo e inovação. E neste filme que se estende, muito para além do que seria aconselhável, a própria banda sonora a dois tons de Gustavo Santaollala acaba por espelhar a monotonia de uma história que nesse aspecto ainda deve muito a um Last Picture Show ou a um The Misfits, esses sim, filmes fulcrais para perceber o Oeste abandonado dos anos 60.
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No fundo Brokeback Mountain é uma imensa desilusão.
Porque parecia ter chegado a altura em que o cinema dizia basta aos preconceitos sociais, e abraçaria um filme completamente fora dos padrões mainstream. Quem não tinha visto o filme, acreditava que era isso mesmo que estava a acontecer, desde a vitória em Veneza até ás nomeações aos óscares. Mas não.
O filme é belissimo, na forma como a imagem e os cenários são enquadrados numa história simples, crua e directa. Demasiado crua, demasiado directa. A contenção/explosão dos amantes merecia mais, muito mais. As mulheres das suas vidas também não mereciam cair em estereótipos. No final de contas, é preciso ser-se intelectualmente honesto. Se este filme não fosse um filme sobre um amor homossexual, ninguém lhe prestaria atenção. Se fosse mais um melodrama romântico de Hollywood com duas jovens promessas, mas em modelo boy meets girl, o mais provável era ver-mos a critica e a indústria rotulararem o filme como se ele fosse apenas "mais do mesmo". E seria, porque a história não trás nada de novo. Brokeback Mountain será sempre mais do mesmo, porque quando chegou a altura de ser diferente, o filme preferiu ser igual a tantos outros. E só porque um filme narra o amor de dois homens, isso não faz dele um filme especial. E Brokeback Mountain poderia ter sido um marco histórico.
Mas não foi!

Classificação - bback.gifbback.gifbback.gif

O Melhor - A primeira hora do filme. A partir daí o modelo esgota-se, a monotonia instala-se e o filme perde-se!

O Pior - A cena final e a falta de coragem para aprofundar mais uma história com imenso potencial.

Curiosidade - Gus Van Sant esteve muito tempo ligado a este projecto, mas acabou por ser Ang Lee a ficar com a direcção do filme.

Site Oficial - www.brokebackmountainmovie.com

Realizador - Ang Lee
Elenco - Heath Ledger, Jake Gyllenhall, Michelle Williams, ...
Produtora - Focus
Classificação - m/16
Duração - 134 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 07:15 PM | Comentários (14)

fevereiro 04, 2006

Memoirs of a Gueisha - Melodrama em terra alheia

Há em Memoirs of a Gueisha dois elementos semelhantes ao cinema dramático da Hollywood da década de 40 e 50. Por um lado o melodrama, baseado numa tocante história que tem lugar num ambiente exótico e profundamente cinematográfico. Por outro lado, é um filme sobre a ascensão a pulso de uma mulher contra todas as possibilidades. Para o filme ter tido sucesso bastava apenas que a história não se sustivesse durante mais de duas horas por um tenue fio condutor que deixa um travo amargo a desilusão no fim.
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A verdade é que a história de Sayuri é um verdadeiro épico humano. De uma pequena aldeia de pescadores ao titulo de mais disputada mulher do Japão, a sua ascensão social foi fulminante. Uma história dessas merece ser contado, ao contrário do que ela nos diz no inicio do filme. O problema é quando a história se desvia do interessante - o universo das gueishas, muito semelhante a All About Eve e o mundo dos palcos - para o comum melodrama, de um amor aparentemente impossivel, que depois se descobre, ser tão fácil que até nos espantam as voltas dadas para lá chegar.
Não fosse o interessante universo oriental suficiente para nos captivar, e o filme perdia todo o interesse tal a trivialidade desse romance. Mas felizmente há mais do que isso em Memoirs of a Gueisha.
O retrato do universo japonês dos anos 30 é feito com precisão geométrica, seguindo bem os moldes criados pelo romance de Arthur Golden. Não só no desenvolvimente das personagens, e no temivel tridente feminino de gueixas, mas também na própria sociedade de um Império que caminhava para o seu solsticio sem o saber.
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Tecnicamente o filme é impecável. O guarda-roupa criado por Coleen Attwood pode ser mais sensual do que era o original vestuário das gueishas, mas no filme ele encaixa como uma luva ás obras primas vivas da cultura japonesa. O trabalho de fotografia e direcçáo artistica é igualmente impar, tal como a banda sonora de John Williams.
A realização de Rob Marshall prima pela sobriedade. Não inova mas também não compromete, não fosse ele mais um enceador teatral do que propriamente um realizador de cinema.
Já o elenco é constituido por um excelente poker de asas, em que Ken Watanabe é de uma sobriedade impecável, Gong Li destoa um pouco pelo excesso do seu over-acting. Michelle Yeoh é a "mestre" perfeita, confirmando-se como a melhor actriz do cinema oriental enquanto que a rising star Ziyi Zhang ilumina o ecrãn com os seus olhos cor de água e os seus maneirismos apaixonantes. E é o elenco que consegue aguentar o filme, quando a narrativa descamba para o exagero melodramático.
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No entanto a verdade é que este é um filme fadado a nunca ter sucesso.
Para os europeus será sempre um retrato mais de forma do que conteudo, modelo pouco apreciado por cá e que nem as performances de um elenco muito interessante salvam. Para os norte-americanos, como já tinha acontecido com The Last Samurai, há um claro desinteresse por um filme de uma civilização que não lhes diz absolutamente nada. Por sua vez, no Oriente, as guerras culturais condenam á partida um filme sobre o Japão com elenco chinês e malaio, uma das muitas liberdades "artisticas", toleradas cá mas imperdoáveis na terra do sol nascente.

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O Melhor - Tecnicamente é um dos melhores filmes do ano.

O Pior - O melodrama excessivo do argumento, À medida que vai tomando pulso ao filme, este vai perdendo interesse.

Curiosidade - Zhang Ziyi e Gong Li não conhecem o ingles e aprenderam as suas falas lendo os lábios dos interpretes. Só Ken Watanabe e Michele Yeoh, com experiência no cinema ocidental, nao tiveram problemas.

Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/memoirsofageisha

Realizador - Rob Marshall
Elenco - Zhang Ziyi, Michelle Yeoh, Gong Li, ...
Produtora - Columbia
Duração - 150 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:20 PM | Comentários (0)

fevereiro 03, 2006

Pride and Prejudice - Tipicamente britânico

Adaptando um dos melhores romances britânicos, este Pride and Prejudice é mais do que um filme muito agradável de se ver. É uma história de encantar, filmada com imensa simplicidade e com grande sentimento. A prova de que Jane Austen é uma das escritoras mais cinematográficas de sempre. Não acreditam? Vão conhecer Elizabeth Bennett...
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No final de contas não se sabe o que há mais em Pride and Prejudice. Se orgulho, se preconceito.
Em termos dramáticos o filme é impecável na forma como segue uma jovem, demasiado liberal para o seu tempo, na descoberta de que o amor da sua vida, é, ao mesmo tempo, a encarnação de tudo o que ela odeia. O seu preconceito mistura-se com o orgulho ferido e o resultado é uma das maiores histórias de amor da literatura, que transportada para o cinema encontra aqui um filme à sua altura.
Mr. Darcy, o homem mais impenetrável á face da terra, é na verdade um resumo de todos os homens de sonho. A sua integridade, postura, aparência e caracter não saltam á vista, mas estão lá. Ao contrário de Liz Bennett, que deita cá para fora tu o que é seu, esquecendo-se que nem todos são assim. O seu Mr. Darcy saberá conquistá-la, mas a verdade é que é ela quem percebe que o orgulho e preconceito nunca fizeram bem a ninguem, emendando a tempo, tão desventurada existência.
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Keira Knightley, que consegue aqui uma surpreendente nomeação ao óscar, dá uma performance verdadeiramente luminosa, acente essencialmente no seu contagiante sorriso. Á volta dela gravita um mundo de excêntricas personagens, com destaque para os pais, interpretados muito bem por Brenda Blethyn e Donald Sutherland. Mas a grande revelação do filme é mesmo Mathew McFaydden. O papel que lançou Colin Firth, que fez a fama de Laurence Olivier, ajuda agora a lançar mais um promissor talento vindo dos palcos britânicos. Um desempenho seguirissimo e cheio de contenção, capaz de conquistar qualquer um.
Joe Wright, igualmente um rookie, vai muito bem, num filme com uma camara muito segura de si. Explorando bem o campo inglês, elemento fulcral na obra de Austen e na própria cultura inglesa, com paisagem avassadoramente belas, o filme consegue ser um perfeito retrato de época. As cenas dos bailes, com a camara em movimento, como se fosse um dos convidados mais curiosos, dá uma dinâmica que dificilmente o filme teria de outra forma. A imensa simetria de espaços é igualmente um achado, num paralelismo que se estende ao titulo e ás próprias personagens, ou seja, um verdadeiro mecanismo de complementaridade perfeita.
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Pride and Prejudice é uma história

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:31 AM

fevereiro 02, 2006

Munich - Sem perdão...

Steven Spielberg encheu-se de coragem e montou uma história magistral. Não sobre os atentados de Munique ou sobre a caça ao homem que se lhe seguiu. Mas sobre as implicações que essa vendetta tiveram na vida de um individuo. Um homem que obedecia sem questionar, até ao dia em que percebeu que não há bons e maus. O dia em que tomou consciência de que o terrorismo não existe. A verdade é que é apenas um novo termo, para um outro, bem mais antigo: a guerra...
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Cinco israelitas dormem num quarto em Atenas. Tinham acabado de cumprir mais uma etapa do seu contracto, ajudando á morte de três mentores dos ataques de Munique. Dormem, mas de olho aberto. Um barulho desperta-os. Pegam nas armas, colocam-se em posição e esperam. A porta abre. Quem quer que seja, tem a chave. O silêncio dentro do quarto contrasta com a alegre de convers de quem está lá fora. E depois, pistolas no ar. De um lado grita-se OLP...do outro ETA. Nenhum tiro silva o ar, ninguém morre. Durante uma noite, israelitas e palestinianos vivem sob o mesmo tecto. Arranjam mesmo maneira de se entender. Conversam sobre o mundo, sobre a justiça das suas causas. Mas sem saberem quem são. E quando descobrem, mais tarde, as armas voltam a estar prontas a disparar. A paz deixa de fazer sentido, quando o nome das nações fala mais alto que os próprios individuos.
Este é o ponto alto de Munich, o mais recente filme de Steven Spielberg. O filme, um dos seus melhores até à data, tem sido alvo de intensa polémica. Sem o ter visto não o podiamos ter percebido. Agora, sabemos porquê.
Mais do a questão israelo-palestiniana, Spielberg filmou esta história com dois pontos fortes. Cada qual resulta do anterior, e juntos formam a trágica epopeia de um homem que não existe, e que é pago por uma caixa de um banco da Suiça.
Porque mais do que a vendetta pessoal que Israel patrocinou após os atentados de Munique, Spielberg coloca em causa a própria ideia que hoje se tem do terrorismo.
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A verdade é que vamos percebendo ao longo do filme que o terrorismo não existe. Chamar aos palestinianos terroristas é um abuso. Não chamar terroristas a israelitas, norte-americanos, soviéticos ou quem quer que seja, é uma imprecisão. A questão é que a expressão terrorista ganhou contornos muito próprios. Terrorista é aquele que desafia a ordem estabelecida. Mas o que acontece quando a ordem estabelecida riposta? Isso mesmo, terrorismo.
Ao longo do filme os agentes envolvidos percebem que o que estão a fazer é apenas matar aqueles que mataram, que por sua vez mataram porque antes alguém já os tinha morto, e assim sucesivamente até ao inicio do tempos. E para sua desgraça pessoal, percebem que ao entrar nesta espiral de violência - que no inicio aceitam por acharem justa, mas que depressa percebem que tem tudo menos de justiça - estão a fazer parte desse ciclo de violência que não tem fim. E ao perceber o seu destino trágico, de estarem sempre ligados a rios de sangue, que não conhecem país, credo ou raça, tomam finalmente consciênca de que nunca o ódio entre nações pode suplantar o próprio individuo. E é no final, quando o personagem central, o centro de todo este pathos interno, se apercebe dessa situação, que acaba por ser renegado, por aqueles para quem trabalhou. Porquê?
Porque, para eles, nada está acima da pátria. Sejam israelitas ou palestinianos, a diferença e a semelhança está aqui. Ambos lutam povo contra povo, sem pensar nos seus próprios individuos. Matam-se indiscriminadamente, porque os mandam, porque é justo, porque faz tudo parte de uma causa maior. Mas por outro lado, os individuos, tomam consciência de que são peões, e que na verdade a causa maior nunca pode ser o ódio, a guerra, a morte, porque nada disso faz sentido, quando ambos estão lado a lado a ouvir um belo tema na rádio.
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E se Munich é sobre a vingança, sobre a vingança de um povo sobre um povo - os atentados - e a resposta a essa vingança com mais uma vingança - a vendetta, o interessante é ver que a espiral de violência torna os primeiros caçadores (os palestinianos), em presas ás mãos do esquadrão. E este por sua vez, passado algum tempo, acaba igualmente por ser presa fácil, porque não há herois imortais, e o assassino de hoje corre o risco de ser o assassinado de amanhã. Essa espiral faz com que o individuo - o elemento central da narrativa - entre num plano de tortura pessoal, de suspeição constante, de verdadeira paranoia. Porque a partir do momento em que se joga o jogo, começa-se a perceber as regras. Só que tomar conhecimento dessa realidade é um processo complexo que Eric Bana, o actor principal do filme vindo directamente de Troy, encarna com uma angústia extremamente convincente. E se ao longo do filme o seu caracter está em contraste com tudo o que vamos vendo surgir diante dos nossos olhos, no final ele também acorda para a realidade e entra no nosso comprimento de onda.
Bana que lidera um elenco muito low-profile mas extremamente competente, onde se destacam Cirian Hinds, Mathieu Kassovitz e Daniel Craig. Mas como em qualquer filme de Shakespeare os actores não estão para brilhar, mas para enquadrar a narrativa num perfil mais humano e individual.
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Mas não se pense que este Munich é um filme panfletário, anti-israelita, como se disse. Spielberg não é homem de tomar partidos. Sabe deixar aberta as portas à ambiguidade, a ambos os lados da questão. E a montagem, espaçada ao longo do filme, da morte brutal dos atletas olimpicos, deixa-nos sempre a lembrança que a falta de integridade de Israel - uma das frases mais fortes do ano cinematográfico - também existe porque do outro lado há um inimigo pronto a morrer pela terra que consideram sua.
Mas daí a comprometer os valores de toda a civilização, como diz Golda Meier e como o filme critica, do principio ao fim, vai um passo muito grande que ainda hoje o mundo não conseguiu perceber. E o próprio 11 de Setembro, a quem Spielberg pisca o olho no plano final, é um resultado dessa dicotomia. A Al Qaeda faz terrorismo...e os Estados Unidos não?

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O Melhor - A mensagem do filme. Não entretem mas torna-nos mais humanos.

O Pior - A montagem feita á pressa em algumas cenas e as personagens secundárias demasiado superficiais.

Curiosidade - O titulo original deste filme era Vengance.

Site Oficial - www.munichmovie.com/splash.html

Realizador - Steven Spielberg
Elenco - Eric Bana, Cirian Hinds, Daniel Craig, ...
Produtora - Universal
Duração - 175 m
Classificação - m/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:17 PM | Comentários (2)

janeiro 21, 2006

Where The Truth Lies - Menage a trois...

A presença constante de uma narração em off a três vozes quase que faz desta história um falso documentário, apimentado com sexo, mentira e sedução. Mas em Where the Truth Lies não há nada de documental, senão um piscar de olhos à dupla Jerry Lewis-Dean Martin. O que há é um argumento colado à pressa e com pouco jeito, e um imenso pretenciosismo que destroi três bons desempenhos.
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Há um sentimento de copy paste que vai percorrendo todo o filme, e que certamente não seria o objectivo de Atom Egoyan. O realizador egipcio que despontou com o interessante Exotica, consegue fazer do seu mais recente filme um misto de filmes noirs dos anos 40 com um ambiente a la L.A. Confidential, misturado com uma falsa história de uma dupla que parece claramente inspirada em Dean Martin e Jerry Lewis. O resulto, esse, é desastroso.
Não há nada de original que mova o filme. Tudo soa a falso, a algo que já foi feito - e feito mil vezes melhor do que aqui vemos. Nem a história - onde se levanta demasiada poeira para um final claramente previsivel - nem o ambiente criado são convincentes. O filme tem mais narração em off do que propriamente diálogos, numa especie de contemplação eterea por algo perfeitamente vulgar.
O desmembramento de uma popular dupla de cómicos que é desvendada, quinze anos depois, por uma jovem que, convenientemente, estava lá nesse mesmo dia. Do principio ao fim, nada convence. Nem as personagens, nem o argumento e muito menos uma realização demasiado repetitiva, pouco imaginativa e assumidamente maçadora.
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Em Where The Truth Lies pouco se salva senão o trio de actores que dão vida ás personagens centrais da narrativa. Tanto Kevin Bacon como Colin Firth encarnam as suas personagens de forma admirável. Tanto a personagem como a personagem dentro da personagem, o que, como o filme explicita, não é bem a mesma coisa. O amargurado Firth e o estouvado, mas sofredor, Bacon movimentam-se com genica e graciosidade numa história que lhes dava pouco espaço de manobra. Terem sobrevivido a um filme como este, é já por si um milagre tais os disparates acumulados pela ideia de copiar filmes como Laura, Double Indemnity ou mesmo L.A. Confidential.
Por sua vez Alisson Lohman é a luz que vai percorrendo o filme, do principio ao fim. Apesar da sua personagem ser uma desgraça total e absoluta, não são poucas as vezes que nos deixamos levar na conversa pelo desempenho emocianalmente bem conseguido da jovem actriz. A sua beleza, natural mas ajustada ao ambiente, completa a dose perfeita, ficando claramente no ar a ideia de que um desempenho como este merecia uma personagem bem mais interessante do que a altamente esteriótipada jornalista que Egoyan reservou para a actriz.
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E tal como num filme sobre um monumental escandalo, não podia faltar o escandalo em si. Ou seja, o sexo. Atom Egoyan não joga com o forte erotismo que rodeia a história na maneira certa. Pelo contrário. Expõe-no em demasia. Apesar do sexo ser o motivo de tanto barulho, há momentos em que, mais uma vez, o realizador não aprendeu com os clássicos, que ensinaram há mais de cinquenta anos que insinuar é, por vezes, muito melhor do que mostrar. A cena homossexual entre Alisson Lohman e Kristin Adams é um dos mais claros exemplos de como o deboche e o vouyerismo de um cineasta pode estragar uma cena.
Se há casos que devem ficar obscurecidos pela memória, também há filmes que nunca deveriam ter sido feitos. Ou pelo menos, feitos da forma que foram. Este é um desses casos.

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O Melhor - O desempenho do trio de actores. Uma excepção num oceano de mediocridade.

O Pior - O argumento é dos mais inverosimeis que se possam imaginar. O próprio final chega a ser anedótico.

Curiosidade - No meio de tanto deboche, o realizador foi obrigado a cortar uma cena de orgia pela MPAAA, sob o risco de ser exibido como um filme com a mais alta classificação, e praticamente sem distribuição comercial.

Site Oficial - wheretruthlies.tripod.com/TruthLies.html

Realizador - Atom Egoyan
Elenco - Alisson Lohman, Colin Firth, Kevin Bacon, ...
Produtora - SerendipityClassificação - m/16
Duração - 109 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:33 AM | Comentários (0)

janeiro 19, 2006

Match Point - Crime Sem Castigo

A critica queria o velho Woody Allen. Ele regressou como nunca ninguém o viu. Mais europeu do que nunca, passeando entre Bergman e Dostoievsky, o mais recente filme de Woody Allen é também um filme sobre a luta de classes. Essa luta que, mesmo bem disfarçada, continua a existir. Um filme com crime, sem castigo, mas acima de tudo, sem perdão.
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Match Point já foi feito. A história foi montada um pouco ao contrário, o final não obedece ao esteriótipo de Hollywood da época, mas quem viu A Place in the Sun de 1951, irá certmente encontrar as devidas semelhanças. Mas mais do que essas parecenças narrativas com esse gigantesco filme de George Stevens, este filme de Woody Allen é acima de tudo, um filme extremamente literário.
Há uma carga emocional à volta de Chris Wilton, do primeiro ao último plano do filme, que só costumamos encontrar em dramas literários extremamente poderosos. Longe de Nova Iorque, definitivamente afastado das personagens neuróticas, Woody Allen está na Europa como um verdadeiro europeu e trata as questões com um olhar nada americano. Em Roma sê romano e o cineasta nem pensou duas vezes em aceitar o convite. A presença em Londres parece redutora, em termos de espaço. As ruas e as casas continuam a ser em tudo iguais ás da sua querida Nova Iorque. Mas há uma coisa que Londres tem que o cineasta nunca encontraria na sua cidade natal: uma profunda divisão de classes.
Cada vez mais maquilhada, cada vez mais escondida, mas a verdade é que a luta de classes continua a ser um facto indismentivel na sociedade europeia. Séculos de história e de mentalidades não se apagam com boa vontade e haverá sempre os que são considerados inferiores e os que considerados superiores. E Match Point vive à volta dessa premissa. Como um jovem que se considera claramente inferior, com todos os traumas e tiques de pobre em ascensão social, mais papista que o Papa, perante uma familia claramente superior no seu estilo de vida, que é, a seus olhos, a ambição máxima que um homem pode ter.
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É neste ponto que Woody Allen se afasta um pouco deste seu aspecto "europeu" para voltar a colocar os óculos do nova iorquino. Ao longo da história percebemos que não há em Allen qualquer problema com as personagens de classe alta. Pelo contrário, eles são perfeitos em todos os aspectos, correctos, educados, pessoas verdadeiramente conscientes do seu valor, mas que não usam e abusam do seu estatuto. Muito pelo contrário. É nas classes mais baixas, representadas por este Chris Wilcott, um jovem irlandês que encontrou no ténis um escape à pobreza da sua terra natal, que está o alvo. São essas as pessoas mesquinhas, prontas a sacrificar tudo para chegarem ao nivel das classes mais altas. Não ao nivel humano, mas social e monetário. Há aqui um Woody Allen quase desencantado com as classes médias que sempre representou. Um cineasta cinico e extremamente mordaz que não hesita em fazer da sua personagem central a mais diabólica de todas as que preenchem a sua filmografia. E no entanto os seus comportamentos são feitos com tamanha naturalidade que não nos surpreendem. Uma naturalidade no acto e na essência, num filme onde a critica social atinge niveis nunca vistos em filmes anteriores do realizador.
Mais, neste Match Point não há humor. O mundo é claramente uma tragédia. A história do seu filme anterior, Melinda and Melinda, oscilava entre a comédia e a tragédia. Mas Allen já escolheu a sua visão do mundo e ao som constante de ópera soturna, de planos arrastados e extremamente pesados, e, essencialmente, do rosto amargurado e dilacerado pela pequenez humana de um notável Jonathan Rhys Meyers, constroi um mundo injusto, onde os mais fracos perdem sempre, aconteça o que acontecer, e onde os afortunados têm sempre mais hipóteses de sobrevivência do que os realmente bons. Mas há um imenso tom de cinismo e ironia. Apesar do crime sem castigo, há um outro castigo a que Crhis Wilton não poderá escapar. O ter de acordar todos os dias, até ao fim da sua vida.
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A presença do romance Crime e Castigo de Fiodor Dostoievsky não é um acaso. Mais do que uma obra extremamente literária, Match Point funciona mesmo como um trabalho que poderia ter sido concebido pelo escritor russo. Há um fatalismo presente em cada uma das cenas, um distanciamento da humanidade inapeláveis, que condenam-nos a todos a viver, apesar do aparente manto da felicidade, numa dúvida interior dilacerante. Oscilando entre Bergman, mais do que nunca, e um intenso e preocupante realismo, Woody Allen monta uma história fabulosa, filmada do primeiro até ao último plano, na perfeição. Com um elenco britânico em grande forma (Rhys Meyers é fabuloso e tanto Emily Mortimer como Brian Cox estão em bom nivel) e com a sexual presença de Scarlett Johansson, que continua a viver mais da beleza natural do que da profundidade dos seus papeis, a trama compõe-se para um final a todos os titulos inesperado. Recheado de brilhantes twists, de um ambiente quase familiar, mas de um pessimismo assustador, é impossível não se ficar maravilhado com este comeback de Woody Allen aos dramas. Um comeback diferente, já que este filme ultrapassa em termos dramáticos tudo o que o cineasta já tinha feito. Mais do que um golpe de sorte, Match Point é um golpe de génio.

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O Melhor - O argumento criado de forma genial por Woody Allen. Um dos melhores da sua carreira e certamente o mais profundo argumento dramático do ano.

O Pior - Esperava-se mais do desempenho de Scarlett Johansson. Começa a viver mais do seu corpo que da profundidade das suas personagens, e mesmo quando tem algo a dizer parece ser dificil prestar atenção.

Curiosidade - Este é o primeiro de dois filmes que Woody Allen decidiu filmar em Londres. O segundo chama-se Scoop, terá de novo Scarlett Johanson no elenco e estreia em 2006. Mais uma vez promete ser um filme em tons bem negros, partindo da premissa de um crime sem resolução.

Site Oficial - www.matchpoint.dreamworks.com/main.html

Realizador - Woody Allen
Elenco - Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johannson, Emily Mortimer, ...
Produtora - Dreamworks
Duração - 124 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:35 PM | Comentários (4)

janeiro 15, 2006

Kiss Kiss Bang Bang - Se alguém vos disser que é genial...acreditem!

Há filmes assim. Imaginativos. Conseguem agarrar o espectador do primeiro ao último minuto. Surpreendem a cada cena que passa. Não têm medo de ir onde pouca gente se atreve a ir. E quando lá chegam, vão ainda mais além. Há filmes assim. Só que são poucos. Aliás, muito poucos. Mas ainda os há. Felizmente, um deles está cá para nos lembrar que só vale mesmo a pena ir ao cinema para ver filmes assim. O resto, é puro hábito!
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"Tarantino, watch and learn! "
Estava a pensar acabar assim o artigo, mas provavelmente ficará piroso e criará no leitor a ideia de que Kiss Kiss Bang Bang é melhor do que Pulp Fiction. Se calhar até é, mas nunca ninguém vai ter a coragem de dizer isso. Se eu fosse o primeiro era mais provável levar muitos "bangs". Se calhar é melhor acabar a critica com uma citação de Chandler. Afinal não é todos os dias que vemos um filme estruturado, da cabeça aos pés, como se fosse uma obra chandleriana. Até os titulos dos capitulos que vão pautando o filme são titulos de livros do maior escritor de policiais norte-americano. E se Philiph Marlowe é omnipresente em toda a história, e se todos os ingredientes da literatura - e do cinema - noir também lá estão, faz sentido acabar com uma frase sobre Chandler. Sim, está lá a femme fatalle, apesar de não ser tão fatal quanto isso. E estão lá os casos interligados. E os corpos que ninguém sabe donde vêm. E as pontas soltas que se juntam no final. E o detective gay e o ladrãozeco que afinal é actor, ou melhor detective, ou melhor mágico...esperem. Afinal isto não é bem Chandler. Vamos voltar ao principio.
Shane Black!
Sim, eis uma boa forma de acabar o artigo. Afinal, o guião de Kiss Kiss Bang Bang é dele. Assim como os guiões de todos os filmes de sucesso de acção do final dos anos 80 e inicios de 90. Sim, aqueles com o Bruce Willis, o Mel Gibson ou Schwarzenneger. Sim, esses mesmos. Esperem! É a mesma pessoa?
Sim, mas está diferente. O que é que o levou a mudar? Ah, já sei...Hollywood. Então afinal, Kiss Kiss Bang Bang não é um filme "a la Tarantino"? Nem um filme chandleriano? Nem um filme de acção? É uma critica ao sistema de Hollywood? Ah pronto, assim já nos entendemos.
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Sim. A festa, as actrizes futeis, as wannabes que acabam na indústria porno, a servir á mesa, em bares ou clubes de strippe, ou em anúncios publicitários de terceira. Isso mesmo. E toda a história da fama e fortuna, dos consultores técnicos. Mais, a incapacidade de um director de casting em avaliar um actor, confundindo qualquer um com Marlon Brando. Sim, estamos em Hollywodd, não haja dúvida. E Shane Black está aqui para nos garantir isso.
Afinal, ele foi o menino bonito dos argumentistas até que teve dois falhanços seguidos. E depois veio o terceiro. E depois já nem queria saber. E o que fez ele? Escreveu Kiss Kiss Bang Bang. Não, esperem. Primeiro tirou uma licença durante dez anos para analisar bem os podres de Hollywood, e só depois escreveu Kiss Kiss Bang Bang. Eis uma boa desculpa para uma década sem fazer nada. Se todos fossem assim.
Pronto, escreveu esta pequena obra-prima da comédia, cinema noir e de acção que é Kiss Kiss Bang Bang, e depois? Depois realizou-a. E fê-lo de forma certeira, como qualquer frase no seu guião. Mas esperem, ainda não acabou. Não só fez isso - mais aquele genérico inicial, sublime meus caros, sublime - como escolheu aquilo a que se chama do casting perfeito. Ou seja, sem o Collin Farrell. Não, ele tinha pedido demasiado cachet e foram buscar o Robert Downey Jnr? Não, não é bem isso. Mas o que interessa é que ele está lá. O Robert, quero dizer. Sim, aquele que foi a sensação de Cannes. O mesmo que deu cabo da carreira por causa das drogas e do alcool. Sim, aquele grande actor em quem ninguém acreditava. Pronto, temos um génio decadente, e toca a procurar o parceiro perfeito. Que tal Val Kilmer? Ninguém gosta dele porque é um actor dificil. Muito bom, mas dificil. Combinação perfeita! Não, falta qualquer coisa. Ah, a actriz. Que tal uma beldade que é uma rising star de todos os tamanhos e que nos deixa colados do primeiro ao último instante? Sim, é Michelle Monaghan, ela mesma.
Já está o argumentista, já está o realizador (e o genérico, não esquecer o genérico) e já está o cast. O que é que vem a seguir? Ah, isso, o filme.
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Filme é pouco para descrever Kiss Kiss Bang Bang. Aliás, o titulo em si já indica algo mais do que um simples filme. Isto é uma odisseia do humor, da critica negra, do cinema noir, de cenas tão improváveis que ultrapassam a barreira do próprio génio para o além, que ninguém sabe ainda como se chama. O filme não se pode ver com um ar sério. Pode tentar-se, mas se ele não desaparecer nos primeiros minutos, então mais vale sair da sala, porque só está a destoar do resto da plateia. E o mais genial de tudo isto é a improbabilidade.
Quem alguma vez acreditaria que o melhor guião dos filmes produzidos em 2005 seja deste filme? E que Robert Downey Jnr devesse estar a medir forças para o óscar? E que Val Kilmer tivesse o seu merecido comeback? E que hoje Shane Black fosse um dos maiores estreantes atrás das camaras dos últimos tempos, e que merecesse mover os mesmos fãs que consegue mover um tal de QT?
É essa improbabilidade que torna tudo isto mais delicioso. Porque é genuino. Porque se afasta do convencional, dos lugares comuns, e vagueia pelo louco e irremediavel caminho dos que não querem saber o que o outro vai dizer sobre eles. É ridiculo? Sim, pode dizer-se que sim. Isso importa? Claro que não.
Kiss Kiss Bang Bang é um filme genial. Robert Downey Jnr é um actor do outro mundo. As pessoas deviam ser obrigadas a ver cinema assim. E agora? Agora acho que estou sem palavras...e já não sei como acabar este artigo!

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O Melhor - Para haver um melhor tinha de haver um pior. Como provavelmente não há um pior, então tirem as vossas conclusões.

O Pior - Acabei de vos dizer que não há um pior!

Curiosidade - Se não fosse por Mel Gibson, produtor do filme, Robert Downey Jnr não teria tido o papel. Foi Gibson, amigo pessoal do actor, quem insistiu com Joel Silver, o outro produtor, para dar uma oportunidade a Robert. Nós agradecemos.

Site Oficial - kisskiss-bangbang.warnerbros.com

Realizador - Shane Black
Elenco - Robert Downey Jnr, Val Kilmer, Michelle Monaghan, ...
Produtora - Warner Bros.
Duração - 103 m
Classificação - m/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:39 AM | Comentários (11)

janeiro 14, 2006

Jarhead - Danos Colaterais

"Every war is diferent. Every war is the same".
Já muitos filmes tentaram trabalhar esta premissa. Não é aí que reside a novidade de Jarhead. Mas o novo filme de Sam Mendes consegue transparecer com inteiro realismo o dia a dia de um soldado em missão militar. Longe dos heroismos dos filmes mais antigos, ou da violência gratuita de Full Metal Jacket, o filme de Mendes é essencialmente um filme sobre os danos colaterais de uma guerra. Sejam eles civis ou militares, a verdade é que de guerra para guerra, as sequelas são sempre as mesmas. "Welcome to the suck"...
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"We are still in the desert!".
É com esta frase de sentido duplo que fecha Jarhead.
Por um lado dá a estocada final à presença americana no Médio Oriente, como foi prometendo ao longo do filme com frases como "nunca mais cá precisamos de voltar", "acabamos com Saddam" e coisas que tais. O fantasma do presente está sempre no passado. O passado de um soldado, Anthony "Swoff" Swordoff que teve coragem de passar para o papel o que poucos ainda conseguem interiorizar. As sequelas que a Guerra do Golfo lhe deixou, a ele e ao seu pelotão. Treinados para serem os maiores assassinos da história, a verdade é que o seu treino acabou por derivar numa sede de sangue insaciável. A vontade de matar torna-se uma dependência, a ausência de alvos, uma monotonia. A guerra torna-se a droga que lhes alimenta o vicio da adrenalina. Porque estar em qualquer outro lugar seria possivel, mas nunca seria a mesma coisa. E porque, uma vez marine, sempre um marine. Para o bom, mas essencialmente - e é este o ponto porque Mendes pega - para o mau.
E esse é o segundo sentido da frase. Porque cada guerra é sempre igual à anterior para quem lá está, então quem lá esteve sentir-se-á presente nas guerras futuras, mesmo não estando. Complicado? Nem por isso! A mensagem do filme é que um soldado não esquece e percebe, mais do que ninguém, a futilidade das guerras. Mas está viciado nelas, não se consegue libertar. A personagem de Jamie Foxx (um dos melhores num elenco muito seguro e muito competento, com um Jake Gyllenhall em grande forma) di-lo com toda a clareza. Está lá porque, para ele, é o melhor trabalho do mundo. Dificilmente o será, e não sabemos se hoje ele é uma das vitimas do comeback americano ao Iraque. Mas desde o primeiro dia de recruta foi isso que lhe ensinaram. E é nisso que ele acreditará, sempre.
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Diferente de todos os filmes de guerra, por praticamente não haver guerra, Jarhead é um trabalho excepcionalmente imaginativo. Claro que o facto de criar um vazio - tanto de acção como de ideias - surge como espelho da realidade, e isso pode parecer anti-cinematográfico. Mas não é. O que é preciso é ter paciência, pensar cada cena como se a estivessemos a viver, como se fossemos parte da companhia. Acção trepidante e sem sentido encontram-na em Full Metal Jacket, filme de Stanley Kubrick bem inferior a este trabalho de Sam Mendes, que benificia igualmente de uma equipa técnica fabulosa, com principal destaque para o avassalador trabalho de fotografia de Roger Deakins, e para uma banda sonora excepcionalmente montada. Estão portanto criadas todas as condições para percebermos o que é de facto, um Jarhead.
E é neste dia a dia, com todos os episódios, que se vão repetindo, não por falta de imaginação, mas porque não há mais nada. E o vazio só é filmável de duas formas. Com repetições que dêm essa ideia, ou então, à auteur pretencioso, com uma camara apontada durante longos minutos para o nada. Mas felizmente Mendes não tem nada desses tiques elitistas europeus, e consegue manter a história com ritmo, lento, mas com ritmo.
E é aí que conhecemos melhor Swoff, um marine que só quer sair. E Troy, um marine que só quer ficar. E um marine de esquerda, e marines de todas as minorias étnicas possiveis e imagináveis. E as namoradas dos marines, e as suas esposas traidoras, e os comandantes do exército, e a imprensa, totalmente ás cegas. E conhecemos tudo menos a guerra. Porquê? Porque a guerra não era para eles, apesar de eles precisarem dela para continuarem a acreditar neles próprios.
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Como é que dois marines acabam a guerra sem disparar um tiro? Como é que meses e meses de preparação, meses e meses de adaptação, resultam numa campanha de quatro dias? Aqui a critica vai para a forma desumana - se é que há uma forma humana - como se conduzem as guerras hoje. Pegando numa ideia que já vinha do Vietname, os soldados questionam-se sobre a forma como tudo é conduzido. Com uma diferença. O soldado do Vietname só queria sair de lá. Os soldados de Jarhead só querem acção. E enlouquecem, e desesperam, e percebem que nada na sua vida faz sentido, ali, no longo e árido deserto. E quando tudo acaba, voltam para casa. Nada está na mesma, porque o tempo não parou no resto do mundo como parou ali, mas aos poucos, vão voltar a enquadrar-se. Ou não. E esse não, de que já temos ideia quando encontramos o velho veterano do Vietname no regresso a casa, mas que temos a certeza no belissimo último plano de Peter Saasgard, esse não é real. E esse não, são na verdade os danos colaterais de que falamos. Porque quando alguém é treinado para viver uma situação no limite, e não a chega a viver, nem na altura nem nunca mais, a sua vida perde o rumo. E quando se perde o rumo é dificil voltar a encontrá-lo.
Jarhead é sobre a guerra. Mas é pouco dizer isso. Jarhead é sobre as pessoas que vão à guerra e que voltam. Sobre como chegaram lá e como regressam. Porque apesar de tudo, pode-se sempre aprender com eles. Afinal, todas as guerras são diferentes, mas todas as guerras são iguais...

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O Melhor - O trabalho de fotografia e a banda sonora do filme são certamente dos melhores de 2005. Sem dúvida alguma.

O Pior - Faltou talvez desenvolver um pouco mais as personagens, para além da superficie. O vazio de tempo, permitiria certamente um melhor conhecimento de cada um, em vez de encontrarmos algumas personagens tipo.

Curiosidade - Os actores filmaram em Imperial Valley, o mesmo local onde os soldados norte-americanos treinaram antes de irem para o Iraque por ser um dos espaços do Mundo mais parecido com a georgrafia do sul do Iraque.

Site Oficial -

Realizador - Sam Mendes
Elenco - Jake Gyllenhall, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, ...
Produtora - Universal
Classificação - m/12
Duração - 123 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:31 PM | Comentários (1)

janeiro 11, 2006

Fun With Dick and Jane - Acertar de contas

O truque para desvendar Fun With Dick and Jane é olhar para o nome do produtor. O facto de ter sido muito pobre até bem tarde na sua vida, de saber as dificuldades por que passou e a forma como descobriu que o humor poderia ser um escape, ajudou Jim Carrey a singrar em Hollywood. Agora está de voltas, para um acerto de contas com o lado mais podre da "terra das oportunidades".
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Bush é uma figura omnipresente em Fun With Dick and Jane. Quer na televisão, quer numa cena genial onde a personagem de Alec Baldwin imita o que Bush fez uma vez, diante da imprensa, quando questionado então com a situação politico-economica pos 11 de Setembro.
Assim como a última cena do filme lança já o que irá acontecer com a Enron, a verdade é que todo o filme vive à volta da mesma ideia: o sistema empresarial norte-americano está mais do que podre. As falências sucessivas de várias empresas corrempem o sonho americano e o próprio sistema. E este filme não perde, em nenhum instante, a possibilidade de atacar furiosamente o sistema. Como? Com a gargalhada.
Jim Carrey, canadiano, cresceu pobre. muito pobre. Tinha de fazer stand-up comedy em bares para conseguir comer, muitas das vezes. Por isso sabe bem o que é não ter nada. E foi na comédia que se refugiu nessa época. Aqui, o seu Dick também se vai refugiar num humor involuntário, mas que é o motor da história. A forma como encara a situação em que se enconra - a empresa, onde tinha acabado de ser promovido a vice-presidente de Comunicações faliu, graças a uma trama do seu presidente - mistura a raiva perante a traição do sistema com a vontade de fazer justiça. E será esse o seu leit motiv, até finalmente conseguir fazer justiça pelas próprias mão.
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É nesse periodo que o filme tem as suas melhores cenas de humor. Não são muitas, até porque o filme acaba por cair demasiadas vezes na banalidade, mas há algumas de bom nivel. E aí, já se sabe, Jim Carrey é rei e senhor. Um dos grandes comediantes da história do cinema, a sua personagem varia entre o humor extremamente fisico - quase um cartão de visita do actor - para um humor cada vez mais refinado. Até porque a sua passagem por outro tipo de filmes ajudou a divulgar esta sua outra faceta. Já Téa Leoni move-se bem, mas nunca consegue apanhar o ritmo furioso de Carrey. O filme é claramente um one-man show, ao contrário da versão original, onde Jane Fonda batia o pé a George Seagal. E apesar do filme ser um remake, está muito bem estruturado para o panorama actual. O caso do filho que já é mais hispanico que propriamente o habitual miudo branco dos suburbios, as mascaras utilizadas nos assaltos, tudo isso reflecte bem o panorama actual. E claro, a questão das falencias não podia estar mais na ordem do dia, fazendo deste um filme actualissimo.
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Com uma realização fraca, um argumento com demasiados momentos mortos e um trabalho técnico nada por aí além, a grande virtude do filme é sem dúvida Jim Carrey. A critica ao sistema económico é brutal, os agradecimentos especiais finais deliciosos, e o desempenho de Carrey de bom nivel. Um filme agradável de se ver, que apesar de não saltar para um patamar superior, não deixa de cumprir à sua maneira. E nas contas finais, até isso hoje é cada vez mais dificil de encontrar. Fun With Dick and Jane não é só para nos divertirmos. É para pensarmos e estarmos atentos. Para depois não sermos forçados a acertar contas.

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O Melhor - O habitual humor fisico de Jim Carrey, onde ele é claramente um especialista.

O Pior - A leveza exagerada na direcção e concepção estética do filme.

Curiosidade - O filme consegue patrocinar ao mesmo tempo duas das maiores marcas automóveis alemãs, a Mercedes e a BMW. Ambas investiram dinheiro na produção, prova de que, cada vez mais, o papel da publicidade, dentro dos filmes, é um fenómeno a ter em linha de conta.

Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/funwithdickandjane

Realizador - Dean Parisot
Elenco - Jim Carrey, Téa Leoni, Alec Baldwin, ...
Produtora - Sony Pictures
Duração - 90 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:46 AM | Comentários (1)

janeiro 10, 2006

Corpse Bride - Uma história do outro mundo...

O que há de melhor na filmografia de Tim Burton está neste filme. Humor negro truculento, personagens deliciosas, um ambiente em constante contradição, um trabalho sonoro brilhante. Para Burton, fazer um filme de animação não é fazer um filme diferente ao que está habituado. Pelo contrário, é explorar o que de melhor esta linguagem cinematográfica tem para lhe oferecer na sua habitual mesa de trabalho. Nós por cá agradecemos!
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Para além de um extraordinário cineasta, Tim Burton é um homem que não para. Escreve contos fantásticos, letras para musicas, histórias para crianças, enfim uma imensidão de coisas que fazem dele um dos mais criativos autores dos nossos dias. E criatividade é a palavra chave deste filme.
Corpse Bride funciona de duas maneiras diferentes. Como um notável filme de animação, onde é admirável todo o trabalho de composição de stop-motion (este ano o genero está em grande), e todo o ambiente criado para contar a história deste triângulo amoroso do além, mas, essencialmente, como autêntico espelho do ideal cinematográfico burtoniano. Decors expressionistas, uma rigidez vitoriana nos vivos, uma alegria efusiante no mundo dos mortos, personagens trabalhadas até ao último tique, enfim tudo aquilo que nos habituamos a amar nas obras de Burton. Quer num caso, quer noutro, Corpse Bride é um trabalho expcional. No entanto, no primeiro caso, peca por ser uma história demasiado simples, demasiado curta, fica vontade de ver mais e mais. Mesmo assim o filme é admirável em todos os sentidos, do primeiro ao último plano, no mundo dos vivos e no mundo dos mortos.
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É impressionante a forma como Burton brinca com o jogo entre mortos e vivos. Com um excelente trabalho sonoro de Danny Elffman, pois claro, conhecemos estes dois mundos onde tudo está ao contrário. A ambição desmedida, o desejo de lucro, o arrivismo pequeno burguês e os tiques de nobres sem dinheiro, são esmilhoçados até ao mais infimo detalhe, numa precisão de cirurgião. Lá no meio está Victor van Doort, um homem que nada tem a ver com o seu tempo. Tal aliás, como acontece com a sua noiva Victoria, formando-se em vida um casal completamente descontextualizado. O contexto dos vivos não lhes cai bem, mas o contexto dos mortos também não. Apesar do ritmo de jazz e de grande alarido que se faz "lá em baixo", a vida também é pobre e com ressentimentos. É na curiosa união entre mortos e vivos, para um casamento do outro mundo, que se percebe bem como as peças encaixam. É a vida cá em cima que faz os homens soturnos, não a própria existência humana, que é, como se sabe, um estado provisório. Os mortos não são melhores que os vivos. São os mesmos, mas sem o espartilho da sociedade. Esse retrato negro da sociedade vitoriana, que podia ser o retrato da sociedade actual (basta ver Charlie...), é uma habitual marca do cinema de Burton, sempre à procura de um escape desse mundo. Aqui o escape é a morte. Em Ed Wood era o terror, em Big Fish a imaginação, e em Charlie a eterna juventude, só para citar três casos flagrantes.
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Nesta composição, o amor é a alavanca, mais também o travão. O amor que nasce entre Victor e Victoria, esse estranho amor à primeira vista, não está destinado a ser um amor feliz à superficie, se não houvesse a intervenção dos mortos, que vêm na realidade dar vida a esta reunião. Pelo meio ficam os desamores de Emily, sempre dama de honor, nunca noiva, que tenta encontrar em Victor, e no anel que este por engano lhe coloca no dedo, a felicidade eterna que não conseguiu em vida. O facto de Victor estar disposto a abdicar da sua vida para casar de facto com Emily tem pouco a ver com o amor. Tem exactamente a ver com a percepção que ele ganha da vida "lá em cima". Mas mesmo assim, apesar de tudo isso, o amor é sempre a alavanca das suas acções (pautadas com o habitual medo que as personages de Depp têm sempre nos filmes de Burton), mesmo no curioso e divertidissimo duelo final. Burton consegue em todas as cenas uma mestria inigualáveis no panorama actual quando se trata de falar sobre os podres da sociedade. Desenhado em tons musicais - o clip musical onde conhecemos a história da Noiva Cadáver é do melhor que o cinema de Burton tem - sempre cheio de vida, mesmo quando nada o faria prever, Corpse Bride é um filme cheio de imaginação.
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De Depp, Bonham-Carter e Emily Watson só se podem dizer maravilhas. Deram vida às suas personagens de uma forma espantosa, especialmente Johnny Depp, sempre igual a si mesmo, e Helena Bonham-Carter que faz da sua Noiva Cadáver talvez a melhor personagem que já encarnou. Trabalhar com Burton tem-lhe feito bem como actriz e ela está cada vez mais solta e interessante de seguir, mesmo na sua versão animada. Claro que a presença de outros membros da "familia" do realizador- Albert Finney, Christopher Lee - trazem ainda mais um ambiente de "conto" a Corpse Bride, o que acaba por ser a escolha mais acertada.
Feito com enorme precisão, praticamente sem o uso de computadores, este filme é uma das pérolas de 2005. Não só como filme de animação, onde supera o primeiro filme animado de Burton e muitos outros filmes que têm feito tanto sucesso, mas como viagem ao universo maravilhoso e fantástico que só Tim Burton consegue criar e recriar, vezes sem conta, nos seus filmes. Este ano houve dose dupla de Burton. Pena é não haver disto todos os anos.

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O Melhor - Todo o ambiente criado por Burton, pautado pelas diferenças entre o mundo dos vivos e o além, é absolutamente genial.

O Pior - O facto de ser um pequeno conto funciona bem, mas o filme é demasiado pequeno não conseguindo voar a outro nivel, como provavelmente aconteceria com um pouco mais de "sumo".

Curiosidade - A larva que foi criada como consciência da Noiva Cadáver foi inspirada directamente no actor alemão Peter Lorre, que fez fama primeiro na Alemanha, onde foi a estrela de M, e mais tarde nos Estados Unidos onde trabalhou com Humphrey Bogart em The Maltese Falcon e Casablanca.

Site Oficial - corpsebridemovie.warnerbros.com

Realizador - Tim Burton
Vozes - Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Emily Watson, ...
Produtora - Warner Bros.
Duração - 71 m
Classificação - m/6

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:45 PM | Comentários (2)

dezembro 23, 2005

The Family Stone - Laços de Familia

Uma familia é, feitas as contas, o mais precioso que cada um de nós tem. Mesmo nos momentos de maior solidão, de dor, mas também nos momentos de alegria, podemos contar sempre que ela esteja lá. E amamo-la por isso, mesmo que dentro dela existam individuos completamente diferentes, muitas vezes de nós próprios.
The Family Stone é uma carta de amor à familia...
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Lá fora neva. É Natal. Poderia ser um Natal como qualquer outro. Mas não é. Falta alguém. Alguém que todos amam. Que todos respeitam. De quem todos sentem falta. Um Natal que poderia ser como qualquer outro. Mas que não é. Porque uma familia é um bloco. E quando um deles não está, todos o sentem. Está no olhar, mesmo disfarçado. Nos gestos, nas palavras. O sentimento de perda, mesmo escondido, está lá.
Rewind. Um ano atrás precisamente. Lá fora não neva, mas o chão está branco. É Natal. Poderia ser um Natal como qualquer outro. Mas não é. Há alguém novo a conhecer. Alguém que ninguém parece gostar. Alguém que acham que está a mais. Alguém que se sente a mais. Um Natal que poderia ser como qualquer outro. Mas que não é. Porque uma familia é um bloco e olha desconfiado para um novo "membro". E esse fantasma irá marcar este Natal de uma familia que poderia ser uma familia como as outras. Mas que não é. É a familia Stone, onde cada um é mais excêntrico que o outro. Uma familia que é fácil odiar, mas que é ainda mais fácil amar.
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The Family Stone é a estreia de Thomas Bezucha atrás da camara numa grande produção. Antes disso tinha apenas um filme no curriculo. Algo que se nota, duplamente. Primeiro porque há ainda uma camara presa nas mãos de Bezucha. Há dificuldade em soltar-se e deixar-se ir com a cena, e algumas cenas são demasiado básicas para um filme ambicioso. No entanto nota-se a frescura da primeira vez (que não é bem a primeira, mas é como se fosse), alguns toques originais que indicam que há ali qualquer coisa a ter em atenção. O mesmo se passa com o guião, com muitas arestas por limar, mas que no fundo parte de uma boa premissa que é bem conduzida, de forma geral, pecando apenas pelo exagero de personagens, que acaba por ser interessante em termos de panorama, mas que prejudica o desenvolvimento de personagens já de si estimulantes de conhecer.
O filme pauta-se por um humor, muitas vezes demasiado fácil, mas sempre com uma mensagem por trás. A tolerância, o amor, o respeito pelo próximo, o seguir o sonho, são tudo coisas muito bonitas de se dizer, mesmo em filme de Natal, mas têm de fazer sentido. Neste filme fazem. Mesmo que por vezes não o pareça. E quando caminha por esse rumo, da mensagem de fraternidade, o filme torna-se mesmo delicioso. O pior são mesmo os risos forçados que o cineasta tenta arrancar, e que por vezes até resultam. Mas não há fórmula que falha. O pior é que aqui, falha vezes demais.
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Quando falamos de elenco, há muito por onde se pegar já que Bezucha conseguiu reunir um excelente grupo de actores à sua volta. A começar pelos mais veteranos, é preciso dizer que Diane Keaton está em excelente forma. Desde Something´s Gotta Give que a actriz ressuscitou depois de quase duas décadas em que andou desaparecida, fora alguns trabalhos ocasionais. Este seu papel ajuda-a a explorar uma faceta cómica, que Keaton tem e nunca foi devidamente aproveitada, mas mantem o dramatismo habitual das mulheres que "encarna" com tanta genialidade. No entanto, falta-lhe tempo de cena, tal como acontece com Craig T. Nelson, que tem uma das mais fascinates e menos aproveitadas personagens da história. Ambos foram falados para o óscar secundário, mas é dificil com tão pouco tempo de cena concorrer com rivais temiveis como os há este ano (Bello, Keener, Weisz, Williams e Li para Keaton e Clooney, Giamatti, Harris, Dillon e Gyllenhall para Nelson). Quanto ao restante elenco, tanto Luke Wilson como Dermot Mulroney estão irrepreensiveis, ambos em papeis que lhes encaixam como uma luva. Claire Danes é um raio de luz num ambiente sempre pautado por cores muito escuras, e a sua chegada coincide com uma reviravolta muito bem conseguida por Bezucha.
Rachel McAdams continua a mostrar porque tem potencial para ser uma das actrizes da sua geração, parecendo, em traços e forma de representar, muitas vezes a própria Keaton, nos primórdios da década de 70. Depois de The Notebook, Wedding Crashers e Red Eye, este é mais um desempenho de alto nivel de uma actriz a ter em atenção. Para o fim fica Sarah Jessica Parker. A actriz celebrizada por Sex and the City tem tentado poucas incursões no cinema, mas a nomeação ao Globo deixava água na boca. No final a personagem era a mais dificil de viver e isso nota-se na sua performance, que não deixa de ser mediana, apesar de cumprir os requisitos minimos que se esperavam dela.
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Natal. Época perfeita para pensarmos sobre a familia. Sobre o que ela representa. Para nós. Para o próximo. Um filme de época é sempre um filme de época. Diz-nos sempre mais alguma coisa, do que diria se estreasse em pleno Verão. Mas também é preciso encontrar estes filmes de vez em quando. Filmes que olhem para a vida sem cinismo, sem questões demasiado profundas. Filmes que nos ofereçam uma viagem para uma história que podia ser a de qualquer um. Com todo o humanismo que caracteriza cada um de nós. E com a dose certa de neve e de amor, suficiente para conquistar os nossos corações.

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O Melhor - O leque de bons actores que Bezucha reuniu para a sua familia. Muita competência e bastante talento que fazem do filme algo bastante agradável.

O Pior - Alguns diálogos e cenas são demasiado forçadas, mais parecidos com uma screwball comedy, o que não acenta muito bem neste filme.

Curiosidade - No papel de Luke Wilson foram testados Billy Crudup, Johnny Knoxville e Aron Eckhart. A escolha acabou por ir para Wilson, que contracena aqui com Rachel McAdams, ela que já tinha trabalhado com o seu irmão, Owen Wilson, em The Wedding Crashers.

Site Oficial - www.thefamilystonemovie.com

Realizador - Thomas Bezucha
Elenco - Diane Keaton, Sarah Jessica Parker, Dermot Mulroney, ...
Produtora - 20th Century Fox
Classificação - m/12
Duração - 102 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:18 AM | Comentários (0)

dezembro 15, 2005

King Kong - A Bela e o Monstro

Quando ele olha, não é apenas um gorila gigante. Quando ela olha, não é apenas mais uma actriz loira na louca Nova Iorque dos anos 30. Ambos são almas solitárias, perdidas, mesmo no seu próprio mundo. O destino vai juntá-las. E criar uma das maiores histórias de amor que o cinema já nos mostrou.
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Jake Driscoll chega sempre atrasado. Atrasado quando o barco levanta amarras. Atrasado quando procura salvar, pela primeira vez, Ann. Atrasado quando a salva de facto, mas o seu olhar já está preso no de Kong. Atrasado quando chega ao teatro onde a besta gigante está em exposição. Atrasado quando atinge o cume do Empire State Building. E cada um dos seus atrasos é decisivo no desenrolar do filme. No primeiro caso, permite que faça parte da louca expedição criada por Carl Denham rumo à desconhecida ilha Skull. No seguinte, permite que se crie uma relação entre Anne e Kong. E a partir daí, cada um dos seus atrasos espelha o amor que existe entre a bela e o monstro, mais do que qualquer outra coisa. Ela ama-a, ela não. Talvez o tenha amado, antes mesmo de o ter conhecido. Mas Driscoll não é Kong. Não tem aquela chama imensa no olhar. Nem a sua coragem chega ao seu nivel. No final de contas, nunca Ann criou tanta afinadade com alguém como cria com o gigante King Kong. Dando assim, mais do que qualquer coisa, os primeiros passos para um amor proibido, impossível, mas um amor como poucos. Esqueçam Titanic e essas histórias de amor tão forçadas. Em King Kong o amor é genuino. O amor entre duas almas ostracizadas dentro do seu próprio mundo, e que se encontram, mas, como diz Ann no inicio, "as coisas boas não duram muito tempo". E o filme também é sobre isso. O filme de Denham não dura a expedição. A amizade de Jimmy com Hayes estava fadada a terminar. O amor de Jake e Anne não dura mais do que uns momentos. O comeback de Carl tem um final abrupto. E por fim, o imenso amor entre Kong e Ann, um amor construido na forma mais simples, mas também, mais humana possivel, também estava destinado a chegar ao fim, mesmo antes de ter começado.
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Com King Kong, o realizador Peter Jackson confirma definitivamente o que se suspeitava. Ele é de facto, o maior cineasta de todos em tempos na área do cinema fantástico e de aventura, superando George Lucas, que com o seu Star Wars tinha ascendido ao trono, e mesmo as aventuras mais fantásticas de Spielberg (o seu Jurassik Park comparado com este filme é de uma enorme vulgaridade). Um trono que já tinha ameaçado conquistar com a sua adaptação do universo fantástico de J.R.R. Tolkien, mas que agora é seu. Por direito!
A forma como Jackson recria King Kong, o sucesso de 1933 de Merian C. Cooper, o filme que o fez tornar realizador, só podia ter sido alcançada se fosse feita por um génio. E é isso que Jackson é. Em cada plano do filme, em cada momento da história, em cada efeito especial adiccionado à narrativa, está lá o dedo de Jackson. E o filme é o que é por sua causa. Por ter sido feito com a devoção de um fã. O realizador tinha dito que gostaria que o filme tivesse o mesmo impacto para o público, como o filme original teve em 1933. Apesar de hoje se dizer que "já se viu tudo", este filme prova o contrário. Faltava ver algo assim.
Dos primeiros minutos do filme, onde a Grande Depressão é retratada com uma perfeição assustadora, até ao épico final, recuperando todo o simbolismo e magia do Empire State Building, o filme é uma aventura frenética. Nem por um instante se olha para o relógio, se sente o tempo passar. É impossivel, tal é a forma como se está colado ao ecrãn, à história. Estejamos na primeira hora, mais calma, mas absolutamente necessária para desenvolver o resto do filme, sentimo-nos entrar no próprio Venture, o navio que nos leva até ao centro das aventuras. E chegado aí, nunca mais paramos. Cada surpresa que Jackson reserva na manga é melhor que a anterior, superando-se consecutivamente e de forma avassaladora. Além do mais, os cenários criados, uma especie de "Mundo Perdido" são tão ou mais maravilhosos do que o próprio mundo de Lord of the Rings. E se falamos nos cenários, temos de falar em todos os efeitos, em todas as criaturas, momentos e imagens, desde o quase naufrágio do navio até ao ataque ao Empire State. E temos de falar de Kong.
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Andy Serkis já tinha dado que falar com o seu Gollum. Agora o actor supera-se ao dar vida a este gigante gorila, por quem nos apaixonamos por completo. Os olhos de Kong são mais humanos do que muitos dos actores. As suas poses, os seus tiques, movimentos, desde a selva da ilha Skull ao gelo no Central Park são de tal forma perfeitos que quase nem estranhamos a inverosimilhança de tal personagem. E tal como Ann, apaixonamo-nos por aqueles olhos. E quando chega a altura, de tomar posição entre Jake, o improvável heroi humano - por quem seriamos sempre, noutras circusntancias - e entre ele, a escolha é óbvia. E por isso se chora no final, e por isso sentimos bem dentro de nós a profundidade dramática do filme, da sua aventura, do seu amor. King Kong é mais do que uma personagem animada num filme espantoso. É uma das maiores criações da história do cinema, tão tocante como era o E.T. de Spielberg, tão ternurento como era a Lassie nos anos 30 e 40, tão imponente como qualquer heroi da Antiguidade. É um marco na história do cinema, um humano que nunca o chegou a ser, mas que conseguiu exprimir toda a pureza, que devia ser encontrada, não nele, mas em cada um de nós.
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Falando de Kong, temos também de falar de Ann. A sua personagem é de uma integridade excepcionais, mas com as falhas humanas do próximo, o que a faz mais realista. E além disso, pela primeira vez se percebe o porquê da história de amor entre ela e Kong. Nele, ela vê a tal pureza de que já falamos, a coragem e dedicação do gigante gorila. Ele vè nela, não o que Jake vè, a sua beleza espantosa, mas o seu lado mais afável. Quando ela o entretém, de forma enternecedora, cria-se ali um laço que não se voltará a quebrar. E apesar de sempre impotente, Ann está sempre lá, com o seu olhar cravejado de lágrimas, ao lado daquele que realmente conquistou o seu coração, o rei Kong, o senhor da selva. E certamente que nenhuma outra actriz seria Ann Darrow como Naomi Watts o foi. Mais do que Jessica Lange, mais do que a própria Fay Wray, ela é a perfeita encarnação da jovem actriz. Pela sua beleza esmagadora, pelo seu olhar profundamente arrebatador, mas pela pureza que consegue transmitir à sua personagem, e que só encontra par no próprio Kong, fazendo desta união, uma das mais perfeitas da história do cinema, mais do que muitos amores que parecem tão forçados, mas que são tão louvados.
E se Watts vai muito bem, controlando todas as suas cenas (que foram, ainda por cima, filmadas contra o tal ecrãn azul, cada vez mais popular), também não nos podemos esquecer do restante elenco. Adrien Brody caminha para ser o sucessor de Bill Murray, A sua expressão facial é sempre a mesma, queira transmitir dor, amor ou emoção. Gostava de saber se os amantes de Murray o são também de Brody, porque representam de forma igual e transmitem as suas emoções da mesma forma. Neste filme, Brody está muito bem na sua personagem mas pertence a um dos elos fracs da história. A sua "relação" com Ann não é explorada como poderia ter sido, surgindo aos olhos do espectador como insuficiente para justificar aquela "caça à mulher", primeiro na selva e mais tarde na própria Nova Iorque.
Jack Black, na primeira cena em que surge, é Peter Jackson. Semelhanças fisicas, o mesmo olhar apaixonado pelo seu filme. Mas depois transforma-se. O facto de ter feito a sua carreira atrás da comédia nota-se, na forma em como as suas cenas têm sempre um tom de humor subjancente. Um trunfo que Black usa muito bem. A sua personagem não é das mais favoráveis, e é fácil deixar de se gostar dela, mas Black faz ambos os lados de Carl Denham muito bem, e tem de ser louvado por isso.
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Um filme quase sem falhas não deixa de ser um filme com falhas. No caso de King Kong elas estão não na camara de Jackson (pefeita), não nos aspectos técnicos (fotografia, cenários e montagem do outro mundo), nem na composição sonora de James Newton Howard (fabulosa). Os erros, ou falhas, estão no argumento. Essencialmente em três aspectos. Um deles, já foi aqui falado, e diz respeito à história de amor entre Jack e Ann, que surge um pouco frouxa em relação ao que poderia ter sido. A outra desenrola-se à volta da personagem Jimmy, encarnada por Jamie Bell, o miudo que já tinhamos admirado em Billy Eliiot. É criado um suspense à volta da sua personagem, das suas origens, que cria uma ideia de que será decisivo na história. A sua forte relação com o sub-comandante, Hayes, indica isso mesmo. Mas a história acaba por não dar em nada, e sentimo-nos um pouco defraudados nesse aspecto. O terceiro aspecto prende-se mais com um preciosismo, já criticavel nas anteriores versões. Como é que Kong, um gorila gigantesco, é transportado da ilha para Nova Iorque. Fica a dúvida, numa história que tinha sido impecável até entáo em todos os aspectos. Mas dizer que essa é uma das falhas de um filme, qualquer que ele seja, serve tanto como uma critica como um elogio a esta obra magnifica.
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Comparando com as anteriores versões, não é dificil dizer que este é o melhor King Kong da história. Apesar do pioneirismo e genialidade do primeiro filme. O mesmo que fez de Peter Jackson um amante de cinema. O mesmo que fez com que se viesse a tornar num dos maiores realizadores em actividade (ao lado de Eastwood, Copolla, Scott, Spielberg, Shyamalan, Allen...entre outros). O mesmo que lhe deu a ideia de criar, de um argumento inverosimel, uma das maiores histórias de amor de sempre, da história do cinema. King Kong é um dos melhores filmes dos últimos anos. É certamente, entre os até agora estreados por cá, o melhor filme produzido em 2005. É um filme para todos. É uma ode à aventura, e também, ao amor. É mágico. É imperdível. É único!

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O Melhor - A recriação feita por Andy Serkis da personagem King Kong. Nunca nenhum ser digital foi tão perfeito. Tão humano!

O Pior - Os três erros de argumento já explorados. Mesmo assim são falhas tão superficiais que não beliscam o filme.

Curiosidade - No diálogo inicial entre Jack Black e os dirigentes do estúdio, temos várias referências a algumas estrelas do cinema da época, incluindo os próprios estúdios Universal (produtor dos dois filmes) e da própria Fay Wray, a estrela do filme original. Em sua homenagem Naomi Watts usa um chapéu similar ao que ela tinha usado no primeiro filme.

Site Oficial - www.kingkongthemovie.com

Realizador - Peter Jackson
Elenco - Andy Serkis (King Kong), Naomi Watts, Adrien Brody, Jack Black, ...
Produtora - Universal
Duração - 187 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:22 PM | Comentários (14)

dezembro 13, 2005

Broken Flowers - Jarmush em slow-motion

Jim Jarmush é um nome amado pela critica internacional, isto apesar de possuir uma filmografia bastante pequena para o prestigio que tem. Broken Flowers é um filme que não contribui em nada para valorizar Jarmush, não tanto pela história em si, mas pela forma como é contada. Um filme alicerçado no rosto inexpressivo de Bill Murray, um registo que começa a soar a falso.
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Criticar filmes de realizadores altamente sobre-avaliados pela critica é sempre uma tarefa árdua. Mas alguém tem de a fazer. Isto porque o cinema não pode alimentar "vacas sagradas", como Jarmush. Cineastas que se auto-proclamam auters, e que podem se-lo na sua acepção da palavra, mas que constroem um nome sem terem provas que o sustentem. É o caso deste cineasta autor, completamente fora do mainstream, capaz de filmar de uma maneira muito sui generis, mas que acaba por estragar um filme que, noutras mãos, se poderia vir a revelar bastante interessante.
Se Broken Flowers soubesse aproveitar todas as suas potencialidades, seria um thriller bastante interessante. Assim, é um filme que nem sabe a peixe nem sabe a carne. É algo pastelento lá pelo meio, sem cor nem cheiro, ou seja, sem alma. Um filme que nunca arranca, que tem apenas quinze minutos dignos de nota - curiosamente na primeira metade do filme, divididos em dois capitulos - e que de resto, vive numa imensa monotonia. Claro que há criticos que elogiam essa própria negação do dinamismo narrativo. Afinal Broken Flowers foi um dos meninos bonitos da última edição do Festival de Cannes. Pobres franceses!
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Analisemos então a história de Don Johnston (porquê o humor fácil com a alegoria a Miami Vice ou a Don Juan?), o homem que vive num marasmo completo, que é deixado mais uma vez pela companheira, e que descobre, numa carta anónima, que tem um filho de 19 anos que anda á sua procura. Com a ajuda do vizinho, consegue descobrir onde estão as possiveis mães do rapaz. Parte então, num misto de relutância e entusiasmo, à procura da mãe do filho mistério. São quatro as mulheres com quem se vai cruzar, cada um com o seu pequeno episódio.
No primeiro, o melhor e mais interessante de todo o filme, depara-se com uma carnal ex-namorado com quem não resiste em passar a noite, isto depois de ter sido assediado pela filha da mesma, que ostenta o sugestivo nome de Lolita. Num rasgo de luz num marasmo imenso, uma das melhores cenas do filme surge quando a jovem adolescente irrompe nua pela sala. Este nu naturalissimo é chocante tanto para nós como para o próprio personagemm, e por isso resulta melhor que qualquer outra cena do filme. Aqui a história começa a encarrilar, a ganhar vida. Será sol de pouco dura.
Os dois capitulos seguintes da viagem - tão monotona como o rosto inexpressivo de Bill Murray - não têm qualquer ponta de chama, são um vazio assustador, um autentico precepicio cinematográfico. E mesmo o quarto capitulo, que marca a viagem de regresso, e basilar para entender o final do filme, é tão fraco, que por culpa disso mesmo o final é interpretado de forma diferente pelo públic na mesma sala. Afinal teria Don realmente um filho ou não. É óbvio que sim, e podemos perceber isso nos momentos finais, mas a custo, muito custo, já que parece que o próprio Jarmush tudo faz para que não possamos entender o seu próprio final. Muito fraco para um "auteur".
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Então que salvaria este filme?
Em primeiro lugar uma definição narrativa. Estão lá todas as pistas para um bom thriller ao jeito de The Game de David Fincher. Um amigo e uma namorada preparados para mexer com a vida amorfa de um don Juan decrépito colocam-no em busca do seu passado, para perceber que a vida está no presente. As pistas - o rosa constante, os nomes - está tudo lá. Mas não são aproveitados. Jarmush prefere mostrar uma dona de casa frigida, uma comunicadora de animais ou uma intempestiva mulher que lhe irá causar mais agruras do que pensa. Ou seja, o filme passa ao lado do que poderia ter sido. E isso é o seu pecado capital. Mas não é o único.
Bill Murray recuperou a carreira em Lost in Translation. O seu Bob Harris, inexpressivo, perdido num mundo que não era o dele, fazia todo o sentido. Como o seu capitão Steve Zissou em The Life Aquatic of Steve Zissou. Em ambos os casos, os talentosos Sofia Copolla e Wes Anderson perceberam que o melhor de Murray está no seu intenso underacting, na sua inexpressividade. Jarmush não entendeu isso. Limitou-se a copiar, para ver se dava. Mas neste filme não dá. O registo soa a falso, a deja vu sem sentido. E isso faz com que a personagem e o filme percam credibilidade. E sem uma personagem principal sólida - como poderia e deveria ter sido - mais dificil é aguentar o filme.
E se Murray está em baixa, há dois destaques obrigatórios a fazer. Jeffrey Wright tem um registo delicioso, como o amigo sempre presente de Don que é igualmente detective nas horas vagas. Ao lado de um actor do calibre de Murray, as cenas são dele com uma segurança notável. E claro, Sharon Stone. Está em cena pouco mais de cinco minutos, mas só isso ajuda a fazer a diferença e a dar uma ideia de como poderia ser o filme se fosse, um outro filme.
Quanto ás consagradas Delpy, Swinton e Jessica Lange, pouco há a dizer. Têm tempo para umas frases, um pouco forçadas e secas, que se coadunam com o espirito do realizador.
Mas nem tudo é mau. Há de realçar duas jovens que poderão vir a dar que falar. Pell James tem apenas um minuto e meio em cena, mas a sua beleza e o seu à vontade indicam que dali poderá sair uma actriz muito interessante. David Fincher já a pescou para o seu Zodiac. E depois há a inesquecivel Lolita, vivida sem preconceitos (e sem nada, literalmente) pela bela Alexis Dzenia, uma actriz que, com o à vontade demonstrado e os momentos que partilhou com dois pesos pesados como são Stone e Murray deu imediatamente a entender que pode ter um futuro, muito, muito interessante.
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Broken Flowers é um mau filme porque nunca se afirma como um filme com cabeça, tronco e membros. Andar de um lado para o outro, ao som de uma horrivel e repetitiva banda sonora (em Broken Flowers tudo é repetitivo), é demasiado vago para ser um filme a merecer atenção. Nisto Jarmush teria imenso a aprender com Elizabethtown, que dá um sentido a tudo que este filme não consegue dar. E com um Murray forçado, no seu tom que parece cada vez mais uma imagem de marca, apesar de descontextualizada, e sem personagens secundárias sólidas, o desastre era iminente. Um auteur pode ser um auteur. Mas os verdadeiros têm obra feita e traços identificativos da sua genialidade. Jim Jarmush não é um desses casos.

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O Melhor - O capitulo passado na primeira casa, com Don, Laura e Lolita. A audácia que Jarmush teve aqui não voltou a ser repetida.

O Pior - A narrativa sem sentido, contada em slow-motion.

Curiosidade - O filho de Don foi vivido pelo próprio filho de Bill Murray. Uma ideia do realizador.

Site Oficial - www.brokenflowersmovie.com

Realizador - Jim Jarmush
Elenco - Bill Murray, Jeffrey Wright, Sharon Stone, ...
Produtora - Focus Features
Classificação - m/16
Duração - 105 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:59 AM | Comentários (8)

novembro 27, 2005

Harry Potter and the Goblet of Fire - Acabou a idade da inocência!

O que mais impressiona em Harry Potter and the Goblet of Fire, é o facto de ser um filme assumidamente de transição. A história ajuda, as personagens (e os actores) estarem a crescer também. Mas há uma imensidão de pormenores que nos fazem ver este filme de um ponto de vista diferente. Diferente dos três primeiros, provavelmente distinto dos três próximos filmes, esta quarta aventura do jovem Harry Potter é a ponte entre a infância e a adolescência do mais popular heroi literário do novo século...
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Não vamos discutir aqui o paralelismo livro-filme, que tem pautado as discussões dos filmes anteriores. Já deu para perceber que as aventuras de Potter, cinematograficamente, nunca proporcionam filmes à altura do livro. Falta um pouco do espirito bigger than life, da atracção que a história escrita por J.K. Rowling tem que não encontramos nos filmes, tanto de Columbus, como de Cuaron e agora também, de Newell.
É manifesto que há pontos fortes do livro que faltam ao filme. Mas também já se sabe que a grande dificuldade em adaptar uma obra literária ao cinema é o de ser impossivel transpor o conteudo do livro na sua totalidade. E as liberdades de adaptação acabam por ser um mal menor, tendo em conta que é preciso criar uma dinâmica narrativa na obra cinematográfica que é manifestamente diferente da que encontramos nas páginas dos livros.
Um dos problemas do filme até passa mesmo pelo encadear das cenas. As falhas são o menos, o problema está em reduzir o livro ao torneio dos Três Feiticeiros. Percebe-se pelo filme - mesmo sem se ter lido o livro - que falta algo pelo meio, que há saltos muito grandes de tempo, que acabam por levar a que algumas personagens fiquem demasiado pela superficie, faltando-lhe depois o carisma que precisariam para algumas cenas. E isso acontece essencialmente com os três jovens que, juntamente com Potter, participam no torneio.
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Mas de facto o aspecto central em Harry Potter and the Goblet of Fire, é que este é um filme de mudanças.
Mudou a banda sonora, ficando a fantasia inicial de John Williams de fora, dando lugar a um trabalho mais sombrio e maturo de Patrick Doyle. E claro, há um novo realizador - Mike Newell, o terceiro da saga - e com ele novas mudanças. O espirito sombrio que Cuaron tinha inaugurado, mantem-se, essencialmente nos cenários e no cortar das cenas mais infantis dos primeiros filmes. Agora Harry Potter e os seus amigos são pequenos homenzinhos, e devem comportar-se como tal. A infantilidade é tratada de forma humoristica, e fica a cargo de Rupert Grint. A transição de crianças para adolescentes é explorada junto dos outros jovens actores. No caso de Emma Watson, a Hermione, é mais o aspecto fisico (e que notável transformação da actriz de The Prisioner of Azkaban para este filme), e a sempre popular questão sentimental que muito irá dar que falar nos próximos filmes. Já Harry Potter vive noutra dimensão. Como sempre, a sua vida está em perigo. Para além de ter de ganhar coragem para conquistar a rapariga dos seus sonhos, Harry tem finalmente o frente a frente com a sua nemesis, Lord Voldemort, porque todos esperavam. A cena não desilude, pelo contrário, mostrando um final de filme muito mais forte e maturo que uma primeira parte, mais de apresentação ao espirito do livro. E é a maturidade do final de Harry Potter and the Goblet of Fire que nos interessa, até porque o resto é um pouco o deja vu dos três filmes anteriores.
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Em relação ao elenco do filme, realce para a cada vez mais evidente maturidade do trio de actores principais.
Daniel Radcliffe é claramente um actor em progressão. Está muito mais solto, mais á vontade, do que em relação aos filmes anteriores. Cada vez mostra ter capacidade de aguentar com as cenas mais dificeis, e o filme ganha claramente com isso. Também Emma Watson se define como uma actriz de grande valor, apesar da sua tenra idade. A felicidade da escolha de casting torna a sua Hermione, não só uma personagem bem construida, mas também bastante atraente fisicamente, o que é um bónus em relação aos filmes anteriores. E Rupert Grint, já o dissemos, é cada vez mais o actor que fica responsável pelo humor, o que consegue sem problemas.
Em relação aos veteranos, Ralph Fiennes vai muito bem como Lord Voldemort, apesar do reduzido tempo em cena, e Maggie Smith, Alan Rickman e Michael Gambon mantêm o seu registo inalterado. O que falta essencialmente ao filme é um desempenho revelação, o que poderia ter acontecido, não tivessem ficado as personagens secundárias tão pouco exploradas como foi o caso.
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Mais do que a questão da adolescência (aqui não há a questão das borbulhas, mas os namoros e responsabilidades já vão surgindo aos poucos), que as personagens vivem, este filme é uma clara ponte entre o antes e o depois, a infância e a idade adulta.
Encontramos isso nas atitudes das personagens, mas também na forma como a história é filmada. Os grandes planos faciais, as expressões mais vincadas e determinadas - especialmente, e como não podia deixar de ser, no caso de Potter - vão dando o sinal. E o aparecimento da personagem mais negra da história, o inevitavel senhor das Trevas, torna essa situação inevitável. Porque mesmo sem ter lido os livros, o espectador agora sabe que tudo será diferente. Já não há os jogos de adivinhas redutores dos primeiros filmes/livros. Agora que os campos estão bem definidos, que as barricadas começam a surgir bem vincadas, entramos numa outra dimensão. A saga tenderá a ficar menos infantil, mais adulta, menos comprometida com o entretenimento fácil, mas preparada para agradar a uma audiência mais velha. A verdade é que este filme transmite a ideia que os próximos filmes da saga serão mais ao estilo de Lord of the Rings. Há uma missão - destruir Lord Voldemort - e exércitos dos dois lados que vão tentar ganhar. Pelo meio haverá as aulas, os romances, o humor, a amizade. Tudo isso.
Mas de uma coisa podemos ter a certeza. Este filme é central, não apenas no número, mas essencialmente na sua forma. Agora é começar de novo, para uma serie de aventuras que terá mais diferenças do que propriamente semelhanças em relação aos filmes que ficam para trás.

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O Melhor - A exploração dos cenários espantosos que compõem o filme e a última meia hora, a um nivel que poucas cenas de todos os quatro filmes conseguiram.

O Pior - Alguns cortes na narrativa original, que transparecem uma enorme dificuldade em adaptar um livro destes ao cinema, sem cometer alguns tiros no pé.

Curiosidade - Aquando da estreia de Harry Potter and the Chamber of Secrets, começaram os rumores sobre a eventual substituição do trio de jovens. Os mais criticos asseguravam que tanto Watson, como Radcliffe e Grint não iriam crescer de forma a se enquadrarem no espirito dos filmes seguintes. A prova final que os três actores precisavam de dar está neste quarto filme, tendo praticamente assegurado que serão eles os herois das aventuras de Potter até ao sétimo e último filme.

Site Oficial - harrypotter.warnerbros.com/gobletoffire

Realizador - Mike Newell
Elenco - Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, ...
Produtora - Warner Bros
Duração - 157 m
Classificação - m/6

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:46 AM | Comentários (100)

Proof - One Girl Show

Uma excelente peça de teatro transformada num filme claramente mediano. Seria essa a grande impressão final deste Proof de John Madden não fosse por um pequeno detalhe: Gwyneth Paltrow.
Num desempenho que deixa a anos luz aquele que lhe deu o óscar, Paltrow anda com o filme ás costas e consegue um dos melhores desempenhos femininos de 2005...
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Há alguns anos atrás fez-se uma sondagem: a quem pertencia o óscar mais injusto de toda a história?
Os resultados não deixaram margem para dúvidas e a fava calhou á jovem Gwyneth Paltrow que em 1998 tinha conquistado o óscar de melhor actriz pelo seu desempenho como musa de William Shakespeare em Shakespeare in Love.
Quem escolheu Paltrow teria lá as suas razões (aqui só para nós que ninguém nos ouve, há bem piores vencedores que a senhora Chris Martin na história...bem piores) e de facto nesse ano havia outros grandes nomes por onde escolher. Mas a verdade é que desde o seu óscar até agora pouco se tem ouvido falar de Paltrow. Houve o fim do seu quase casamento com Brad Pitt, houve o seu casamento com Chris Martin, vocalista dos Coldplay, mas isso era para encher revistas e não para falar num site de cinema. Ou melhor, houve, mas a imprensa nunca prestou a devida atenção a Sylvia - notável encarnação da escritora Sylvia Platt - e mesmo em The Royal Teenembaus ela foi sempre deixada de lado nas estrondosas reviews.
Serve tudo isto para dizer que o desempenho de Paltrow só é novidade para quem tem estado a dormir. Desde há muito tempo que ali está uma actriz de valor, capaz de se valer mais pelo talento que pela beleza ou mediatismo. Uma actriz com a maturidade de arrastar um filme ás costas, coisa que nomes mais sonantes do que ela ainda têm dificuldades em conseguir.
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Falamos de Paltrow e não de Proof. Porquê?
A verdade é que a actriz é muito mais interessante que o filme em si. Sem ela, Proof seria um imenso vazio. É a sua presença que dá carisma e garra a algumas cenas terrivelmente banais, algo que nem mesmo o grande elenco que a acompanha consegue. Até porque Jake Gyllenhall ainda é muito verde - nota-se - e Anthony Hopkins, se excluirmos duas ou três cenas, está manifestamente apagado. Sobra Hope Davis. E o que dizer dela? Davis teve a infelicidade de interpretar um papel que é fácil de odiar, porque, se fosse alguém que realmente conhecessemos, iriamos certamente odiá-la. Por isso, quem saiu da sala a odiar Hope Davis - como aconteceu comigo - , confirmou que o seu desempenho foi exactamente o que lhe era pedido. O que, por muito estranho que pareça, reflecte exactamente o bastante talento que esta actriz, habitualmente secundária, tem.
E quanto a Hopkins, o veterano actor está na melhor cena do filme - a mesma que o abre, onde o efeito surpresa ainda existe - e em alguns bons momentos, mas arrasta-se um pouco, tal como a sua personagem, ficando perdido num vazio que só ele saberá qual é.
E assim, depois desta pequena volta, lá voltamos, inevitavelmente, a Paltrow. Na primeira cena do filme, é melancólica e captivante. Ao longo do filme altera o seu registo - muito por culpa dos sucessivos flashbacks. Ora é explosiva, ora está em estado quase catatónico. Essa mudança de registo é fulcral para definir o seu próprio papel, e mostra a sua competência tanto no under-acting, como no over-acting. E uma das grandes virtudes da sua própria performance foi o de saber despojar-se da própria beleza fisica, vivendo num estado quase "zombie" durante grande parte do filme, carregada de emoção e energia, prontas a explodir no momento certo.
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Quanto ao filme em si, talvez por culpa de John Madden, talvez por culpa do próprio David Auburn (actor da peça, e também do argumento), o filme nunca deixa de soar a peça de teatro - falhando a transposição cinematográfica - mas também perde alguns dos pontos positivos do que é uma peça de teatro, ficando num vazio dificil de entender.
O universo matemático (a banda, os cadernos, a demonstração) são feitos com algum interesse e uma manifesta vontade de aproximar o público a conceitos matemáticos que, numa dimensão de sobretados, estão demasiado simplificados. Falta aqui um pouco da sensibilidade de A Beautiful Mind, o filme que nos vem sempre á cabeça quando vemos Proof.
O espirito claustrofóbico, bem tipico de uma peça de teatro, não é explorado em toda a sua dimensão, como acontecia, por exemplo, com as adaptações de Richard Brooks ás peças de Tenesse Williams. Mas nem é tanto por aí que o filme peca. Há pontos por ligar, linhas que ficam perdidas, algo a que os sucessivos flahsbacks também não ajudam a superar. E depois há uma imensa banalidade que nunca é superada, nem totalmente explicada.
No final de contas, o filme vale por Paltrow. Nem por mais, nem por menos. Proof é mesmo, apenas e só, um one girl show.

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O Melhor - Obviamente, Gwyneth Paltrow. A nomeação ao óscar seria justa, pelo menos vista agora!

O Pior - A imensa banalidade que acompanha o filme.

Curiosidade - Este é o segundo filme que Paltrow faz com Madden. O primeiro valeu-lhe um óscar, em Shakespere in Love. O realizador viu o seu filme ser o grande vencedor da noite, mas perdeu na sua categoria para Spielberg.

Site Oficial - www.miramax.com/proof

Realizador - John Madden
Elenco - Gwyneth Paltrow, Jake Gyllenhall, Anthony Hopkins, ...
Produtora - Miramax
Classificação - m/12
Duração - 99 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:41 AM | Comentários (4)

novembro 16, 2005

Elizabethtown - A essência da vida!

Há uma imensa frescura em Elizabethtown. Na história, na dinâmica narrativa, na levez da câmara. Uma viagem à América profunda. Uma viagem de dúvidas, mas também de pretos e brancos. Uma viagem com uma banda sonora espantosa. Uma viagem para se aprender a viver!
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Cameron Crowe é aquele tipo de realizadores que aproveita todos os episódios da sua vida para os tornar cinematográficos. A sua experiência como estudante deu origem ao argumento de Fast Times at Ridgemont High. O seu passado como critico de música precoce estava na base de Almoust Famous. E Elizabethtown pega num episódio veridico da sua vida e parte para uma viagem que o próprio fez, e que nos convida a fazer com tamanha elegância, que se torna impossivel recusar o convite.
É impossivel não olhar para os últimos três filmes de Crowe para perceber a forma como se desenvolve Elizabethtown. Há a lembrança do fracasso de Vanilla Sky - metaforizado nas sapatilhas cujo o design tão audaz custou quase um bilião de dólares (são muitos milhões de facto) a uma empresa gerida por um excêntrico homem de negócios, muito bem encarnado por Alec Baldwin. Há a experiência de vida de Crowe - a morte do pai que o fez voltar ás raizes, e que mais tarde o levou a fazer uma road trip pela América, só ele e a sua música - como acontecia em Almoust Famous. E se nesse filme há o elogio da mãe, sempre pronta a apoiar as decisões do pequeno prodigio, aqui há o constante elogio a um pai desconhecido, mas omnipresente em todos os momentos do filme. E por fim há Jerry Maguire, essa grande obra que é recuperada aqui na sua verdadeira essência. Tal como Maguire, também Drew Baylor estava no topo e caiu para o fundo do poço. E foi aí que percebeu que o dinheiro, a fama, o sucesso, era demasiado relativo para constituir per si, um objectivo de vida. E se é no seu único jogador e na empregada que Maguire encontra a verdadeira razão de viver, aqui, Drew tem a felicidade de encontrar a mulher mais irritantemente perfeita que se poderia encontrar numa viagem para o Kentucky: Claire.
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A grande virtude de Elizabethtown está, não na forma, mas sim no conteudo. Formalmente o filme não foge muito do esquema habitual. Tem algumas sequências muitissimo bem conseguidas (a sucessão de telefonemas de Drew, o discurso da sua mãe, Kirsten Dunst em qualquer cena, ...), sendo que as melhores cenas do filme parecem ter ficado guardadas para o fim (há pelo menos meia dúzia de cenas perfeitas para acabar o filme - o realizador escolheu uma delas).
É o conteudo, a história de desilusão que Drew vive, e que coincide com a morte do pai e o redescobrir de um mundo que lhe passou ao lado, um mundo - essa América profunda - que todos parecem desconhecer mas que continua a ter o seu peso - mas essencialmente, que possibilita o seu reencontro com a vida (praticamente personificada por Dunst, no seu melhor papel até hoje) que faz o filme valer a pena. Fosse só por isso, e estávamos diante de uma das melhores histórias do ano. Um filme capaz de fazer o depressivo reconciliar-se com a vida, os casais na iminência de terminarem a relação, durarem mais uns meses, um filme capaz de nos fazer sentir bem com a vida, e com nós próprios.
Os grandes problemas de Elizabethtown estão na forma. Nos cortes abruptos aqui e ali que evidenciam os problemas que Crowe teve de passar quando pela primeira vez estreou o filme em Toronto. A recepção fria da critica fez com que o realizador tivesse de amputar o filme quase em quarenta minutos, criando por vezes uma sensação de vazio. É praticamente esse pequeno grande pormenor que impede que o filme seja uma obra muitissimo boa, a todos os niveis, acabando por satisfazer plenamente, mas sem o algo mais que Crowe nos habituou em Jerry Maguire.
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Em relação ao elenco do filme, há que apontar dois aspectos essenciais. Parece que Orlando Bloom encontrou finalmente o seu melhor registo. Longe das trilogias (Lord of the Rings, Pirates of the Caribean) ou dos épicos históricos, este parece ser o tipo de papel indicado para o jovem britânico. Bloom está à vontade com a sua personagem e isso dá-lhe um outro ânimo. É uma performance segura, estável, e com momentos verdadeiramente bem conseguidos. Já Kirsten Dunst é outro nivel. Pela primeira vez fica a ideia de que Dunst pode mesmo vir a ser uma grande actriz. Apesar de ter já uma carreira altamente produtiva, este é o seu melhor desempenho à data, talvez por ser o mais genuino. A sua personagem é de um idealismo e de uma magia impensáveis num filme de Crowe. E a actriz vive-a até ao limite, funcionando como catarsis para todos os momentos trágicos que não chegam a acontecer, muito porque ela está lá. Todos desejam ter a sua Claire. Até porque mulheres como ela não são faceis de encontrar. E o filme explora isso muitissimo bem.
Uma palavra final ainda para a música. Vários anos como jornalista na Rolling Stone fizeram de Cameron Crowe uma enciclopédia ambulante de música e ele explora, como ninguem, essa sua capacidade nos filmes. Em Elizabethtown supera-se, muito por culpa também da insistência de Dunst em apostar em Ryan Adams para fazer companhia a Tim e Jeff Buckley e a tantos outros nomes geniais que tornam a história mais fácil de seguir. Uma banda sonora digna de uma vida, uma banda sonora perfeita para um filme sobre a própria vida.
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Resumindo e concluindo, a magia de Elizabethtown está na magia da própria vida. Na pureza dos sentimentos, nas dúvidas da condição humana, na forma como as pessoas se relaccionam. Está na forma natural e humana como Cameron Crowe encara os seus filmes. Está no olhar ternurento de Kirsten Dunst, nas dúvidas existenciais de Orlando Bloom. Está na voz de Ryan Adams. Está na estrada 60B. Está na América. Está dentro de nós.

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O Melhor - A banda sonora fabulosa que Cameron Crowe compilou. O espirito do filme e, claro, Kirsten Dunst.

O Pior - Os cortes que Crowe foi obrigado a fazer. São demasiado explicitos para serem ignorados.

Curiosidade - O filme baseia-se numa história veridica. A viagem de Drew foi também a viagem de Cameron Crowe, primeiro quando o pai morreu, e anos mais tarde, quando acompanhando a tour da banda de música da mulher, se lançou à estrada apenas com os seus cd´s e o vento.

Site Oficial - www.elizabethtown.com

Realizador - Cameron Crowe
Elenco - Orlando Bloom, Kirsten Dunst, Susan Sarandon, ...
Produtora - Paramount
Duração - 123 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:37 PM | Comentários (2)

novembro 11, 2005

In Her Shoes - Clichés só para mulheres

Há histórias que merecem ser contadas. Outras que nem tanto. In Her Shoes vive no limbo. Por vezes sentimos algo que justifica a nossa presença naquela sala escura. Há empatia, há emoção, há interesse. Mas por outro lado, o filme também consegue descambar para uma monotonia insuportável. No final, é sempre a má imagem que sobrevive!
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Há quem pergunte o que aconteceu a Curtis Hanson?
Depois da obra-prima que é L.A. Confidential o realizador desapareceu. Ou melhor, descambou. Houve 8 Mile, a pseudo-biografia que Eminem quis fazer de si próprio. Não resultou. Como também não resultou Wonder Boys apesar do elenco interessante. A expectativa à volta de In Her Shoes não era tão alta como teria sido se o filme fosse rodado há cinco anos atrás, mas ainda assim esperava-se algo mais do que um simples "chick flick". Esse algo mais nunca apareceu. Hanson, tão intenso e capaz de transmitir emoções e de fazer vibrar a audiência no seu grande êxito de 1997, parece estar completamente perdido. Filma á toa, num tom academista sem qualquer rasgo de imaginação. O argumento já em si é demasiado vago - há mil e uma maneiras de filmar esta história, e certamente esta não é a melhor - mas Hanson contribui em não conseguir soltar as amarras em que o filme se prendeu. O resultado final não é desastroso, nada disso. É apenas monótono, cansativo, aborrecido, o que para um realizador pode ser igualmente terrivel.
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O principal problema de In Her Shoes é a dificuldade em passar a mensagem de que esta história é relevante a ponto de dar um filme. Duas irmãs, tão diferentes mas insperaveis, mal conseguem viver em conjunto. Um dia o verniz estala quando a irresponsável irmã mais nova deita-se, por vingança, com o namorado da irmã. Aí os seus mundos separam-se. A irmã mais velha abandona a respeitável profissão de advogada numa firma de sucesso e passa a passear cães para ocupar o dia, enquanto que encontra um antigo colega de trabalho, já há muito apaixonado por ela, com quem começa uma relação que rapidamente leva ao noivado. Já a outra irmã vai visitar a avó que achava que tinha morrido - tudo isto joga com a morte trágica da mãe das jovens - que tenta recuperar uma relação que nunca teve, incutindo ao mesmo tempo algum sentido de responsabilidade à imatura rapariga. Reviravoltas previsiveis, encontro de irmãs, afinal está tudo bem, há o casamento e isto é In Her Shoes.
Confessamos que com um outro elenco a coisa talvez pegasse. Mas por muito que Toni Collete seja realista e esforçada, e Shirley McLaine seja um verdadeiro monstro da representação, capaz de ter, numa expressão mais força emotiva que as duas irmãs juntas em todo o filme, a verdade é que a aposta central em Cameron Diaz é uma catástrofe.
Diaz nunca foi actriz. Teve uns papeis onde jogava bem com a figura de menina bonita com corpo atraente mas nunca fez verdadeiramente de actriz. E quando lhe pediram para o fazer, fez mal. Salva-se Any Given Sunday de Oliver Stone, mas isso é muito pouco para uma "actriz" que já leva 10 anos de Hollywood. Ela devia ter fucnionado como o motor da história, como a personagem que agarra o público. O seu efeito é o oposto. Ela é desastrosa, entrega o filme de mão beijada a Collete - que ainda não tem estofo para aguentar um filme sozinha - e estraga o pouco de bom que podia vir de um argumento tão fraquinho.
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Apesar de um ambiente aprazivel a meio do filme, o inicio e o final são demasiado feitos de chavões para se tornarem realmente crediveis. A imaginação que permite ao filme ter bastantes pontos de interesse ao longo do periodo em que as irmãs estão separadas, desaparece sempre que ambas estão juntas. E não fosse Shirley McLaine, e o filme não teria verdadeiramente um rasgo de interpretação.
No final de contas In Her Shoes pode ser eficaz para o tal público de "chick flick". Mas numa visão mais abrangente, é um filme com demasiadas falhas para convencer. A sua virtude é nunca comprometer. Mas essa falta de ousadia acaba por ser também a sua principal falha. Ninguém gosta de andar com sapatos um número abaixo.

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O Melhor- A presença em cena de Shirley McLaine. Um notável desempenho de uma das maiores actrizes de sempre.

O Pior - Cameron Diaz e a total falta de imaginação de Curtis Hanson.

Curiosidade - Numa das cenas a autora do livro em que Hanson se inspirou para In Her Shoes aparece num pequeno cameo.

Site Oficial - www.inhershoesmovie.com

Realizador - Curtis Hanson
Elenco - Cameron Diaz, Toni Collete, Shirley McLaine, ...
Produtora - 20th Century Fox
Duração - 130 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:52 PM | Comentários (1)

novembro 03, 2005

The Constant Gardener - O Continente Negro está de Luto

"This is how we fuck Africa!". É assim que o Mundo destroi um continente. A ganância do mundo é a perdição de um continente. A ganância do mundo provoca por ano a morte a milhares de inocentes. Dois deles eram ingleses que só queriam fazer algo. Le Carré escreveu a história. Meirelles pintou-a de negro. Até porque este filme mostra-nos que"This his how we fuck Africa!".
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The Constant Gardener pode ser analisado de três maneiras. Mas é injusto sermos forçados a escolher uma delas.
Um critico mais convencional ficar-se-ia certamente pela história de amor, pela dedicação de um diplomata amante de jardins - a imagem do corpo diplomático britânico romântico - à sua mulher, misteriosamente assassinada no Quénia, onde vivem. Daí passarão para a transformação operada no jardineiro, esse pacifico e "britânico tranquilo", obrigado a descer aos infernos para procurar perceber o porquê da morte da sua mulher. E para encontrar o seu próprio fim.
Neste filme dentro do filme, o destaque vai essencialmente para a interpretação fabulosa de Ralph Fiennes. Aliás, há papeis que associamos imediatamente a um actor quando ouvimos a sinopse de um filme, folheamos um livro ou vemos uma peça de teatro. Justin Quayle é Ralph Fiennes em todo o seu esplendor. Uma persoangem contida, algo timida e atrapalhada, mas extremamente nobre. John Le Carré sabe o que faz, sempre o soube. O seu Quayle está no meio de uma ponte entre o gentelman britânico, o herdeiro de uma longa tradição de Quayles, todos eles iguais, mas também entre o justiceiro, o homem que sabe que o mundo que o rodeia está cheio de mentiras e enganos. Não precisamos de seguir a sua transformação espantosa para o perceber. Basta estar atento á forma como ele sai da conferência com aquela que viria a ser a sua mulher. Se ouvirmos bem, ele próprio admite que tudo o que tinha acabado de dizer, o b.a.b.á da diplomacia, é uma grande mentira. E se no final do filme é esse o Quayle que se despede de nós, a verdade é que ele esteve sempre presente, mesmo quando recusou dar boleia a dois quenianos a pedido da mulher. Mesmo quando cuidava das suas plantas, enquanto a sua mulher tentatava salvar o mundo, ou pelo menos parte dele. A sua personagem é a mais fascinante do filme porque está longe do superficialismo das restantes. Temos os lobos econdidos em pele de cordeiro, os agentes de bom coração, os amigos traidores, e a mulher idealista. Se analisar-mos cada uma dessas personagens, não conseguiremos ir muito longe. Estariamos condenados á superficie. Mas não com Quayle. O seu fascinio advém da sua maneira de estar no mundo. E Ralph Fiennes - esse portentoso actor, a par de Daniel Day-Lewis o maior britânico dos últimos quinze anos - era o único actor no mundo capaz de perceber essa sensibilidade. Quando lhe contam a morte da mulher, a sua cara praticamente não se move. Não há lágrimas. Mas a dor de perda está toda lá. Ele demonstra-a? Nunca, isso não é digno de um cavalheiro. Antes agradece a gentileza ao amigo, e depois acaricia uma planta. Por dentro ele chora. Por fora, a sua imagem está imaculada. Só quando só, no mesmo jardim da casa que consagrou o seu amor - numa cena memorável - dá-se a famosa explosão. Nada ao estilo brandoniano ou algo que se pareça. A contenção continua lá, mas agora ele já pode soltar o outro Quayle que vivia dentro de si. Agora ele já pode ser ele mesmo. E se-lo-á assim, até ao final do filme, de uma forma arrebatadora e inesquecivel.
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Esse seria o filme que um britânico realizaria. Foi assim que o livro foi escrito, à volta de personagens britânicas em África. A história de amor e a procura de justiça entre os europeus num continente estranho. Mas o filme está bem longe dessa fórmula algo simplista. Porque contar com Fernando Meirelles no leme do navio, é saber que o realizador brasileiro não se vai reduzir apenas ao espirito literário de um argumento. Respeita-o, mas explora todo o universo à sua volta, até para o tornar mais credivel.
A verdade é simples de descortinar. Colocar um habitante de um país do terceiro mundo - apesar de tudo, ainda é isso que o Brasil é, por muito que nos custe a todos - a filmar o centro do terceiro mundo, é a chave mágica deste filme. É o encantamento pefeito, a pedra filosofal. É magia pura. A camara de Meirelles suga o espirito de África bem até ao tutano. No seu tom trepidante, imparável, andamos pelo meio das gentes locais, com a sua tradição, os seus costumes, mas, acima de tudo, com a sua dor, a sua pobreza, o seu olhar triste, o seu futuro despedaçado. A fabulosa montagem - que já conheciamos bem de Cidade de Deus, um filme tão parecido com este, apesar de ser tão diferente - e a inesquecivel fotografia, mostram uma África como nunca vimos, longe da poesia de Out of Africa ou da dor de The English Patient. Lembramo-nos sim do que fez Clint Eastwood com o também inesquecivel White Hunter Black Heart. Um coração negro que parou de bater!
Aqui há contemplação, uma homenagem a um mundo em sofrimento, em dor. Talvez um pouco com Diarios de Motocicleta. Talvez seja uma sensibilidade sul-americana. Ou talvez seja pura coincidência. De qualquer das formas, The Constant Gardener é o que é essencialmente por Fernando Meirelles.
Um realizador que transmite a dor de um continente para o coração do espectador apenas com um genial plano, é dgno de ser admirado por todos. Quando Ralph Fiennes - esse Quayle inesquecivel - entra no campo de golfe para discutir com o chefe da farmaceutica, e a camara se afasta dele, sem se mexer, vai-se deslocando em travelling para a sua esquerda. De um momento para o outro, o verdejante e "civilizado" campo de golfe dá lugar á pobreza dos bairros de lata de Nairobi, com uma crueza assustadora. Poesia pura, simplesmente poesia pura!
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No inicio falei em três filmes dentro de The Constant Gardener. É bem verdade. Para além da bela e trágica história de amor - expressões destinadas a caminhar lado a lado - e da belissima homenagem de um brasileiro a África, há ainda o leit motiv disto tudo. Neste filme são as farmacêuticas. Noutros filmes é o tráfico de armas, as catastrofes naturais, a loucura dos homens. No entanto todos os rios caminham para o mesmo oceano e o resultado é invariavelmente o mesmo. Estão a sangrar África. Estão a destruir um continente, talvez o primeiro continente habitado pelo homem, o ventre de todos nós. Meirelles aponta claramente as baterias nesse sentido, mas o livro original já ajudava. Tessa (ainda não dissemos nada da belissima e espantosa Rachel Weisz, mas também há poucs palavras, e as que há, parecem demasiado pequenas para serem ditas) e Justin Quayle morreram porque quiseram salvar um continente. Muitos desconhecidos passaram pelo mesmo, mas ninguém irá fazer um filme sobre eles. O drama imagiando por Le Carré é mais real que a realidade de muitos. A ineficácia da ONU está mais que provada. Os habitantes do mundo levam constantemente com pó nos olhos, porque na verdade, todo o Mundo está a fazer o melhor que pode. Ou pelo menos é preciso dize-lo por uns, para que outros o ouçam e possam dormir, sem o peso da consciência. Um continente inteiro não pode servir de cobaia para o resto do mundo experimentar os seus medicamentos, armas, recursos naturais...Um continente - e Meirelles mostra a sua beleza como só Polanski conseguiu - como África merece mais do que um filme. Merece que olhem para ele com outros olhos, olhos de ver. The Constant Gardener dá-nos - a nós, habitantes do Mundo - um par de óculos para conseguirmos ver bem o que se passa. A imagem que nos passa diante dos olhos é desoladora. E apesar de ser bom saber que ainda há o chamado cinema de denúncia - porque é isso mesmo de que se trata The Constant Gardener (também) - falta ainda muito para que todos possamos dormir em paz. Em Portugal como no Quénia ou em qualquer outro recanto do mundo! Porque é preciso fazer com que mais ninguém diga "this is how we fuck Africa!"


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O Melhor - É dificil escolher entre as soberbas interpretações e o pano de fundo montado à volta da história. Ficamo-nos por Fernando Meirelles, um realizador capaz de capturar a beleza das situações mais cruas da existência humana.

O Pior - É dificil escolher algo. Talvez o facto do filme demorar um pouco a arrancar verdadeiramente.

Curiosidade - Se muita da genialidade deste filme passa pelas mãos de Fernando Meirelles, imaginem o que seria se o realizador fosse aquele inicialmente previsto: nada mais nada menos que o britânico Mike Newell. O inglês preferiu realizar Harry Potter and the Goblet of Fire. Meirelles agradece. Nós também!

Site Oficial - www.theconstantgardener.com

Realizador - Fernando Meirelles
Elenco - Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Danny Huston, ...
Produtora - Focus Features
Classificação - m/16
Duração - 129m


Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:53 PM | Comentários (19)

novembro 01, 2005

The Legend of Zorro - Mascarada total!

O perigo das sequelas é sempre estar abaixo das expectativas lançadas pelo filme original. No caso de The Legend of Zorro nem havia esse perigo, já que o primeiro filme do "heroi-mascarado" não tinha trazido muito de interessante. Mas, apesar disso, soube ser um filme de entretenimento bem feito. Este seu sucessor é um dos mais fortes candidatos a pior filme de 2005.
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Não há absolutamente nada que funcione naquele que será sempre visto como uma das mais fracas tentativas de fazer cinema de entretenimento. Tudo o que resultava no primeiro filme - que longe de ser um bom filme, era no entanto algo "comestivel" - falha redondamente aqui. O humor, as cenas de acção, as falas, os momentos de maior tensão. Há aqui um vazio inexplicável. Pior, há uma enchurrada de lugares comuns dos filmes de acção que tornam este The Legend of Zorro um corta e cola de todos os filmes que já foram feitos. Com um problema. Puseram tanta cola que acabaram por estragar o pouco de bom que dali podia ter saido. E não falamos em cinema de qualidade, não era isso que se esperava desse filme. Falemos apenas de entretenimento que é para isso que estas produções sem sentido, senão o de dar dinheiro ás produtoras para estas depois poderem fazerfilmes sérios (alguém poderá explicar o porquê do nome de Spielberg como produtor executivo?), realmente servem!
Chega a ser verdadeiramente insultuoso a forma como Martin Campbell brinca - e o termo aqui é mesmo esse - com o espectador. Basta nos lembrarmos um pouco de Anthony Hopkins como um Zorro veterano para percebermos que tudo neste filme foi deturpado. E para cumulo dos cumulos, a única coisa que salva o filme acaba mesmo por ser o heroi mascarado. Mas já lá vamos.
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Nesta aventura do heroi da Califórnia, há um vilão que pertence a uma organização secreta que manda no undo, mas que quer mandar ainda mais destruindo a América, já de si ás portas da Guerra Civil. Pelo meio há os dois primeiros agentes da CIA - que não ficam nada bem retrados na fotografia - um padre que parece uma imitação barata do Robert De Niro se este fizesse de padre, e ainda um leque de incompetentes vilões, que, curiosamente, nunca são mortos. Zorro é um homem de paz e consegue passar o filme, entre duelo e mais duelos, sem matar praticamente nenhum homem, nem nos momentos de maior fúria. Quem diria!
Resta-nos a familia de herois - quase a tentar capturar o espirito de The Incredibles, onde até o mais pequeno é capaz das mais espantosas acrobacias - retratada até ao cúmulo da estupidez. Antonio Banderas mostra que é um bom actor, porque no ridiculo completo da sua personagem, ele consegue mostrar verdadeiros tiques de actor. As crises de ciumes, as sucessivas bebedeiras, as tropelias e saltos inimagináveis diante dos mais temerosos dos adversários, tudo isso só chega para destruir por completo uma das personagens mais miticas da imaginação popular americana. Se não fosse a mestria do actor espanhola, em muitas das cenas em que o cinema vai abaixo com tanta ridicularidade, e o filme seria bem pior do que realmente é. O que é um luxo nestas ocasiões. De Zeta-Jones não falamos muito porque, apesar de se notar que a camara tem uma clara paixão por ela, a verdade é que a sua personagem náo lhe dá o minimo espaço de manobra neste caso. E quanto ao miudo, deixemos apenas a esperança de não haver um terceiro filme, desta vez com o miudo, porque isso seria claramente o fim da carreira de Campbell.
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O que é pior neste filme é que o que deveria ser o seu motor - as cenas de acção e o humor - são mal construidos desde o primeiro instante. Não há qualquer empatia possivel com personagens tão ridiculas quanto estas. Assusta o vazio de ideias que vai pela cabeça de Campbell (só de imaginar o próximo Bond...), como assusta a forma como os estúdios continuam a tratar o grosso dos seus espectadores como se fossem realmente estúpidos. Mesmo o mais comum dos frequentadores de uma sala de cinema, aquele que não precisa de saber quem foi Capra ou Ford, terá dificuldade em engolir esta salada de fruta de erros e trapalhadas. E quando isso acontece, para um filme destes, ou melhor, para o que este filme queria ser e nunca é, isso é a pior coisa que pode acontecer. Por falhar em todos os pontos do principio ao fim, não há redenção possivel. Por muitos malabarismos que faça a marca do Zorro está definitvamente manchada.

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O Melhor - Não há nada que se salva. Talvez, em algumas cenas, António Banderas.

O Pior - Por onde começar? Na primeira página desta review certamente.

Curiosidade - No final, aquando da assiantura do tratado de adesão da Califórnia aos Estados Uidos, temos a oportunidade de ver, por alguns instantes, no mesmo plano, Zorro e Abraham Linclon.

Site Oficial - www.sonypictures.com/movies/thelegendofzorro

Realizador - Martin Campbell
Elenco - Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Rufus Sewell, ...
Produtora - Columbia
Classificação - m/12
Duração - 129m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:20 AM | Comentários (8)

outubro 31, 2005

Lord of War - Não há arma que lhe valha!

O que é suposto apanhar neste Lord of War? Um documentário sobre o tráfico de armas nos últimos vinte anos, narrados de forma maçadora e sem qualquer sentido cinematográfico, ou o drama inexistente de uma personagem que se pedia mais trabalhada, mas que, percebe-se, não tem história suficiente para ser digna de um filme. De qualquer das formas, Lord of War (diz-se War Lord) é um dos fracassos do ano!
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O filme começa. A apresentação, muito imaginativa, leva-nos a seguir o percurso que faz uma bala, desde o seu "nascimento" até ao momento em que se ajola no crânio de uma qualquer criança num qualquer país da África subsariana. Já aqui temos uma ideia do que vai sair. Uma serie de lugares comuns, cheios de ideias politicamente correctas sobre o mal que as armas causam no mundo, que os vilões são, não só os grandes ditadores, mas os grandes paises mundiais. Tudo isso se confirma com o texto que surge no final do filme. Ora, se o que se antevia ao inicio é o que é escarrapachado no ecrã quando o filme termina, a ideia que se tem do que ficou pelo meio nunca pode ser atraente. Ou melhor, poder podia. Só que neste caso, definitivamete não o é.
Talvez o grande defeito do filme comece no primeiro plano após o genérico. De forma muito cuidadosa (e pretenciosa) Andrew Nichol lá filma balas muito arrumadnhas no chã de um qualquer país em guerra, e encontramos depois Yuri Orlov. Qual anfitrião de um show televisivo, ele apresenta-se e apresenta o filme. Será o nosso narrador durante toda a duração da longa-metragem, qual documentário National Geographic. Há narradores e narradores. Morgan Freeman em Shawshank Redemption ou Million Dollar Baby é o exemplo de como se deve utilizar um narrador num filme. Neste filme, Nicholas Cage, consegue o oposto. Mostra tudo o que não se deve fazer. Texto superfulo, narrativa que deveria ser explorada em imagens é reduzida a meia dúzia de frases, imagens que dispensavam mil palavras, são substituidas por uma verborreia verbal incontrolável. Nichol pensa certamente que o seu público não é dos mais inteligentes, porque tem clara dificuldade em acreditar que o negócio de tráfico de armas, uma paixão por uma mulher deslumbrante ou o vicio da droga, tem de ser algo explicado por um narrador. É nesse paternalismo, bastante irritante, que o filme se vai movendo. O que está em causa, nem é a vida de Yuri Orlov, pouquissimo interessante e ainda menos recomendável (va lá, pensamos nós, ao menos ele não vende ao Bin Laden).
É o comportamente dúbio que Nichol tem para com o negócio de armas, o verdadeiro protagonista do filme.
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Por um lado, Nichol apresenta o lado fascinante e sedutor deste tipo de vida. Apesar da figura de Orlov - interpretada com os habituais tiques de Nicholas Cage, que é de longe, o melhor que o filme tem para oferecer - ficamos imediatamente com a ideia de que não há nada sedutor e atraente no tráfico de armas .Mas o realizador-argumentista lá demora o seu tempo a perceber isso, e utiliza um pouco a imagem do frágil irmão mais novo (pessimo desempenho de um actor que ainda não provou que o é verdadeiramente, Jared Leto) para servir de escape. Pelo meio temos o conflito entre traficantes - com um final brutal visualmente, mas patético narrativamente - e uma serie de lugares-comuns que o humor de Cage vai colmatando com algum estilo, que nunca encontramos no guiã. As persoangens são as mais superfulas possiveis (Leto, Moynahan, Holm, Hawke) e é o próprio Cage que se limita a transportar cá para fora a ideia turbulenta que tem de Orlov. Pena não ter tido um guião mais interessante. A sua presença na Libéria, no meio do ditador local e do seu filho desvairado, não acrescenta absolutamente nada aquele que devia ser o tema em foco. Para além de algumas frases politicamente correctas e alguns dados estatisticos, mais maçadores que o orçamento de Estado, não encontramos a mensagem profunda que se esperava contra o tráfico de armas. Nem contra, nem a favor, nem nada. E hoje em da um filme sem mensagem que se quer fazer passar por um filme cheio de mensagens, é um logro. É assim o cinema existencialista de Gus Van Sant (quem descobrir alguma mensagem na sua última trilogia faça o favor de o comunicar á redação) e é assim esta aventura no universo das kalashnikovs e afins. Há alguns sinais do compromisso politico que existe á volta do negócio, da brutalidade do tráfico de armas nas populações (a melhor cena do filme é quando uma jovem pergunta a Orlov se o seu braço volta a crescer), mas estão tão escondidos, e feitos com tão pouca mestria, que chega a meter dó.
No final de contas, Lord of War é um falhanço em toda a linha porque não ter qualquer ironia e sarcasmo que se aproveite, e porque falha em enterter, aquele que certamente seria o seu segundo objectivo, por pura incompetência daqueles que deliniaram o projecto final de um filme do qual se esperava bem mais.

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O Melhor - O desempenho de Nicholas Cage. Apesar de estar longe da sua melhor forma, continua a ser um dos actores mais versáteis e talentosos do cinema norte-americano.

O Pior - O estilo narrativo adoptado e a falta completa de ideais e de ideias.

Curiosidade - O filme é baseado numa personagem veridica que ainda hoje trafica armas pelo mundo, causando milhares de mortos todos os anos. Mas curiosamente, no final do filme, a culpa atribuida aos governos dos cinco maiores paises, quase que desculpa as duas horas de filme a que assistimos.

Site Oficial - www.lordofwarthemovie.com

Realizador - Andrew Nichol
Elenco - Nicholas Cage, Ian Holm, Jared Leto, ...
Produtora - Lions GateDuração - 122 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:50 AM | Comentários (13)

outubro 11, 2005

Alice - A imensa dor da perda

O cinema português tem insistido, ano após ano, em virar aos costas ao seu público com apostas totalmente desenquadradas do panorama cinematográfico actual. De vez em quando lá aparece uma pequena pérola que nos faz pensar que ainda há esperança. Alice é mais do que uma simples pérola. É uma obra brutal, um filme que nos toca bem fundo. Nunca o cinema português foi tão puro!
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São poucos os filmes portugueses que fazem com que uma sessão da tarde num cinema qualquer se encontre praticamente cheia. Sinal dos tempos? Não. Alice não está aqui para mudar nada, nem para ressuscitar o cinema português - quando é que ele esteve realmente vivo? - nem para aproximar o público dos cineastas nacionais. Alice será um caso único. E isso faz do filme um objecto ainda mais pessoal e tocante. Uma sessão cheia sim. Uma sessão onde as lágrimas e a dor transpuseram o sofrimento da tela e tornaram-no real. Um sofrimento bem real, mas de certa forma assustadoramente distante. Um pouco como Million Dollar Baby. Um pouco como qualquer filme que nos faz encaixar um fortissimo soco no estomago, um filme que nos deixa, não só a pensar, mas, talvez mais importante que isso, a sentir. Quantos filmes portugueses poderão clamar os louros desta forma? Houve belissimos filmes de entertenimento e de autor em Portugal, mas nunca, nenhum deles, atingiu uma profundidade (de uma simplicidade enorme, na camara e na história) emocional tão grande como a obra de estreia de Marco Martins. Se o filme fosse americano (ou francês, ou espanhol, ou qualquer outra coisa que não "produto da casa"), certamente iria ser louvado até ao limite, falar-se-ia em prémios, em honras, em marco histórico e tudo o mais que se ouve inapelavemente, ano após ano, sempre que estreia aquele filme que conquista os supra-sumos da verdade que são os criticos de cinema. Mas, apesar da vitória em Cannes, este Alice nem sequer foi escolhido para representar Portugal nos óscares. Um erro craso, já que, conhecendo o público norte-americano, este Alice tinha realmente hipóteses de chegar mais longe que esse outro bom filme que é Noite Escura. Mas de Alice fala-se pouco e nunca se diz o essencial. Vagueia-se na mesma rotina de frases feitas, mas ao amâgo, ao interior profundo desta horrivel história transformada em belissimo filme, ainda nenhum parece ter chegado por completo!
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Um autêntico tratado sobre a dor, o despero, mas também sobre a esperança!
É esta a primeira nota que se tira do filme de Marco Martins. Não é preciso ir muito longe, já que na primeira cena do filme, o olhar amargurado e vazio de Mário (que abismal performance de Nuno Lopes) diz tudo quando ouve Luisa a pedir-lhe que vá levar "um copo de leite quente" à filha do casal. Mas já não está lá ninguém. Alice desapareceu, levando ao desespero dos pais, um desespero que se vai agravando a cada frame de filme. Desespero que, em última análise, acabará por destruir por completo a vida do jovem casal, um casal como outro qualquer e que, de um momento para o outro, vê o mundo desabar-lhe a seus pés.
E é na forma como cada um encara a situação que o realizador explora a história. Num flashback podemos perceber a reacção inicial mais explosiva de Luisa (as melhores cenas de Beatriz Batarda), mas a verdade é que a sua personagem anda ao longo do filme num verdadeiro vazio enganador. A dor está lá, mas é imensamente interior, e o resultado final será o desespero absoluto. Mas é em Mário que o filme está centrado. É a sua busca diária, obsessiva, quase lunática mesmo, que nos ajuda a sentir o verdadeiro drama do desaparecimento da jovem Alice. A rotina, a repetição de movimentos, a esperança depositada na constante vigilância das ruas de Lisboa (e muito se tem falado nesta realidade cada vez mais presente do Big Brother que nos segue invariavelmente durante todos os dias, e na forma como Marco Martins explora isso com a sucessão de imagens de video de "gente vulgar") e a imensa dor, escondida numa cara que se vai transformando ligeiramente, mas de forma intensa e visceral.
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A busca de Mário acaba por esbarrar nos problemas do mundo real, aqueles que todos conhecem mas que nenhum cineasta tinha explorado de forma tão seca. Alice desaparece e o que encontra um pai desesperado? A indiferença da pessoa nas ruas a quem ele distribui panfletos, a impotência das autoridades resumida numa única mas excelente cena na esquadra da policia, e a eterna descrença dos amigos. E se todos no inicio se propõem ajudar, permitindo a Mário montar uma rede de camaras de filmar por toda a cidade, á medida que o tempo passa, o seu problema já não é o problema deles. A consciência está salvaguardada, e mesmo se há alguns gestos verdadeiramente nobres, também não será aqui que Mário vai encontrar a sua tábua de salvação.
Alice é um filme de rotina que pode cansar (e fartar) o espectador mais habituado ao ritmo acelarado do cinema actual. Mas, acreditem, este ritmo (pautado por uma banda sonora fabulosa de Bernardo Sassetti) é essencial para que o filme funcione. A premissa em si poderia levar um realizador menos talentoso a arrumar o filme em muito menos tempo. Seria um erro brutal. Toda a repetição dos ritos (não é o homem um animal de ritos diários?), de lugares, de pessoas, de momentos, é necessário para reforçar a verdadeira dor que Mário sofre, a cada momento que passa. Com o filme a arrastar-se, com planos memoráveis e cenas fabulosas, vamos sentindo também a dor que marca o filme. E também é essa duração e esse ritmo que nos permitem apreciar em todo o seu esplendor o final. Um final irrevelável mas que entrará certamente para os anais da história como um dos mais belos do cinema português. Um momento de enorme dor, um soco em cheio, um momento em que até o mais seguro de si fica de boca aberta. Um momento tão simples mas, como sempre, tão pouco usual. E aí, com todo o seu sentido cru da realidade - e nisto Martins mostra uma maturidade imensa e um génio enorme - o realizador deixa-nos num sofimento ainda maior. O dia a dia, a vida, a nossa própria vida é escarrapachada no ecrãn, no meio da multidão, em dois olhares que se cruzam, num momento de uma beleza assustadora por ser também, um retrato perfeito da ideia de que a vida não faz qualquer sentido.
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Tecnicamente o filme é espantoso, com momentos de ouro, desde os planos de Nuno Lopes a caminhar, pelo meio do trânsito à chuva, sem ignorar a belissima cena na piscina, entre tantas, tantas outras (as do teatro essencialmente). A banda-sonora, já o referimos, está no tom perfeito, e ajuda a entrar ainda mais no universo de sofrimento que vai pautando a narrativa. Argumento esse que é fabuloso, sem deixar pontas soltas. Há uma ideia central, uma busca que nos leva a pequenos sub-mundos, irrelevantes para a trama central mas com apontamentos excelentes, e acima de tudo, uma fixação brutal por uma personagem que não aparece, um nome sem corpo, sem voz, sem presença. Lembramo-nos logo dessa obra-prima que é Suddenly Last Summer (com o ausente e ambiguo Sebastian a levar Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn, cada qual á sua maneira, a uma loucura que só Montgomery Clift consegue desvendar), e lembramo-nos que a ausência em sim é o drama. Não é tanto a busca infrutifera, os falsos-alarmes, o sofrimento e a dor. Tudo isso é o resultado directo dessa ausência nunca totalmente percebida, mas sempre sentida. Para além deste núcleo central da história, há ainda oportundiade para piscar o olho a essa nova obsessão da sociedade que é o eterno voyeurismo, a constante presença de camaras que captam tudo o que fazemos. Hoje já não há o respeito por uma das principais liberdades individuais. Estamos sempre a ser observados por alguém. Marco Martins explora esse tema sem nunca tirar os olhos do principal, mas mesmo assim da-nos a oportunidade de percebermos que hoje, o dificil é não estarmos a ser vistos por alguém e não o contrário.
Em relação ao elenco - recheado de grandes nomes, mas centrado numa figura - há pontos essenciais a referir. A camara apaixonou-se por Beatriz Batarda há muitos anos e continua a amá-la intensamente. O seu papel não é grande, e acaba mesmo por ir sendo ofuscado pelo personagem decadente mas apaixonante de Nuno Lopes. Mas a cada momento que Batarda entra em cena, não restam quaisquer dúvidas de que estamos na presença da melhor actriz portuguesa da actualidade. Quem também mostra todo o seu valor e credenciais é Miguel Guilherme, que apesar dos pouquissimos minutos em cena, traz um lado humano fortissimo que ajuda a contra-balançar com o desespero de Mário. Porque Alice é Mário, ou seja, o filme é todo desenhado à volta da personagem vivida na perfeição por Nuno Lopes. Desde o primeiro ao último plano do filme, ele é a nossa ligação com aquele mundo, é a personagem que amamos, ele acaba por ser cada um de nós reflectidos na tela. Ao ver Lopes lembro-me de uma outra personagem dramática, sempre em movimento, sempre em desespero: Adrien Brody na obra-prima de Polanski, The Pianist. Realidades diferentes, sim claro! Mas um imenso trabalho de composição do personagem, na sua quase total anulação perante o dramatismo da narrativa. Aqui o olhar, uma ou outra palavra, um esgar, são suficientes para pautar o ritmo da personagem, num perfeito under-acting que culmina numa cena fabulosa em que, de joelhos, o peso do mundo acaba mesmo por desabar sobre as costas de Mário, levando-o a repensar a própria existência, ou melhor, a sua não existência. Nuno Lopes é sublime em todos os instantes e afirma-se, definitivamente, como um dos maiores actores nacionais. E com o passar dos anos, restam poucas dúvidas que o trono acabará por lhe pertencer em exclusivo!
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Não é dificil perceber que, apesar de toda a sua simplicidade e crueza, Alice é um dos melhores filmes portugueses dos últimos cinquenta anos. E não exagero, mesmo sabendo das pequenas pérolas que desde os anos áureos da comédia à portuguesa têm iluminado os amantes de cinema em Portugal. Alice é tudo o que uma obra-prima deveria ser. Uma história fabulosa, apesar de triste e inquetante. Um realizador com principios de uma "doença" que se chama genialidade. Um elenco espantoso alicerçado num dos melhores desempenhos de um actor em Portugal. Uma banda-sonora e fotografia inesqueciveis. E aquela sensação, aquela dor na barriga que nos dá a certeza de que é impossivel ficar indiferente a este filme. Se fosse norte-americano, se Nunes Lopes fosse um Sean Penn e Marco Martins um Spielberg, agora estava-se em falar em óscares. Cá não temos disso. Mas, para compensar, temos a certeza que Alice é um daqueles filmes que ficará para sempre na memória de quem o viu. E hoje, isso até vale mais que um óscar para um filme made in Portugal.

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O Melhor - Todo o filme, praticamente sem excepções, mas com destaques para o desempenho de Nuno Lopes e duas cenas irreveláveis mas avassaladoras.

O Pior - O beijo de Anna Bustorff a Nuno Lopes.

Curiosidade - Ver Alice é também a oportunidade de ver dois dos melhores profissionais na sua arte, a trabalharem juntos. Tal não seria grande novidade não fosse o laço que os une. O compositor Bernardo Sassetti é casado com Beatriz Batarda, e ambos esperavam um filho quando o filme começou a ser rodado. Talvez isso também tenha contribuido para adensar o clima familiar que rodeia o filme.

Site Oficial - www.madragoafilmes.pt/alice/

Realizador - Marco Martins
Elenco - Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Miguel Guilherme, ...
Produtora - Madragoa Filmes
Duração - 103 minutos
Classificação - m/16

PS - O filme contou com a preciosa colaboração de Filomena Teixeira, mãe do jovem Rui Pedro, desaparecido quando tinha 11 anos, e que parece ter sido raptado por uma rede de pedófilia. Terá sido este o destino de Alice? O importante é não esquecer que este sofrimento é bem real. Milhares de crianças desaparecem por ano, deixando pais em estado de desespero. Por isso serve também esta critica para homenagear todos aqueles Mários e Luisas do nosso mundo.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:59 PM | Comentários (11)

outubro 07, 2005

Goal! - Cartão Amarelo

A FIFA poderia ter pensado duas vezes antes de financiar este Goal! O filme é um sucedâneo de clichés do meio desportivo, sem alma, mas, pior que tudo, sem qualquer realismo. O futebol é deixado para segundo plano, e quando surge parece tão irrealista que chega a meter impressão. No fim fica a sensação de que esta é uma péssiam propaganda para o desporto-rei! E fica o aviso sob a forma de cartão amarelo. Para a próxima, o árbitro já tem preparado o vermelho.
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A ideia era louvável. Os fãs de futebol reclavam há muito um filme que fizesse justiça ao desporto-rei, ao que é mais jogado e apluadido em qualquer canto do mundo. Fartos de filmes de baseball, futebol americano, corridas de automóveis ou basquetebol, era necessário criar um filme-âncora para os futuros projectos que tivessem como objectivo juntar cinema e futebol num só. Mas Goal! ficou-se pela ideia. Apesar de ser um filme aprazivél, onde não há aquela vontade de se sair da sala de cinema, como acontece com tantos outros filmes, Goal! falha por completo em ser um retrato do meio futebolistico como a FIFA (e os adeptos) gostariam certamente que fosse.
Clichés, irrealismo, falhas brutais na narrativa, personagens deslocadas do real, tudo isso vai pautando o ritmo do filme. A ideia que fica é que o futebol está a mais. O filme podia perfeitamente ser sobre qualquer outro desporto e manter toda uma estrutura (que ameaça repetir-se nos próximos dois filmes da trilogia) tão vaga como esta, só podia dar mau resultado.
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A história em si tem o seu quê de surrealismo, não no inicio (o filme até começa bem), mas como se vai desenvolvendo. As sucessivas oportunidades que o jovem Santiago Muñez tem para se redimir são irrealistas, e vão-se agravando. A relação com os colegas e equipa técnica, com a "namorada" que não podia faltar, sem esquecer a "vedeta" lá do sitio soam a falso em todos os instantes, e a personagem de Santiago, que até pode ser um bom exemplo para os jovens futebolistas de todo o mundo que caem de paraquedas no futebol europeu (por cá se trocassemos Los Angeles pelo Rio de Janeiro, encontrariamos muitos que conheceram a mesma situação), vai-se perdendo nesa sucessão de enganos. Sejamos justos. Kuno Becker, Alessandro Nivola e companhia não representam mal. Mas tirando Nivola, que compõe uma personagem com traços bem realistas - mas cujas sucessivas redenções parecem suspeitas - nenhum sai da mediania.

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do filme acaba por ser mesmo o mundo do futebol jogado. Os lances são irrealistas, muito mal filmados, sem qualquer dramatismo ou emotividade. Vemos Santiago a fazer habilidades ao jeito de um Cristiano Ronaldo ou Ronaldinho, vemos uns remates feitos de forma disparatada, umas defesas e guarda-redes dignos de escalões amadores (e estamos a falar da Premier League) e, pelo meio, a aparição de algumas estrelas reais para tentar trazer ao filme aquilo que lhe falta mais: o realismo.
Sem isso Goal! é um fracasso em toda a linha, não como filme onde tem pontos positivos com certeza, mas como filme sobre futebol. A produção deveria repensar a forma como vai filmar os próximos dois capitulos pois, a repetirem-se as falhas de um primeiro filme, já não haverá desculpas possiveis. E o pior é que isso pode condenar futuros projectos sobre o mundo do futebol, projectos que poderiam ter mais sucesso e impacto que esta fraca aventura da Disney em terras de um universo que os norte-americanos definitivamente não conseguem entender.

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O Melhor - As cenas em que Santiago entra em campo. Com os estados britânicos cheios, a emoção desses momentos é itensa e realista. A excepção, se tivermos em linha de conta o resto do filme.

O Pior - A falta de sentido de realidade na execução das cenas de futebol jogado (ou treinado). Pedia-se muito mais. Afinal, os jogos de desportos americanos parecem bem mais realistas.

Curiosidade - A presença de estrelas como Shearer, Raul, Zidane, Beckahm e Erikson deveriam trazer glamour ao filme. Mas são tão pequenas e sem sentido (porque raio é que David Beckham, logo quem, vai ter com um jovem mexicano que tem 15 minutos como jogador profissional???) que não trazem nada de novo.

Site Oficial - www.goalthemovie.com

Realizador - Danny Cannon
Elenco - Kuno Becker, Alessandro Nivola, Stephen Dillane, ...
Produtora - Disney
Classificação - m/6
Duração -

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:42 AM | Comentários (7)

outubro 06, 2005

40 Year Old Virgin - A ternura dos quarenta

Ao contrário de Wedding Crashers - o seu grande rival no box office este Verão - este 40 Year Old Virgin não consegue sair nunca da monotonia do ritmo inicial. Com uma premissa original, num país cada vez mais obcecado com o real valor da virgindade, o filme pedia claramente sucessivas mudanças de ritmo e não uma longa e monótona caminhada até um final perfeitamente desenquadrado.
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Desde que George Bush é Presidente dos Estados Unidos que o puritanismo tomou conta do país. Numa antitese perfeita dos dias de Clinton, agora o sexo é tratado como um instrumento demoniaco, e a presença de radicais conservadores e religosos na sociedade é cada vez maior e perigosa. Com jovens artistas como Britney Spears a defenderem publicamente - porque em privado são outras conversas - o valor da virgindade, ela tornou-se quase um mito.
E é a partir daí que se começa a olhar para este 40 Year Old Virgin. À partida temos um personagem desajeitado, cuja relação com o sexo sempre foi dúbia. É mais um querer e não poder no inicio, que se transforma numa quase aversão ao sexo oposto nuns dias, e num desejo incontrolável, noutros. E é aí que a noticia se espalha - afinal os homens conseguem ser tão viperinos como as mulheres - e a virgindade se torna num estigma que é preciso ser combatida a todo o custo. A partir daí vale tudo. Engates a mulheres embriagadas, prostitutas que afinal se revelam ser prostitutos, patroas ardentes de desejo...enfim, tudo o que possa acabar com esse demónio para qualquer homem que é o de ser virgem.
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Aqui o filme segue a premissa básica de qualquer filme de adolescetes - afinal não era assim também American Pie? - e ameaçava descambar no ridiculo, pelas sucessões de gags sem um sentido de humor propriamente refinado. É quando o filme dá um twist interessante, com a chegada da personagem feminina interpretada por Catherine Keener (a mesma de Being John Malkovich e que vamos ver em Capote). A partir desse momento vamos percebendo que o que os autores querem é de facto valorizar o sentimento na sua relação "contra" o sexo. E é a partir de aqui que surge essa tal valorizaçõ da virgindade, cada vez mais cara ao público norte-americano. Mas mesmo isso sabe a pouco, muito pouco, e o filme não consegue desatar de uma tremenda monotonia de situações e gags infelizes. É só aqui que se percebe realmente o valor de Steve Carrell, um actor habitual no fabuloso Daily Show de Jon Stewart. Não sendo um actor muito fisico, Carrell utiliza todas as suas debilidades a seu favor, parodiando-se sucessivamente, acabando mesmo por funcionar de forma convincente como um eterno virgem. E se ele é o ponto mais alto do filme, em qualquer circunstância (o elenco secundário é extremamente fraco), isso sabe a pouco no momento em que o filme descamba num final surreal. Percebe-se que se queira valorizar o amor e o sentimento junto de um público jovem - que é quem alimenta as comédias de Verão nos EUA essencialmente - mas haveria muitas outras maneiras de o conseguir.
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O sexo continuará a ser um tema tabu para muitos dos norte-americanos (serem descendentes dos puritanos europeus não ajuda em nada). E enquanto há cineastas que procuram a paródia de costumes, apelando essencialmente ao povo mais juvenil, para apostarem num universo muito mais libertino e sem correntes (os Porkys, American Pie, Euro e Road trips e afins), este filme joga no campo oposto. Censura esse comportamento subtilmente e aponta o "verdadeiro amor" como o caminho a seguir. Com ou sem sexo! A ideia por lá até pode pegar, com pais a recomendarem o filme aos filhos (não é por acaso que é um filme onde a exposição do corpo é minima). Por cá soa a paternalismo puritano. E foi disso que os europeus se livraram quando enviaram os "pilgrim" para os Estados Unidos há trezentos anos. Não é agora que o vamos receber de braços abertos.

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O Melhor - O desempenho solto e imaginativo de Steve Carrell. Não está ao nivel de outros actores de comédia neste ano (há Vaugh, Martin, Daniels, ...), mas é um nome a ter em linha de conta quando sairem os nomeados ao Globo de Comédia.

O Pior - O paternalismo do filme, a falta de humor da maioria dos gags do filme e o elenco secundário. Muito fraco!

Curiosidade - A já quase mitica cena da depilação de Steve Carrell (a piscar o olho à comunidade metrossexual) foi realmente feita num só take e o actor sentiu na pele o mesmo que a sua personagem. Um pouco de realismo cinematográfico!

Site Oficial - www.the40yearoldvirgin.com

Realizador - Judd Apatow
Elenco - Steve Carrell, Catherine Keener, Paul Rudd, ...
Produtora - UIP
Classificação - m/12
Duração - 116 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:59 PM | Comentários (1)

setembro 27, 2005

Red Eye - O Que nos Leva a Fazer o Medo?

O que mais impressiona em Red Eye é a solidez à volta da qual o filme é construido. Não há planos ou diálogos a mais. Há um enorme tacto na abordagem a uma história que poderia ter sido filmada de diversas maneiras. No entanto, era dificil que alguma fosse tão interessante como esta. E assim, aos 66 anos, Wes Craven assina o melhor filme da sua vida.
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Depois de se ter dedicado ao cinema de terror, nas suas múltiplas abordagens, ora mais horror como em A Nightmare on Elm Street (um dos piores filmes da década de 80, mas não tão mau como os seus sucessores), ora numa vertente mais kitsh - a dose tripla de Scream - a verdade é que Craven conseguiu juntar mais de trinta anos de experiência a uma base sólida de thrillers de Serie B feitos desde dias imemoriais em Hollywood, para orquestrar um filme extremamente inteligente e sóbrio.
Admirado por muitos, e indiscutivelmente um dos grandes nomes do cinema de terror das últimas duas décadas, Craven transforma-se neste Red Eye claramente. Nele há menos do cineasta que aterrorizou pequenos e graúdos, e há mais de um autor que conhece bem a origem do thriller norte-americano, na sua génese nos pequenos filmes de Serie B, e que explora essa realidade em diversos niveis. E isso acaba por fazer uma história inverosimel, quiça mesmo desinteressante, num filme captivante, sóbrio mas também extremamente brutal. Só que a brutalidade - tirando aqui e ali uma ou outra cena espantosa de violência visual - está aqui no subconsciente, no sofrimente da personagem central do filme, que se vê ameaçada, não só na sua integridade fisica mas também na dos que mais ama. E é essa dúvida que se coloca à sua volta que é explorada insistentemente ao longo do filme - deixando sempre espaços abertos para pequenas sub-plots mas que nada acrescentam - se bem que também não distraem - e que na verdade é a sua trave mestra.
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Um jogo do gato e do rato - com dois actores a cumprirem (e a excederem mesmo) tudo o que se lhe pedia deles. Um jogo cruel, mas aberto a pontos de viragem nas alturas mais improváveis. E um jogo acente no medo. O omnipresente medo que começa na alusão ao medo da morte (será puro acaso que a jovem Lisa venha de um funeral?), e que passa por todos os outros pesadelos da personagem - o medo de voar, o medo da violação (cena do quarto de banho sempre a roçar um erotismo visceral, o medo de perder o pai, o medo de sacrificar inocentes) - brilhantemente explorados pelo executor, a assombração bem real de que é Jack Rippner, numa interpretação extremamente bem conseguida (a lembrar Christian Bale em American Psycho) de uma rising star. É no seu olhar, primeiro sedutor (é preciso criar o ambiente de um engano antes de o por em prática), depois assustador pela naturalidade com que está disposto a levar avante os seus planos (se bem que aqui Craven é súbtil ao criar tremores, nervosismo na sua personagem...afinal os vilões também são humanos), que se encontra a origem do medo que atormenta Liza. E é nela que vemos o reflexo desse medo, também no olhar, inicialmente quase em tom virginal e inocente, mas um tom que é rapidamente desmascarado por uma cicatriz que se vai revelar decisiva no ponto decisivo da narrativa (e aqui também a transformação de Rachel McAdams, que não nos fartamos de dizer, é um dos grandes nomes do futuro, é fabulosa). São dois excelentes desempenhos, de sofrimento e revolta no caso de McAdams, de frieza e quase despero no final, de Murphy, que sustentam a narrativa sólida montada por Craven, e que transformam o filme numa realidade humana (basta imaginar o surrealismo de Flightplan, o filme também passado em aviões que Jodie Foster acabou de estrear para perceber a diferença de nivel), e por conseguinte, em algo muito mais intenso e profundo.
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Red Eye é o nome que se dá aos vôos nocturnos que atravessam os diferentes estados dos Estados Unidos. É um vôo desagradável, turbulento por vezes, um vôo que quase funciona como contraponto das estradas nocturnas dos velhos clássicos policiais de Chandler e Hammett. A noite, sempre presente na filmografia de Craven (podemos mesmo dizer que é um dos mestres na utilização do universo crepuscular) presencia esta história de coragem e medo, este duelo de David e Golias. E como o cinema será sempre o cinema, e Hollywood será sempre Hollywood, não há nada como esperar por uma vitória fácil de David. Mesmo contra todas as expectativas. E este Red Eye funciona também ele como um David se o comparar-mos com outros filmes do genero. E também neste caso, fica a ideia de que o confronto foi ganho, contra todas as probabilidades.

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O Melhor - A dupla de actores que transforma esta história em algo convincente e extremamente humano. Estamos claramente na presença de duas rising stars, sendo que Rachel McAdams dá os primeiros passos como actriz de talento acima de média, enquanto que este ano Cilian Murphy arrisca-se a ser nomeado a alguns prémios pelo seu desempenho em Breakfast on Pluto, um filme bastante interessante.

O Pior - Se exceptuarmos a improbabilidade da narrativa (afinal isto é Serie B a la Hollywood com tudo o que tem de bom...e de mau) sentimo-nos um pouco defraudados na acção final. Depois de mais de uma hora de grande intensidade emocional, os últimos minutos trocam-nos um pouco as voltas na transformação da história num duelo pessoal pouco convincente.

Curiosidade - Como tem vindo a ser hábito, Wes Craven não só dirige o filme. Também entra como figurante, seguindo o exemplo de tantos realizadores que um dia lembraram-se de que o que Alfred Hitchock fez (por necessidade) tinha piada.

Site Oficial - www.redeye-themovie.com

Realizador - Wes Craven
Elenco - Rachel McAdams, Cilian Murphy, Brian Cox, ...
Produtora - Dreamworks
Duração - 85m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:35 AM | Comentários (1)

setembro 26, 2005

She Hate Me - Três vezes Spike

O titulo desta critica não tem muito a ver com a classificação final de She Hate Me. A verdade é que Spike Lee desdobrou-se numa tripla dimensão, que é a razão dos melhores mas também dos piores momentos deste seu filme. Porque quem quer contar três histórias, arrisca-se a não conseguir contar nenhuma.
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Tentem fazer um filme sobre mulheres lésbicas que anseiam engravidar e que para isso encontram um "garanhão" negro (e nesse aspecto Lee tem sempre cuidado em valorizar os atributos do homem negro) que precisa de dinheiro para manter um estilo de vida de altissima qualidade. Agora tentem fazer um filme sobre os escandalos financeiros que têm devastado os Estados Unidos nos últimos anos. E para terminar, façam também um filme em tons caprianos, onde a dignidade do homem negro (ou afro-americano como lá se prefere dizer) é posta em causa injustamente. Dose não é? Agora tentem fazer, não três filmes, mas só um. Impossivel?
Bem, Spike Lee achou que não. E daí sai este She Hate Me, filme que data do ano passado (o que se percebe bem na hostilização ao Partido Repúblicano, afinal, era ano de eleições) e vive na eterna ambiguidade. Isto porque não se percebendo bem qual a premissa central da história, e sabendo nós que contar três histórias tão distintas, e ligadas apenas de forma súbtil, e algo forçada admite-se, fica no final uma sensação de vazio. Mas essa é uma sensação final, porque ao longo do filme, história a história, percebemos que andou ali a mão de um realizador talentoso, irreverente, que sabe fazer cinema nos Estados Unidos sem fazer cinema de Hollywood (quantos poderão dizer isso? Allen, Jarmush, Payne, Sofia Copolla, Anderson, Shyamalan??) e que sente que ali histórias que têm de ser contadas. Mesmo em sacrificio de uma sensação final de harmonia, que nunca acontecesse (mesmo que Anthony Mackie se tenha esforçado imenso para o conseguir).
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Vamos então por partes. O filme abre com a problemática das grandes fraudes finaceiras em companhias farmaceuticas, uma indústria que mexe com milhões em todo o mundo e cujas contas estão longe de ser muito claras. Aqui Lee não perdoa na forma como condena o comportamento da indústria, e mais, explora aqui o sacrificio individual de um empregado consciencioso (e não um empregado qualquer, um vice-presidente) para benificiar as cúpulas, corruptas até ao tutano. Surge aqui a imagem do jovem sacrificado, que depois vai abrir caminho á exploração das restantes histórias. Mas com o filme a voltar no final a este ponto, sentimos que se andou demasiadas vezes aos circulos confundindo-se sempre as coisas. Se por um lado a exploração do negro na sociedade americana é algo a que estamos habituados a ver em Lee, e aqui a dimensão capriana do discurso final e das suas atitudes, relativamente a esse caso, são paradigmáticas do que tem vindo a desenvolver desde sempre, a verdade é que só isso acaba por ser muito pouco. Não é o nucleo do filme quando deveria ter sido.
Neste She Hate Me, o enfoque é dado ás aventuras sexuais do jovem (de quem a sociedade não sabe se condenar ou exultar pela sua coragem, que se confunde com libertinagem, especialmente se tivermos em conta o final, muito ao jeito de um menage a trois que é mais uma brincadeira do realizador do que algo que deva ser levado a serio) de quem há pouco tinhamos estado a ver como Cristo cruxificado da indústria farmaceutica. E é neste emaranhado de situações que o filme se perde como filme. Mas, curiosamente, é nesta história que encontramos os melhores momentos de She Hates Me. Momentos de representação, onde Anthony Mackie se assume como uma clara rising-star, momentos de humor (umas vezes troçando das lésbicas, outras vezes troçando do ideal machista) e com direitos a pequenos episódios dentro da história, como a incursão de uma familia da Máfia (com John Turturro no seu 12º filme com Lee a conseguir um momento delicioso ao imitiar Marlon Brando em The Godfather) sob a desculpa de acrescentar ao leque de mulheres, a bela e sensual Monica Belluci.
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E se de desempeho é dificil falar, porque o filme é Mackie, Mackie, Mackie e só depois vêm os outros (ou outras neste caso), não é demais exaltar a forma como o jovem actor, que se estreou em 8 Mile e que passou por Million Dollar Baby, se vai transformando ao longo do filme, sendo ele o único elo entre as três histórias. Para um realizador como Spike Lee, que já trabalhou com todas as pérolas negras do cinema, exceptuando Morgan Freeman, é interessante ver a escolha que fez para liderar o seu elenco. Porque Mackie é mesmo um nome a seguir. Mas não é o único. Depois do seu agradável desempenho em Ray no ano passado, pudemos confirmar que Kerry Washington é realmente uma actriz de calibre, capaz de aliar a sensualidade a momentos de forte carga dramática. E apesar de haver outros nomes ilustres no elenco (Woody Harrellson, Ossie Davies, Ellen Barkin, John Turturro, Monica Belluci), é o conjunto de desempenhos, e os pequenos gags das sessões de "fertilização" que acabam por funcionar melhor.
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Depois de um 25th Hour, era dificil fazer algo muito melhor, não fosse essa uma das mais brilhantes pérolas cinematográficas dos últimos anos. Mas esperava-se um pouco mais deste She Hate Me. Esperavas-e, acima de tudo, clarividência para escolher uma história e explorá-la. Além do mais, o filme tem ainda uma quarta história, que não é bem uma história, é mais um ajuste de contas. Os sucessivos episódios sobre Watergate, e o brilhante e original genérico inicial, denotam desde logo que Spike Lee não perdeu mais uma oportunidade para alfinetar a América. Ou pelo menos a América que, segundo ele, continua a não tratar os negros (ou afro-americanos) da forma como eles merecem. Uma América personificada por Bush. Uma América desconstruida por Lee.

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O Melhor - Talvez por estar fora do contexto do filme, a cena genial em que John Turturro revisita um dos momentos mágicos de Marlon Brando em The Godfather, é genial. Uma amostra do brilhante actor que é Turturro no filme do amigo de sempre.

O Pior - As cenas em que Mackie engravida o leque de mulheres lésbicas que lhe batem á porta até estavam a correr bem, mas utilizar imagens animadas para explorar a concepção real, foi uma ideia infeliz.

Curiosidade - Com este She Hate Me, a colaboração entre Spike Lee e John Turturro chega á dúzia de filmes. Uma colaboração que teve inicio nos anos 80 e que desde aí para cá tem sido constante.

Site Oficial - www.sonyclassics.com/shehateme

Realizador - Spike Lee
Elenco - Antohny Mackie, Kerry Washington, John Turturro, ...
Produtora - Sony Pictures
Duração - 138 mClassificação - m/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:51 AM | Comentários (1)

setembro 25, 2005

Wedding Crashers - Humor em estado puro!

Fica sempre mal a um critico dizer bem de um filme feito para as massas. Especialmente quando é um filme que vive do humor fácil e de situações nem sempre bem exploradas. Mas sejamos irreverentes. Wedding Crashers corre o risco de ser a melhor comédia do ano.
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Estamos a falar de um dos maiores sucessos de bilheteira do mercado norte-americano (e longe vão os dias em que era fácil conquistar-se o box office). Wedding Crashers, filme assinado por David Dobkin, realizador sem nada de que se possa orgulhar no curriculum, é uma comédia hilariante. A todos os niveis. Não só na exploração da premissa inicial (um achado, com direito a twist), mas também na exploração do leque de actores que vão fazendo do filme, um imenso festival de gargalhadas. Umas mais fáceis do que outras, concedo, mas todas elas enquadradas bem no desenvolvimento da narrativa. E se esta é uma história com algumas pontas soltas (é a sensação com que ficamos sempre em filmes do genero), o que por vezes deixa os espectadores mais atentos a tentarem calcular todas as hipóteses reais ou imaginárias que a história poderia ter seguido, também é verdade que é uma ideia original e com muito mais do que parece à primeira vista.
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No entanto era fácil perceber que um filme apenas e só sobre "wedding crashers" esgotar-se-ia em meia hora. Afinal a originalidade, quando não tem uma profundidade significativa, corre o risco de se esgotar facilmente. E aqui Dobkin percebeu o que tinha entre mãos e soube alternar, por duas vezes, o registo do filme. No entanto fê-lo de tal forma que nunca há um sentimento de perda. Da explosão humoristica com que o filme abre (e um dos grandes problemas das comédias recentes é demorarem muito a arrancar), à passagem pela comédia romântica (mas nunca sem tirar os olhos de situações e gags imperdiveis (a cena de jantar na casa dos Cleary, o jogo "pouco" amigável de futebol americano, a noite de Jeremy) para passar igualmente por uma fase de humor verdadeiramente negro (e aqui está uma das maiores pérolas do filme, mas que não deve ser revelada), o filme passeia por registos diferentes mas que se completam. E assim temos filme. Nada é levado até à exaustão, até à saturação. Tudo é feito com conta, peso e medida. Não há aqui a originalidade de um Big Lebowski (essa obra-prima dos Coen), mas há muito mais interesse em seguir este filme do que ver, por exemplo, uma comédia multi-consagrada como Something About Mary.
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E como sempre, no universo da comédia, o essencial é o trabalho de actores. Aqui, os actores sobrepõem-se a tudo e todos. Talvez seja isso que torna a comédia um genero menor para muitos. Mas quando um actor é bom, esta arena é perfeita para si. E o exemplo mais flagrante desta ideia dá pelo nome de Vince Vaughn. Este actor fabuloso (já o digo há muito, desde o longinquo Psyco, onde Gus van Sant copiou, plano a plano, o original do mestre Hithcock), rouba todas as cenas em que entra, independentemente de quem contracena com ele. Não é só o seu aspecto fisico (detalhe quase sempre essencial neste universo) que lhe dá um carisma especial, é o estilo de humor e a forma como o transmite (já em Be Cool e Old School tinha sido assombro), que fazem dele, talvez a par de Jim Carrey, Bill Murray, Johnny Depp (quando lhe dá para isso) um dos maiores comediantes do mundo. E pena é que o seu parceiro seja Owen Wilson. Não que o actor não se saia mal, para a personagem que tem em mãos, mas é claro, há muito tempo, que nem Owen nem o irmão Luke têm estaleca para se tornarem grandes actores. A inexpressividade de Owen Wilson ao longo do filme é uma contradição quase gritante com a performance de Vaughn. E no final fazem-se as contas. E o resultado dá uma vitória esmagadora a Vaughn.
Quem também dá um ar de sua graça é Christopher Walken. Não fosse ele um verdadeiro mito, é fácil entender o porquê da escolha de Walken para um papel sem qualquer profundidade dramática ou relevância. É que ele é, Christopher Walken, independentemente do papel que faça. E o filme ganha com o seu olhar frio, a sua voz rouca e o sorriso mordaz. Á sua medida, ele também é brilhante.
E para arrumar o leque de actores, que polvinha (e bem) o filme, há que dizer que em Rachel MacAdams não está só uma menina bonita (muito, por sinal). Está uma actriz com talento e que corre sérios riscos de ofuscar depressa muitas das teenage-drama queens que a imprensa norte-americana adora publicitar. Atenção a este nome!
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A capacidade de desdobramento do filme só tem igual à qualidade das cenas (nem é preciso falar-mos em "piadas", já que aqui as cenas valem pelo seu todo) de humor do filme. A montagem inicial é muitissimo bem conseguida, a banda sonora não acrescenta nada de novo mas também não é um ponto negativo, e a exploração dos cenários está bem conseguida. Competente a quase todos os niveis, e com um desempenho memorável de um candidato (improvável, mas justo) ao Globo de Ouro de comédia, Wedding Crashers funciona a todos os niveis. Funciona como comédia, funciona como feel-good movie, funciona como consciencializador (ás vezes pareceu-me ver na personagem de Wilson um pouco do Grant em None But the Lonely Hearth), e funciona como cinema divertitemento. Por muito que custe ao cinema intelectualizado, um não poderá nunca viver sem o outro. E neste caso, Wedding Crashers é um filme que vale bem todos os segundos!

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O Melhor - Não é dificil sair-se de Wedding Crashers com a certeza de que Vince Vaughn é um actor fabuloso, e cujo o futuro deve ser levado mais a sério. Esperemos é que dali não saia mais um Ben Stiller.

O Pior - A noticia de que o filme já tem sequela. Pela forma como o filme acaba é dificil imaginar que há ainda espaços a explorar nesta história. O estudio arrisca-se assim a tornar uma brilhante comédia numa sucessão de filmes, cuja qualidade promete decair a olhos vistos.

Curiosidade - Owen Wilson confessou a dificuldade que teve em conseguir filmar a cena em que é "forçado" a apalpar os seios de Jane Seymour. Acontece que a ex-Bond Girl era uma das mulheres de sonho do jovem Wilson, e ter de a confrontar em carne e osso, e em tal situação, parece não ter sido nada fácil para o actor.

Site Oficial - www.weddingcrashersmovie.com

Realizador - David Dobkin
Elenco - Owen Wilson, Vince Vaughn, Rachel McAdams, ...
Produtora - New Line Cinema
Duração - 119 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:57 PM | Comentários (2)

setembro 17, 2005

Rupofobia - A Tragicomédia do dia a dia

Em tom extremamente delicado, é-nos apresentado o universo que pauta o ritmo de Rupofobia. Filmado com grande sobriedade, com um trabalho fotográfico a preto e branco exemplar, Rupofobia é uma curta-metragem que vale a pena ver. Por tudo
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O titulo é originalissimo e dá desde logo a ideia do que vamos encontrar. Uma história, um happening, sui generis, baseado numa história popular, e que é o leit motiv para que o cineasta Telmo Martins explore um universo claustrofóbico, onde uma personagem central vive um pequeno drama. Drama para o personagem, comédia para o público. Um pouco como nos habituou o cinema mudo norte-americano (e aqui as semelhanças são assombrosas com o cinema de Keaton essencialmente), e que neste caso funciona na perfeição na curta duração de 15 minutos. Tempo que chega e sobra para esta comédia grega em três actos, cada qual desenhado de forma brilhante na introdução à história (e ao personagem, já que ambos se confudem) e o seu desenvolvimento e conclusão. O drama vai dando lugar á comédia, o sorriso à gargalhada, tudo isso sempre sobre o espectro, quase mimico, do actor Alvaro Faria.
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Um verdadeiro one-man show que traz uma aura espantosa ao filme. Não é só toda a sua simplicidade, toda a sua simplicidade. Ele é Harry Langdon, ele é Jacques Tati, ele é Buster Keaton, ele é todo o actor que não precisa de recorrer a gritos, a explosões. Ele é a definição perfeita do under-acting, aqui levada até ás últimas consequências de forma sublime. E se Álvaro Faria é a batuta que conduz a orquestra, mas tem um sólido apoio de uma equipa que não é exuberante porque não é preciso. Aqui é preciso competência e ela existe! E entre esse grupo está Luis Dias, que ao viver o cliente que ao concordar com a politica da casa, acaba por se colocar no extremo oposto do personagem principal. Não funciona como uma nemesis mas sim como o gatilho que despoleta a acção final. E daí a sua importância fulcral para o desenrolar da narrativa.

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Se eram precisas mais provas (para aqueles que têm acompanhado a sua evolução) de que Telmo Martins é um cineasta feito, Rupofobia está aqui para tirar as duvidas. Comédia non-sense em tom sóbrio, com uma banda sonora e fotografia exemplares, Rupofobia é um universo do dia a dia, e por isso, muito simples. E é nessa simplicidade que acenta uma das grandes virtudes do filme, e do seu autor. Como a personagem de Álvaro Faria pensa (e melhor o faz), para quê complicar o que, com uma gargalhada, pode ser bem mais simples?

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O Melhor - O desempenho memorável de Álvaro Faria, uma pérola escondida do cinema nacional.

O Pior - Percebe-se que com um pouco mais de meios, o filme poderia ser ainda melhor.

Site Oficial - www.rupofobia.web.pt

Realização - Telmo Martins
Elenco - Álvaro Faria, Luís Dias, João Morgado, Ana Gonçalves
Produtora - Universidade da Beira Interior - Cybercentro da Covilhã
Duração - 15 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:24 PM | Comentários (1)

setembro 10, 2005

Cinderella Man - Capra, segundo Howard

Depois da visão crua da vida e do boxe que Eastwood pintou de forma subtil mas brilhante, chegou a vez de Howard descer ao universo dos ringues para pregar um evangelho que não é seu. Ron Howard segue os ensinamentos do mestre Capra, neste drama intenso e com um tremendo coração.
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Os "cinderella man" foram o material que Frank Capra moldou ao longo de quase vinte anos de realização. Mesmo quando eles já estavam completamente fora de moda, o mitico realizador, muito provavelmente o maior entre os gigantes, continuava a acreditar neles. Só que o público norte-americano tinha-os já trocado pelos jovens rebelde e pelos herois sem causas. E durante anos, salvo raras excepções, esses herois ficaram adormecidos. Mas não esquecidos. E calhou que fosse um contemporâneo dessa era, de homens vulgares (os miticos John Does) e ideias nobres, o barro sob o qual Ron Howard moldou o seu melhor filme de sempre. Cinderella Man é o titulo acertado, não só por ser realmente a alcunha do pugilista James J. Bradock, mas porque encara um espirito, uma forma de fazer cinema, da qual Frank Capra se tornou o Messias, e quem o imitasse, o seu profeta. Howard aqui traz muito do seu cinema, especialmente na sua forma um tanto académica de filmar, de alternar os planos, dos campo-contra campos, da forma como o trabalho técnico se alia ao desempenho dos actores. Mas o coração do filme, esse, é directamente inspirado em filmes como Mr Deeds Goes to Town ou Mr Smith Goes To Washington. E se não refiro It´s a Wonderful Life, a maior obra prima da história do cinema, é para não exagerar nas comparações que se poderiam criar.
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Cinderella Man não está claramente à altura de nenhum desses filmes. Mas, se exceptuarmos Million Dollar Baby (comparação injusta é certo), este é sem dúvida o melhor filme de boxe alguma vez feito, batendo aos pontos a crueza do universo scorsesiano de Raging Bull ou de Rocky, até ao ano transacto, o único filme de boxe a ser galardoado pela Academia. Se Cinderella Man é assim tão bom, não quer dizer que seja do melhor que há. Tem pontos baixos, falhas, como é habitual no cinema de Howard, que apesar de não comprometer muito tem sempre um tom mainstream que ás vezes o impede de voar. E tem claramente um gigantesco erro de casting em Renée Zellweger, que continua a não convencer ninguém dos seus talentos como actriz, apesar do óscar e dos milhões que vai cobrando por filme. Provavelmente Cinderella Man não será, fechadas as contas, o melhor filme de 2005. Num ano em que há The Constant Gardener, Good Night and Good Luck, Brockback Mountain, Crash, Munich e tantos outros filmes que prometem mais do que as estrelas, é dificil dizer-se, assim de antemão, que aqui está um serio candidato ao titulo. Faltará ao filme mais momentos biggers than life, faltará um contra-ponto decente a Crowe, e talvez, um tom um pouco mais cru nos episódios em Hooverville, onde, por instantes, o New Deal pudesse ser questionado como Ford fez em The Grapes of Wrath.
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Como sempre Russell Crowe mostra ser a escolha perfeita para o papel (ele que nunca deve ter tido um papel que não lhe acentasse como uma luva), demonstrando porque é, a par de Hanks, Depp, Penn, Washington e Fiennes, um dos maiores actores do mundo. O heroi capriano está lá, no seu olhar profundo e cada vez mais humano. Na pose, no sentimento e numa das cenas mais duras e belas que certamente iremos ver este ano e nos próximos, quando Bradock é obrigado a pedir esmola junto da comissão de boxe. Um momento magnifico onde todo o heroismo se torna real, porque é humano como nunca o foi. Aí Crowe é mais o Fonda de The Grapes, do que o Cooper e Stewart dos Mr. de Capra. O que torna a sua performance ainda mais completa. E no ringue, o seu olhar, a sua pose transforma-se e é mais Jack La Motta, ofuscando mesmo um qualquer Robert de Niro. E também, continuando a mostrar todo o seu gigantesco talento, está Paul Giamatti, num desempenho memorável, cheio de vida, de garra, verdadeiramente truculento e irónico. Giamatti é soberbo em todas as cenas do filme, e afirma-se cada vez mais como um serio candidato a melhor performance secundária do ano.
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Fábula pintada em diversos tons, conforme o cenário que alterna entre o ringue e o dia a dia, e a luta pela sobrevivência, de uma familia em plena Grande Depressão, com uma clara inspiração na obra de Capra e com um suave perfume de Ron Howard, que assina aqui o seu maior trabalho, e com um trabalho técnico extremamente competente, Cinderella Man supera todas as expectativas. Ficamos a perguntar-nos o porquê do falhanço nas bilheteiras (o que aconteceu ao público americano que ignora um all american movie?), e mais, fica a dúvida. O material está todo lá. Resta saber se o sucesso na Europa e as óptimas criticas serão suficientes para aguentar o filme até Janeiro. Se Bradock venceu, contra todas as expectativas, é natural que Howard também possa sonhar. Mesmo que a vida nem sempre seja uma fábula.

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O Melhor - O desempenho inesquecivel de Paul Giamatti, e a garra com que são filmadas as cenas de boxe, capazes de deixar os espectadores vibrarem com o combate como se estivessem no ringue.

O Pior - O desempenho de Renée Zellweger. Definitivamente a actriz tarda em convencer e continua a ser um erro de casting onde quer que entre.

Curiosidade - A actriz Rosemarie de Witt, que encarna a personagem Sara, mulher da personagem de Paddy Considine, é neta de James J. Bradock. A jovem é filha da única filha do pugilista, Rosemary que no filme é encarnada pela jovem Ariel Waller.

Site Oficial - www.cinderellamanmovie.com

Realizador - Ron Howard
Elenco - Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, ...
Produtora - Universal
Classificação - m/12
Duração - 144 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:40 AM | Comentários (10)

agosto 22, 2005

The Island - Até podem fugir, mas já não se podem esconder

Este momento tinha de chegar. The Island servirá como marco histórico. O filme de acção como Hollywood tem cultivado nos últimos vinte anos parece cada vez mais ter os seus dias contados. E nem é preciso atribuir culpas.
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Porque terá sido The Island o maior falhanço de bilheteira do ano?
Culpas já foram distribuidas por todos os que estiveram envolvidos no projecto. A Dreamworks disparou sobre os actores e director do filme. Bay, que apresenta aqui a sua sexta longa-metragem, queixou-se do marketing e dos actores. E no final, queixaram-se os espectadores do resultado apresentado, boicotando como nunca se tinha visto um filme de acção de Verão, cuja designação de blockbuster parecia ser à prova de bala.
Sinal dos tempos! Hoje o cinema de acção nos EUA vai obviamente passar por uma metamorfose (que analisaremos noutro artigo) e este filme ameaça tornar-se no ponto de viragem. Porque, convenhamos, é fácil chegar a meio de The Island com a sensação de deja vu constante, com uma gritante falta de imaginação que passa, não só pela cópia de ideias de outros filmes (é fácil encontrar em The Island referências a Star Wars, I Robot ou The Forgotten por exemplo), mas pela falta de coragem para fazer algo de novo, menos espalhafatoso e com maior profundidade.
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A história em si funciona como bom ponto de partida. Uma cidade onde habitam todos os humanos que terão sobrevivido a uma contaminação global, é gerida de forma quase robótica, desde o vestuário às rotinas diárias. O contacto fisico é proibido e quem questionar a autoridade tem um destino pouco agradável. Só algo faz as pessoas acreditarem no futuro: a ilha, o último local paradisiaco para onde são enviados os afortunados vencedores da lotaria. Tudo parecia estar bem (e até aqui também o filme vai bem, talvez por ir com uma calma que depois desaparece) até alguém questionar o ambiente que o rodeia, dando inicio a uma sucessão de eventos que vão mudar a forma como o mundo olha para eles.
Uma premissa promissora mas mal aproveitada em todos os aspectos. Argumento fraco, sem substância (salvam-se as personagens de Steve Buscemi, Djimon Hounson e uma surpresa que Ewan McGregor reserva lá mais para a frente, mas agora com óculos) e que faz com que o filme seja feito como tantos outros. Com correrias sem fim, explosões sem limites e com uma interminável ingenuidade. Afinal, até quando é que Bay achava que as pessoas iriam continuar a aplaudir as mesmas cenas, de filme para filme?
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Apesar da critica aos actores, é dificil atribuir-lhes culpas no resultado final do filme. De Ewan McGregor, já se sabe, é um multi-facetado que tanto "explode" em filmes indie, como faz comédias românticas, musicais ou filmes de acção. O seu charme é o vector da sua personagem, mas falha em contagiar todo o ambiente à sua volta. Já Scarlett Johansson, de quem já proclamámos mil e uma maravilhas, percebe-se bem que este não é o seu universo. Scarlett está claramente talhada para papeis de pendor dramático em filmes de outro calibre. Não tem a aptência para este tipo de filmes como tem, por exemplo, Uma Thurman. Mesmo assim a sua beleza natural (que é maior a cada filme que passa) e a sua presença, que mesmo assim faz a diferença, são mais valias ao filme. Tal como são os desempenhos, pequenos mas bem conseguidos de Djimon Hounson e Steve Buscemi. Já Sean Bean continua com problemas em encontrar-se após o seu papel como Boromir em Lord of the Rings.
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Bay começou com Bad Boys uma forma de filmar que, acompanhado da visão de Jerry Bruckheimer, tem feito escola nesta última década. O cinema de acção estava em claro crescendo desde meados dos anos 80 e foi com os seus filmes que se tornaram verdadeiros veiculos de massas. Mas nada dura para sempre. Bay diz não perceber o porquê do seu primeiro falhanço. O problema passa, não tanto pelo filme em si, mas pela essência do genero. Não há eternidades no cinema. Não digo que o cinema de acção vá acabar, isso seria presumir algo de forma demasiada inocente. Mas com as repercursões que The Island pode ter (no próprio futuro da Dreamworks como Heaven´s Gate teve na United Artists), levarão certamente a uma reflexão bem mais profunda.

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O Melhor - A ideia original prometia algo muito melhor.

O Pior - As constantes fugas e explosões. Há outra forma de fazer cinema de acção. Bay é que não o sabe.

Curiosidade - Este foi o primeiro projecto que Bay realizou a solo. O mesmo será dizer, sem Jerry Bruckheimer. Curiosamente o falhanço do filme pode passar pela divisão de uma das mais aclamadas duplas de Hollywood da última década.


Site Oficial
- www.theisland-themovie.com

Realizador - Michael Bay
Elenco - Ewan McGregor, Scarlett Johansson, Sean Bean, ...
Produtora - Dreamworks
Classificação - m/12
Duração - 136 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:59 PM | Comentários (5)

agosto 15, 2005

Charlie and the Chocolate Factory - O lado obscuro das fábulas

O que é mais inquietante em Charlie and the Chocolate Factory não é Willy Wonka e a desconstrução que Johnny Depp faz de um universo surreal e apaixonante. É a forma como Tim Burton parece transformar em ouro todo o que toca.
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Roald Dahl é um dos maiores nomes da literatura britânica, um verdadeiro autor de fábulas que, curiosamente, esteve ligado ao mundo do cinema pelo seu casamento com a actriz oscarizada Patricia Neal. Mas é a sua obra apaixonante que nos interessa, e dentro dela o mágico Charlie and the Chocolate Factory. É fácil perceber porque é que o autor não gostou da primeira adaptação do filme, na altura com Gene Wilder a fazer de Willy Wonka. É também fácil adivinhar que, se estivesse vivo, seria dificil ao autor não se ter rendido ao trabalho de Tim Burton que, mantendo-se fiel á história, soube transformar o filme num verdadeiro tratado do que é o "burtonianismo", seja lá o que isso for na realidade.
Se o universo dos primeiros Batmans, mas, acima de tudo, de Edward Schissorhands e Sleepy Hollow - inquestionavelmente a sua obra-prima de eleição - já denotavam toda a influência do expressionismo alemão na forma de Burton encarar o filme, então - e sabendo nós que essa influência está bem presente neste filme, acima de tudo nos decors a la Gabinete do Doutor Caligari - é ainda mais fascinante ver o reverso da medalha. O Burton surrealista, imaginativo, e sempre surpreendente.
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Charlie and the Chocolate Factory é uma obra dificil de adaptar ao cinema, sem dar grandes concessões ao universo CGI que o realizador pessoalmente não gosta. Mas mesmo assim Burton conseguiu dar a volta. Num set real, com chocolate incluido, Burton deu largas á sua imaginação e abriu as portas do mundo mágico e perturbado de Willy Wonka, que é, não só a personagem de Dahl, mas também uma desconstrução do próprio Burton. Uma personagem espantosa e ao mesmo tempo fascinante. É impossivel não ficar encantado com o seu constante fascinio por si mesmo e pelo seu mundo, ou pelo seu ar trapalhão. É essa a luz que nos vai guiando pelo universo do chocolate, dos Umpa-Loompas, uma das magnificas criações da mente de Burton, e da solidão. Solidão de Wonka, bem representada no contraste entre os personagens e o espaço, explorada a todos os niveis, especialmente no contraposto com a familia pobre, mas perfeita, do jovem Charlie. É nessa relação complementar, entre o jovem apaixonado pelo mundo de Wonka, mas, ao mesmo tempo, com altos valores e uma fortissima ligação á familia, e o solitário e genial chocolateiro, que se forma a energia do filme. Todos os episódios que se vão desenrolando pelo meio, com a sucessiva eliminação das irritantes crianças, servem apenas para reduzir o espaço, deixando no final a evidência da inevitabilidade. Só Charlie poderia suceder a Willy, porque ambos desejam e buscam a essência do outro. O mundo de liberdade e a estabilidade financeira num lado. A forte presença de um nucleo familiar do outro.
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Mas como sempre, em Burton é fundamental a abordagem da narrativa mas também os seus interpretes. Desde Pee-Wee que isso é claramente notório e assume-se definitivamente na colaboração que o realizador tem vindo a manter com Johnny Depp desde 1990, e que se salda por quatro obras-primas realizadas em conjunto. Se fosse preciso voltar ao baú de lembranças dos trabalhos que Burton e Depp fizeram em conjunto, haveria certamente um que nos traria directamente a este Charlie. Ed Wood claro está. Os maneirismos do actor na sua encarnação do pior realizador da história funcionam já como a ante-camara deste Willy Wonka, que muitos viram o clone de Michael Jackson, mas que na verdade é uma personagem complexa e obscura que só um actor no mundo poderia encarnar. E esse actor é sem dúvida Depp, um dos cinco nomes essenciais da sua geração que volta aqui, com todo o seu maneirismo e preciosismo, a transformar-se e a criar um universo á sua volta, onde tudo funciona de acordo com a sua batuta. E é natural que, sendo Depp o maestro da orquestra, os nomes que o rodeiam tenham de estar em clara sintonia com o genial actor. E aí começa a perceber-se a insistência do actor em trazer, para viver a personagem de Charlie, o seu parceiro de Finding Neverland, o jovem e talentoso Freddie Highmore. E de facto o jovem actor tem um futuro brilhante á sua frente, conseguindo um desempenho brilhante, que não só traz outra profundidade á história, como ajuda também Burton e Depp, cada qual á sua maneira, a brilhar.
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Os castigos e recompensas destinados a cada uma das cinco crianças, abrem a porta para o lado negro do universo de fábulas que Burton explora aqui magistralmente. O autor não é apenas um contador de histórias, com a moralidade e o final feliz que lhes são inerentes. Burton prefere explorar os aspectos mais sombrios e obscuros das histórias de encantar. E é esse o ponto mais interessante neste filme, a forma como Burton volta ao seu mundo - onde se afastou claramente nos seus dois últimos trabalhos, o magistral Big Fish e o incompreendido Planet of the Apes - entrando, ao mesmo tempo, num universo infantil, que está na verdade, bem longe de o ser. E é isso que ajuda a tornar este filme um dos mais interessantes e bem conseguidos, da sua longa e notável carreira como realizador.

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O Melhor - O desempenho memorável de Johnny Depp que continua a assumir-se como um dos maiores actores da actualidade. Espera-se a consagração com a estatueta dourada. Dificilmente será este ano, mas já não deve tarder.

O Pior - A superficialidade inerente ás relações entre pais e filhos, nos restantes jovens. Era algo a explorar até porque conseguiria-se certamente alguns momentos bem divertidos.

Curiosidade - Este é o quarto filme que envolve a dupla Burton-Depp. Depois de Edward Schissorhands, Ed Wood e Sleepy Hollow. E é também o segundo filme da dupla Depp-Highmore, logo a seguir a Finding Neverland. Por fim é a terceira vez que Burton trabalha com a mulher, Helena Bonham-Carter, logo depois de Planet of the Apes e Big Fish.

Site Oficial - www.chocolatefactorymovie.warnerbros.com

Realizador - Tim Burton
Elenco - Johnny Depp, Freddie Highmore, Helena Bonham-Carter, ...
Produtora - Warner Bros.
Duração - 115 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 01:07 AM | Comentários (12)

julho 23, 2005

A Good Woman - Quando o cinismo nos faz sentir bem

Um dos maiores e mais polémicos escritores de sempre, Oscar Wilde, pautava as suas criações pelo cinismo e arrogância habitual em alguns escritores da época vitoriana. O seu Leque de Lay Wintermere afinal é mais do que isso. Consegue ser transformado num feel-good movie.
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Não nos vamos debruçar sobre a notável adaptação que Ernst Lubitsch fez, ainda nos dias do mudo, a este brilhante livro de Wilde, um dos mais irreverentes escritores de sempre.
Neste A Good Woman - que é na verdade o subtitulo do livro de Wilde - estamos a meio caminho do universo do escritor, e, ao mesmo tempo, de um universo que lhe parece imensamente distante. Wilde nunca foi amigo de happy-endings a la Hollywood. Era demasiado cinico e mundano para isso. Mas a verdade é que o realizador Mike Barker consegue transformar o livro do escritor irlandês em algo diferente, na forma, mas mantendo traços no seu conteudo.
Ou seja, aqui encontramos um filme não apenas critico da sociedade, mas um filme sobre uma relação amorosa que é ameaçada pela própria sociedade, pelas suas manias de escandalos e boatos. Não é a elite britânica (aqui transformada numa elite mista, com membros dos dois lados do Atlântico) o ponto central do filme. Ela está lá, como coro grego, como ponto de partida, para explorar o que se segue. Mas, curiosamente, é nos cliches da linguagem wildiana que encontramos alguns dos melhroes momentos de um filme, que é extremamente competente sem nunca passar disso mesmo.
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Com um argumento poderoso mas subtilmente modificado para abrir portas á história de amor e desamor, ás intrigas e aos romances imaginários, Mike Barker tem a felicidade de contar com um elenco que o supera, levando um pouco mais alto a fasquia do filme. Se não fossem por eles, certamente que o filme se iria perder em lugares comuns e cair no abismo da monotonia. Mas isso não acontece, já que sempre que entram em cena os seus principais actores (e destaco aqui o trio Johansson-Hunt-Wilkinson), o filme ganha nova chama.
Helen Hunt, muito desaparecida depois do seu óscar de 1997, volta a mostrar sobriedade e engenho, que a consagram como uma das mais interessantes actrizes da sua geração. Já Scarlett Johansson, é, como sempre, a luz do filme. Não tanto pela sua interpretação, já que o papel não lhe exigia muito. Mas a sua presença fisica, a sua luz, a sua própria beleza, são quase como uma alavanca do próprio filme. Mas mesmo assim quem dá um verdadeiro show de interpretação é Tom Wilkinson. Actor da velha escola britânica, e um dos mais competentes actores secundários do momento, Wilkinson tem um desempenho extraodinário, um dos melhore do ano transacto.
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Resumindo, A Good Woman não é bem uma adaptação literária, nem se assume claramente como um filme. Anda a navegar lá pelo meio, a tentar encontrar-se, e a tentar encontrar um porto de abrigo. Mas se Barker não parece ser o capitão certo para levar a embarcação a bom porto, já os seus marinheiros souberam criar uma aura tal, que no final, é com um sorriso que se sai da sala de cinema, esse templo moderno de todos nós.

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O Melhor - O desempenho de Wilkinson e a presença de Johansson.

O Pior - A indefinição constante entre seguir o livro e explorar a linguagem cinematográfica.

Curiosidade - Esta é a quarta adaptação ao cinema de Lady Wintermere´s Fan. A terceira obra mais adaptada de sempre na filmografia de Wilde, logo atrás de The Portrait of Dorian Gray e The Importance of Being Ernest.


Realizador - Mike Barker
Elenco - Helen Hunt, Scarlett Johansson, Tom Wilkinson, ...
Produtora - Beyond Movies
Duração - 93 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 05:58 PM | Comentários (3)

julho 09, 2005

War of the Worlds - Sem génio, sem magia, sem o outro lado da galáxia...

Se o traço humano de Spielberg não se desvanece, nem nos momentos mais intensos e hollywoodescos desta adaptação da obra de H. G. Wells, a verdade é que no resultado final, pouco sobra para que War of the Worlds faça jus ao titulo de grande filme.
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O cinema catástrofe teve o seu primeiro ponto alto na decada de 70 com filmes como Towering Inferno. Mas a verdade é que nos últimos anos tem-se assistido a uma tendência para voltar a este genero, agora explorado ao máximo com efeitos especiais. Foram os Armageddons, os Independence Days e os Days After Tomorrow que criaram o precedente que é continuado por este War of the Worlds. Curiosamente foi no final dos anos 70 que Spielberg pela primeira vez se aventurou pelo universo dos extra-terrestres. Apesar de estar longe de figurar entre os seus maiores filmes, Close Encounters of the Third Kind abria as portas para a obra-prima que seria E.T. Por isso, quando Spielberg decidiu voltar ao mesmo tema, a presença alienigena na Terra - tema esse explorado na perfeição cinematográfia por M. Night Shyamalan em Signs - a expectativa era muita. Afinal era uma temática interessante, com um mestre a manobrar a história. Mas o resultado final é por demais negativo para pensar-mos nas boas indicações que tinham sido dadas.
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Há planos geniais em War of the Worlds. A cena na cave, onde a um assustado Tom Cruise e uma aterrorizada Dakota Fanning, se junta um genial Tim Robbins, tem planos dignos do grande cineasta que é Spielberg. Trabalho de camara notável, capaz de tirar o folego a qualquer um. Mas estes são momentos raros num filme com um ritmo trepidante, mas que não foi nunca levado ao extremo. Se os primeiros momentos do filme até são bons para uma introdução, e se o inicio do ataque é bem conseguido, se bem que algo exagerado, a verdade é que a repetição de planos, sempre com o mesmo significado e portanto, sem grande profundidade para a narrativa, cansa. Tal como essa banalização dos tripodes - exagerada (os efeitos de luzes seriam bem mais interessantes) - também o espirito do filme passa um pouco ao lado.
É certo que o tema nuclear deste filme - e também de muita da filmografia spielberguiana - tem a sua raiz na familia. E aqui o que vamos seguindo é um pai que nunca foi verdadeiramente pai dos seus dois filhos, e que numa situação de cataclismo se redescobre como homem, como progenitor, e assim se altera por completo. Apesar de ser nota corrente a ideia de que um acontecimento dramático pode mudar uma pessoa, esperava-se mais do genio de Spielberg do que recorrer ao velhinho cliché da familia que passa por tudo o que é do pior (se repararem a personagem de Cruise acaba por estar sempre no sitio errado á hora errada) e que no final descobre que se adora. Sendo esse o motor da história - a que se junta uma fuga sem sentido e nunca devidamente explorada (comparem este sentimento de desolação com a obra-prima que é The Pianist), dá-se o mote para um resultado final decepcionante.
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Além do mais, o primeiro indicador do que se vai passar chega pela voz de Morgan Freeman. Ao sabermos que é preciso recorrer a um narrador que dê o mote e conclua mais tarde a história, para explicar em breves segundos o que se torna imperceptivel ao longo do filme, percebemos que algo falhou na concepção deste filme. O seu calcanhar de Aquiles é esse. Nunca se percebe de onde, para quê e quando realmente chegaram os invasores. Como também não se percebe quais os seus pontos fortes, falhas e razões do súbito declineo, durante o filme. É impossivel manobrar uma história sem explicitar as suas bases e nisso o falhanço é absoluto. Fanning grita, Chatwain revolta-se e Cruise assusta-se, mas nunca se percebe bem o porquê. Há quem utilize o 11 de Setembro e a evocação do terror do momento, do "Ninguém percebe o que se está a passar!" para justificar esta construção. Mas se essa fosse a abordagem, legimita e lógica, então o final nunca poderia ter sido o escolhido, já que há uma clara concessão ao que é fácil, algo que já tinha acontecido em A.I e Minority Report.
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Se o argumento acumula imensas falhas, se a banda-sonora e o trabalho fotográfico são de bom nivel, já em relação ao elenco temos elementos opostos. No lado positivo está claramente Tim Robbins. A sua entrada dá ao filme o que ele nunca teve. Diálogos com sentido, com profundidade, enfim, uma personagem longe de ser plana. O oposto de Tom Cruise, que aqui continua a estar longe de ser o actor que prometia. O olhar assustado não chega, especialmente se comparar-mos a sua evolução que é tão superficial que até assusta. Mais uma vez aqui olhamos para The Pianist e para Adrien Brody, e percebemos a razão de um ter sido galardoado com um óscar e do outro ser apenas uma estrela, e não um actor de grande nivel.
Quem tem grande nivel e promete ser uma estrela cintilante no futuro - se não lhe acontecer o que acontece á maioria das actrizes precoces (Shirley Temple, Drew Barrymore, Anna Paquin, Tatum O´Neil) é Dakota Fanning. A sua personagem é realista, emotiva e com uma verdadeira alma. E a diferença entre ela e Chatwin, que vive o seu irmão, é que Dakota explora ao máximo as potencialidades da jovem Rachel. E é por isso a melhor actriz do filme.
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Rodado com um gigantesco orçamento sob o designio de blockbuster do ano, War of the Worlds consegue saber a muito pouco. Há alguns planos dignos de serem considerados de cinema de qualidade, e a acção está bem construida, se bem que mal explorada. Mas mesmo assim esperava-se muito mais de Spielberg. Mas a verdade é que o realizador é capaz do melhor e do menos bom nesta área. E War of the Worlds pode juntar-se aos Jaws e Jurrassik Parks da sua filmografia, sucessos comerciais mas sem grande substracto cinematográfico. Espera-se que Vengance no final do ano se junte à outra coluna da sua obra, onde estão obras-primas como Saving Private Ryan, E.T. ou Schindler´s List. Desta guerra dos mundos, que não chega nunca a ser uma guerra, mas um extreminio como diz a personagem de Robbins, com um twist surreal (não pela sua essência mas como é explorado), ficam poucas saudades. E para planos geniais de catástrofe e fugas, The Day After Tomorrow continua a imperar.

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O Melhor - A cena na cave onde Spielberg confirma ser um génio.

O Pior - As brutais falhas na concepção da história e no seu desenvolvimento.

Curiosidade - Depois de Drew Barrymore ser uma das estrelas de E.T., agora cabe o mesmo papel a Dakota Fanning. Confirma-se a tendência de Spielberg trabalhar com jovens prodigios, esperando-se que a jovem actriz não siga os exemplos da jovem herdeira do clã Barrymore.

Site Oficial - www.waroftheworlds.com

Realizador - Steven Spielberg
Elenco - Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins, ...
Produtora - Dreamworks
Duração - 116 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 04:01 AM | Comentários (7)

junho 26, 2005

Batman - Por detrás da máscara, o medo!

Sombrio e inesquecivel. Christopher Nolan pesquisou bem nos meandros da personagem criada por Bob Kane, há mais de meio século, e desencantou um Batman profundamente perturbado e perturbador. Colocou um elenco de sonho à sua volta, fez de Gotham uma cidade em tons realistas, e construiu um dos melhores filmes baseados em herois de banda desenhada feitos até hoje.
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O medo. Acima de tudo, o medo.
Christopher Nolan fez um trabalho de pesquisa notável. Uma pesquisa sobre a personagem mitica do Cavaleiro das Trevas - não apenas na sua versão original de Bob Kane, mas também das variações aplicadas por autores como Frank Miller - mas também sobre a profundidade da psique humana. E foi lá, qual fantasma escondido e retorcido, que o talentoso realizador de Memento encontrou a matéria prima para o seu heroi, que está longe de ser visto como um heroi no termo consensual do termo. Há em Bruce Wayne - ou no seu alter-ego - algo profundamente negro. Nisso há enormes semelhanças entre esta personagem e a de Anakin Skywalker em Star Wars. A comparação é incontornável. Marcados pelo passado, escondendo os seus sentimentos de tudo e de tudos, deixando-se corroer pela raiva, pela vingança e pela dor. A única diferença - talvez não a única mas a mais significativa - é que Anakin se deixa derrotar pelo tal "lado negro". Bruce Wayne aprofunda o seu próprio medo, e transforma-o a seu favor.
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A arte da ilusão explora o medo de forma súbtil

Longe do maneirismo de Schumacher e do surrealismo de Burton, há uma sobriedade assustadora neste Batman Begins. Não só Gotham perdeu o seu sentido de cidade única - tem traços muito comuns ás cidades dos anos 50 do norte dos Estados Unidos - como todaa atmosfera está mais huamana. Não humana no sentido de bondade. Humana no sentido em que explora os cantos mais negros do Ser Humano, a sua podridão moral que tanto pode passar pelo crime e pela corrupção, como pelo fanatismo. E é contra isso que existe uma especie de ideal - apagado no inicio, na medida em que o nosso (anti) heroi está a meio da sua descida aos infernos - de justiça, de dignidade, que cria um sopro de luz na escuridão, muitissimo bem trabalhada pelo trabalho de fotografia do filme.
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Onde tudo começou. O peso de um acontecimento.

Nese plano, um dos pontos fortes do filme, é o olho clinico de Nolan. A camara - bem como o trabalho de fotografia e de montagem, essenciais nesta dimensão - tanto desce aos infernos com Wayne, como também é iludida com o universo misterioso de Ras Al Guhl, como acompanha a criação de Batman, e a transformação do próprio Bruce Wayne em algo maior que ele mesmo, um verdadeiro simbolo de esperança. Nolan era de facto o homem certo para dirigir este filme (depois de se ter falado em Daren Aranofsky e Clint Eastwood, dois registos completamente opostos), e fe-lo com imensa mestria.
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Engenhocas mais modernas e realistas, mas igualmente espantosas.

Muito do crédito desta revitalização da serie, é sem dúvida dele.
O restante crédito - com todo o respeito para os argumentistas e para a equipa técnica - tem de ir para o notavél elenco de actores.
Com tanta oferta era natural que nem todos tivessem o mesmo protagonismo. Percebeu-se logo que Ken Watanabe e Morgan Freeman seriam elementos puramente de suporte, comparados com personagens nucleares como as interpretadas - genialmente - por Michael Caine ou Gary Oldman (esse mestre na composição de personagens).
Pelo meio também passam por lá - com imenso estilo - Tom Wilkinson, Cilian Murphy e acima de tudo, Liam Neeson, cada vez mais, um actor fundamental.
E depois há o par romântico - aqui o romântico abordado de forma minima, e extremamente acertada - que está no oposto. Já se começa a ver que Katie Holmes ainda não é menina para estas andanças. Tudo bem que é bonita e tem presença fisica, mas falta-lhe a profundidade de uma actriz em explosão. É o ponto mais fraco do elenco. Ao contrário de Bale. Depois de American Psycho, o jovem actor volta a mostrar todo o seu imenso talento, numa construção realista de Bruce Wayne, e, acima de tudo, extremamente credivel. Com um filme já se confirmou como o melhor Batman, superando facilmente Keaton, Kilmer e Clooney.
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Ele voa para nos proteger ou para brincar com o nosso medo?

Filmado com grande á vontade - apesar das espectaculares cenas de acção - e com um argumento credivel e excepcionalmente bem articulado, Batman Begins é um dos bons filmes do ano. Para além de ser claramente um blockbuster, consegue ser algo mais. Consegue recuperar a imagem de Batman, lança as bases para uma saga que se adivinha de sucesso (a antevisão do próximo Joker é interessante, já que será dificil superar Nicholson), e mostra que ainda é possivel adaptar herois de bandas-desenhada de maneira diferente ao que Sam Raimi, Joss Whedon e afins têm feito nos últimos anos. Fica a dica!

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O Melhor - A realização súbtil de Nolan e os desempenhos de Oldman, Caine e Bale.

O Pior - A falta de presença de Katie Holmes. Falta-lhe o espirito de femme fatale de uma Kim Basinger, Michelle Pfeifer, Nicole Kidman ou Uma Thurman.

Curiosidade - O Batmobile é um carro bem real. Vai estar durante todo o ano nos circuitos de provas de F1 para publicitar o filme, e no final do ano, a edição em especial em dvd que está a ser preparada.

Site Oficial - www.batmanbegins.com/

Realizador - Christopher Nolan
Elenco - Christian Bale, Michale Caine, Liam Neeson, ...
Produtora - Warner Bros
Duração - 134 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:27 AM | Comentários (4)

junho 23, 2005

Crash - Raças ou pessoas?

No melting pot intenso que é Los Angeles, encontramos de tudo. A pergunta que Paul Haggis deixa no ar, é na verdade, o que encontramos nas ruas da cidade dos anjos? Serão raças, ou serão pessoas?
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Latinos, negros, iranianos, brancos? Serão esses os habitantes do mundo, os habitantes de Los Angeles? Ou será que pelas ruas da cidade caminham pessoas como Graham Waters, Farhad ou Ria. Pessoas sem cor, sem raça, apenas pessoas.
Paul Haggis - argumentista genial, um dos melhores da actualidade, o que confirma em pleno com este filme - debruça-se sobre esta miscelânea de culturas e raças em Los Angeles, que funciona, no fundo, como o micro-cosmos da América. E quem diz América, diz o mundo. Basta olhar para os mais recentes acontecimentos em Carcavelos para percebermos que estes problemas andam aí e não vale a pena meter a cabeça debaixo da areia.
Crash não é um filme racista, nem um filme anti-racismo. É um filme honesto, onirico e com um forte sentido de esperança num futuro melhor. Aqui não há racismo, na forma como é entendida pelo grande público, ou seja, o racismo do negro pelo branco. Aqui todos podem ser racistas, desde o Procurador Geral da cidade, aos agentes policiais, aos prórprios habitantes das comunidades minoritárias negra, hispânica e até mesmo asiática e árabe. Aqui o problema não é o racismo. São as pessoas e a maneira como elas se inter-relacionam.
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Era impossivel contar esta história, debruçar-se sobre este problema, sem o fazer da forma como Haggis engedrou. Uma sucessão de histórias cruzadas, todas inter-ligadas de forma subtil, engenhosa e extremamente coerente, dão o mote para esta viagem nos confins do ser humano. Um argumento sem falhas - com alguns toques cinematográficos habitualmente americanos, como as habituais coincidências e o espirito de redenção final - e uma direcção fabulosa, se tivermos em consideração que este é o primeiro filme de Haggis atrás das camaras. E a juntar a tudo isto, há ainda um elenco muito variado, e, sem excepção, extremamente competente.
Don Cheadle mostra que está num momento espantoso da sua carreira, com um desempenho subtil e muito interessante. Matt Dillon e Sandra Bullock dão sinais positivos em carreiras que estavam completamente estagnadas. Brendan Fraser e Ryan Philiphe safam-se bastante bem em papeis contraditórios com eles mesmos. E Thandie Newton e Jennifer Esposito são mulheres de garra, mas, sem nunca deixarem de ser mulheres, o que no cinema norte-americano de hoje é cada vez mais dificil encontrar. E por fim, a personagem mais elaborada é mesmo a do rapper Ludacris, que consegue superar com distinção o desafio de, em muitas das cenas, ser ele o motor dos acontecimentos.
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O trabalho técnico da equipa de Haggis é também de grande nivel, em especial a fotografia e a banda sonora que pauta o ritmo do filme. Sem grandes espaços para brilhar, os actores encarnam personagens que, mais do que nos espantarem com rasgos de interpretação, nos deixam a pensar, verdadeiramente, nas relações humanas dos dias de hoje. Fica-nos a ideia de que o racimo pode desaparecer, no momento em que todos quiserem que ele desapareça. E não falo apenas naqueles que são acusados de racismo. No filme seria fácil identificar Matt Dillon, Ludacris ou o assessor de Brendan Fraser como racistas. Mas na verdade, todos são racistas. Todos somos racistas.
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Ao criar quotas que favorecem as minorias, estamos a ser racistas. Ao criar guettos, fisicos e culturais, estamos a ser racistas. A MTV a adoptar uma politica de "niggers with attitude" e a vende-la aos brancos dos suburbios, está a praticar racismo. O Bloco de Esquerda ao defender todas as minorias do mundo, está a praticar racismo. Eu a escrever uma critica em que, mesmo defendendo que o mundo deve ser composto por pessoas e não raças, só pelo facto de me passar pela cabeça a ideia - que também fica no filme - que o crime continua a ser presença activa nas comunidades minoritárias, estou a ser racista. Todos somos racistas. É esse o alerta de Haggis. É nisso que ficamos a pensar. É esse a "colisão" que confunde o nosso pensamento. É esse o primeiro mérito, do melhor filme de 2005 até agora.

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O Melhor - O argumento de Paul Haggis, e a forma realista como ele filma a história.

O Pior - O sentido de redenção, apesar de encaixar no estilo poético do filme, entra em contraste com o espirito do que realmente se passa. Não é um final realista, é um final desejável.

Curiosidade - Depois de ter perdido o óscar de melhor argumento adaptado no ano passado, agora Paul Haggis surge como o grande candidato a vencer o óscar de melhor argumento original. As voltas que Hollywood dá.

Site Oficial - www.crashfilm.com/

Realizador - Paul Haggis
Elenco - Don Cheadle, Sandra Bullock, Matt Dillon, ...
Produtora - Lions Gate
Classificação - m/12
Duração - 113 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 06:30 PM | Comentários (2)

junho 21, 2005

Mr and Mrs Smith - Briga de casal

Recuperando a herença de diversos filmes, que, de certa forta, já tinham dado passos neste sentido, Mr and Mrs Smith é um blockbuster de Verão com muita acção e humor, e uma dupla que respira sexo por todos os poros. O filme ideal para o inicio do Verão.
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Doug Liman percebe de filmes de acção (é ele o director das aventuras de James Bourne) e percebe de humor (foi o impulsionador da popular serie televisiva O.C.). É por isso uma escolha competente para realizador deste Mr and Mrs Smith.
Mas o genero de filmes onde a briga entre casais é o ponto de partida já vem de trás, dos dias de ouro da screwball comedy. Há, não só, o filme homónimo de Alfred Hitchcock, com a inesquecivel Carole Lombard, mas também outros exemplos como The Awful Truth de McCarey ou Adam´s Rib de Cuckor. Mais recentemente, Danny de Vitto em War of the Roses e John Houston em Prizzis Honour, fizeram o que este filme explora. Mas apesar de muito competente, nunca Liman esteve, nem de longe nem de perto, ao nivel destes autores. Mesmo se pensarmos apenas nos dois filmes mais recentes, não há aqui o humor negro de War of the Roses, nem a sagacidade de Prizzis Honour. Há muita acção a computador, sem dúvida, há um humor muito inteligente e bem conseguido. Mas falta muito mais para fazer deste, um bom filme. No entanto, por outro lado, este é um filme de entertenimento, concebido como tal. E nesse campo, cumpre as expectativas, mesmo com algumas falhas de percurso. E é nessa dupla dimensão que se percebem as diferenças deste filme para todos os restantes citados, que exploraram a mesma realidade, mas com um impacto e qualidade muitissimo superior.
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Com a competência de Liman já referida, e toda a panóplia de efeitos especiais, resta falar um pouco do elenco e do argumento. Se a história poderia ter algum interesse à partida, nota-se que houve ali falhas e que há demasiado pontas soltas no desenvolvimento narrativo. Não é uma vulgar briga de casais, mas não consegue soltar-se nunca disso, prejudicando qualquer aventura noutra dimensão. É pena porque a premissa, com um primeiro plano interessantissimo, prometia.
Quanto aos actores é sempre dificil de dizer, num filme de acção como este, se houve representações dignas desse nome. Brad Pitt e Angelina Jolie (apesar do óscar da última) não são actores de grande nivel. São estrelas de Hollywood, são sex-symbols, mas actore de gabarito ainda não se pode dizer que sejam. Pitt tanto faz Se7en e Meet Joe Black como The Mexicana ou Troy, onde parece que tudo o que há de actor dentro dele desaparece. Este filme pertence mais ao segundo grupo que ao primeiro. Já Jolie, sempre demasiado presa ao seu estatuto de icone sexual, nunca consegue soltar laivos de representação realmente convincentes. Tem o olhar e o corpo que dominam a cena, mas falta-lhe a profundidade dramática, que se exige a um actor. Mas, mesmo assim, no capitulo humoristico do filme - o melhor que o filme tem - ambos saem-se bem, talvez exactamente por parecerem muito ocos no resto do seu trabalho como actores. Por lá também anda Vince Vaughn, esse sim, um cómico extremamente interessante e de grande valor, que continua a afirmar-se - a par de Will Ferrel, Adam Sandler, Ben Stiler e Owen Wilson - como um dos mais interessantes comediantes da sua geração.
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Resumindo um pouco, esperar mais do que umas gargalhadas e alguns momentos de bom entertenimento deste Mr and Mrs Smith, é esperar de mais. Procurar um filme de acção competente com gags excelentes, é sem dúvida a escolha certa. Sem nunca passar a barreira da mediania, sem nunca deslumbrar, este é um filme que não compromete, que assume as suas falhas, que explora as suas virtudes, e que, acima de tudo, transpira uma sexualidade tremenda. E com a chegada do Verão, ás vezes basta isso para despertar um clique em qualquer espectador.

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O Melhor - O humor truculento, tanto das personagens principais do filme, como também, e inevitavelmente (era para isso que ele lá estava) de Vince Vaughn.

O Pior - As falhas no diálogo e as incoerências que vão aparecendo.

Curiosidade - Depois de Bogart e Bacall em To Have and Have Not. De Burton e Taylor em Cleopatra. Depois de tantos outros casais que se conheceram nos sets de filmes, eis que Angelina Jolie e Brad Pitt parecem terem entrado nesse grupo. A acompanhar com curiosidade digna de voyeur, mais um affair a la Hollywood.

Site Oficial - www.mrandmrssmithmovie.com

Realizador - Doug Liman
Elenco - Angelina Jolie, Brad Pitt, Vince Vaughn, ...
Produtora - Fox
Classificação - m/12
Duração - 120 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:40 AM

junho 11, 2005

Sin City - Poesia pecaminosa

A lei da bala. A lei do mais forte. As histórias dos mais irreverentes. Um ambiente noir. Uma sensação estranha dentro de nós. Um filme fabuloso. Eis Sin City!
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É dificil começar a escrever uma critica sobre Sin City sem falar de Frank Miller. A adaptação de Sin City foi o mais rigorosa possível. Um facto que só torna o filme ainda mais interessante, e que, por outro lado, serve como um aviso às dezenas de adaptações de comics que têm sido feitas e que vão continuar a ser feitas nos próximos tempos. Sem ser um filme de comics, Sin City é um filme do universo comics. Com os herois, os vilões, a acção a desenrolar-se dentro de vinhetas, o efeito é sublime. Mas ali há mais do que bd. Há poesia, há cinema. E há emoção.
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Visualmente espantoso, este filme tem pouquissimas falhas. Mas não as encontramos na concepção de Robert Rodriguez. O realizador mexicano está talhado para o sucesso. O jogo de preto e branco, a brincadeira deliciosa com as cores, a violência impiedosa e brutal, a sensualidade das actrizes e a virilidade dos actores, tudo isso ajuda a fazer deste filme uma pequena pérola cinematográfica. E se a história é já de si muito boa (ou neste caso, as histórias que se entrecruzam), a forma como elas estão ligadas e como são contadas faz lembrar bastante Pulp Fiction. Só que o filme de Tarantino (que realiza uma cena do filme), tinha mais humor negro e um pouco de atmosfera kitsch, onde este tem sexualidade transbordante e violência pura. Mas violência de tal forma concebida, que nos parece menos atroz ver uma pistola enfiada na cabeça de Del Toro do que dar uma espreitadela ao último Blade. É que quando se sabe fazer, não se importa o que se faz. O resultado será sempre do outro mundo!
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O filme pedia muito e pouco do elenco, e conseguiu-o em plena. Por muito contraditório que isto pareça. Pedia pouco na medida em que muita da história era narrada e explorava o poder visual do filme, onde os actores eram apenas mais um pormenor. Mas pedia muito da sua presença em cena, do seu carismo e atitude irreverente e desafiadora. E ao olhar-mos para o regressado Mickey Rourke, para o estilo de Bruce Willis ou para o espantoso Clive Owen, encontramos isso bem vincado. Como também o vemos nos olhos penetrantes de Jessica Alba, Jaime King, Rosario Dawson ou Brittany Murphy. Um elenco verdadeiramente imaculado, que deixa água na boca para o próximo filme. Era dificil ter de escolher um nome entre todos estes brilhantes desempenhos, mas a verdade é que Clive Owen tem star-potencial em todos os movimentos que faz. E se Rourke traz humor e energia, e Willis traz calma e coolness, Owen é verdadeiramente bigger than life.
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Com o trabalho fotográfico e de composição musical nas mãos de Rodriguez, que o executa na perfeição, este filme ameaça tornar-se num verdadeiro case-study. Certamente que nos tempos mais próximos vão surgir os imitadores do estilo Sin City. O surgimento de um segundo e terceiro filmes, com estreia marcada para o próximo ano e para 2008, reforçará essa tendência. E de facto filmar assim, com tanta imaginação e sentido visual, é algo que apresenta imensas potencialidades. Mas também é preciso ver o que se filma. Em Sin City estava tudo desenhado para surgir desta forma. A história, os actores, o estilo...Resta esperar pelo futuro para confirmar-mos, mas Sin City corre o risco de se tornar um projecto pioneiro.

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O Melhor - O trabalho visual de Miller e Rodriguez. Absolutamente genial!

O Pior - Algumas falhas no argumento, que surgem de forma natural devido ao rigor da transposição da BD (um espaço muito mais livre) para o cinema.

Curiosidade - Além de ser o criador da história e co-realizador, Frank Miller faz igualmente um cameo como padre, na história onde Mickey Rourke procura a vingança da sua "Goldie".

Site Oficial - www.sincitythemovie.com

Realizador - Frank Miller e Robert Rodriguez
Elenco - Mickey Rourke, Clive Owen, Jessica Alba, ...
Produtora - Dimension Films
Classificação - m/16
Duração - 127 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 03:07 PM | Comentários (7)

maio 31, 2005

The Upside of Anger - Dona de casa desesperada

Anda para aí uma notável serie cujo titulo é Desperate Housewives. Mas por muito divertida que seja, não é nesta serie que vemos as verdadeiras agruras e dificuldades de uma dona de casa. Para isso é preciso ir ao cinema - esse templo mágico - e deliciar-mo-nos com The Upside of Anger. E com Joan Allen claro...
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Mike Binder constroi aqui um belissimo trabalho cinematográfico, extremamente competente em termos visuais e sonoros, mas, acima de todas as coisas, poderosissimo em termos de interpretação.
Aliás, o próprio Binder faz parte desse notável elenco que não deixa o filme adormecer em momento algum.
A história é interessante, mas só se for colocada no tom certo. A história de uma mulher, abandonada pelo marido e com quatro filhas para criar, que se vê confrontada com um mundo de infelicidade, tornando-se azeda, alcoolica e odiada pelas filhas, tanto pode dar a origem a um grande filme, como a uma simples historieta banal. Felizmente que The Upside of Anger vai pelo primeiro caminho. E não é só porque o argumento está muito bem delineado. Não só a estrutura é sólida e consistente, como o desenvolvimento das personagens está bem conseguido. O filme não cai no erro de ser um filme para Joan Allen. É o filme de Joan Allen. Mas também é para todos os outros elementos da história que, de uma forma ou de outra, têm o seu espaço. Mais do que todos, Kevin Costner. Um pouco menos, as quatro filhas da personagem principal. Mas no final, o retrato familiar, muito matriarcal neste caso, é perfeito.
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Mas falemos de interpretações, que é o ponto alto do filme, a sua mais valia, e o que o aproxima a outros grandes sucessos do cinema independente dos últimos anos.
Já conhecida de todos por desempenhos memoráveis como em The Contender - justissima nomeação ao óscar - Joan Allen continua a mostrar que é uma actriz poderosissima, capaz de verdadeiros momentos de explosão que só as eleitas conseguem alcançar. O filme é praticamente todo dela, desde o primeiro ao último plano. A sua evolução como personagem é sublime, a sua mudança de tom, de forma subtil e descontrolada, de situação em situação, é arrepiante. Lembrando um pouco Annette Benning, o seu desempenho é uma luz dentro do filme. Será dificil aguentar esta performance até ao óscar, mas aqui está uma primeirissima candidata a actriz do ano.
Para os cinéfilos, dá um especial prazer em reencontrar Kevin Costner. Um dos grandes talentos da sua geração, andou perdido na última decada entre sonhos megalomanos e projectos falhados. Mas o seu talento é inquestionavel, e está bem presente ao longo do filme.
Algumas das melhores cenas são aquelas em que a sua quimica com Allen é perfeita. O momento em que explode em cena, é tambem o momento em que nos lembramos que neste filme há uma presença masculina, até então ridicularizada na personagem de Binder, insultada na personagem ausente do marido de Allen, e apagada na figura de Costner. Há ali uma verdadeira mudança na velocidade do filme. E isso torna-o ainda mais arrebatador.
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Para além deste duo impecável, o filme conta ainda com um interessantissimo leque de secundários. Em primeiro lugar, Mike Binder destaca-se, não só atrás da camara, como em frente dela. A sua personagem é hilariante, mas ele ajuda a consolidá-la. A sua cena à mesa, em casa de Allen, é brilhante, não só pelo mimo visual que o Binder realizador nos oferece, como pela divertida performance do Binder actor.
Mas atenção. Este é um filme de mulheres. E por isso o leque secundário é dominado por jovens, belas e talentosas actrizes, que ajudam a compor o modelo familiar completamente disfuncional.
Entre as jovens actrizes, destaca-se claramente Erika Christensen. Não só pela sua beleza escultural, mas também pela grande mestria como está em cena. Um talento verdadeiramente promissor, a todos os niveis.
Mas as suas "irmãs" também não lhe ficam muito atrás. Tirando o caso de Alisson Witt, aquela que menos presença tem na história, tanto Evan Rachel Wood como Keri Russell dominam bem as suas personagens, lidam bem com os seus problemas, e, dão uma outra aura ao filme. Ajudando-o a tornar-se mais humano, e por isso, mais fascinante.

A forma como o filme começa dá-nos já uma ideia do seu final. Mas não nos dá o quadro completo. Esse, vamo-lo construindo aos poucos. Momento a momento vamo-nos apercebendo de todos os conflitos interiores que moldam as personagens do filme. Alguns, nunca os saberemos por completo. Mas a vida é assim. Ninguém sabe tudo. Há sempre algo a esconder. E The Upside of Anger é um filme humano. Com humor, com drama, com ironia. Mas com coração, com uma mensagem, com um final diferente do que se esperaria mas, por isso, mais contundente. E é um dos grandes filmes deste ano.

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O Melhor - Sem duvida alguma o memorável desempenho de Joan Allen. Uma grande actriz num grande papel, com uma performance notável.

O Pior - Talvez a passagem do tempo, que não é feita com a mesma subtileza que deveria ter. No mesmo espaço de tempo que Alicia Witt casa e tem um filho, engravidando de novo, ainda anda Evan Rachel Wood a fazer o mesmo trabalho. E não há datas que marquem a passagem de um ano de forma clara.

Curiosidade - A bela Erika Christensen tem 22 anos. Keri Russell conta já com 28. Mas Erika é mais velha do que ela no filme. A prova de que os castings não se prendem a pequenos pormenores.

Site Oficial - www.upsideofanger.com

Realizador - Mike Binder
Elenco - Joan Allen, Kevin Costner, Erika Christensen, ...
Produtora - New Line Cinema
Duração - 118 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:21 AM

maio 20, 2005

The Revenge of the Sith - O fim de uma era...

Terminou uma era na história do cinema. É essa a sensação que nos assalta quando a última letra do genérico final desaparece no ecrãn. Para trás ficaram mais de duas horas onde os amantes da saga viram tudo o que queriam ver. Nem sempre da melhor forma, mas o episódio final de Star Wars não desiludiu.
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Ninguém esperaria que Revenge of the Sith fosse uma obra-prima. Os mais pessimistas apenas pediam que fosse melhor que os dois primeiros filmes desta segunda trilogia - The Phantom Menace e Attack of the Clones - que tinham desiludido os fãs que esperaram quinze anos para voltar ao universo que Lucas imaginara na sua juventude. Os mais exigentes esperavam um filme ao nivel de The Empire Strikes Back, cotado como o mais completo filme da saga. Na verdade este filme fica a meio caminho. É inequivocamente o melhor filme desde que Lucas voltou a pegar na história do seu verdadeiro heroi - pensavamos que era Luke mas era Anakin - mas voltamos a encontrar alguns dos defeitos dos filmes desta prequela. Os efeitos especiais voltam a ser mais valorizados do que as relações humanas, e nalguns momentos - especialmente na relação entre Amidala e Anakin e na transformação do último - isso nota-se claramente, o que pouco abona em favor de Lucas.
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Este é manifestamente o grande problema de Revenge of the Sith. Se exceptuarmos Ian McDirmid - notável na sua transformação de Chanceler Palpatine em Lord Sidious (e a sua conversa "aberta" com Anakin é dos pontos-chaves do filme) - e o escocês Ewan McGregor (o único capaz de saltar para fora da personagem e dar-lhe um pouco da sua própria identidade), sentimo-nos defraudados com o restante elenco. Hayden Christensen nunca convenceu como Anakin, e agora também não é completamente convincente como Lord Vader. A expressão facial está lá, o discurso também, mas falta alma. A sua transformação é demasiado light para o peso daquele momento em toda a história da saga, e o seu "No!" após saber da morte de Amidala é mesmo o pior momento em todo o filme. É verdade que Mark Hammil também não foi um Luke perfeito, mas esperava-se que Lucas se tivesse redimido. O que não aconteceu. Aliás, nem Natalie Portman está ao ser melhor nivel neste filme, ela que foi um dos pontos de atração desta nova saga.
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Quem está de regresso em estilo à saga é o humor. Depois da experiência falhada com Jar-Jar Binks, eis